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novembro 13, 2004

pedras de triste memória

Não me lembro de pedras mais enigmáticas, daquelas que com história conheci, quer fossem histórias contadas por antigos e velhinhos colonos brancos daquelas longínquas terras africanas, quer por respeitáveis sobas ou régulos, que ousaram, e com orgulho, durante muitos e muitos anos, cobrir a cabeça com o mais enigmático, ainda, capacete de estilo colonial, do que aquelas Pedras Negras que se erguiam solenes ali à beira da estrada de Pungo Andongo, no distrito de Malange na ex-província colonial de Angola.
E, destas Pedras Negras, poderia contar uma velha estória indígena que enterneceria corações, mas perdoem-me se me decido por denunciar a verdadeira história para que não caia no esquecimento dos homens.
Dos homens de fraca e curta memória...

A mais parecida com a cabeça de uma avó velhinha, parecia vigiar, sisuda e atenta, o comportamento rebelde do neto que brinca, descuidado, à beira do caminho.
Elas são testemunhas vivas das mudanças que o vento da história operou ao longo dos tempos, desde que por aqui reinou uma certa Raínha Jinga a quem se terá posto o nome Ngola, e daqui dado o nome a Angola. Desde as lutas étnicas e fratricidas entre os autóctones da região pela posse das melhores terras, em séculos recuados da história, passando por todo um evoluir de transformações sociais para as quais a ocupação colonial se encarregou de ser o motor móvel que fez mover, quantas vezes mal e outras tantas bem.
Elas assistiram, impávidas e serenas pela sua condição inerte, porque natural, ao eclodir da luta armada que conduziria à independência de Angola, exactamente aí na Baixa de Cassenje, naquele longínquo ano de 1961. Um tristemente célebre, e pouco conhecido, caso que o governo português de então e os que lhe foram vindouros, quiseram vergonhosamente esconder!

E, se me é permitido, contá-lo-ei em duas linhas apenas, mas antes, porém, abro aqui um parêntese para a minha homenagem aos que morreram, barbaramente assassinados pela Companhia de Caçadores Especiais, ali destacada, aquando dessa mesma revolta, e subsequentes, iniciada no posto de Milando, da circunscrição de Holo e Jinga, e se alastrou às circunscrições visinhas de Bondo e Bângala, dessa ex-província colonial de Malange.

Dos relatos do triste evento ocorrido em 1961 "4 e 11 de Fevereiro e 15 de Março", consta que o movimento que conduziu à revolta da Baixa do Cassenje, fôra inspirado pelo religioso Simão Tôco, mentor da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo e fundador dos "Tocoistas", imediatamente desterrado para os Açores.
Foram milhares os trabalhadores negros que abandonaram o trabalho, quase gratuito, feito praticamente a troco da dormida e comida, nas fazendas algodoeiras que alimentavam a empresa monopolista "COTONANG", e se armaram das armas mais rudimentares - paus, catanas e zagaias - matando o gado e destruindo os demais bens dos brancos.

(Recordo ainda que, nos meus verdes 12 e 13 anos, assistia a uma recrutar constante no distrito de Huambo, por um ano consecutivo, de centenas de homens negros que embarcavam como gado em camionetas de altos e seguros taipais, para as longínquas paragens do Leste e Norte de Angola, onde trabalhavem em condições sub-humanas, voltando ao fim desse tempo para um período de descanso de trinta dias, com uns magros "angulares" no bolso.)

E assistiram, estas Pedras Negras de Pungo Andongo, na sua condição de testemunhas mudas e inertes, ao "sanguinário apaziguamento" dessa mesma revolta pela Companhia de Caçadores Especiais, que ficou tristemente célebre pelas represálias desumanas que exerceu nesses dias de contra-revolta, e cuja acção foi exaltada por alguns elementos da população branca, mormente chefes e administradores de posto, o garante da segurança dessas empresas monopolistas.
Delirou-se, nesta onda de terror, de ódios e de morte, em que a citada Companhia de Caçadores Especiais dizimou senzalas inteiras, em vários pontos do distrito de Malange, "que só a irreflexão, proveniente de um clima de medo e desconfiança, pôde explicar mas não justificar" (D. Manuel Nines Gabriel).

E nessa mesma condição inerte, sem nada poderem fazer para o evitar, assistiram estas Pedras Negras de Pungo Andongo a tantas outras refregas quando o ditador ordenou "para Angola já, e em força" e entregou à trajectória das balas das armas automáticas de repetição, vidas que foram ceifadas no fulgor da juventude.

E agora, porque é esta a sua sina, ali erguidas qual sentinela vigilante à beira da picada, continuam a ser o testemunho vivo de acontecimentos sangrentos, entre irmãos da mesma cor e em que o sangue que lhes corre nas veias é só um, sem os poderem evitar e à humanidade dar a conhecer com a verdade que o rigor da história exige. Guardiãs de um tempo que há muito se sonhou radiante e de paz!

***de "raízes esquecidas"

*** escrita esta memória em 1972 em Cacolo, Leste de Angola, e adaptada em 2002

Publicado por Alvaro Giesta às novembro 13, 2004 09:09 PM

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