julho 17, 2007

As novas freguesias duma Lisboa reinventada

É surpreendente o que aprendemos com a prática política de alguns dos partidos e da insondável ginástica manipuladora de alguns dos nossos políticos.

Nas últimas eleições intercalares para a autarquia de Lisboa, na hora da celebração de vitória, por parte do Partido Socialista (PS), independentemente da dimensão dessa mesma vitória, face aos resultados alcançados, aconteceram momentos verdadeiramente surrealistas que não posso deixar de comentar. Por entre a euforia dos seus apoiantes, no local de celebração da conquista da maioria possível, o PS personalizou um dos mais tristes episódios, que se julgariam impossíveis nos dias de hoje.

Inopinadamente descobrimos que Lisboa teria ganho mais três novas freguesias. Quando toda as opiniões apontam para uma urgente necessidade de se rever a injustificada profusão de freguesias na capital, algumas delas apenas com poucas centenas de eleitores, o deambular dos jornalistas, nomeadamente dos canais televisivos, pelo meio dos populares presentes, que celebravam a vitória, questionando este e aquele, sabendo de onde vinham, presumivelmente de que freguesia de Lisboa, confrontou-nos com um inusitado fenómeno. Por coincidência ou talvez não, das informais entrevistas feitas, somos confrontados com origens tão insólitas, como Alandroal, Cabeceiras de Bastos e Famalicão, possivelmente, mais algumas... Seriam novas freguesias duma Lisboa reinventada por acção destas eleições intercalares!?...

Nada disso! Eram apenas populares arrebanhados, é mesmo esse o termo, por responsáveis locais do PS nas localidades em causa, a quem tinha sido oferecido um oportuno passeio à capital, passando pela praia ou pelo Parque das Nações, com direito a visita ao Oceanário, para no final da tarde se juntarem àquela manifestação de júbilo Socialista, engrossando assim, com a sua multicoloridade campestre, a festa de Lisboa!

Estas romagens à capital, como forma de trazerem um certo folclore genuíno a manifestações expontâneas, fazem-me lembrar outros tempos, outro regime e outra forma de fazer política, que afinal nada tem de diferente daquilo que os fieis e devotos apoiantes de Salazar e Marcelo faziam antes do 25 de Abril. Alguns dos entrevistados, mesmo, pareciam seguir o guião de antigamente, pois confessavam não saber ao que tinham vindo... Lamentável! Lamentável e um verdadeiro ultraje à dignidade de pessoas simples e desinformadas que parece servirem perfeitamente para um cada vez mais bafiento exercício de uma política de caciquismo, manipulação e falta de respeito pelos mais elementares princípios de transparência e honestidade.

Será possível que os responsáveis do PS aplaudam e contemporizem com esta prática!? Será possível que não se revejam deformados, feios, porcos e maus nos espelhos concavos e convexos desta feira de vaidades e do vale tudo!?... Será possível que o Secretário Geral do PS não se sinta na emergência de se demarcar desta monstruosidade e de chamar à razão os responsáveis por este fundamentalismo caciquista!?...

Tendo como origem o PS, este episódio não é grave! É gravíssimo! Não bastavam já todos os sinais de uma crescente conspurcação de todo o ideário socialista, com delações, perseguições, vingançazinhas e punições comportamentais que por aí se têm visto e era preciso mais este suprasumo da manipulação de massas, que embora a uma escala diminuta, deixa nitidamente antever o que ainda por aí poderá vir a seguir, como exaltação da unicidade partidária e política dum partido que todos ainda acreditam ter lutado pela implantação da liberdade e da democracia em Portugal!?... Alguém já terá tido o bom senso de lembrar à direcção do PS e seus pequenos ditadores que uma maioria, mesmo absoluta, é apenas um resultado de eleições livres e democráticas e não nenhum passaporte para o despotismo e a libertinagem do poder!?...

Teria tanto mais para dizer, para comentar, para interrogar e para por à consideração de todos, que provavelmente encheria muito mais páginas com este meu desagravo, tal a indignação que sinto, mas a tristeza e o pudor que sinto relativamente a estes preocupantes indicadores do nível de democracia no meu país, passados trinta e três anos do 25 de Abril, leva-me a conter a minha raiva, a interiorizar a desilução que vou sentindo e a reflectir sobre que insondáveis desígnios inspiram os socialistas portugueses neste suicídio colectivo da dignidade e da liberdade então conquistadas. E acho mais urgente que tudo acreditar que ainda é possível salvar a democracia que todos um dia aplaudimos, chorámos, rejubilámos e empunhámos, e honrar todos aqueles que se sacrificaram para que a soubessemos, mais tarde, viver e fazer vingar para bem das gerações vindouras.

Publicado por ranenialabs em 09:04 PM | Comentários (0) | TrackBack