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novembro 13, 2004

a curva da morte

A picada, naquele sítio, tinha a forma do bico dum pato. Daí, o seu nome.
E, traiçoeira como a morte, ficou por isso mesmo, e para sempre, a ser assim chamada.
Lá no fundo da ravina corria o rio Chicapa. Em coluna-por-dois progredíamos com cautela. A todo o momento o ataque traiçoeiro podia acontecer sem prévio aviso.
Dobrada a primeira parte, chegámos à ponte. Ali, um corpo tombado de bruços. Era um negro vestindo camuflado zambiano. O enfermeiro Andrade, um negro bailundo, desprezando o perigo, e sempre em busca do amor ao próximo, corre para prestar os primeiros socorros. Tira a mochila das costas do carregador, ajoelha e roda o corpo do negro inerte.
De repente, o estrondo. O medonho estrondo! A mina, colocada sob o corpo já sem vida, detona e atira ao ar farrapos de carne humana misturada com gritos de raiva e dor.

***1972, Leste de Angola, em "raízes esquecidas"

Publicado por Alvaro Giesta às novembro 13, 2004 11:14 PM

Comentários

O enfermeiro Andrade, demonstrou na sua atitude, amor ao seu semelhante, por isso, foi salvo. Nós, os
deste grupo, fomos salvos, mas continuamos mortos, à espera da Salvação:
PRENDA DE NATAL
Ao aproximar-se o fim da Comissão,
Mesmo nesta época festiva do Natal;
Indo eu pela mata com um pelotão,
Nenhum de nós se apercebia do mal!
-
A tropa num sussurro lá se lamenta,
A Deus qu’os nossos destinos guiava;
Não há bonança, mas só a tormenta,
Talvez para a bonança se caminhava!
-
INRI, Ó Cristo, tu morreste por nós,
Caminho por favor a todos ilumina;
A prece foi ouvida e eu ficando a sós:
-
Receando todos os efeitos duma mina,
Rebentei uma anti carro lá na picada;
Os homens voltaram sem sofrer nada!?
-
José Silva
In Grito duma Luta Inglória


Publicado por: josé silva em dezembro 1, 2004 10:26 AM