30 de novembro, 2003

em banho maria

globalmente, no mundo, o capitalismo trouxe de volta a ignorância. a ignorância é a solução ditatorial e totalitária para que o poder regente não seja posto em causa: assim temos uma espécie de igreja: fanáticos com poder.

a população portuguesa é uma esponja no que toca a valores globalizantes, sejam eles de facto globalizantes ou simplesmente caracterizados por uma actuação governativa de interesses. os interesses são, definitivamente, o que move as esferas do poder, esferas estas que ou detêm o poder ou lhe acedem indirectamente por meios pouco claros, embora há muito esclarecidos.

a população portuguesa, e não só, tem agrado em ser ignorante, cede facilmente à necessidade de ordem imposta e perturba-se com a abstracção.

curioso é ver que uma governação hesitante, apesar de castrativa, deixa em aberto várias ideias, tais como: a população é assim porque não existe ordem; a população é assim porque existe perda de valores - quero dizer aqui que recuperá-los implica voltar atrás e não uma transformação; tudo o mais exige uma reacção ou uma revolução.

neste momento é claro que não existe espaço para revoluções. o poder foi distribuído de uma forma que equilibra a defesa dos interesses de vária ordem, inda que em permanente conflito.

portanto reage-se: reage-se à direita e à esquerda, radicalmente. os discursos são, no entanto, abstractos. à esquerda são abstractos porque ninguém entende o que é a recriação das estruturas a partir da base, isto é, dar capacidade às bases da sociedade de modo a que ela intervenha. à direita são abstractos por serem obscuros: recriam-se mílicias, utilizando a base da sociedade como massa bruta para fundir vontades de mudança com elemento de combate físico, e geram-se cúpulas de interesses que coordenam regras normativas.

a direita tem valores morais antigos, antigos por serem de há muito tempo e recuperados sempre pelas novas gerações, mesmo que os grupos associados ao pensamento de direita tenham sofrido mutações mais humanistas. mas, essencialmente, as regras são fundamentais. as regras desta direita reduzem os direitos, restringem o verbal a um infíma parte do vocabulário disponível e a conversa a uma vertente única de felicidade.

a esquerda, munida dos intelectuais, apresenta conflitos internos quanto aos métodos de intervenção directa e, sabemos, acaba por não acreditar na mutação da sociedade ignorante, de tão acéfala e pouco disponível para aprender que esta se mostra.

acredito pois que em breve teremos células de reacção à ordem instituída. em breve teremos intolerância ainda mais visível e próxima de todos nós. e os mesmos que apelarão à calma e à segurança serão os instigadores morais e reais das atitudes condenadas.

o poder cairá - se não caíu ainda - nas mãos dos interesses de poucos elementos: reaccionários e violentos, cujo objectivo não é mais do que alegrar na ignorância uma população já alegre e ignorante, mas ainda cativada por uma liberdade de movimento, mas já castrada intelectualmente - por isto inacessível à esquerda.

este país não teve uma guerra civil no século passado, para fazer estremecer os espíritos incautos, e as novas gerações não sabem o que significa, por lhes ter sido ocultado, a permanência duma letargia imposta durante 48 anos... a letargia, apesar de tudo, é agora continuada de uma forma mais subreptícia.

Escrito por jm às 21h58...




Comentários

j.,

divorciar-me do dn, de há umas semanas para cá, como te disse, andar por aí barata tonta com os sprints finais que aí estão desta fase (novos já estão em lista de espera), traz-me aqui (net) em intervalos.

pois, neste intervalo, li-te e senti-me contente de ter este jornal nas mãos, lia esta crónica (posso chamar-lhe assim?) e fui espreitar o nome do cronista (posso chamar-te assim?)... j.m.

fixe, pensei, porque sou mais ou menos duma geração que diz 'fixe'...

fixe, alguém que está mm mm a falar de Portugal, e... desculpa lá o atrevimento... senti, até, um pouco da pena que sentes por tal tipo de culinária lenta...

a ver vamos...
a ver vamos...
sabes que, pelo menos, em banho maria, as coisas não costumam queimar...

Escrito aqui por margarete em 1 de dezembro, 2003 às 17h56

mas cozem em demasia... ficam a saber mal... ou ficam muito duras ou muito moles... ;)

Escrito aqui por jm em 2 de dezembro, 2003 às 15h09

Há apenas 200 anos um individuo médio recolhia na sua vida (75anos) tanta informação como a que compõe uma edição do Times. Onde está esse mundo livre da ignorancia, feita de massas educadas e atentas? De certeza que não é nem nos governos de nomenklatura nem nos de previlégio que abusam das populações analfabetas. Então? Está na classe média educada e viajada que emerge do crescimento económico. Por muito que às elites lhes custe o choque e os prefiram de volta ao estabulo

Escrito aqui por Primeiro Ministro em 2 de dezembro, 2003 às 18h36

Sr. Primeiro Ministro, se na classe média é onde reside o mundo livre da ignorância - foi o que entendi do seu memo :) - cabe-me apenas perguntar:

quantas pessoas são essa classe média educada e viajada? e essa classe média dialoga com quem? não será dentro dela?

aproveito para esclarecer que eu não sou contra a economia de mercado aberta, mas o facto com que abro a exposição não deixa de ser real por isso.

Escrito aqui por jm em 2 de dezembro, 2003 às 21h03