março 28, 2004

Névoas

Névoas

Nas horas tardias que a noite desmaia
Que rolam na praia mil vagas azuis,
E a lua cercada de pálida chama
Nos mares derrama seu prante de luz,

Eu vi entre os flocos de névoas imensas,
Que em grutas extensas se elevam no ar,
Um corpo de fada - sereno, dormindo,
Tranqüila sorrindo num brando sonhar.

Na forma de neve - puríssima e nua -
Um raio de lua de manso batia,
E assim reclinada no túrbido leito
Seu pálido peito de amôres tremia.

Oh! filha das névoas! das veigas viçosas,
Das verdes, cheirosas roseiras do céu,
Acaso rolaste tão bela dormindo,
E dormes, sorrindo, as nuvens no véu?

O orvalho as noites congela-te a fronte,
As orlas do monte se escondem nas brumas,
E quêda repousas num mar de neblina,
Qual pérola fina no leito de espuma!

Nas nuas espáduas, dos astros dormentes
- Tão frio - não sentes o pranto filtrar?
E as asas de prata do gênio das noites
Em tíbios açoites a trança agitar?

Ai! vem, que nas nuvens te mata o desejo
De um férvido beijo gozares em vão!...
Os astros sem alma se cansam de olhar-te,
Nem podem amar-te, nem dizem paixão!

E as auras passavam - e as névoas tremiam
- E os gênios corriam - no espaço a cantar.
Mas ela dormia tão pura e divina
Qual pálida ondina nas águas do mar!

Imagem formosa das nuvens da Ilíria,
- Brilhante Valquíria - das brumas do Norte,
Não ouves ao menos do bardo os clamores,
Envolto em vapôres - mais fria que a morte!

Oh! vem; vem, minh'alma! teu rosto gelado,
Teu seio molhado de orvalho brilhante,
Eu quero aquecê-los no peito incendido,
- Contar-te ao ouvido paixão delirante!...

Assim eu clamava tristonho e pendido,
Ouvindo o gemido da onda na praia,
Na hora em que fogem as névoas sombrias
- Nas horas tardias que a noite desmaia.

E as brisas d'aurora ligeiras corriam,
No leito batiam da fada divina...
Sumiram-se as brumas do vento à bafagem,
E a pálida imagem desfez-se em - neblina!

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Copyright © Luís Fagundes Varela
Posted by Titilador at 12:22 PM | Comments (0) | TrackBack