28 de fevereiro, 2004

sol, flores e vida

escrevo de acordo com as estrelas. escrevo poque me é mais fácil assim falar. escrevo, porque na escrito sou adivinhador dos momentos dos outros. e sorrio contente ao ser informado disso. escrevo com as estrelas e sou delas ignorante. reconheço um sol quando o vejo, mas logo me diriam que não é uma estrela mas um ser umano com o qual tenho mais afinidade. escrevo para vos contar sobre os crisântemos de outono, que ofereço por amor aos mortos. pelo renascimento das almas. e pelas vidas que me acompanham nos caminhos tristes que percorro.

Escrito por rainsong às 13h49... | Comentários (3)

sleep as their house

o futuro entregue nas tuas mãos. uma ave, uma rola, pousa elegante no cabo dos telefones, lá fora, na estrada. a estrada acaba no portão da nossa casa. temos uma casa com muro e portão. temos um muro a rodear a nossa casa. o muro é baixo, isto é um sonho, o muro é baixo e branco e o portão é verde escuro. os cães ladram a quem chega ao fim da estrada e nos vem visitar. também nos ladram quando chegamos e saúdam-nos como se fossemos os mais queridos amigos deles. e somos. o futuro entregue nas tuas mãos pela rola, que agora pousou arrulhando no cabo dos telefones, como que a dizer que te deseja boa fortuna e tudo depende de ti. tudo? quase tudo e o resto ficará por nossa conta. a rola aguarda a resposta ao chamamento suave. atira-lhe agora milho. vai a rola para o longe de papo cheio.

a câmara desfoca e retoma a focagem, suavemente, com um plano sobre dois cães dormindo aninhados um no outro

Escrito por rainsong às 02h35... | Comentários (0)

27 de fevereiro, 2004

este lugar

eu venho aqui para me apunhalar. sentir no ventre uma dor. e pensar na mulher parindo, como antigamente. depois, o silêncio e a paz a instalar-se nos nervos. começa uma vida num corropio.

Escrito por rainsong às 01h15... | Comentários (5)

mutação

anoto. escrevo. noto placidez. quem esperas sem mágoa? e tu? quem és diferente?

a câmara distanciando-se de um rosto roda para esquerda, procurando onde parar: no mesmo rosto: 360º

Escrito por rainsong às 00h43... | Comentários (1)

26 de fevereiro, 2004

a caixa chinesa

um encontro sereno com o findar dos sonhos e um deslindar de histórias mais ou menos infernais guardo um sorriso para cada sorriso que se cruze comigo e se estiver distraído falem-me dos gritos dos corvos e dos pássaros negros que sobrevoam o perigo sem medo com medo de algo se magoar o coração da alma talvez é hoje foi ontem e os senhores amanhã farão igual tenho pouco medo e o que tenho guardo-o numa caixa chinesa onde tenho também os sonhos preciosos que revejo às vezes no trocar de sorrisos não olvidáveis

Escrito por rainsong às 12h59... | Comentários (3)

irascível (parte 2)

agarro-me ao escaparate com uma mão e atiro, com a outra, talvez a esquerda, um vaso à cabeça da bibliotecária, minha irmã, para lhe roubar a virtude do sorriso.

falho o alvo, sem surpresa, e ouço um grito abafado para não fazer ruído. pego num caco do vaso e rasgo o pescoço e a aorta ao rapaz mais perto: ele grita e eu grito com ele... ouço um som abafado a mandar-nos calar... eu calo a morte dele enfiando-lhe um lenço na boca.

agarro-me ao escaparate com uma mão e com a outra faço gestos indignos da moral maior, dignos de qualquer amoral mente transeunte.

ninguém: um espaço vazio. tu e eu: presos um ao outro e o outro ao um. tu és um ou outro e eu quero que um e o outro seja uma união. ninguém: somos uma intersecção vazia de sentido e sentimentos únicos para nos separar: sempre.

Escrito por rainsong às 00h46... | Comentários (0)

24 de fevereiro, 2004

shoot me or miss me

Nick Cave

hoje, no CCB, o primeiro de dois concertos onde Nick Cave se apresentará sem os Bad Seeds.

Escrito por rainsong às 15h46... | Comentários (10)

santa miséria afogada

os pobres de espírito afogam-se muitas vezes em nada ou pouco mais que isso: Santa Miséria afogada!

Escrito por rainsong às 14h47... | Comentários (0)

para um postal ilustrado

os carnavais americanos escondem muitas vidas tristes, amigo. um dia hei-de tentar perceber o porquê das criaturas, como as que se revelam neste postal, assumirem outras vidas, cheias de máscaras e frustrações. nesta terra onde só o sonho é ouro, a carne parece valer menos que o vinho.

guardo para mim a certeza destas mulheres serem mais bondosas com a tristeza do outro do que as mais comportadinhas senhoras dessa terra, que apelidamos de nossa para não nos esquecermos da vergonha.

saudações, amigo.

USA. Carlisle, Pennsylvania. 1975. Backstage.
© Susan Meiselas / Magnum Photos

Escrito por rainsong às 00h36... | Comentários (0)

22 de fevereiro, 2004

para uma carta

meu amigo,

envio-te esta missiva do fundo do meu coração adormecendo. espero que ela te encontre bem e disposto a viver com mais notícias da minha sobriedade.

entrego-me ao passar do tempo, num olhar indeterminado para além da janela. deixei o tabaco: o fumo entranhado na tinta plástica das paredes odoriza em suficiência o ar que inspiro e a minha dor não necessita já de nicotina.

ontem, desci, novamente, à rua e caminhei. senti por uma vez, depois do trágico incidente, que alguém me olhou: um transeunte que pedia uma ou duas moedas ou uma sandes e um copo de leite. eu senti que sim, que lhe poderia fornecer aqueles alimentos, mas, apanhado desprevenido, não haviam quaisquer moedas que intermediassem a compra dos produtos. subi a escada e fechei-me, em casa, frustrado e remoendo na culpa, apesar de saber que ela não era real.

tentei recomeçar a escrever notas no meu caderno. falho. os poemas são incompletos e transvazam uma solidão irritada e negativa: não existe sol, diz-me deus. repondo-lhe apenas que não tenho razão para que não haja sol, mas talvez ele possa responder a tal. o gato olha para mim brevemente, mas volta a enrolar-se com os olhos fitando um destino livre, na sua imaginação.

o gato, dir-se-ia, sabe mais de deus, chamando-se assim, do que eu, que lhe dei o nome. feliz, o gato. ébrio de enfermidade, eu.

meu amigo, manda-me notícias em breve.

um forte abraço

Escrito por rainsong às 00h18... | Comentários (2)

20 de fevereiro, 2004

para um recado

clamo por uma razão para me prender à vida. clamo por um deus que me justifique a razão do teu ódio. e não ouço uma só palavra nem um ruído que seja me chega aos ouvidos.

Escrito por rainsong às 11h56... | Comentários (5)

19 de fevereiro, 2004

solidariedade com o tempo

estavamos, quem estava, em 1994. senti um peso no estômago: era o queijo que tinha acabado de engolir com banana e marmelada. em 1994, o tempo era muito igual ao de agora, apesar de chover mais no inverno. penso que quem pensa em campo como o não fazer nada e só descansar, não tem qualquer ideia do trabalho feito por quem cria alfaces ou couves ou maçãs ou alperces. aliás, o que se vê mais é casas de férias no campo em que se não é só cimento e chão empedrado têm uma relva promissora de despreocupação. em 1994, ganhei a plena noção do que não queria à minha volta. não consegui afastar tudo, mas nessa altura afastei um pouco demais a vida. hoje, vejo em minha volta coisas que quero e na altura não queria... e coisas que não imaginava e não quero. em 1994, tinha esperança num assassínio. mas continuo respirando e vivo. não houve sequer atentado. dez anos depois de 1994 o mundo é tão igual que se agravou na medida do meu desânimo. existe, desde 1994, a certeza de uma razão não expressa em testamento.

Escrito por rainsong às 13h16... | Comentários (6)

black hole sun

In my eyes, indisposed
In disguise as no one knows
Hides the face, lies the snake
The sun in my disgrace
Boiling heat, summer stench
'Neath the black the sky looks dead
call my name through the cream
And I'll hear you scream again

(CHORUS)
Black hole sun
Won't you come
And wash away the rain
Black hole sun
Won't you come
Won't you come

Stuttering, cold and damp
Steal the warm wind tired friend
Times are gone for honest men
And sometimes far too long for snakes
In my shoes, a walking sleep
And my youth I pray to keep
Heaven sent hell away
No one sings like you anymore

(Chorus)

Hang my head, drown my fear
Till you all just disappear



Chris Cornell

esta é uma das letras por detrás do conceito Rain Song

Escrito por rainsong às 12h56... | Comentários (2)

18 de fevereiro, 2004

finalmente

Foram poucas as venturas com que sonhei. Sempre quis um homem-sol à minha beira e pouco mais do que um brilho na noite era o que me surgia por perto.

Matei-os a todos e felizes esses, que não teriam que sofrer mais às mãos de mulheres interessadas.

Sempre quis um homem de pila erecta sonhando comigo o sexo dos deuses. Ansiando a pele e os pelos em jogos cruzados de dedos e olfacto. Sempre quis... como um desejo de uma vida para concretizar e fosse a minha fortuna essa vontade.

Descrimino no testamento as armas dos crimes e distribuo-as pelos mortos, para os acompanhar nos túmulos das suas cinzas: o mar, o lago, o tanque dos peixes.

Nunca tive nenhum amor amante de mim, porque nunca tive uma pila íntima e erecta num desejo único de vida: sexo e ardor. Num só olhar soube-o ali, esperando algo que nada mais nem menos fosse o seu sexo crescendo dentro da minha boca-vagina... o seu esperma nos meus lábios comprimidos contra os lábios dele, tacteando a língua que lhe conheceu a pele.

Ele, homem-sol, único e intenso, sentado e mirando o universo fechado da sala de espera do otorrinolaringologista, olhou-me e disse-me: obrigado.

Escrito por rainsong às 11h38... | Comentários (0)

17 de fevereiro, 2004

inside mission

every lost soul has one beauty mark on one's neck.
and all i can reach is a bloodstain... you have in your shirt

goodbye dear one. the sun is yet to be uncovered.

the rainsong has arrived.

Escrito por rainsong às 11h56... | Comentários (1)