abril 25, 2007

Abril sempre Abril

Abril chega todos os anos, impreterivelmente, em Abril
como quem chega ao fim de uma jornada
e logo se faz à estrada

Abril cumpre-se todos os anos
mas não está cumprida a sua utopia
os homens e mulheres de Abril talvez já não tenham tempo
para resolver Abril
e a geração que Abril ajudou a crescer
será ela a fazê-lo renascer
mas não lhe tolham o seu próprio sonho
deixem-nos recriar a utopia
que Abril lhes permitiu deixar crescer dentro de si

Só assim se cumprirá a eterna busca dessa madrugada
de povo e soldados de mão dada na cidade
cinzenta e triste
a madrugada que nos abriu caminhos
nos ajudou a soletrar democracia
por entre as armas de cravo em riste
e nos entregou o bem mais precioso
que hoje, por vezes, já nem nos lembramos
chamar-se liberdade

Abril há-de chegar todos os anos
enquanto houver memória
passada de pais p’ra filhos
mas Abril renovar-se-á em cada geração que o respirar
e nós, que o recebemos naquela clara madrugada
não o podemos querer enclausurar
no limbo da nossa liberdade inacabada

Deixem Abril viver o tempo de cada Abril renascido
sem as algemas
do pensamento acorrentado
do poeta perseguido
da garganta muda com a canção atravessada
e as palavras mascaradas de tudo e nada

Deixem Abril ser o Abril de cada democrata!
o Abril de todos e de ninguém
Abril em Abril
e sempre Abril…

Publicado por ranenialabs em 03:20 AM | Comentários (0) | TrackBack

abril 23, 2007

Uma bica e um copo de água

Nesta nova fase da minha vida, sem horários ou obrigações que não sejam a minha vontade própria, tornei-me num frequentador quase compulsivo de cafés. Não que os consuma em demasia, os que são servidos na chávena, com aquela dose compensadora de cafeína, mas referia-me mais propriamente aos locais onde eles são servidos. Os estabelecimentos e espaços, ditos de convívio, onde ainda se pode estar uma infinidade de tempo, encostado a uma bica e um copo de água, lendo, conversando ou simplesmente estando. Fumando ou não um cigarro, enquanto isso ainda for possível.

Aliás, esta faculdade de nos podermos ancorar a uma mesa de café para nela construirmos um pouco do nosso dia a dia, é coisa que poderá estar igualmente ameaçada e condenada, quando os nossos magnos legisladores e reguladores das nossas vidas, sãs e correctas, se lembrarem de ajuizar de tal excentricidade perturbadora dos direitos alheios e decidirem, sempre em proveito da maioria dos cidadãos, regulamentar a permanência do comum cidadão frente a uma bica num espaço público.

Amedronta-me sobremaneira esta ultra-preocupação em regular as vidas e hábitos de cada um, numa doentia tentativa de nos tornar a todos os espelho e o desejo de alguns, que se fundamentam exclusivamente nos seus próprios fundamentalismos de convivência.

A comida, o tabaco, as actividades lúdicas, o próprio comportamento individua e social de cada um de nós, está cada vez mais ameaçado por esta sede de normalização absolutamente sufocadora da liberdade de todos nós, enquanto parte do colectivo.

Mas esta minha assiduidade na frequência de cafés tem-me levado a novos olhares sobre estes espaços, onde ainda se respeita a convivência e a solidão a que cada um, por enquanto, ainda tem direito.

Hoje em dia, a paisagem dos cafés tem vindo a modificar-se, a renovar-se e a adaptar-se a novos conceitos de estar e de usufruir dos momentos de ócio ou reflexão das nossas vidas.

O próprio conceito estético e funcional destes espaços tem vindo a tomar novas formas, embora o essencial permaneça lá. Os cafés já não são exclusivamente aquilo que foram durante o final do século passado, entenda-se o século vinte, em que a sua funcionalidade se baseava quase exclusivamente na exigência de contemplarem o maior número de lugares possível, sem respeito pela privacidade do indivíduo e de se terem transformado numa espécie de loja de conveniência, repleta de soluções estéticas e decorativas a raiarem a feira popular ou uma quermesse de província.

Os cromados, dourados e neons, associados a um conceito bacoco-modernista, eivado de muito de "kitsch", mesmo sem a consciência disso, tinha transformado estes espaços em pequenos mundos bizarros e sem identidade, que incomodava a busca de silêncios e de estímulos, que nada tinham a ver com televisões aos berros e discussões de futebol na mesa ao lado.

É certo que os famosos cafés de meados do século passado não padeciam dessas modernices, mas esses foram desaparecendo à medida que agencias bancárias e outros comércios mais agressivos tomavam conta dos estabelecimentos, numa ânsia desmedida pela rentabilização de tudo quanto era espaço e alvo da urgência de consumismo.

Estes novos cafés primam pela sobriedade, pelas linhas direitas, pelo conforto objectivo e pelo bom gosto de novos designs que assentam nas cores e nas formas simples. Chamam-se agora "lounge café", "café de letras", "coffee house" ou outras designações que tentam dar-lhes outras essências e outros conteúdos, que não simplesmente servir galões e sandes mistas em pão de forma.

São espaços e ambientes que nos envolvem e nos criam a sensação de estarmos em nossa casa, com a vantagem de estarmos no meio das outras pessoas. São espaços de partilha e difusão de cultura, muitas vezes com materiais literários ou informativos á disposição dos seus clientes. São ambientes com música minimamente seleccionada e muitas vezes, também, com o eterno ecran de televisão, normalmente mudo, agora na imperdível e elegante forma de plasma.

Só há algo que os continua a diferenciar dos famosos cafés de antanho, autênticas catedrais dum espírito tertuliano que se foi perdendo, famosos pelas suas clientelas e faunas que os caracterizavam como espaços também culturais e de intervenção, de debate e cumplicidade, que tanto contribuiram para a formação do nosso desenvolvimento social e lúdico, e que ajudou a construir uma consciência cívica, intelectual e política, que hoje se dilui por outras novas formas de debate e partilha de ideias, formas essas que se podem encontrar cada vez mais no espaço internauta, sob a capa de fóruns, blogues e outras inovações a que não devemos também estar alheios, uma vez que a mudança faz obrigatoriamente parte da nossa própria evolução.

Hoje em dia, ainda me sinto bem nestes espaços novos, porque consigo renovar-me nas lembranças que tenho de outros tempos, mas para ser franco, falta-lhes aquele toque de convivência e de conspiração que foram o berço de tantas ideias libertárias e democráticas.

Hoje estamos todos cada vez mais solitários e afastados do nosso vizinho do lado e parece que já não existem ideias que valha a pena discutir, debater e confrontar, porque tudo está cada vez mais regulamentado por essa tal formatação asséptica duma sociedade descartável e atípica.

A única vantagem é que ainda somos bio-degradáveis, pelo que, depois de mortos, deixamos de incomodar os fiscais da nossa existência terrena. Somos apenas cadáveres e os cadáveres não padecem de vícios ou extremos.

De qualquer modo, sintamo-nos felizes, porque mesmo enquanto vivos, ainda vamos podendo frequentar os cafés no nosso universo individual e colectivo. Ocupar o espaço. Estarmos silenciosos ou dialogarmos. Ler ou escrever. Viver…

Publicado por ranenialabs em 03:14 AM | Comentários (0) | TrackBack