30 de setembro, 2003

kill

i am to kill the dead
i am to kill the sweet dead people
i am to kill
i am to kill

Escrito por jm às 13h31... | Comentários (0)

image b

Butterfly Lady (Black Winged)
Butterfly Lady (Black Winged), © Jayne Hinds Bidaut , 1999


Escrito por jm às 13h22... | Comentários (0)

mais acerto

com o post do Mia Couto criei outra categoria de diferenciação de prosa, assim, a prosa para os autores e em conversa para a minha ex em prosa - que não é vaidade nenhuma.

Escrito por jm às 00h54... | Comentários (4)

O Menino Que Fazia Versos

o Rain Song faz serviço público e guarda em memória este conto de Mia Couto publicado hoje on line na Pública do Público:

O Menino Que Fazia Versos

- Ele escreve versos!

Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha.

- Há antecedentes na família ?

- Desculpe, doutor ?

O médico destrocou-se por tintins, Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias. Tratava-a bem, nunca lhe batera mas a doçura mais requintada que conseguira tinha sido em noite de núpcias:

- Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol.

Ela hoje até se comove com a comparação. Sim, perfume de igual qualidade qual outra mulher pode sequer sonhar ? Pobres que fossem os dias, para ela, tinham sido lua-de-mel. Para ele, período de rodagem. O filho fora confeccionado nesses namoros de unha suja, restos de combustível manchando o lençol. E oleosas confissões de amor.

Tudo corria sem mais, a oficina mal dava para o pão e a escola do miúdo. Mas eis que começam a aparecer, pelos recantos da casa, papeis rabiscados com versos. O filho confessou, sem pestanejo, a autoria do feito.

- São meus versos, sim.

O pai logo sentenciara: havia que tirar o miúdo da escola. Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más companhias. Pois o rapaz, em vez de se lançar no esfrega-refrega com as meninas se acabrunhava nas penumbras e, pior ainda, escrevia versos. O que se passava: mariquice intelectual ? Ou carburador entupido, avarias dessas que a vida do homem se queda em ponto morto ?

Dona Serafina defendeu o filho e os estudos. O pai, conformado, exigiu: então, ele que fosse examinado.

- O médico que faça revisão geral, parte mecânica, parte eléctrica.

Queria tudo. Que se afinasse o sangue, calibrasse os pulmões, e sobretudo lhe espreitassem o nível do óleo na figadeira. Houvesse que pagar por sobressalentes, não importava. O que urgia era por cobro àquela vergonha familiar.

Olhos baixos, o médico escutou tudo, sem deixar de escrevinhar num papel. Aviava já a receita para poupança de tempo. Com enfado, o clínico se dirigiu ao menino:

- Dói-te alguma coisa ?

- Dói-me a vida, doutor.

O doutor suspendeu a escrita. A resposta, sem dúvida, o surpreendera. Já Dona Serafina aproveitava o momento: está a ver, doutor ? Está ver ? O médico voltou a erguer o olhos e a enfrentar o miúdo:

- E o que fazes quando te assaltam essas dores ?

- O que melhor sei fazer, excelência, é sonhar.

Serafina voltou à carga e sapateou a nuca do filho. Não lembrava o que pai lhe dissera sobre os sonhos ? Que fosse sonhar longe ! Mas o filho reagiu: longe, porquê ? Perto, o sonho aleijaria alguém ? O pai teria, sim, receio de sonho. E riu-se, acarinhando o braço da mãe.

O médico estranhou o riso. Custava a crer, visto a idade. Mas o moço, voz tímida, foi-se anunciando. Que ele, modéstia apartada, já inventara sonhos desses que já nem há, só no antigamente, coisa de bradar à terra. Exemplificaria, para melhor crença. Mas nem chegou a começar. O doutor o interrompeu:

- Não tenho tempo, moço, isto aqui não é nenhuma clínica psiquiátrica.

A mãe, em desespero, pediu clemência. O doutor que desse ao menos uma vista de olhos pelo caderninho dos versos. A ver se ali catava o motivo de tão grave distúrbio. Contrafeito, o médico aceitou e guardou o manuscrito na gaveta. A mãe que viesse na próxima semana. E trouxesse o paciente.

Na semana seguinte foram os últimos a serem atendidos. O médico, sisudo, taciturneou: o miúdo não teria, por acaso, mais versos ? O menino não entendeu.

- Não continuas a escrever ?

- Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho esse pedaço de vida - disse, apontando um novo caderninho - quase a meio.

O médico chamou a mãe, à parte. Que aquilo era mais grave do que se poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente.

- Não temos dinheiro, fungou a mãe entre soluços.

- Não importa, respondeu o doutor.

Que ele mesmo assumiria as despesas. E que seria ali mesmo, na sua clínica que o menino seria sujeito a devido tratamento.

Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto de internamento do menino. Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração.



Mia Couto, in Pública 29/09/2003

Escrito por jm às 00h42... | Comentários (5)

29 de setembro, 2003

image a

Papilio lormieri (Swallowtail Butterfly)
Papilio lormieri (Swallowtail Butterfly), © Jayne Hinds Bidaut, 1998

Escrito por jm às 17h06... | Comentários (1)

Ct 7, 10-14

A tua boca bebe o melhor vinho!
Que ele escorra por sobre o meu amado,
molhando-lhe os lábios adormecidos.
Eu pertenço ao meu amado,
e o seu desejo impele-o para mim.
Anda, meu amado,
corramos ao campo,
passemos a noite sobre os cedros;
madruguemos pelos vinhedos,
vejamos se as vides rebentam
e se abrem os seus botões,
e se brotam as romãzeiras.
Ali te darei as minhas carícias.
As mandrágoras exalam o sue perfume,
à nossa porta há toda a espécie de frutos,
frutos novos, frutos secos,
que eu guardei, meu amado, para ti.



atribuído a Salomão

Escrito por jm às 11h02... | Comentários (2)

imagem b

geometry lesson, 1997
Geometry Lesson © Sally Gall, 1997

Escrito por jm às 09h26... | Comentários (3)

28 de setembro, 2003

ocular iv

do café todos os dias sai um dos empregados em direcção à esquina o cão cheira-o e abana a cauda e abre a boca sedenta numa tina a água noutro recipiente um bocado de comida o cão come e protege-se o homem espera que o cão acabe de comer o cão acaba de comer e agradece como gente que agradece e parte abandonando a esquina ainda de manhã o homem vê-o ir e pensa até logo

Escrito por jm às 21h02... | Comentários (3)

imagem a

residue of dream, 1997
Residue of Dream © Sally Gall, 1997

Escrito por jm às 17h10... | Comentários (5)

27 de setembro, 2003

as marés

agrada-me percorrer as outras goteiras e descobrir nelas tudo o que jamais serei, enfim, o mundo que os outros são e vocês são diferenciadamente e eu não sou, mesmo que muitas vezes o partilhe. descobri um novo ninho de gente que me assusta e que vou acompanhar para assistir na diferença. vejam aqui.

Escrito por jm às 22h22... | Comentários (0)

visões iv

ali ao pé das casas o meu tio fazia aveia ou trigo depois da ceifa ia para lá brincar com os meus primos ou sozinho gostava de pisar os finos troncos secos que ainda emergiam da terra seca e dura um dia a minha avó tinha atado o Tu É-lo a uma oliveira desse terreno para ele mascar umas folhas eu e os meus primos pedimos à minha avó e montamos o burro nós três lingrinhas novos aconchegamo-nos no lombo do animal da cabeça para a cauda estava o meu primo a minha prima e eu a minha avó deu a pequena corda ao meu primo e o burro deu três passos e logo se empinou caímos e rimos a bandeiras despregadas o animal calmo e sereno olhou-nos desconfiado abanava as orelhas e a cabeça para sacudir as moscas estava quente e o sol ia pôr-se por trás da serra

Escrito por jm às 21h10... | Comentários (2)

ocular iii

os dias nunca são serenos com os transeuntes untados de suor a canícula nem sempre terrível mostra efeitos raros nas pessoas e os cheiros irritam o cão da esquina passa um homem de camisa encharcada e é saudado pelo cão com um ladrido estridente e continuado até que desapareça já longe entre as pernas dos passeantes

Escrito por jm às 17h42... | Comentários (12)

Feira do Livro

decorre na Amadora, junto à estação da CP, uma pequena feira do livro. as pequenas editoras estão representadas por distribuidores que levam algum stock de armazém. as médias editoras dividem pavilhões... mas mais vale alguma coisa do que nada.

para minha surpresa, ou por desconhecimento em outra feira do livro ;), consegui os quatro primeiros números da Relâmpago - revista de poesia da Fundação Luís Miguel Nava -, por um preço com desconto :) no pavilhão partilhado pela Relógio d'Água e a Terramar.

Escrito por jm às 17h14... | Comentários (0)

25 de setembro, 2003

s/ título

queria que me acompanhasses
vida fora
como uma vela
que me descobrisse o mundo
mas situo-me no lado incerto
onde bate o vento
e só te posso ensinar
nomes de árvores
cujo fruto se colhe numa próxima estação
por onde os comboios estendem
silvos aflitos



Ana Paula Inácio, in Vago pressentimento, azul por cima, p. 38

Escrito por jm às 16h20... | Comentários (6)

acerto

criei um tipo de gota chamado poesia, que permitirá distinguir a minha escrita em verso da poesia dos poetas, para bem destes.

Escrito por jm às 15h21... | Comentários (5)

Jazz & Blues

Estreia este fim de semana a exposição de Bruno Espadana, no Catacumbas Bar, no Bairro Alto.

Ver é obrigatório.


Jazz & Blues

A exposição é composta por 16 fotografias capturadas em ensaios e concertos de bandas ligadas ao universo do Jazz e do Blues e pretende ligar a visão pessoal do fotógrafo sobre o ambiente muito próprio destes estilos musicais a um espaço que lhes é dedicado por excelência - o do Catacumbas Jazz Bar.

Bruno Espadana fotografa desde 2000, predominantemente em preto & branco, explorando sombras, contrastes e a figura humana. Recebeu menção honrosa pelo conjunto do seu trabalho no site Foto@pt (Fevereiro 2002). Recebeu menção honrosa no passatempo "Rostos de Mulher" da Revista CAIS (Agosto 2002). Tem trabalhos publicados no suplemento DN Jovem do jornal Diário de Notícias (portfolio "Engrenagens", Dezembro 2001), na Revista CAIS (Agosto 2002) e na revista Practical Photography (Outubro 2003). É membro do Grupo BZK, com o qual participou na exposição "Covers" (17 de Julho a 17 de Setembro de 2003, Padrão dos Descobrimentos).

Escrito por jm às 10h45... | Comentários (2)

ocular ii

de manhã levanta-se o cão do seu espaço e nota ao virar da esquina o vazio do tempo o casal partiu hão muitas horas daquela parede encosto de reconhecimento físico o cão alçou a perna e urinou depois de se reconhecer na rocha trabalhada passou por ele Júlio que o olhou com olhos de cão triste com a permanente vontade de o levar para longe do abandono

Escrito por jm às 00h05... | Comentários (4)

24 de setembro, 2003

Brel

25 anos após a sua morte dolorosa, Brel poderia escrever uma bela canção carregada de ironia pelo que a editora resolveu fazer agora.

BrelDuas edições especiais - uma especial (2CD) e outra especialíssima (integral de 16 CD), a bem da verdade - foram editadas e trazem com elas 5 canções inéditas, que o cantautor condenou ao esquecimento por testamento, pois não as considerava merecedoras de edição no estado em que se encontravam.

No le monde e no the guardian (links perecíveis).

Escrito por jm às 21h12... | Comentários (0)

ocular

não vês
nem olhas
cego fosses

encostado à parede fresca iluminada o cão adormece ao voltar da esquina um casal mal se escondendo beija-se e sente com as mãos o desejo entre si ela com a mão aberta sobre o pénis largo e erecto ele com a mão em concha tocando os grandes lábios húmidos beijam-se enternecidos num tempo só

Escrito por jm às 17h18... | Comentários (8)

em Pessoa

lembram-se daquele poema que começa com o verso Não sou nada.?

adoro esta parte:

    «(Come chocolates, pequena;
     Come chocolates!
     Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
     Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
     Come, pequena suja, come!
     Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
     Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
     Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)»


Os parêntesis de Álvaro de Campos n'A Tabacaria, são grandes!

E recordo o Mário Viegas dizer este poema... Saudades!

Escrito por jm às 16h50... | Comentários (0)

este blog

parece um livro de poesia a ganhar pó na prateleira duma livraria ou um livro mal escrito de uma editora qualquer...

Escrito por jm às 12h18... | Comentários (5)

23 de setembro, 2003

JPS

eu fumo. não sei durante quanto tempo mais. o novo design já chegou ao JPS. a elegância do enlace das três iniciais e das próprias iniciais perdeu qualquer coisa... os ditames a mais não são novidade. a minha necessidade de deixar de fumar tem mais a ver com nada. deixarei de fumar quando tiver algum outro momento de constante agrado.

Escrito por jm às 20h45... | Comentários (3)

diferença?

ontem lembrei-me de uma piada. vou estreá-la no blog...


- sabem qual a diferença entre a Madeira e Cuba?

- as bananas! as da Madeira são muito mais pequenas e ficam moles mais depressa.

Escrito por jm às 16h32... | Comentários (2)

vontade de

entraste e afirmaste
a vontade de me ter
na vida tua
cresceu em mim
essa vontade de me ter
na vida tua

Escrito por jm às 12h19... | Comentários (2)

22 de setembro, 2003

calendário

segunda é a minha quarta, um tempo explicado à normalidade social. o meio do tempo que os horários comuns têm dificuldade em entender. gostava que fizessem um calendário só para mim, onde a minha sexta fosse o dia que se revê na ansiedade do descanso. em vez disso tenho o sábado dos outros a exigir-me adrenalina e concentração no trabalho depois dos dias de descanso.

Escrito por jm às 13h51... | Comentários (7)

visões iii

o meu avô disse que quando morresse a sua alma seria levada pelo vento no dia em que morreu subi a um dos montes da serra e fui vê-lo naquele sítio não havia vento os meus gritos não ecoaram e não chorei o meu avô já tinha passado por ali olhei para o pé da serra e voltei para a casa onde estava o seu corpo os vizinhos visitavam-no tocavam-lhe a sua cara atada para segurar o queixo comiam uns biscoitos falavam felizmente não me conheciam naqueles dias é bom não conhecer ninguém o meu avô foi-se embora durante o sono muitas vezes quis bater com a porta mas a violência com que a doença o queria fazer era inútil e ele mantinha-se o meu avô foi pastor subia a serra todos os dias e comia pão com cebolas

Escrito por jm às 11h39... | Comentários (1)

visões ii

a minha avó perguntava-me pela namorada passados anos pela noiva passados anos perguntava-me quem tinha morrido passados anos sorria-me confundida pelo tempo e pela diferença tristonha no sorriso de ambos quando nos abraçavamos e trocavamos olhares sou um monge urbano cheguei a dizer-lhe um monge duma nova era pensei para com os meus botões em todos os momentos poucas mulheres me saboreavam mais negro do que o negro das roupas o meu semblante carregou-se para sempre com a tristeza da vida com os sonhos sem frutos com as nuvens destruídas pelo vento

Escrito por jm às 00h45... | Comentários (0)

21 de setembro, 2003

corpus

950751
© Alvin Booth, 1999

na sequência intempestiva da visita à Robert Klein Gallery descubro um dos meus temas favoritos: o corpo.

o artista é Alvin Booth e tem vários livros editados com base em fotos sobre corpos, entre os quais está Corpus - beyond the body.

Na representação do corpo e pela atitude do corpo, as fotos cépia de Alvin Booth atraem-me como ímanes. Ainda bem que não o tenho na mão, provavelmente não lhe resistia e trazia-o para casa...ou a todos.

Corpus, Beyond the Body, de Alvin Booth
© Alvin Booth, Edition Stemmle, 1999

Escrito por jm às 19h30... | Comentários (1)

Jean Dieuzaide (?)

ao navegar pelo le monde surge a informação de que morreu um fotógrafo de 82 anos, Jean Dieuzaide, dizem dele que personne n'a incarné mieux que lui la passion de la photographie, eu sou ignorante e nada sei dele. Faço busca na rede... a rede tem tudo! e encontro uma galeria on line, que se dedica à fotografia... a Robert Klein Gallery tem um acervo considerável de artistas! :)

Do senhor morto fica Feuille De Chardon:

'Feuille De Chardon', 1978 12'' x 16'' toned silver print
© Jean Dieuzaide, 1978

Escrito por jm às 19h29... | Comentários (0)

visões

sentado no meio do bulício citadino deparei-me como de costume com imagens aldeãs o macho puxando a carroça a caminho do posio a porca encaminhada por uma vara de marmeleiro a caminho da cobrição as galinhas picando o chão no meio do caminho na cidade estas imagens têm paralelos intensos de realidades tangíveis a olho nú quando vemos o progenitor empurrando o carrinho de bebé com uma ou duas crianças a caminho do posio da vida a mulher nos vintes com um vestido de algodão curto que lhe acompanha o corpo na alegria e na procura do desejo e os outros muitos deambulando pelas ruas vasculhando o lixo das esquinas e dos contentores sentado no meio do bulício citadino vejo-me pequeno como um pardal de telhado

Escrito por jm às 16h23... | Comentários (1)

20 de setembro, 2003

s/ título

O meu projecto de morrer é o meu ofício
Esperar é um modo de chegares
Um modo de te amar dentro do tempo



Daniel Faria, livro Do inexplicável, in Explicação das Árvores e de Outro Animais, p. 61

Escrito por jm às 21h04... | Comentários (6)

algo

aqui tenho escrito o único livro possível e já percebi quão inútil ele é! podem ficar descansados!

Escrito por jm às 15h38... | Comentários (4)

Periférica nº6

Periférica 6, foto na capa de MISHA GORDIN

Será neste número que se atinge a maturidade? Talvez, pela primeira vez senti que a rebelião e a irreverência da revista é também a consciência de ter um público raro, conhecedor e atento.

Ao sexto número, a Periférica tem a capacidade de não me irritar, mostra-me novidades e alerta-me para o estado da minha ignorância, mas não me irrita nem me incomoda com a sua altivez desmedida.

Com textos bem escritos e, salvo raras excepções, com belíssimas ilustrações, a Periférica assume-se em editorial como uma revista literária, e ainda bem!

Surpresas: traduções inéditas realizadas por Nina e Filipe Guerra de um escritor russo, claro, desconhecido: Daniil Harms. Entrevista por mail a Tereza Coelho, da revista Os Meus Livros, sem possibilidade de rebate. Ilustrações de Jordin Isip e fotografia de Misha Gordin. E, ainda, entrevista com os mentores da editora Cavalo de Ferro.

Este número é obrigatório! Para quem queira saber mais, pode ver o índice aqui, desfolhá-la virtualmente aqui, assiná-la aqui.

Escrito por jm às 12h32... | Comentários (2)

19 de setembro, 2003

Einstürzende Neubauten, um mergulho no futuro

einsturzende neubauten, supporter album box

os Einstürzende Neubauten não tinham dinheiro para produzir e gravar um álbum novo, por essa razão, no ano passado lançaram um apelo aos fans: nós oferecemos o álbum, músicas raras e uma loja de wav e mp3 e vocês dão 35 dólares para acederem a conteúdos exclusivos e ao cd novo.

com o cd gravado, a Mute acordou com a banda o lançamento do CD comercialmente, que irá ser diferente deste, cuja embalagem podem ver na imagem presente.

com um tom agonizante e de desespero, as fúrias característica no som da banda são agora marcadamente tensas mas circulares e graves. poderíamos dizer que a calma chegou, mas já silence is sexy anunciava esse pendor mais maduro na idade, mais gentil na chapada.

os Einstürzende Neubauten vão entrar em digressão, espero que passem por este canto malfadado.

anuncia-se agora a produção de um DVD ou CD ao vivo com base no mesmo esquema: tudo em http://www.neubauten.org.

Escrito por jm às 12h27... | Comentários (5)

linhas femininas

cada vez menos me deparo com mulheres femininas, livres e conscientes da sua riqueza enquanto humanas. e essas são tão raras pelo equilíbrio que demonstram na sociedade actual e na importância do seu discurso contrabalançando os extremismos na moda.

o que encontro mais são umas que se afirmam libertas do jugo masculino, feministas - ainda que digam que o não são -, mas que ao fim e ao cabo só pretendem inverter os papeis... subjugar. e pretendem viver do ar numa batalha constante contra os interesses do universo masculino.

é triste constatar que o equilíbrio é um objectivo inútil... ainda que seja um objectivo perene para mim.

Escrito por jm às 11h56... | Comentários (13)

celibato genital

[entrevista à Antena 1, hoje] D. José Policarpo afirma manter a opinião de que os homossexuais não devem ser padres.

Kama Sutra, Jeanne Carbonetti (watercolor)A jornalista faz a questão inversa, ao que o cardeal responde que a expressão da heterossexualidade e da homossexualidade não se reduzem ao genital, pelo que o celibato heterossexual é aceite.

Tendo o celibato sido descoberto após a confirmação da vocação dos primeiros cristãos, o celibato advém da disponibilidade total para o deus e para os seus desígnios e não de uma conduta não sexual.

Assim, e em bom jeito, a jornalista questiona as escapadelas sexuais/genitais de alguns padres, quebrando os votos. Replica D. José que também existem casados que quebram os votos. A jornalista, constatando a aceitação simpática da fuga à fidelidade do clero, questiona e se a fuga for por um amor homossexual? Não aceite.

"Por mais simpáticos que queiramos ser para com os homossexuais" eles são contra-natura.


--o meu comentário: dentro de alguns anos teremos alguma mudança, não total ou completa em relação à homossexualidade, mas pelos menos, face à falta de vocações e necessidade de manutenção da espiritualidade do povo, em relação ao fim do celibato.

Escrito por jm às 10h47... | Comentários (3)

18 de setembro, 2003

todos os dias

a criatividade morre todos os dias.
a inactividade desenvolve-se todos os dias.

Escrito por jm às 11h34... | Comentários (0)

17 de setembro, 2003

um de nós

a ignorância está-nos no sangue
e cresce e rega-se e multiplica-se
não fosse ela em corpo o nós palpável
querem-nos estúpidos
e conseguem e fornecem
o produto já em cápsulas
somos pobres com honra
uma honra que depende da atitude dos outros
com a qual nos pretendemos ofendidos
e, por isso, ofendemos e matamos
estupidificando a honra que se diz nossa
e rastejando no pó
sujos e cabisbaixos e submissos
a senhores cuja honra é o poder que detêm
preferível sermos gentios
altivos e serenos connosco

Escrito por jm às 13h42... | Comentários (0)

16 de setembro, 2003

olho para trás

vejo-o calçando as botas
nos pés ausentes
vejo-o tratando da terra
com a força ausente

vejo-o prostrado num leito
sem pés
sem pernas
sem força

vejo-o tentando ensinar-me coisas
eu aprendi o que quis
eu, o rebelde dos netos
eu que nunca disse sim
ele sem força
ele, homem, balbuceia na dor

por me ter feito chorar
sem razão para tal
sou aquele que está mais próximo
na ilegitimadade humana contra-natura
na manutenção duma vida sem razão
não por amor nem por desgosto
apenas porque sim


este é um exercício que resolvo publicar, apesar de toda a inépcia, a falta de técnica e a falta de acerto na escolha das palavras e na sua interacção.

Escrito por jm às 13h42... | Comentários (0)

a hora

muitos são contra, falando das crianças e dos problemas que elas terão, se o delfim vier a fazer o mesmo que Cavaco fez.

esses que são contra e só falam das crianças são redutores do pensamento e facilmente linchados pelos favoráveis à mudança da hora de Portugal para se igualar à CET (Central European Time).

o problema da manutenção dum horário desses afecta todos os seres que se regem pelo relógio, porque biologicamente não deixamos de ser animais e viver segundo alguma regras ainda naturais, com sensibilidade à luz solar.

como já se sabe, não existem estudos sobre a privação do sono em grande escala ou sobre a alteração de horário crónica. contudo, lembro-me perfeitamente de como as alterações de disposição durante aquele período em que a experiência foi feita, a maiorira das pessoas sentia um cansaço permanente.

não me parece obrigatório alterar a base horária para correspondermos a necessidades de comunicação e/ou produtividade com os outros países. o que é necessário é flexibilizar horários de trabalho nas várias vertentes de serviços e administrativos e alargar o número de postos de trabalho, para que as lacunas existentes sejam colmatadas. Mais oferta de emprego para quem o procura e menos preguiça para quem o já tem - em particular conheço muita gente que se desunha no trabalho.

Escrito por jm às 12h21... | Comentários (0)

Cão

Cão passageiro, cão estrito
Cão rasteiro cor de luva amarela,
Apara lápis, fraldiqueiro,
Cão liquefeito, cão estafado
Cão de gravata pendente,
Cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
Cão ululante, cão coruscante,
Cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão ali, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal de poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moido de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção,
cão pré fabricado,
cão espelho, cão cinzeiro, cão botija,
cão de olhos que afligem,
cão problema...
Sai depressa, ó cão, deste poema!



Alexandre O'Neill


publico aqui este poema em honra à Janela Indiscreta

Escrito por jm às 00h21... | Comentários (1)

14 de setembro, 2003

After Lunch

And after noon the well-dressed creatures come
To sniff among the dead
And have their lunch

And all the many well-dressed creatures pluck
The swollen avocados from the dust
And stir the minestrone with stray bones

And after lunch
They loll and lounge about
Decanting claret in convenient skulls


Harold Pinter, September 2002

retirado de HaroldPinter.org

Escrito por jm às 13h21... | Comentários (0)

13 de setembro, 2003

não informarás!

onde estou, a única maneira de acompanhar a informação near real time é via NET.

estou a acompanhar alguns sites de informação e resolvi ir até à TSF. Ao escolher o link que pretendo surge-me informação de exclusividade para clientes SAPO e Netcabo.

Não informarás!
Não darás ao outro o poder do conhecimento!
A sua ignorância é o nosso trunfo.

Escrito por jm às 18h29... | Comentários (5)

Meeting

It is the dead of night,

The long dead look out towards
The new dead
Walking towards them

There is a soft heartbeat
As the dead embrace
Those who are long dead
And those of the new dead
Walking towards them

They cry and they kiss
As they meet again
For the first and last time


Harold Pinter, 2002

retirado de HaroldPinter.org

Escrito por jm às 17h16... | Comentários (0)

a festa já começou

Miguel Borges em A Festa, de Spiro Scimone

Escrito por jm às 02h07... | Comentários (0)

12 de setembro, 2003

e

um misto de eternidade e de falha: é tudo.

Escrito por jm às 15h49... | Comentários (2)

11 de setembro, 2003

11 de Setembro de 1973

Pouco mais de um mês do meu nascimento, o continente americano vive um acontecimento único que lhe trará uma transformação política ao longo das décadas seguintes, em que ditaduras de direita assassinaram e torturaram milhares e milhares de pessoas com o apoio político e logístico dos E.U.A..

Twin Towers
Hoje, dois anos depois dos atentados terroristas sobre os E.U.A., passam 30 anos sobre a queda de Salvador Allende, no Chile.

Para memória a sua última alocução radiofónica:

«…Pagaré con mi vida la defensa de principios que son caros a esta patria. Caerá un baldón sobre aquellos que han vulnerado sus compromisos, faltando a su palabra, roto la doctrina de las Fuerzas Armadas.

El pueblo debe estar alerta y vigilante. No debe dejarse provocar, ni dejarse masacrar, pero también debe defender sus conquistas. Debe defender el derecho a construir con su esfuerzo una vida digna y mejor.

Una palabra para aquellos que llamándose demócratas han estado instigando esta sublevación, para aquellos que diciéndose representantes del pueblo, han estado turbia y torpemente actuando para hacer posible este paso que coloca a Chile en el despeñadero.

En nombre de los más sagrados intereses del pueblo, en nombre de la patria los llamo a ustedes para decirles que tengan fe. La historia no se detiene ni con la represión ni con el crimen. Ésta es una etapa que será superada, éste es un momento duro y difícil. Es posible que nos aplasten, pero el mañana será del pueblo, será de los trabajadores. La humanidad avanza para la conquista de una vida mejor.

Compatriotas: es posible que silencien las radios, y me despido de ustedes. En estos momentos pasan los aviones. Es posible que nos acribillen. Pero que sepan que aquí estamos, por lo menos con este ejemplo, para señalar que en este país hay hombres que saben cumplir con las obligaciones que tienen. Yo lo haré por mandato del pueblo y por la voluntad consciente de un presidente que tiene la dignidad del cargo…

Quizás sea ésta la última oportunidad en que me pueda dirigir a ustedes. La Fuerza Aérea ha bombardeado las torres de Radio Portales y Radio Corporación. Mis palabras no tienen amargura, sino decepción, y serán ellas el castigo moral para los que han traicionado el juramento que hicieron.

Soldados de Chile, comandantes en jefe y titulares… …al almirante Merino… … El general Mendoza, general rastrero que sólo ayer manifestara su solidaridad y lealtad al gobierno, también se ha denominado director general de Carabineros.

Ante estos hechos sólo me cabe decirle a los trabajadores: Yo no voy a renunciar. Colocado en un tránsito histórico pagaré con mi vida la lealtad del pueblo. Y les digo que tengo la certeza que la semilla que entregáramos a la conciencia digna de miles y miles de chilenos no podrá ser cegada definitivamente. Tienen la fuerza, podrán avasallarnos, pero no se detienen los procesos sociales ni con el crimen, ni con la fuerza. La historia es nuestra y la hacen los pueblos.

Salvador AllendeTrabajadores de mi patria: Quiero agradecerles la lealtad que siempre tuvieron, la confianza que depositaron en un hombre que sólo fue intérprete de grandes anhelos de justicia que empeño su palabra en que respetaría la constitución y la ley, y así lo hizo. Es este momento definitivo, el último en que yo pueda dirigirme a ustedes. Espero que aprovechen la lección. El capital foráneo, el imperialismo, unido a la reacción, creó el clima para que las Fuerzas Armadas rompieran su tradición: la que les señalo Schneider y que reafirmara el comandante Araya, víctima del mismo sector social que hoy estará en sus casas esperando con mano ajena conquistar el poder para seguir defendiendo sus granjerías y sus privilegios. Me dirijo, sobre todo, a la modesta mujer de nuestra tierra: a la campesina que creyó en nosotros; a la obrera que trabajó más, a la madre que supo de su preocupación por los niños. Me dirijo a los profesionales de la patria, a los profesionales patriotas, a los que hace días están trabajando contra la sedición auspiciada por los colegios profesionales, colegios de clase para defender también las ventajas de una sociedad capitalista.

Me dirijo a la juventud, a aquellos que cantaron y entregaron su alegría y su espíritu de lucha; me dirijo al hombre de Chile, al obrero, al campesino, al intelectual, a aquellos que serán perseguidos, porque en nuestro país el fascismo ya estuvo hace muchas horas presente en los atentados terroristas, volando puentes, cortando las vías férreas, destruyendo los oleoductos y los gasoductos, frente al silencio de los que tenían la obligación de proceder… …la historia los juzgará.

Seguramente Radio Magallanes será acallada y el metal tranquilo de mi voz no llegará a ustedes. No importa me seguirán oyendo. Siempre estaré junto a ustedes, por lo menos mi recuerdo será el de un hombre digno que fue leal con la patria. El pueblo debe defenderse, pero no sacrificarse. El pueblo no debe dejarse arrasar ni acribillar, pero tampoco puede humillarse.

Trabajadores de mi patria: Tengo fe en Chile y su destino. Superarán otros hombres el momento gris y amargo, donde la traición pretende imponerse. Sigan ustedes sabiendo que, mucho más temprano que tarde, se abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre, para construir una sociedad mejor.

¡Viva Chile, viva el pueblo, vivan los trabajadores!

Éstas son mis últimas palabras, teniendo la certeza de que el sacrificio no será en vano. Tengo la certeza de que, por lo menos, habrá una sanción moral que castigará la felonía, la cobardía y la traición.»

Extraído de Salvador Allende, Discursos, Editorial de Ciencias Sociales, La Habana, 1975.

Escrito por jm às 16h39... | Comentários (1)

10 de setembro, 2003

novo blogue de política à esquerda

o itálico do Blog de Esquerda, Daniel Oliveira, juntou-se a uns amigos e fundou o blogue barnabé, homenageando Sérgio Godinho.

espero que se atinem rapidamente e discutam o que há a discutir.

Escrito por jm às 09h46... | Comentários (0)

não se assustem com os arquivos

informo-vos que todo o arquivo do Rain Song se encontra, agora, aqui! toda a história desde 2001... perdem-se os comentários de antes... nem tudo é perfeito.

com o tempo, o arquivo, já on line, será categorizado e arranjado esteticamente. divirtam-se pelo passado... eu vou dormir!

Obrigado, Paulo Querido!

Escrito por jm às 01h42... | Comentários (0)

9 de setembro, 2003

poesia? iii

a.s.- venho insurgir-me contra o mutismo e a nivelização igualitária do objecto poesia. Quero dizer não aos que têm a opinião de que todos os que escrevem em verso são poetas.

Dedico um só entrada ao género conjunto de sites de poesia, por serem mais visíveis: com mais colaboradores e doadores de conteúdos, o panorama público torna-se menos preocupante do que para os outro géneros; por serem falsos qualificadores; por serem, enfim, propostas desviantes do que se pretende da poesia: que ela o seja.

Como já foi abordado nos comentários aos outros poesia?, a generalização do que aqui escrevo a outras áreas é possível e, porque não, até conveniente.

A maioria dos sites que convida a integração neles da poesia do navegante, são sites complexos cheios de maravilhosas pérolas de escrita individual, escritas em verso que deveriam ficar guardadas em diários, como uva pisada que fermenta durante horas antes de ser esprimida... e ainda ficar anos em casco.

Esses sites têm a excelência de concederem a qualquer um a exposição dos seus escritos, alguns até permitem a inserção de comentários individualizados (ex. @poesia). Contudo, a participação é anárquica, ficando somente à mercê dos leitores a crítica, o que tem, pelo menos, dois factores negativos: a opinião não é caracterizada por fundamentação, a exposição na montra pode levar o potencial poeta a deixar-se ir na letargia do seu sucesso público - mas sem apresentar qualidades -, ou atirá-lo para a desistência precoce, ainda que pudesse amadurecer e melhorar a sua construção poética.

Penso que na origem destes sites está uma vontade de divulgar escritos de pessoas com pouco volume de trabalho, pessoas a quem é negada a edição, pessoas a quem não interessa a edição, pessoas que só querem expor os seus trabalhos publicamente ou etc.. Louvável vontade, não negarei (ex. #poesia_livre).

Mas nessa vontade de não crítica, de serem cheios de alegria ao abrirem portas, são também horrivelmente niveladores qualitativos. Somos todos iguais, irmãos, nesta casa comemos todos do mesmo prato. A responsabilidade é vossa sobre o alimento que escolhem deglutir., parece-me um mote moralmente inútil nestes meandros.

O que falta? Penso que falta a estes sites uma consciência pedagógica, será que consideram, os seus gestores, que não têm que se arrogar de críticos ou educadores, porque também eles são ou foram acossados? Talvez! Mas, é necessário evidenciar falhas para que elas desapareçam. É preciso distinguir metas para que elas sejam ultrapassadas. E isto, no meu entender só se atinge com conselhos editoriais.

Já ouço as vossas vozes levantarem-se: caímos assim na mesma linha das editoras de papel!. Mas que têm elas de mal? (pergunta retórica) Se os gestores conhecem os pecadilhos das editoras de papel evitem-nos, mas não passem directamente para o lado oposto: do facilitismo rombo não se tornem indiferentes à necessária crítica.

Os conselhos editoriais podem falhar, podem ser ultrapassados por motivos de gosto, mas saber escolher um conselho e tornar clara a linha de exposição dos sites é o que os autores, os conteúdos e os leitores merecem.

p.s. - surgem apenas dois exemplos neste texto, mas são exemplos importantes pelo que têm, os dois, de bom e de mau.

Escrito por jm às 13h06... | Comentários (4)

a almeida

a almeida
varre a rua
ventosa
o lixo escolhe
se fica
se vai

fica mais
como a gente
que tem medo
de partir

pouco vai
e não volta

a mulher
varre a rua
ventosa
olha em redor
caminhando
a arrastar a vassoura

Escrito por jm às 10h51... | Comentários (3)

8 de setembro, 2003

conversas entre poesias do papel

Os posts poesia? são e serão uma tentativa de mexer com ideias, mas não num sentido académico ou de cultivo de gostos, talvez mais tarde surjam posts poesia! onde eu me permita discutir gostos e construir críticas.

Para já, considero importante ir para a poesia em papel e ler o artigo-resposta de Pedro Mexia a Jorge Reis-Sá, publicado no Mil Folhas do passado Sábado.

Infelizmente, não tenho o texto de Jorge Reis-Sá (caso alguém me possa ceder uma cópia eu agradeço), mas fica agora o ficheiro de Pedro Mexia a salvo do passado.

Ler Contribuição Autárquica.


update 12h37: após uma única busca pelo Google.pt, encontrei o texto em falta, nesta dicussão entre Pedro Mexia e Jorge Reis-Sá, no blog de Carlos Alberto Machado, a quem agradeço a preocupação que teve em guardar o documento.

Ler A Poesia de Agora.

Escrito por jm às 11h40... | Comentários (0)

7 de setembro, 2003

poesia? ii

a.s. - uma introdução ao que se segue: A poesia enquanto linhas escritas em verso, ou seja, aquilo a que muitos chamam poesia... pode não ter sentido poético algum, pode, enfim, ser qualquer coisa que pareça mas soe mal, ou não seja nem soe.

A internet trouxe a liberdade, a cada um, de expor a um universo potencialmente gigantesco os seus escritos - eu sou um deles, não me estou a pôr de parte. Haverá sites mais lidos do que muitos livros - que ganham pó e são ninho de bichos lindos em livrarias e armazéns. Aquele universo é um retrato alargado da imagem real do mundo livreiro: a escolha é imensa e o objectivo é encontrar algo de que gostemos - que até pode lá estar mas talvez não encontremos.

A dita poesia, na internet, está espalhada como sementes de aveia ou trigo, quero dizer que a poesia na internet tem uma ocupação muito grande no espaço literário virtual, superior a qualquer área ocupada por livros de poesia em relação a todos os outros géneros, numa livraria . (Será melhor reservar esta generalização ao panorama da língua portuguesa em terras de língua portuguesa.)

Constata-se que existem três géneros efectivos de divulgação da poesia na internet: individual, comunitário e conjunto. Defino-os da seguinte forma:

     individual - site gerido por uma só pessoa com conteúdos dela;

     comunitário - site gerido por várias pessoas em que todas participam com conteúdos;

     conjunto - site gerido por uma ou mais pessoas, com conteúdos do(s) gestor(es) e de terceiros.

(Existirá, ainda, um quarto género que se imiscui por entre estes e se define pela apresentação de poesia de consagrados e/ou publicados, que não abordarei, pois só me interessa, agora, a poesia nova ou desconhecida.)

O grau de qualidade de cada género é muito variável, contudo, a maior análise insidirá sobre o género conjunto, que mais tarde abordarei.

A franqueza - pela exposição voluntária - de um site individual ou comunitário, é por si só garante de uma maior consciência face ao mundo leitor: o grau de qualidade é observável quase de imediato e a crítica - se a houver - dará elementos para uma validação, evolução e/ou recriação dos conteúdos.

Não darei aqui exemplos dos meus gostos, exactamente porque são meus, contudo, considero que a maioria dos sites, nestes géneros, oferecem poesia de má a muito má qualidade.

Escrito por jm às 20h08... | Comentários (6)

6 de setembro, 2003

Artistas Unidos no Teatro Taborda

Lisboa volta a acolher as produções dos Artistas Unidos. No próximo dia 11, no Teatro Taborda, estreiam duas peças: A Festa e Victoria Station, ou seja, Spiro Scimone e Harold Pinter!

De 11 de Setembro a 12 de Outubro estas duas peças vão encher o Teatro Taborda, o teatro e a sala de ensaio! Preços: 8 Euro e 3 Euro, respectivamente. Consultem os links.

Reservas através do telefone 21 8854190.

Teatro Taborda

Escrito por jm às 23h08... | Comentários (1)

poesia? i

a.s. - o que aí vem nada mais é do que uma opinião. A forma e o conteúdo não pretende ser mais do que o que se escreve.

O óbvio: há quem goste de comer peixe, mas a maioria torce o nariz sempre que o vê na mesa, preferindo um naco de carne.

A maioria não gosta de poesia, não a lê e nem se interessa em procurar. Alguns, que gostam dela, procuram mostrar aos que não gostam motivos que os levem a interessar-se. Esta acção, proactiva e salutar, compreende um primeiro passo que é encontrar um poema ou um autor que se aproxime dos gostos de leitura em prosa da pessoa ignorante.

Esse poema primeiro, costuma navegar por ideias acarinhadas pelo ignorante. O poema é sobre cães, gatos, amor ou isto tudo em conjunto com uma estação do ano. Os clichés literários são enfim uma falha comum ou tão só reflexo da vida comum.

Ler um poema de O'Neil sobre cães, pode não ser a melhor escolha para uma aproximação, porque os cães de O'Neil poderão não corresponder à figura de cão de que o ignorante gosta.

Isto vem de encontro a outra constatação do óbvio: podemos gostar de comer carne, mas existem muitos tipos de carne e é sempre possível não gostar de comer alguns.

Escrito por jm às 17h16... | Comentários (2)

5 de setembro, 2003

breve nota...

para comentar o facto de que nada existe de mais interessante do que aquilo que neste momento vocês estão a pensar ou tentar saber.

Escrito por jm às 19h34... | Comentários (5)

1 de setembro, 2003

calo a vontade de falar

calo a vontade de falar
e me defender
de quem me cansa
os sentidos

todos me cansam
receando pouco mais
que o meu silêncio
falam para os meus ouvidos

idolatram verdades imensas
num jogo de interesses
que perdi faz tempo

já não tenho mais
para além
do meu silêncio.

Escrito por jm às 13h00... | Comentários (3)

a new house is not always a home

a tua casa é onde te sentes em casa.
a tua casa é aquilo que fazes dela.
estarás em tua casa quando lhe chamares a minha casa.

não tenho a minha casa, vivo onde posso: tenho casa.

Escrito por rainsong às 00h00... | Comentários (5)