31 de outubro, 2002

um momento de sol

um momento de sol
um tempo lindo no raiar da manhã

és tu meu amor
a quem desejo
a paz
és tu
perdido entre os lençois

um momento de sorriso
sincero
um tempo aberto
à eternidade

num só silêncio
ao acordar

Escrito por jm às 14h59... | Comentários (0)

26 de outubro, 2002

cidade

um sorriso em silêncio. vagueio os olhos pela rua e vejo o silêncio duma voz oferecendo sexo, com a língua de fora e os dedos a massajarem as coxas e a passarem entre lábios desnudos. com este frio é bom que se mantenha quente. continuo pela rua, sem sorriso, fumando.

Escrito por jm às 12h45... | Comentários (0)

22 de outubro, 2002

prometeu - rascunhos

prometeu - rascunhos, de Jorge Silva Melo

prometeu - rascunhosrapaz das obras - Mas porque é que estão tão tristes... a mim disseram-me que era uma festa, falaram-me da liberdade, falaram-me do fogo, de roubar o fogo aos deuses... não estou a perceber...

Este livro é um poema feito teatro. Continuamente, um poema dividido em cenas e espectáculos em si mesmos suportados.

Os textos neste livro estão em tensão/diálogo com o leitor/espectador. Responde, o livro, mais cedo do que se pensaria, ao leitor, sabendo nós que o livro não reflecte nem improvisa um momento diferente daquele em que foi concebido - talvez esteja a fechar a escrita ao escritor... mas ao leitor cabe tão só a gigante reinterpretação dos momentos.

Jorge Silva Melo, dramaturgo, encenador, escritor, artista, está triste, para além de descontente e insatisfeito, está triste com o mundo dos deuses que não existem - mas mostram e demonstram poder, subjugando todos os mortais (ignorantes, saudavelmente felizes). Nos momentos cruciais, em que o melhor pareceu possível, o poder e ânsia por ele, fez sucumbir homens e mulheres às mãos dos deuses - mortos pelos homens e mulheres.

Jorge Silva Melo revela-nos a sua aspereza perante uma sociedade que vive de derrotas consecutivas sem se aperceber delas, permanecendo em ignorância e atravessando os tempos num contínuo de festejos de momentos significativos mas sem geração de frutos maduros, pelo contrário: atrofiados por degeneração de ideais e transformações convenientes das ideias.

Este livro deixa em aberto a esperança de um teatro que pensa em conjunto com a sociedade.

a água que bebemos
a água que é o nosso corpo
é merda que nos mata
dia a dia nos mata


Escrito por jm às 03h08... | Comentários (0)

16 de outubro, 2002

um bocado de vida

imagino um bigode teu. imagino-o enquanto olho de longe a espuma branca de cerveja preta que bebes. receio o teu sorriso adornado de espuma branca. todas as noites em que estamos sós numa mesa sem sonhos para partilhar nem vida para viver. nós, todas as noites em branco. vai começar um ano novo. é outono no meu sentir. inicia-se sempre um novo ano a cada dia de sol que brilha e me incomoda. é outono sempre que choro e a chuva vem molhar as janelas. o vento solta-se nas minhas ideias e antevejo uma vez as vezes todas que nos iremos despedir num até já sentido como um permanente adeus. e o afastamento dos dias de um futuro sonhado já sem esperança: mutilado e enfermo: sem carne.

estou mudo. a visão perturbada pelo outono. o vento que leva os sons para longe. tento tocar-te em sangue. já não cheiro o teu perfume nesta noite branca de silêncios falsos e corrompidos pela astúcia do criador. fora de mim não tenho razão e em mim não sou por estares ausente.

meu amor, esta noite é a noite de todas as noites solitárias e vazias. meu amor, este outono parece ser para sempre como se fora o passado outono da minha vida inteira. meu amor, suspiro ruídos de horror por não saber porque o sol me irá incomodar tanto amanhã quanto hoje. e as minhas janelas deixam escorrer a chuva intensa que se abateu sobre a minha consciência.

confirmo que o outono é perene. e a minha vida quando for finda deixará o tempo assim. as recordações do silêncio serão um reflexo outonal de janelas molhadas. de mim não restará nada para além de letras do imaginário fácil que construí.

imagino o fim do mundo sem significado. o fim do mundo será o mundo que sobrar. e as sobras do mundo inteiro é já o mundo que existe, pois nele não cabe o que somos. e o fim do mundo não será de todo notado pelo mundo.

meu amor, preciso menos do ar que de ti e só por ti me permito respirar as doenças que não transgridem leis algumas e são a verdade dos tantos que nos dizem enfermos. meu amor, só os animais e as flores nos pressentem. meu amor, só as crianças nos devolvem a certeza de contentamentos a esquecer na idade adulta. meu amor, é outono e sinto medo de olhar o sol por dentro e não sentir o fogo matar-me.

Escrito por jm às 01h23... | Comentários (0)

14 de outubro, 2002

um só suspiro. um só olá. fomos belos e fáceis de encantar. amaram-nos, pensavamos. um só abraço e a vida ali ficava prostrada para sempre. uma eternidade prometida. um só adeus e um só sorriso eram promessas de amor. hoje, o vazio da dor e da loucura. um só sentido de esperança.

Escrito por jm às 01h03... | Comentários (0)

11 de outubro, 2002

não acredito em nada

não acredito em nada. todas as mentiras são a mais pura verdade na boca de muitos: tantos: de mim. silencio o que penso. se dissesse o que penso, niguém ouviria a verdade. tenho receio da loucura e da diligência fácil do suicídio. não leio as palavras todas para ir acertando no que querem dizer, para lhes extrair, em algum momento, o conteúdo real. não acredito que me digam a verdade. a verdade é tão real como deus à sombra de um sobreiro.

Escrito por jm às 10h16... | Comentários (1)

9 de outubro, 2002

o silêncio

o silêncio
bate em ritmos lentos
faz estremecer o sangue

o silêncio
tem carne e músculos
morre

Escrito por jm às 12h30... | Comentários (0)