janeiro 14, 2008

O direito à indignação, enquanto for possível

Tenho, nos últimos tempo, optado pelo silêncio, pela indiferença, talvez até por um certo alheamento da triste realidade que nos persegue, neste país de brandos costumes, feito laboratório de novas tendências controladoras, castradoras e assustadoramente niveladoras dum comportamento social asséptico e super-esterilizado.

Talvez por comodismo ou simplesmente cansaço de quase nada mudar, uma vez que seja, para melhor no clima cada vez mais cinzento que nos invade. Não será estranho também um certo desânimo, uma certa maléfica e perigosa bonomia perante tão constantes agressões à nossa condição de cidadãos que se querem e pretendem livres.

Poderia dar como exemplo a saúde, a educação, a justiça, a saga da administração pública e dos seus malévolos servidores, que num ápice se transformaram em bode expiatório de quase todos os males do Estado e da sua ineficácia, como se tivessem sido eles uma espécie de guardas revolucionários, que em determinada altura do processo democrático, tivessem tomado de assalto o aparelho do próprio Estado e tivessem ousado erguer um império de benefícios, regalias e desperdício premeditado do erário público. Sem que os seus dirigentes e responsáveis tenham tido a menor culpa do estado a que as coisas chegaram.

Poderia mesmo recorrer à eterna e devastadora incapacidade dos vários governos em entenderem o significado do serviço público e do estabelecimento equilibrado de prioridades, na resolução dos inúmeros problemas estruturais que afectam a sociedade portuguesa, centrando-se antes mais nos seus próprios umbigos e nas guerras intestinas de poder, influência e distribuição de lugares.

Poderia também aludir à recorrente descredibilidade do nosso sistema político, da política e dos políticos, enquanto agentes, mais ou menos mandatados pelo povo, para supostamente trabalharem em prol do progresso e bem estar do país.

Poderia, portanto, tanto ter escrito durante este meu silêncio de luto, mas preferi, ou talvez aceitei passivamente, apenas observar, informar-me, sentir e tentar compreender a selva degradante em que esta sociedade se vai, dia a dia, transformando.

O acumular de escândalos, de decisões incompreensíveis, de reestruturações feitas em cima do joelho, que nada ou muito pouco reformulam, melhoram ou corrigem, mas servem arrogantemente a vaidade de muita gente medícre, tem-me feito acordar o gene da indignação.

Um sistema de saúde que mingua e se retrai, que se reduz a uma quase questão economicista, deixando as populações semi-abandonadas, reféns de meia dúzia de ambulâncias do INEM, para as transportar em agonia a pseudo hiper-mercados da saúde, onde os corredores transbordam de macas e dramas e nem sequer uma explicação óbvia, concreta, convincente e perceptível sobre os pseudo benefícios deste ataque às urgências, às maternidades, aos centros de saúde, num Portugal interior e descentrado das grandes urbes, são tudo coisas que o português médio não entende, por muito de certezas e afirmações que o ministro e o primeiro-ministro apregoem do alto das suas cátedras. E mais ninguém tem a hombridade de lhes tentar, sequer, fazer compreender.

Uma justiça que cada vez mais se encolhe perante os milhares de processos por decidir e se reformula, com base, mais uma vez, em princípios de pura poupança e redução de garantias ao cidadão comum, aquele que dela mais precisa, deixando de o servir, tornando-se, não só confusa, redutora e conflituante, como inócua e não geradora da sua própria génese, a justiça, é também algo que ninguém entende.

Um sistema educativo que desprestigia, acusa e segrega os seus agentes mais nobres, os professores, apenas porque alguns serão incompetentes e acomodados, torna-se também gerador duma perigosa falta de identidade, quer para educadores, quer para alunos. Parece um edifício erguido por inúmeros arquitectos, todos eles de linhas criativas diversas e conflituantes, com espaços vazios, uns e outros sobre-lotados, com o reboco do improviso à mostra, sem sustentabilidade nem segurança na sua estrutura.

Muito mais haveria e há certamente a apontar, mas como corolário deste desnorte, que apenas nos deixa a sensação de ainda pertencermos a essa vaga ideia que é a Europa, mais política que social, porque houve recentemente um senhor muito seguro de si, muito impoluto, muito cheio de certezas e de dedo sempre em riste a apontar-nos caminhos e a dar-nos lições de desenvolvimento económico e tecnológico, que presidiu aos seus destinos por seis meses, temos sobre nós, agora e cada vez mais, códigos de conduta, regulamentos, normas, check lists do que é ou não correcto. Quiçá, dentro de algum tempo, também códigos de barras na testa para mais facilmmente nos catalogarem.

A ditadura do políticamente correcto foi agora ultrapassada pelo socialmente correcto, pelo nivelamento comportamental do cidadão, pelo proibido e pelo permitido, pelo obrigatório, sem sequer se passar pelo tolerado!

Não! Não vou improvisar nem divagar sobre a lei anti-tabaco, porque simplesmente não me apetece agora. Ainda é uma prorrogativa que tenho, a de decidir por mim o que quero ou não abordar ou mesmo pensar. Estou numa esplanada, encasacado, bem protegido do frio e da chuva, a fumar uma cigarrilha e quero poder ter o prazer de o fazer, enquanto não me puserem uma braçadeira no casaco, a identificar-me como poluidor desbragado desta sociedade reles, mas asséptica!

Ali ao longe, as crianças saem da escola depois das aulas e em breve, talvez tenha de esconder a minha cigarrilha, para não ser denunciado pelas mentalidades castradoras que estão a ser incutidas nas cabecinhas dos nossos jovens. Agora, a delação é um “must”!...

Só quero fazer um apelo a todos para que exerçam o seu direito à indignação, enquanto podem! Para que acreditem que é ainda possível ser-se correcto, civilizado e feliz. Que sejam criativos e comecem a lutar pela autonomia do ser humano, da sua dignidade, da liberdade de serem livres e felizes!

Publicado por ranenialabs em 06:44 PM | Comentários (2) | TrackBack