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December 02, 2010

birthday party






Não tem sido fácil contornar a ignóbil judiação doméstica de que tenho sido vítima desde que tornei público neste apartamento que uma das cadeiras do 2º semestre se chamava “estudos literários dois pontos poesia”. Garanti-lhe que vou continuar a esforçar-me por manter a minha linguagem simples, que a vizinhança académica não irá transformar-me num banal mete-nojo que faz gala em exibir nomes e palavras caras como se fossem troféus. Não adiantou. A judiação continua, mesmo sob o confessado intuito de me fazer cócegas. Obriguei-me a reagir.

Por enquanto, tenho hesitado no modus retaliativo. Chamo-lhe gorda? Todas as mulheres detestam isso, mas no seu caso nunca iria funcionar. Seria uma incongruência demasiado evidente, mas apelidar-me de “Poeta Doutor” é do piorio e igualmente longe da realidade. Tratando-se de uma falta de respeito básico, pensei seriamente em ameaçá-la com a defenestração do topo deste 8º andar. Nada de mais: um simples aviso preventivo só para ver se estanco o insulto soez, mas tal artifício também não iria resultar. Os meus bluffs, se bem que raros, não convencem ninguém. Ela sabe perfeitamente que andei à pancada apenas duas vezes na vida, e durante a infância. Ter uma imagem doméstica em que sou visto como incapaz de matar um insecto (um ou outro mosquito, sim, em defesa do nosso sono, do nosso sangue, mas sempre a seu pedido) em nada ajuda o meu intento retaliativo. Não me resta outra solução. Sem pré-aviso, defenestrá-la-ei hoje mesmo, durante o seu aniversário. Houve gente bem mais doida do que eu que assassinou as companheiras e escapou ao castigo, alegando brincadeiras à Guilherme Tell. Eu direi que a confundi com o fantasma de Miguel de Vasconcelos. Talvez funcione.

Ou talvez não. Enquanto rascunhava isto – danada, parece que me lê - aproximou-se, sorrateira, dizendo que já sabia o queria como presente: alguns versos e um par de livros. Fiz-me difícil. Livros? Ok, são quase todos fáceis, mas disse-lhe que os versos não se forçam, que a mim, pelo menos, acontecem quando menos os espero. Pois, mas continuo a querer alguns versos e um par de livros, insistiu. Forcei o que pude. O resultado não é brilhante. Que ao menos reste a intenção:


Se a morte e os seus notários ainda
exercitam, de forma polida e desejo
ausente, o desprezo por gente como nós,
enquanto puderes, toma-me como
complemento, confirmação, toma-me com
um pontapé no sem - a simples vontade
de contágio, o intuito de sempre:
o teu interminável sorriso.