28 de abril, 2003

destas coisas culturais

uma amiga destas coisas culturais e menos culturais, sociais e, para muitos, apócrifas, congratulava-se humilde e timidamente de que começara a escrever para um universo superior a seis pessoas diárias. e, pensei eu, AINDA BEM!

saber que somos lidos, em qualquer vertente da escrita - a grande maioria prefere os chats com mais de trinta users -, é um facto que massaja o ego. massaja o meu ego, massaja qualquer ego.

a minha amiga estreou-se com um artigo simples, objectivo e, claro, controverso. a clareza da controvérsia, entitulada "A Cultura não é para quem pode - é para quem quer!" era tanta que ao terceiro comentário, lá estava um pessimista anónimo a dizer que a estupidez humana é tamanha que não crescerá mais... e tamanha é, ainda, que se nota ser indestrutível. no comentário deste pessismista o que mais me perturbou foi o seu anonimato, caracterizado por um receio óbvio de se confrontar com honestidade.

acontece muito ao mundo identificar-se como sendo o melhor, revelando que o outro mundo, dele diferente - o outro -, é algo com limites bem definidos, pequeno e horrível. bem hajam estes anónimos do mundo! será que também escreve quadras populares?

a minha amiga escreve na Janela Indiscreta.

Escrito por jm às 21h43... | Comentários (0)

26 de abril, 2003

a porra e a merda

a porra desce de vaga em vaga a rua.
nas diferentes vagas de gente diferente que, na rua, desce.
a porra desce.
as vagas separam-se por mílimetros e distinguem-se pelo cheiro.
os perfumes dependem da porra, que, nas diferentes vagas, cheira de maneira diferente.
a porra desce a rua que sobe em sentido contrário.
desce, de vaga em vaga, sem vergonha de quem sobe.
no intervalo das vagas, aproveita, a merda, para subir a rua.
de vaga em vaga, choca com a porra e gritam!
PORRA! MERDA!

e assim existe um povo.

Escrito por jm às 16h21... | Comentários (0)

24 de abril, 2003

venho anunciar o fim!

venho anunciar o fim! o fim dos dias em que me possa ter sentido enclausurado a uma vida. percebo, tão só, que a vida é uma clausura permanente, e que, a vivê-la, tenho apenas que encontrar os espaços simples e limpos de cheio.

uma amiga de quatro patas olha para mim, faço-lhe festas. o vento, correndo nos corredores urbanos, parece querer fazer cair o mundo dos mais pequenos. a negrura do céu é mais feliz pelas nuances brilhantes dos dias.

anuncio, portanto, o fim dos dias de clausura irreal. anuncio, contente, a tristeza do incontável. a serenidade abate-se sobre a mente perturbada deste que vos diz: anuncio o fim dos dias de medo!

amanhã comemora-se o 25 de Abril de 1974, alguém se lembra?

Escrito por jm às 12h10... | Comentários (0)

23 de abril, 2003

o dia do livro

ler ou escrever? escrever sem ler? ou ler sem escrever? ou nada disto? ou tudo isto?

hoje, que ninguém me vai ler, o mundo comemora o livro: o livro objecto, o livro conteúdo; o livro medo e tortuoso que comanda vidas e as enclausura. enquanto escrevo, ouço apontamentos de rádio sobre leitores, que lêem poemas e trechos de prosa. e penso: e os outros?, que não sabem o que um livro é, e não o sabem interpretar melhor por lhe dizerem um poema, ou lhe falem de "Gog", ainda que a descrição seja explícita. hoje, que se comemora o livro objecto ou não-objecto, por virtual, esquece o mundo que o livro não tem significado para a civilização que o comemora com a grandeza duma civilização superior, porque é a ignorância que dita os trilhos por que percorrem as vidas próprias. e, parece-me que há que definir os livros polo seu conteúdo, há que definir o objecto livresco independentemente do objecto livro. há que saber apelidar a incapacidade literária na escrita e chamar pelos nomes certos os que a fomentam.

Escrito por jm às 11h10... | Comentários (4)

21 de abril, 2003

as novas estratégias

as novas estratégias do homem enquanto homem, não são novas, são o reformular da sua atitude milenar perante o outro. o outro um seu igual diferenciado. das estratégias de interacção entre homens diferenciados, retira-se um denominador comum: o domínio de um sobre o outro.

poderemos pensar que esse domínio advém do poder que cada um tem disponível. mas, na verdade, parece-me a mim - e não só, mas já lá vamos - que o domínio surge em primeiro lugar, o mais importante, o determinante, da vontade de o exercer.

o que constatamos ao olhar e ver o mundo actual, contemporâneo nosso e de centenas de anos atrás, é que o exercer do domínio sobre o outro encerra também o fim das ilusões, o fim dos sonhos, o fim da vida utópica do subjugado, do dominado, que se deve comportar - de ora em diante - conforme é dito, ditado, pelo dominador, que lhe tirou a sua identidade, pois, se foi dominada, não tem interesse em permanecer.

causa-me, a mim, confusão, que não se perceba as funções de equilíbrio, tão divulgadas e acarinhadas por metafísicas religiosas com raízes... enfim, com raízes em tempos tão recentes, tão carismáticos das suas motivações fundadoras: o domínio de um sobre o outro, em que um tira e o outro abandona. I take, you leave

ontem, vi pela primeira vez o filme Instinto. o seu argumento foi baseado num livro que estimo: Ishmael. o filme trás um movimento de "o bom selvagem" para a nossa contemporâneidade, que pode prejudicar o conceito base: o respeito pela existência de cada outro, porque e só porque, o conceito de "o bom selvagem" é, ele mesmo, uma construção preconceituosa de ver o outro..

Ishmael é um gorila que vive na cidade e que escolhe os seus estudantes. Ishmael ensina a construir uma filosofia de respeito pelo outro, em que o objectivo seria deixar de haver o domínio de um tipo de povo sobre outro tipo de povo. a necessidade inerente para a manutenção da harmonia é esta, cada um dos povos que existe permitir ao outro existir por si, com as suas regras.

depois conversamos... algures.

Escrito por jm às 11h54... | Comentários (0)

17 de abril, 2003

é preciso uma revolução.

é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. não te deixes adormecer. é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! não te deixes enganar... abre os olhos! vê quem te persegue. ZOMBIES! vê quem te atinge o pensamento! líderes duma nova ordem, sem justiça nem verdade. é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! é preciso uma revolução. uma revolução! não nos deixaremos adormecer! é preciso uma revolução. uma revolução!

Escrito por jm às 10h36... | Comentários (0)

16 de abril, 2003

escreve-se ponto no stop

escreve-se ponto no stop

um ponto final à vida vai ser o que muitos portuguesinhos vão dar a si mesmos como oferenda nesta Páscoa santa. as viagens, necessárias e obrigatórias à terra ou ao Algarve ou a Espanha, já começaram, na demonstração da possível felicidade dentro das dificuldades económicas que tantos têm. Tantos?, os outros... eu tenho cartão de crédito!

os portuguesinhos são enfermos! não têm... inventam para ter... até chegarem ao ponto sem retorno do nunca mais vão ter.. e devem sempre... verdade seja dita, o que eu tenho visto de deliciosas vidas devedoras é capaz de fazer inveja a muitos.

quanto mais velho, mais vejo que as gerações não mudam.. não existe preocupação pelo outro... ou, se existe, é tão banal e tão sem sentido... ele deixou-te? és muito melhor que ele! ou tenho que o ter sempre debaixo de olho. ou vou engravidar para sermos felizes. a mentira é a base de tantas relações. os amigos são de copos e discotecas e amores. os amigos são de copos e de dores.

esta Páscoa trará felicidade a muitos... aos que morrem e a alguns que vivem. boa Páscoa.

Escrito por jm às 10h33... | Comentários (0)

15 de abril, 2003

três lírios brancos e uma rosa vermelha

três lírios brancos e uma rosa vermelha.

esta rosa vermelha
é para ti
junto-lhe três lírios brancos
despeço-me no vazio


nada sei
nada tenho a mais para te dar
agora


nunca soube do tempo
nunca soube de mim

Escrito por jm às 10h26... | Comentários (0)

9 de abril, 2003

Olhos de Cão

Olhos de Cão, Daniel J. Skråmestø

Cruzei-me com o Daniel duas vezes. Não conheço o Daniel. É um estranho com quem me cruzei e com o qual simpatizo. A segunda vez que me cruzei com o Daniel foi na apresentação pública do seu primeiro livro, Olhos de Cão, das Publicações D. Quixote, que aconteceu na livraria Bulhosa, em Entrecampos, Lisboa.
Olhos de Cão, Daniel J. Skråmestø
Li o livro. O livro demonstra a cidade. Demonstra a cidade que se impregna e cresce em nós. Uma cidade. A cidade de cada um. A cidade de personagens tingidas pela afirmação simples de serem humanos: homens.

Temporalmente localizados entre 1997 e 1998 e escritos posteriormente, os textos que se encontram no livro, fazem de Lisboa o centro de mobilidade das personagens. Uma Lisboa comum, mas desconhecida de muitos: o Chiado, o Bairro Alto, a rua de S. Bento... nesta Lisboa, vamos encontrar os nossos personagens (re)conhecendo-se por sinais, por sentimentos... e, por partilha dos mesmos lugares físicos. Mas existe lugar às raízes de infância, a terra da avó. Existe o lugar à morte das razões que nos ligam às raízes... e que nos renovam.

Daniel J. Skråmestø é um autor nascido na geração da movida individualista, os grupos não existem! O que existe é uma comunhão de ideias que se interseccionam, mas nunca são aceites no seu todo pelos indivíduos que as partilham. Os personagens principais deste conjunto de textos são homossexuais. Libertam-se e comprometem-se com o tempo, mas sofrem encarcerados pela incompreensão dos outros... a falta de empatia... a falta de conclusão dos seus desejos... a incomunicabilidade, como referiu Eduardo Prado Coelho e confirmada pelo autor, na sessão de apresentação do livro.

A escrita de Daniel J. Skråmestø é simples e aberta, isto é, não esconde o que se pretende dizer nem faz rococós. Passa pela música de Jeff Buckley, a filosofia de Kant e Hegel e a semiótica de Omar Calabrese, sem que seja essencial conhecer o trabalho destes homens para sentir e mergulhar na história... na estória.

Talvez seja fácil não gostar desta estória. Se não houver pontos de contacto com a realidade da acção, dos sentimentos, da dor, etc. é possível que nos passem ao lado a acção, os sentimentos, a dor, etc.. A escrita fragmentada deixa o leitor respirar e imaginar um enredo maior do que o que é lido... Para isso é necessário que o leitor esteja preparado, predisposto a tal.

A escrita fragmentada deste livro vem mostrar que a nova escrita portuguesa está bem... existe em mim uma exacerbada vontade de dizer: não gosto de clássicos... mas isso pouco importa. O que importa é saber que me entendo com esta escrita perdida de sentimento, romântica... incompreendida.

---- deixo agora uma breve entrevista feita por mim a Daniel J. Skråmestø ----

josé manuel - a localização temporal 1997 e 1998, a importância do desenvolvimento individual e a idade do escritor, podem determinar os lugares e as ambiências? - é claro, que, neste caso, tendemos a reduzir a pessoas que viveram na área da grande Lx, ou viveram Lx...

daniel j. skråmestø - Claro que sim. O livro foi escrito na Noruega, e houve uma grande dose de saudosismo em evocar os dois anos imediatamente anteriores à minha mudança. Por isso me refiro à minha faculdade, ao Chiado e outros bairros que faziam parte do meu cenário de todos os dias. E depois a música, os ambientes são na sua grande maioria evocações de coisas vividas e sentidas.Quando eu estava a escrever isto não estava a pensar num público, estava mais ocupado em passar para o papel experiências pessoais. É muito egocêntrico, verdade seja dita, mas é verdade.

jm - a fragmentação poderá ter fundamento na formação (escolar) base do escritor? ou, em adição, a leitura poética do tempo: reduzido, fragmentado - que vivemos
nos percursos estudantis... ainda, a separação, que tantos adjectivaram de crucial, entre a família e o mundo?

djs - Não me parece que a fragmentação tenha a ver com a minha formação escolar, antes pelo contrário. Levou-me muito tempo a conseguir quebrar a noção de que tinha de escrever capítulos cada vez que me dispunha a escrever um livro (que houve tentativas anteriores). Foi preciso desligar-me disso e pensar que estava simplesmente a escrever coisas que me apetecia escrever para conseguir fazer com que nascesse um corpo de texto que depois cresceu o suficiente para se lhe poder chamar livro.

O tamanho dos fragmentos tem unicamente a ver com a minha capacidade de concentração que obviamente não é muito duradoura.

jm - o romantismo da fragmentação, o espaço deixado vazio para a história que não está escrita, cria, ou não, um lugar ao leitor?

djs - Claro que sim e essa é uma das coisas que mais me fascina em qualquer história, o que não se diz, o que é apenas sugerido. Além de que um livro deve ser também do leitor. Eu estou à espera que o leitor tenha imaginação para encher os buracos que eu deixo na história. (mas que bela desculpa isto também é para a minha perguiça)

jm - escreves poemas? não te exijo que denuncies se escreves poesia ou não... mas gostaria de saber da tua relação entre a prosa e a poesia enquanto escritor.

djs - Já escrevi alguns, nada ultimamente, mas algumas passagens de olhos de cão foram vampirizar alguns poemas que eu tinha guardados. O próprio nome "olhos de cão" surgiu pela primeira vez num poema. O Eduardo Prado Coelho que me desculpe, mas aquele pedaço de texto que ele leu na apresentação era o meu pequeno pastiche do Eugénio de Andrade [nota: referência ao texto "Na mente mantenho um lugar...", pág. 62]. Mais um dos numerosos clichés que eu propositadamente usei no livro :-) Mas esse como era algo mais erudito, provavelmente passa despercebido.

jm - consideras que a tua leitura "de livros grossos com capítulos grandes" te incapacitou/inibiu/estrangulou a escrita romanceada, volumosa, descritiva? ou, tão simplesmente, o tempo da tua vida é o espelho da tua fragmentada escrita... isto é, e extrapolando, existe uma compartimentação real, exigente, exigida(?) na tua vivência?

djs - fico-me pela resposta simples: Sim, para ambas as hipoteses.

Escrito por jm às 20h24... | Comentários (0)

a competição

a competição abrupta e violenta dos factos! e os factos que competem entre si... como lebres correndo para uma meta que só elas determinam quando lá chegam... vencedoras, orgulhosas... felizes. nunca mais me preocuparei com isso. o meu destino está traçado. acabou. deixarei de fazer parte da vida de todos aqueles que me prenderam a um ideal... mas continuarei presente, enfermo... engolindo em seco... à vida dos outros que me fizeram ser o que sou.

os factos... a visão das águias assassinando. a visão das águias morrendo. a visão dos carneiros assassinados. a visão dos lobos disfarçados.

Escrito por jm às 12h04... | Comentários (0)

5 de abril, 2003

Alá és grande.

Alá és grande.
Alá, meu senhor, sou teu servo.

o meu sangue pertence-te, utiliza-o
para que a vontade de bem
preencha os corações de
todos os homens.

Alá, meu senhor,
protege a família que me criou
e me fez orgulhoso
da tua vontade.

Alá, eu serei teu mártir e
partilharei contigo a vida
no paraíso eterno.

---- in caderno das armas, abdul ----

Escrito por jm às 18h35... | Comentários (0)

3 de abril, 2003

pergunta

pergunta
resposta
posta de peixe

espadarte
espada de arte
arte em riste

ris-te?
triste?

não interessa
pergunta
não respondas

---- in caderno das armas, tom ----

arde em prazer
a tua dor
sem questionar

ferida em sangue
a tua dor
arde

rasga-se o teu ventre
em prazer na dor
que tiveste

e tens dor
quente, em sangue
morres

---- in caderno das armas, tom ----

Escrito por jm às 11h28... | Comentários (0)