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novembro 13, 2004

o filho de ninguém

Doente, faminto, esfarrapado, sob o céu duma cidade onde se perdeu o brilho ofuscante dos néons, eu vejo um garoto negro.
Sentado num trono de asfalto esburacado com as pernitas magras e sebentas enfiadas num calção de caqui feito em pedaços, de olhos tristes, muito tristes... estende a mão surrenta e esquelética implorando caridade.
De longe em longe alguém que passa e que tropeça com os pézitos descalços e nauseabundos desta criança perdida, nascida dum ventre qualquer e empurrada para o vendaval do destino, joga fora uma moeda sem valor. E ele, o garoto negro, apanha-a e fica olhando a "caridade benfazeja" que a passos largos se esfuma no horizonte.
Depois, com uma lágrima teimosa a rolar-lhe pelo rosto esquálido e o monco a desprender-se-lhe do nariz, baixa o olhar para a moeda presa entre os deditos sujos e raquíticos que, por momentos, interromperam neste seu gesto distraído os acordes mal definidos arrancados à velha concertina desafinada.
A seus pés, com letras mal pintadas, um velho bocado de papelão anuncia "meu mãe e minha pai mureu co mina".
Ele, o garoto negro, que espreita agora por entre as pernas dos passantes e olha as montras fantasmas e despidas duma rua que já viu movimentada...
ele, o garoto negro, que já apanhou os bilhetes inutilizados à entrada do Estádio dos Coqueiros onde correu a apanhar bolas...
ele, o garoto negro, que saltou e riu ao ouvir e ver o golo do seu glorioso clube...
alimenta agora o seu pequeno ego, noutro sonho, construindo palácios de ventura na cinza de tantas ruínas.

***de "raízes esquecidas"

Publicado por Alvaro Giesta às novembro 13, 2004 05:41 PM

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