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<title>Projeto21</title>
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<copyright>Copyright (c) 2007, Ayla SAyf</copyright>
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<title>Duas Mulheres</title>
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<summary type="text/plain">Conhece suas limitações? Até onde vai sua verdade consigo mesmo? Você realmente é aquilo que quer ou pode ser? Leia atentamente......</summary>
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<name>Ayla SAyf</name>

<email>aysayf@yahoo.com.br</email>
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<![CDATA[<p>Conhece suas limitações?<br />
Até onde vai sua verdade consigo mesmo?<br />
Você realmente é aquilo que quer ou pode ser?<br />
Leia atentamente...<br />
</p>]]>
<![CDATA[<p>Duas Mulheres</p>

<p></p>

<p>Não me recordo exatamente quando a vi pela primeira vez, mas era uma mulher ainda bonita (digo ainda, pois com o passar suas feições foram se deformando). <br />
Sentava-me sempre a certa distância da cama hospitalar e no inicio ficava completamente calada, sem interromper as pessoas que cuidavam dela, para que me permitissem ficar por horas olhando aquela mulher ser vestida, lavada e alimentada. <br />
Observá-la fazia-me pensar, pensar em minha vida. <br />
Minha vida sempre tão rotineira, mas não tediosa; simples. Sempre tive tanto medo de viver, me soltar, que quando passei a observar aquela mulher na cama, ali presa com seus pensamentos senti que podíamos de alguma forma nos ajuda e nos comunicarmos. <br />
Não tenho muita certeza do porque desse meu desejo, mas cri que poderia ser algo construtivo, uma troca, quem sabe até um motivo meio torto para uma pessoa que foi (?) feliz e livre, e de um momento para outro sentir-se absolutamente nua de qualquer pudor, valor ou mesmo de qualquer ação, enfim, sentir-se desnecessária.<br />
Seus olhos não eram vazios e sim terrivelmente amedrontados, como os meus. Eu sentia minhas pernas, podia movê-las, assim como meus braços, eu podia andar pensar ser livre e feliz, mas na verdade a comodidade que a vida me forneceu os mimos que sempre tive fizeram de mim uma pessoa vazia e triste, tão pouco dinâmica, que em nada me diferenciava daquela mulher e isso me atormentava; então eu estava lá para me confrontar com ela, e dia após dia, eu me perguntava qual das duas havia ganhado mais? Qual das duas havia vivido mais, tentado mais, se esforçado mais para mudar? <br />
Por fim e o pior de tudo era que algo me dizia que sempre ela, sempre aquela mulher ganharia. Em minha mente, tinha certeza que ela havia superado mais obstáculos que eu, ou então se esforçado mais. Seria possível eu ser assim tão fraca?<br />
Sentia inveja. Inveja de uma doente, porque para mim, minha vida era absolutamente ignóbil, sem sentido, mesmo sendo amada, tendo carinho, sabendo apreciar simples prazeres como o de poder caminhar ''de encontro ao vento'', ou simplesmente poder amar. Acima de tudo algo me faltava. Entretanto não tinha forças para suplantar esse meu estado que... Entendem? Para qualquer pessoa vida invejável, mas para mim, inútil.<br />
Não pensem que era aleatória, não, servia aos outros, trabalhava muito, me dedicava a todos que cruzavam de alguma maneira comigo, mas e a mim? O que de fato queria para mim?<br />
Eu não sabia, e se sabia, reprimia para não mudar, tinha vergonha de tentar dar o primeiro passo e romper com o tradicionalismo familiar, ser simples, ser forte, direta, não importando a maneira de como me sustentar ou de como conseguir me relacionar com a sociedade. Ter o alivio de me relacionar bem, de estar feliz com minha postura, sorrindo no final da tarde sentada à mesa brindando a labuta. <br />
Simples, sabem? A essência da vida. Entretanto aprendi que a vida só valeria se fosse eu não diria rica, mas vaidosa, soberba, orgulhosa, acima do bem e do mal; e essa era exatamente a guerra que eu travava comigo mesma, pois eu não sabia ser assim, mas eu tinha que ser assim. Então desisti: nem lá nem cá, se não me permitiam ou me permitia o meio termo, resolvi abandonar.<br />
Estava tão cansada de sentar-me ao piano e criar maravilhosas melodias, e diria mais, verdadeiras obras primas que somente ficariam ali, engavetadas porque eu não conseguir mostrá-las a ninguém pela própria insegurança gerada na minha criação, ou seja, de que se não fosse o melhor, a soberba familiar se abalaria. <br />
Então comecei invejar o simples, pra que tanto talento se não podia, ou não conseguia expor nem mesmo numa prateleira de supermercado? <br />
Sofria tanto, não conseguia, e enquanto observava aquela mulher pouco a pouco ir se atrofiando; pouco a pouco involuntariamente se fechar, ver suas mãos se encolherem seus dedos se juntarem e ter a absoluta certeza que na sua mente o inverso acontecia, ou seja, ela fazendo um esforço sobrenatural para um pequenino movimento, para lembrar de que podia ter esperança que existiria algo além de seus desejos cerebrais, que esforço após esforço, algo se exteriorizaria e ela conseguiria sair daquele estado vegetativo. Exatamente como eu.<br />
Como disse, sentia como se em nada me diferenciasse daquela mulher, mas tinha a consciência que de alguma forma ela queria minhas pernas e eu sua coragem.<br />
Contudo, ali, fora, eu só a via fechar-se, e creio que quando ela movia seus olhos para seu corpo, tinha noção de que seu estado estava cada vez mais decrépito. E eu a ajudava a ter essa consciência, lhe fazendo ver-se refletida num pequeno espelho que carregava em minha bolsa. Eu precisava que ela se olhasse para que tivesse consciência, assim como eu olhava o piano e ele parecia sempre tão distante, minha sala ficava tão grande quanto à distância impalpável de nossos sonhos. Não me permitia mais a criação para não sofrer. E aquela mulher um dia, lá no fundo de seus pensamentos, também perceberia que o melhor era não mais permitir a insistência pela vida, porque um dia...Ah, tolo daquele que diz que a esperança nunca morre. Morre!<br />
 Eu me aproximava bem perto de seu ouvido antes de ir embora e lhe sussurrava: —''desista''. E aproximava meu ouvido perto de seus lábios e fingia ouvir: — ''lute''! Como um jogo sádico; sabem? Então olhava fixamente para seus olhos sempre tão vivos e lhe dizia novamente: — ''Já lutei tantos anos quanto você lutará até entender que poderia ter desistido''! <br />
Aquela mulher parecia me convidar com os olhos a me desafiar e comparecer mais um dia para ver seu sucesso e sua luta enquanto minha desistência faria minha vida em nada mudar nesse mesmo período.<br />
Dia após dia, eu a olhava, e nada mudava, então dizia: - ''hoje eu venci''! Não era crueldade, era verdade. Eu estava ali, ela estava ali, eu não tinha forças e ela não sabia; mas também não tinha. <br />
Meu piano, aquela mulher. Fechava os olhos e com a ponta de meus dedos eu tateava sutilmente tecla por tecla, e imediatamente uma nova criação começava a surgir, linda, forte, maravilhosamente perfeita. Eu imaginava o som de cada instrumento e tudo isso ia se complementando harmoniosamente. Eu escutava, ''via'' a orquestra, podia até mesmo bailar ao som de minha mais nova criação. Em certos momentos de pura tortura e saudades, eu me concebia inspiração, deixava fluir, era maravilhoso, e durante hora, hora e meia, eu havia imaginado algo novo, belo, mas só imaginado, não exteriorizava mais nada. Não me permitia, isso não! Então aquela criação magnífica morria no momento que eu abria meus olhos.<br />
Mas o mundo é injusto, afinal quantas pessoas que verdadeiramente filosofam, criam coisas realmente bonitas que aprazariam a alma, e estão sufocadas pela conveniente falta de imaginação que cerceia a vida, mas que aparentemente libertam nossos passos e nos trazem prazer. O homem gosta em verdade é de ser tolhido, sufocado contando que seja absolutamente dentro dos padrões sociais. Onde estão os sábios construtores da música, das letras, das boas novas? Ouvidos para escutar, olhos para enxergar, garimpar e garimpar...<br />
No dia posterior quando a encontrei, lhe disse: —ontem eu criei, então hoje quero que ande por um campo florido. Ande não, corra, corra muito, pule, coma, abrace. Mas lembre-se, somente ilusão passageira, porque desse estágio, nem você nem eu passaremos. Não nos deixarão, o mundo não nos dará essa oportunidade. Não lhe darão uma fórmula mágica que lhe tirará dessa cama. Não é mais uma pessoa para sociedade, agora um fardo. Fardo esse que incomoda ao teu pai, a tua mãe. Seu esposo chora a desgraça de lhe ter como um saco pesado que terá que carregar. Mas não chore, não sofra porque eu também sou um fardo. Tenho pernas e braços, sei que deve estar pensando isso, mas o fato é que não consigo ser alguma coisa, não me permito o simples embora seja exatamente isso que invejo. Vou lhe confessar com um sussurro: ''tenho vergonha''. Almenos você não precisa ter vergonha. Não teve culpa! <br />
Será que minha vida também não foi um acidente? Eu fico pensando onde foi que eu me perdi e porque eu me permiti aceitar certas posições, decisões que tomei, deveria ter pensado mais, discutido comigo mesma. Engraçado que penso tanto que quase enlouqueço porque não consigo fazer com que meus pensamentos cessem, então não entendo como posso ser tão tola e nunca ter chego numa conclusão razoável sobre minha vida.<br />
 <br />
Tinha tempo, podia ficar ali quantas horas quisesse. Aquele local passou a ser meu templo de meditação, e o engraçado, que apesar de ficar indagando-me, e me confrontando com aquela mulher, ''meu dia'' era normal, ou seja: café da manhã com meu esposo, almoço, jantar. Era dedicada e vaidosa. Gostava tanto de me arrumar, apreciar minha beleza, me maquiava para realçar aquilo que tinha de melhor, colocava finas e delicadas jóias, vestido bonito, como sempre fiz, nada de fato parecia mudar. Entretanto no momento que me sentava naquela cadeira e olhava para aquela mulher, algo acontecia, e ali, podia ser boa e má, perversa comigo e com ela, podia descarregar minha ira, meu inconformismo. E quando eu olhava para aquela mulher e via que seus dentes estavam cada vez mais tortos, não pensava duas vezes: falava que ela estava cada vez mais feia porque seu corpo não conseguia entender pra que ainda funcionava se já não tinha função alguma, e que só não morria porque como eu precisava pensar, entender o motivo de tanta pasmaceira. Ambas só deviam ter a cabeça viva dentro de um vidro e doar o corpo. Seria nosso merecimento, o presente que nos cabia para uma vida digna! Sem lamentações, era o que mais gostávamos de fazer: pensar. Pensar até enlouquecer, pensar até não mais saber em que conclusão chegar porque não possuíamos mais inteligência para concluir. Esgotamos nossa sabedoria em nada.<br />
Ela ali, parada, parecia dormir, porém eu sabia que não, estava viva e em algum lugar de sua mente ela existia. Afinal porque raios o maldito cérebro mantinha seu sistema vivo, se não fosse para alimentar seus sonhos? E eu meu Deus? Ai de mim que sabia disso, ai de mim que podia andar e me mover e não estava ficando feia nem torta, mas só vivia porque alimentava meus sonhos, mas não havia forças em minha alma para concretizá-los. Precisava de ajuda.<br />
Precisava também que alguém me limpasse o corpo com um pano úmido, que me alimentasse, e que me olhasse, e me falasse coisas, me fizesse ver quem era. Mas não tinha ninguém que me fizesse esse favor. Então eu fazia por ela e por mim.<br />
Eu falava exatamente o que via, fazia-a compreender o fardo que estava sendo e como ficava gorda e feia e débil e mole:<br />
— Agora me olhe, me olhe com os olhos da mente, vê como sou linda, perfeita? Sou tudo o que você não será jamais novamente, e, no entanto você conseguiu ser tudo o que eu preciso ser. Não, não pense que sinto pena de mim porque não sinto, somente ódio e tenho medo também. Isso eu tenho! Um pavor tão grande de que se um dia eu conseguir sair de dentro de mim, parar de me esconder, e tiver forçar para demonstrar aos outros, aquilo que realmente sou, e como sou alegre e espontânea e como posso ser agradável e verdadeira, e que sou criativa e esforçada, então nesse dia poderei parar de sentir medo. Mas o fato é que tanto quanto você; não descobri como fazer. Você sabe? Quer dizer aí dentro de você, dessa sua mente que vegeta existe alguma resposta de como ligar seu botão? Sabe qual nossa maior diferença? É que você só dá desgosto, tristeza aos outros, e eu, veja que incoerência, apesar de ter em meu intimo tamanha agonia e imenso tormento, eu acho que me puno causando somente a felicidade de quem está ao meu lado. E quanto maior à felicidade daqueles que estão ao meu redor, mais observo como sou incapaz de me fazer feliz com o que escolhi para sustentar minha satisfação pessoal, meu ego.<br />
Ano após ano, eu fiquei ao lado daquela mulher, sofrendo; em dados momentos até me apiedei pela sua situação, em outros me irritei porque queria que ela morresse enfim; porque quem sabe ela tivesse meios de escolher não mais lutar pela sua recuperação e laboriosamente conseguisse; enquanto eu não tinha essa opção, porque minha vida parecia ser completa em todos os sentidos, menos em meu intimo, esse não fazia sentido.<br />
Um dia puxei a cadeira ao seu lado, e sentei-me muito próximo a ela, então lhe disse:<br />
— Sabe, hoje sinto algo diferente, veja, não que eu já não tenha tido esse sentimento varias vezes, mas sinto uma enorme vontade em tentar fazer algo por mim, estive pensando que podia desistir de compor, ou melhor, já desisti de compor, mas não consegui me libertar da agonia de desistir de compor, então pensei que não precisaria desistir para toda eternidade, mas só por um determinado tempo, deixar para depois, entende? Deixar para quando eu me sentir realmente feliz, então conclui que poderia ser isso, entende? Quando componho, sei, eu me liberto, mas fico pensando quem sabe se eu me aceitasse? Essa liberdade que penso ter e que sei, é tamanha, ainda não poderia ser maior? Contudo não sou tola, e não consigo me enganar, então sei que não vou ter forças para tentar, preciso tanto de ajuda. Escolhi você porque pensei que você fosse mais forte que eu, e deve ser, mas não consigo mais te olhar; não mais porque você está feia, tão deformada, e essa deformação é exatamente a minha deformação interior. Quando eu te olho, me vejo em você; estou cansada, venho aqui hoje para te dizer que desisto, de vez por todas quero aceitar o que sou, tenho esse desejo, não prometo que irei conseguir, porque não é fácil sufocar tudo que sei, eu preferiria a loucura dos sábios, entende? Preferiria ser tida como demente e ficar gritando em altos brados pelos corredores de um manicômio tantas das minhas composições magníficas, porque saberia que em verdade poderiam até mesmo julgá-las agradável aos ouvidos, mas seriam loucos e loucos não valem nada, não dão palpite, não sabem apreciar e distinguir a beleza e perfeição de uma orquestra guiada pela batuta de um exímio maestro com a da batuta de um formando sem aptidão. <br />
Minha verdade? Minha verdade é que tenho medo de ser julgada, e de estar totalmente equivocada, mas algo me diz que sou perfeita no que faço. Entretanto minha cara, essa minha batalha pessoal não vai cessar nunca, então já que sei que não vou mudar, prefiro desistir.<br />
Estou tão cansada, tão cansada de ver o dia amanhecer, de ver a noite cair, de ser amada, de chorar e ser consolada, de ser feliz por ter uma vida perfeita e de ser infeliz por sufocar meus sentimentos, e não consigo me dar o direito de exteriorizá-los, não consigo me curar... Então agonizo. E você? Você se deforma dia a dia porque seu corpo chora, sua mente se mortifica, e igualmente não consegue se curar. Com o principal diferencial: as pessoas sentem piedade de você; e de mim, não sentem nada porque sequer sabem de meus sentimentos, e não precisam saber, quer dizer, eu algumas vezes me lamentei, mas não imaginam à proporção que isso toma em meu intimo.<br />
            Não cansei nem desisti de mim, ou de você, mas sabíamos, nunca nos iludimos com falsas esperanças. Você ainda viverá um tempo, e eu provavelmente mais. Se pudesse, lhe doaria minhas pernas, realmente gostaria que uma de nós sobrevivesse, e que essa sobrevivência fosse inteira, satisfatória, feliz: ''vejo lagrimas em teus olhos, você me entendeu''? Sentirá minha falta? Minha verdade te faltará; fui-lhe fiel e enquanto na sua companhia, fiel comigo. Aprendemos não foi? <br />
Foi difícil e preciso entender o porquê de nossas vidas muitas vezes seguirem caminhos inversos do que aqueles que almejamos. Olhe-me, que te olharei pela última vez.<br />
Estava repleta de duvidas e não queria ser inteira porque eu sabia que não conseguiria (sempre sabemos), mas aceitar isso era impossível e muitas vezes encarar a realidade é mais penoso que a morrer vagarosamente. No meu caso, consegui de certa forma após muitos anos abdicar e desistir, então sai daquela cama. Eu sabia que tinha muito a esclarecer comigo mesma, e só consegui me encarando, tive a felicidade de ter a consciência de me ver definhar e não morrer.   </p>

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Ayla Sayf</p>

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