16 de outubro, 2002

um bocado de vida

imagino um bigode teu. imagino-o enquanto olho de longe a espuma branca de cerveja preta que bebes. receio o teu sorriso adornado de espuma branca. todas as noites em que estamos sós numa mesa sem sonhos para partilhar nem vida para viver. nós, todas as noites em branco. vai começar um ano novo. é outono no meu sentir. inicia-se sempre um novo ano a cada dia de sol que brilha e me incomoda. é outono sempre que choro e a chuva vem molhar as janelas. o vento solta-se nas minhas ideias e antevejo uma vez as vezes todas que nos iremos despedir num até já sentido como um permanente adeus. e o afastamento dos dias de um futuro sonhado já sem esperança: mutilado e enfermo: sem carne.

estou mudo. a visão perturbada pelo outono. o vento que leva os sons para longe. tento tocar-te em sangue. já não cheiro o teu perfume nesta noite branca de silêncios falsos e corrompidos pela astúcia do criador. fora de mim não tenho razão e em mim não sou por estares ausente.

meu amor, esta noite é a noite de todas as noites solitárias e vazias. meu amor, este outono parece ser para sempre como se fora o passado outono da minha vida inteira. meu amor, suspiro ruídos de horror por não saber porque o sol me irá incomodar tanto amanhã quanto hoje. e as minhas janelas deixam escorrer a chuva intensa que se abateu sobre a minha consciência.

confirmo que o outono é perene. e a minha vida quando for finda deixará o tempo assim. as recordações do silêncio serão um reflexo outonal de janelas molhadas. de mim não restará nada para além de letras do imaginário fácil que construí.

imagino o fim do mundo sem significado. o fim do mundo será o mundo que sobrar. e as sobras do mundo inteiro é já o mundo que existe, pois nele não cabe o que somos. e o fim do mundo não será de todo notado pelo mundo.

meu amor, preciso menos do ar que de ti e só por ti me permito respirar as doenças que não transgridem leis algumas e são a verdade dos tantos que nos dizem enfermos. meu amor, só os animais e as flores nos pressentem. meu amor, só as crianças nos devolvem a certeza de contentamentos a esquecer na idade adulta. meu amor, é outono e sinto medo de olhar o sol por dentro e não sentir o fogo matar-me.

Escrito por jm às 01h23...




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