julho 06, 2007

A saudável sucessão dos ciclos

Acredito que todos nós vivemos um pouco em função de ciclos comportamentais que se vão sucedendo ao longo da nossa vida e que reflectem a forma como, em cada momento, encaramos o mundo e nos lemos a nós próprios. Ciclos que nascem no vazio, que se intersectam, que se projectam concentricamente em insistência e renovação ou que simplesmente emergem como reacção a outros ciclos externos, que no entanto nos influenciam e perturbam.

Suponho que estarei a chegar ao fim de mais um deles. Sinto-o e sentindo-o, é um misto de perturbação e alívio, de inquietação e frustração, que me assalta e me projecta para outra atitude temperamental. Este ciclo está a esgotar-se por cansaço, desilusão e também um pouco de raiva, a que chamarei mais contidamente, indignação.

Começo a sentir-me como que sufocado por este clima de controlo exarcebado sobre tudo e todos os que não se contêm, face a uma prática de poder que cerceia os naturais impulsos daqueles que se sentem incomodados pelos mais variados sinais de arrogância, intolerância e nervosismo deste governo, ou pior ainda, pelos intoleráveis tiques acusadores e delatores de insignificantes biltres, duma maioria tristemente equivocada com o significado dos vocábulos liberdade e democracia.

Haverá sempre quem ache que este mutante sentido crítico ou atenta contemporização com a forma como a vida política se processa e da forma como ela influencia as nossas vidas, possa ser confundido com algo condenável, como falta de carácter ou de verticalidade no modo como se encaram os valores da sociedade e da nossa atitude perante a vida. Mas não é tanto assim. Os ciclos que me vão fazendo mover e que constituem, por assim dizer, a minha maneira de entender o mundo, são espaços de ensaio e reflexão e traduzem-se sempre em experiência e enriquecimento da minha própria evolução. Nunca me senti conspurcado por nenhum dos ciclos que vivi até hoje, porque sempre os entendi como absolutamente necessários para a formação da minha liberdade de pensamento, para a construção do ser humano que, sem aspirar à perfeição, encara como essencial a constante busca de um equilíbrio entre uma desejável inquietude e uma imprescindível capacidade de acreditar nos outros homens.

Considero, portanto, normal e potencialmente satisfatória a transição entre ciclos, mesmo quando essa transição possa parecer fracturante e comprometedora, porque ela constitui um desafio e um notável instrumento para nos libertarmos de crenças, sofismas ou dogmas, que só podem condicionar a nossa liberdade de evoluirmos.

Tenho estado, desde há uns tempos, numa atitude contemporazidora face às necessidades de importantes mudanças na nossa sociedade. Considero que esta mudança é inevitavelmente incómoda e penalizadora para largos sectores do nosso povo. Eu próprio o sinto no meu dia a dia e reconheço uma visível desqualificação na minha qualidade de vida. Tenho, no entanto, tentado encará-la como um mal necessário, devidamente enquadrado num espaço temporal, desejavelmente curto, que permitirá ao poder instituído, eleito com base em resultados eleitorais incontestáveis, desenvolver políticas sustentadas para atingir resultados que, finalmente, nos relancem num caminho mais confortável de progresso económico e social.

Este tem sido o meu motivo e a minha atitude, se bem que isso não me torne acrítico e insensível às enormes dificuldades que as pessoas vivem e às crescentes desigualdades, que continuo a não entender, nem a admitir.

Existem, no entanto, limites nesta minha postura contemporizadora e estes têm a ver com valores essenciais e indiscutíveis que devem orientar uma convivência democrática e o elevado respeito pela liberdade, para mim, um bem inegociável, intocável e essencial.

O que está a acontecer, cada vez com mais frequência, na sociedade portuguesa, hoje em dia, é um perigoso e inadmissível desvirtuar destes valores, que assentam nos direitos individuais, na liberdade de pensamento e de expressão e no direito à crítica e à diferença de opinião. Isto, para mim, não é essencial. É indiscutível e sagrado!

O que se passa é que estes valores têm estado a ser postos em causa de uma forma cada vez mais despudorada, em vários níveis da máquina do poder, contra pessoas que os exercem livre e frontalmente e por isso são perseguidas, denunciadas e prejudicadas nas suas carreiras e na sua dignidade, sem que os responsáveis máximos tenham uma atitude de reprovação, face a tais práticas, antes, associando-se em muitos casos a essa autêntica prática anti-democrática e mesmo enaltecendo os ignaros e inqualificáveis agentes que a isso se dedicam.

Nas palavras de uma responsável política do actual governo, foi mesmo sugerido que existem locais próprios para se criticar ou dizer mal do governo. E esses locais resumir-se-iam a um reservadíssimo círculo de amigos e familiares ou pouco mais. Nada de dar expressão pública desses comentários, o que poderia constituir matéria de facto para permitir o exercício dessa tal nova caça às bruxas.

Isto, vindo de um partido, dito socialista, que continua a ter o mérito, mas também a responsabilidade, de ter lutado pelo derrube de uma ditadura e pela implantação da democracia no nosso país, entristece-me profundamente. E assusta-me. E assustando-me, provoca-me naturalmente uma reacção de profunda indignação e de total rejeição destes denegridos valores que uns quantos “novos socialistas” julgam ter chegado a hora de impor ao povo português, num novo código de conduta, que lhes é ditado por um raro sentido de oportunismos e de entronização dum chefe incontestável e idolatrado, talvez na mira de mais uma migalha caída da mesa do poder absoluto, duma maioria que julga estar acima de todas as consensuais regras da convivência democrática.

Isto fez-me lembrar a polémica implantação das chamadas “salas de chuto”, para os toxicodependentes, ou salas de injecção assistida. E lembrei-me que uma solução à altura destes novos cruzados do saneamento crítico nacional, talvez pudesse passar pela institucionalização de “salas de crítica” ou então, salas de maledicência assistida, onde esses transviados cidadãos poderiam dizer mal do governo, num ambiente devidamente esterilizado, embora assistidos por psicólogos, politólogos, fazedores de opinião e uma autoridadezinha, para colorir o ambiente, libertando assim o espaço comunitário, mediático e funcional, de toda e qualquer ameça à bem aventurada hegemonia duma linguagem única, duma opinião única e dum total e definitivo respeitinho pelo senhor primeiro-ministro omnipotente e toda a sua máquina de poder.

Foi assim que terei chegado ao fim de mais um ciclo. Sou insubmisso em demasia para tanto controlo e tamanha sanha castradora das minhas liberdades individuais. Reajo muito mal a estes impulsos de autoritarismo e ainda mais a estes arremedos de delação, perseguição e constante espionagem mental e comportamental.

Se todos mudarmos um pouco os nossos ciclos, talvez ainda se vá a tempo de travar este suicídio das nossas liberdades, porque todos somos responsáveis e um pouco executores desta condenação à morte da liberdade que tanto nos custou a conquistar. Há que mantê-la, reforçá-la e não ter medo de chamar os traidores pelo nome.

Publicado por ranenialabs em 08:16 PM | Comentários (0) | TrackBack

julho 04, 2007

O país por trás do espelho

Um país é aquilo que os seus cidadãos projectam e conseguem dinamizar. É o resultado dessa dinâmica que traça o percurso da sua história, tendo em conta as condicionantes das relações que estabelece com o exterior e a confiança e o diálogo que consegue criar com os seus cidadãos. A leitura actualizada das suas tradições, o respeito pelo conjunto de anseios que emergem de cada um, o equilíbrio e a soma dos interesses mais representativos e o estabelecimento de metas e de sonhos que catalizem as vontades diversas do conjunto da sua população, constituem, em grande parte, a receita para levar por diante uma sociedade com identidade própria, limites definidos e estatuto reconhecido no seio das nações.

O modelo democrático, dito ocidental, foi até agora o menos mau de todos os que se têm experimentado e daí a necessidade de o saber respeitar, e sem hesitações, o tentar aperfeiçoar todos os dias. Essencialmente, saber respeitar a vontade de todos, expressa nas diferenças de cada grupo, de cada projecto e de cada classe, que é coisa que convém não acreditar que desapareceu. Elas existem e têm de ser atendidas e entendidas, nas suas especificidades, nas suas exigências e nas suas carências. Governar um país é um exercício rigoroso, mas não isento de múltiplos desafios, donde, o menor deles não será certamente o respeito pelo direito a iguais oportunidades e a direitos e deveres, que devem sempre assentar no respeito pela pessoa humana, em toda a sua diversidade e inquietude.

Talvez tudo isto para concluir que, hoje em dia, sinto o meu país como um projecto à solta, sem as preocupações que deveriam guiar o exercício do poder e da governação dum executivo que foi sufragado por uma maioria indesmentível. Mas o que significa uma maioria, quando as pessoas vivem desesperançadas e ameaçadas pela arrogância, pela intolerância e pela aparente dissonância dum governo relativamente aos cidadãos que jurou servir?

Talvez o pior estigma dum governo seja acreditar na sua própria maioria para sempre, no espaço limite do mandato que lhe foi conferido, pois essa maioria tem de ser reconquistada, reinventada e reavaliada todos os dias, pelo que a melhor solução seria reforçá-la com a conquista e a contribuição de todas as outras forças envolvidas no processo e não apenas acreditar nas regras ilusórias dos resultados, convencendo-se que uma simples maioria, mesmo que absoluta, chega, por si só, para impor um estilo, uma autoridade e um programa que se respeita naquilo que dá jeito e se renega, nas dificuldades e mesmo irrealismo da sua aplicação.

Não posso deixar de sentir uma enorme tristeza, uma revolta e uma indignação profunda, quando, um partido que lutou pela liberdade, pela conquista das mais elementares regras de vivência democrática, aposta agora num autoritarismo retrógrado e demolidor das liberdades individuais, aceitando e mesmo fomentado a delação, como instrumento promotor de relações de privilégio e perseguição de todos aqueles que ousam fazer uso da liberdade de expressão, de opinião, de oposição e de crítica, mais séria ou mais jocosa, sem respeitar o bem enorme da sã convivência entre as diversas tendências ideológicas ou filosóficas duma sociedade que só se enriquece na sua diversidade.

A capitulação à ditadura da economia, dos deficits e do sucesso materialista, a todo e qualquer custo, relevando para segundo plano as aspirações sociais de camadas significativas da população, com o pretexto que o estado não pode atender a tudo, é um péssimo exemplo duma perigosa e insensível incapacidade de gerir os recursos existentes, face às insuficiências duma população cada vez mais bipolarizada entre os muito ricos e os muito pobres. A isto não se pode chamar desenvolvimento, pese embora todas a histórias de sucesso e todos os mitos criados por um choque tecnológico que se vai apenas vislumbrando em sectores muito pontuais da sociedade ou então em cenários ilusórios em que todos têm acesso a tudo, o que, talvez ainda não tenham reparado, que não é verdade. É mesmo uma mentira e uma mentira muito feia. Escandalosa, mesmo!

Não sei se o primeiro ministro do meu país se costuma olhar ao espelho, pela manhã, quando desperta para mais um dia de trabalho. Nem sei mesmo se ele desperta ou se se mantém acordado e sonâmbulo as vinte e quatro horas do dia, os trezentos e sessenta e cinco dias do ano, acreditando ser ele o povo de que fala. Mas se o faz, era bom que afastasse do espelho a sua imagem de fato cinzento ou azulado, o seu ar impecável e normalizado, a sua postura rígida de sorriso de catálogo e, limpando o embaciamento do seu espelho, se preocupasse em adivinhar o país e as pessoas para além desse seu cenário mediático e políticamente correcto, em que se habituou a exercer o seu mister de político imaculado e salvador da economia nacional. A economia são também os seus concidadãos, que em muitos casos, votaram nele e compraram a ilusão que ele tão bem soube apregoar em período de campanha.

O país que resta para além do seu espelho está entristecido, desiludido, entorpecido pelo desalento que lhe advém de não se sentir retratado na encenação que cada via vê montada pelo responsável máximo do seu país e que não corresponde, nem ao guião por ele apresentado, nem pela simples e humana ambição de uma vida melhor, principalmente quando todos os dias se apercebe que existe uma outra realidade de progresso que não lhe é tangível, como a outros europeus e a parte considerável da casta de sucesso que consigo partilha o mesmo país.

Portugal está afundado numa deprimente crise de desesperança, perigosamente conformado com a insensibilidade de quem o governa, mas eu, ainda mais, estou preocupado com os tristes e ameaçadores sinais de autoritarismo e intolerância que povoam as mentes insondáveis de quem acredita que o respeitinho é muito bonito. Até nisto, o respeito, somos pequenos e mesquinhos...

Publicado por ranenialabs em 09:29 PM | Comentários (0) | TrackBack