9 de setembro, 2003

poesia? iii

a.s.- venho insurgir-me contra o mutismo e a nivelização igualitária do objecto poesia. Quero dizer não aos que têm a opinião de que todos os que escrevem em verso são poetas.

Dedico um só entrada ao género conjunto de sites de poesia, por serem mais visíveis: com mais colaboradores e doadores de conteúdos, o panorama público torna-se menos preocupante do que para os outro géneros; por serem falsos qualificadores; por serem, enfim, propostas desviantes do que se pretende da poesia: que ela o seja.

Como já foi abordado nos comentários aos outros poesia?, a generalização do que aqui escrevo a outras áreas é possível e, porque não, até conveniente.

A maioria dos sites que convida a integração neles da poesia do navegante, são sites complexos cheios de maravilhosas pérolas de escrita individual, escritas em verso que deveriam ficar guardadas em diários, como uva pisada que fermenta durante horas antes de ser esprimida... e ainda ficar anos em casco.

Esses sites têm a excelência de concederem a qualquer um a exposição dos seus escritos, alguns até permitem a inserção de comentários individualizados (ex. @poesia). Contudo, a participação é anárquica, ficando somente à mercê dos leitores a crítica, o que tem, pelo menos, dois factores negativos: a opinião não é caracterizada por fundamentação, a exposição na montra pode levar o potencial poeta a deixar-se ir na letargia do seu sucesso público - mas sem apresentar qualidades -, ou atirá-lo para a desistência precoce, ainda que pudesse amadurecer e melhorar a sua construção poética.

Penso que na origem destes sites está uma vontade de divulgar escritos de pessoas com pouco volume de trabalho, pessoas a quem é negada a edição, pessoas a quem não interessa a edição, pessoas que só querem expor os seus trabalhos publicamente ou etc.. Louvável vontade, não negarei (ex. #poesia_livre).

Mas nessa vontade de não crítica, de serem cheios de alegria ao abrirem portas, são também horrivelmente niveladores qualitativos. Somos todos iguais, irmãos, nesta casa comemos todos do mesmo prato. A responsabilidade é vossa sobre o alimento que escolhem deglutir., parece-me um mote moralmente inútil nestes meandros.

O que falta? Penso que falta a estes sites uma consciência pedagógica, será que consideram, os seus gestores, que não têm que se arrogar de críticos ou educadores, porque também eles são ou foram acossados? Talvez! Mas, é necessário evidenciar falhas para que elas desapareçam. É preciso distinguir metas para que elas sejam ultrapassadas. E isto, no meu entender só se atinge com conselhos editoriais.

Já ouço as vossas vozes levantarem-se: caímos assim na mesma linha das editoras de papel!. Mas que têm elas de mal? (pergunta retórica) Se os gestores conhecem os pecadilhos das editoras de papel evitem-nos, mas não passem directamente para o lado oposto: do facilitismo rombo não se tornem indiferentes à necessária crítica.

Os conselhos editoriais podem falhar, podem ser ultrapassados por motivos de gosto, mas saber escolher um conselho e tornar clara a linha de exposição dos sites é o que os autores, os conteúdos e os leitores merecem.

p.s. - surgem apenas dois exemplos neste texto, mas são exemplos importantes pelo que têm, os dois, de bom e de mau.

Escrito por jm às 13h06...




Comentários

Acho que concordo com o que afirmas, na globalidade. No entanto, também compreendo que surjam esses sites colectivos onde não há uma 'linha editorial'. Para mim, é muito difícil delimitar ou explicar a outros o que gosto em poesia, principalmente se tenho de o dizer sobre a poesia desses mesmos outros. Falas na questão pedagógica, se é verdade que a crítica selectiva é importante, enquanto professora (ainda que não de português), por exemplo, tenho de valorizar sempre qualquer fruto do exercício da escrita. É que é um bem tão raro, que qualquer semente deve ser aproveitada e, só depois, trabalhada, aperfeiçoada. Daí a minha dificuldade, se o tivesse de fazer, em dizer que não, apesar de não considerar poesia, em si, uns versos alinhavados. Os sites colectivos de poesia têm o seu papel e serão apenas um patamar. Talvez falte à net outros patamares superiores ou uma maior divulgação desses outros patamares. Lembro-me, por exemplo, da 'elefante editores' que tem uma revista interessante electrónica, onde há uma linha editorial. Talvez faltem mais projectos deste género que acompanhem algumas excelentes páginas pessoais ou blogs onde respira a poesia. Deixo o desafio. :P

Escrito aqui por Sandra C. em 14 de setembro, 2003 às 15h14

Não conhecia a Elefante e vou já averiguar.

Sandra,

Desisti formalmente de pretender editar, ainda que alguns me moam o juízo em volta da minha prosa. Da poesia sei que não gosto tendencialmente do que escrevo. Sei que falho na maioria dos pontos, na leveza e gentileza dos textos. Para além disso não produzo em suficiência.

A valorização de um escrito enquanto existência rara, deve ser feita, sim, mas não deve implicar uma publicação em prejuízo da sua maturação e educação. Receber poemas no mail e não saber dizer, é bom, mas precisas fazer isto ou aquilo ou aqueloutro... é mau.

Não condeno a existência dos sites, condeno o relaxe.

Escrito aqui por jm em 14 de setembro, 2003 às 17h00

Eu entendo e até subscrevo o que dizes, só não sei se o conseguiria fazer, se me desse para isso. Talvez sim, pensando melhor. Acho que a questão está no objectivo do que se quer construir. Se, à partida, afirmasse que teria de haver um critério/linha editorial, acho que o conseguiria fazer*. Só que os sites colectivos afirmam-se sem esta perspectiva a priori, logo...

* Tenho de reflectir melhor sobre isto. É uma questão de entranhas. (Que zigzags...)

Escrito aqui por Sandra C. em 14 de setembro, 2003 às 18h15

bem, às vezes não sabemos o que poderemos fazer sem antes o pormos em prática ;).

Gostei da Elefante. Vou ler os poemas que encontrei na revista com mais atenção logo. A Elefante tem algum do bom que eu não conseguia encontrar na Net.

Escrito aqui por jm em 14 de setembro, 2003 às 18h49