29 de novembro, 2004

natureza morta

o rio vermelho em posição parado imóvel metafísica da imobilidade que nada está imóvel se não de facto o rio vermelho que já não é rio e segundo muitos nunca foi mas agora é apenas um fio de água sem crianças à beira sem a alegria dos namorados nem a vertigem do caminho em direcção ao futuro que é já a seguir

o rio vermelho continua morrendo por este leito de agonia

Escrito por jm às 16h57... | Comentários (2)

27 de novembro, 2004

scavenger's hunger

um passo entre a luz e a sombra prefiro a sombra porque intui a luz e ainda assim se mantém escura um passo entre a luz e a sombra onde o corpo fecunda polinizando ou é fecundado por pólenedinburgh castle, 1997

o corpo esquece-se em qualquer lado como uma pedra igual a outra excepto se for uma pedra azul se for uma pedra azul vai para o bolso ou para um recanto protegido do caminho ponho-a lá de propósito sim posso fazer dela uma sopa azul enquanto imagino a sombra no corpo ou a cópula orgânica da sombra com a luz

sei que assim a luz ganha mais poder mas tantas vezes precisamos saber o que os olhos falam choram gritam esmiuçam ao pormenor a dor que lhes vai por dentro

não não me esqueci da pedra azul só não tenho nada a dizer sobre a pedra azul posso adiantar talvez que o que interessa não é precisamente o azul mas sim a cor qualquer cor que se distinga da generalidade cinzenta das pedras com que as nossas plantas dos pés interagem pisando tropeçando

no corpo regista-se o tempo com rugas portanto na pele o cheiro na memória que sim que é menos digna de registo porque se pode apagar involutariamente num clique horrível eu lembro-me que me lembrava mas agora já não

[...]

dançaste então! com os mortos em redor.

Escrito por jm às 18h35...

21 de novembro, 2004

thoughts for a scavenger

glastonbury abby, 1997

não me explicas a existência? o sentir das almas num repositório animado pelos olhos e lágrimas dos vivos? a existência que deixaste para trás ou lá para frente, se a morte for tão só um retroceder ao ponto de partida.

não me dizes do ar que se respira, húmido e fresco, por entre o verde e o azul e as pedras velhas, sobreviventes da história e à história que tantos contam? já mortos tantas vezes, com gemidos insistentes nas dobradiças de portas de madeira centenária.

passa por essa estrada. agora. neste momento como se fosse o nunca. e este é o nunca nos conhecermos e, afinal, é uma mentira toda esta coisa que se escreve e confunde com o sangue que corre nos corpos animais.

[...]

se dançares fecha os olhos, esse crisântemo é a imagem do coração adormecendo.

Escrito por jm às 20h03... | Comentários (2)

19 de novembro, 2004

scavenger's crying

choro. agarro-me ao teu braço e choro. compulsivamente é a palavra. o teu belo braço. choro. molho-o e seco-o. ao teu belo braço. impulsivamente. não quero salgar o doce. que prefiro. ai, que dilúvio é este choro. afasto-me do teu braço. agarro o teu braço. choro. como é bom o teu braço. no guizado com batata nova.

Escrito por jm às 22h29... | Comentários (2)

routines of a scavenger

templo de debod, madrid 2000

se me reflectires o desejo do passado e do futuro que nunca esqueço tu és o que nunca foste nem serás num presente imundo de barro e água meu amor minha amora silvestre encantada em bagos baguinhos de ácido e cor

trejeitos dos lábios quando estalas a língua no palato e sentes viva ainda a larva de inúteis sons palavras a sair da tua cabeça pesada leve leve pesada quando se repetem qual martelo martelando um prego de 20 centímetros em madeira velha amarga

quão triste o presente esse imaginado mundo em que almejamos mas não alcançamos empurramos a dor para a frente sem que se separe de nós corpos almas espíritos convencidos de qualquer desgraça e graça rimos ao espelho em convenção de saliva acumulada e branca às vezes amarela qual transparecer de raiva ineficaz mordemo-nos a nós mesmos para sacrificar o mundo de micróbios que transportamos por essas ruas e transportes públicos somos em nós doença e salvação públicas

[...]

quando dançares lembra-te dos pés dos levantares dos trazeres até mim depois vamos deitarmo-nos num abraço de paixão

Escrito por jm às 21h48... | Comentários (1)

17 de novembro, 2004

grab my sleeve and take the flea with you

"deus não existe". sabes quantas vezes o disse e o escrevi? que enfado, não é? cada vez que o escrevi dizia, mas nem todas as vezes que o disse o escrevia. baralhamos as contas todas e a ignorância permanece estrutural e aconchegante para o conhecimento necessário. "deus não existe" é uma frase que me sossega. tenho para mim a vontade de acreditar que não existo.

Escrito por jm às 21h31... | Comentários (2)

13 de novembro, 2004

la soupe des jours

enquanto o frio torna duros os sentires do corpo fumo cigarros numa alusão clara à minha vontade de te chupar os entumescimentos que demonstres ou me queiras explicar por palavras líquidas com sabor a mar e cheiro a deserto de suores sobre suores sem lavagem nem perfumes para além dos da decomposição acelerada das emoções

do frio e da minha erecção não tenho nada a dizer para além de um se impregnar e da outra não existir ainda assim lembro-me de como foi bom amar-te numa noite de verão que se repetiu por outras noites que atravessamos pelo outono e inverno seguintes

estou disponível para o teu abraço estou disponível para o teu beijo estou disponível para a tua palavra de saudação estou disponível para quase tudo isso que pensaste agora o resto nem eu sei se existe

Escrito por jm às 16h42... | Comentários (2)

11 de novembro, 2004

antony


la pedrera, 2000
ontem. um breve momento. hoje. logo cedo. junto ao Tejo. pelas 00h30 ou depois. antony e um johnson (?) e as coco rosie. antony. no começo do dia. obrigado pela voz. pelo calor. obrigado antony. obrigado coco rosie por o trazerem convosco. o antony poderá salvar-me muitas vezes. se calhar tantas quantas já me salvou antes. discretamente. secretamente. talvez por não haver razão. e se a houver nem preciso saber.

vê-lo actuar concretizou muito. para a próxima deixem-no trazer a banda.

love be with you

Escrito por jm às 22h59... | Comentários (1)

i'm a scavenger


Espanha vista de Miranda do Douro, 1999
comecei por te comer as unhas que cortavas semanalmente primeiro as dos pés e depois as das mãos e os pêlos que ias deixando pela casa nos lençois no chão desses pêlos cabelos ou púbicos por maioria os púbicos eram os mais fortes depois já nem as unhas nem os pêlos eram suficientes e comecei por agarrar os teus pés e tratá-los da pele morta que ia juntando num frasco para uma refeição próxima bebia as tuas lágrimas que escorregavam pela tua face todos os dias

foste o meu alimento durante a nossa vida e quando a tua respiração cessou consolei-me com o mundo à espera e ofereci-lhe os teus ossos

Escrito por jm às 22h27... | Comentários (1)

7 de novembro, 2004

um sonho

fecharam as portas às 3h fomos para a rua e caminhamos calçada acima uma porta convidou-nos a entrar entramos dentro da porta encontramos uma festa e dançamos adormecemos nas estrias da madeira acordamos com o sol na cara entrava na porta pelas imperfeições da capa de tinta verde quisemos partir mas o tempo passou depressa velhos e cansados ficamos para ver o mundo passar na calçada

Escrito por jm às 17h15... | Comentários (2)