julho 30, 2007

Limitador de ideias parvas

Aqui há dias ouvi mais uma daquelas notícias que só se esperam que seja um puro equívoco. Um responsável da área governativa dos transportes, julgo eu, adiantava a possibilidade de em breve vir a ser obrigatória a instalação, nos veículos conduzidos por encartados com menos de dois anos de licença de condução, de um limitador de velocidade.

Surpreende-me, mas não me espanta, esta tendência, cada vez mais castradora, de limitar os direitos dos cidadãos, com o argumento que compete ao estado tudo prever e tudo regular, quando o estado cada vez menos protege e menos regula as verdadeiras necessidades dos portugueses, nas áreas em que verdadeiramente deveria actuar. Regula-se muito em tudo aquilo que não traz despesa para o estado, mas regateia-se e nega-se que os impostos cobrados aos cidadãos possam e devam reverter para seu benefício, sua protecção e sua segurança social.

É evidente que não acredito que os ditos limitadores sejam instalados a custas do estado, donde me é difícil admitir que a medida, para além de eficácia duvidosa, sirva para evitar o que quer que seja, uma vez que está por provar que grande parte dos acidentes destes condutores seja efectivamente causada por excesso de velocidade.

Em termos práticos, temos que o cidadão, que já paga os custos da instrução de condução, passará a ser onerado por mais um “imposto” por ter adquirido a sua licença de condução e quqrer dela usufruir. Esta, obviamente, deveria capacitá-lo a conduzir em igualdades de circunstâncias com todos os outros condutores. A responsabilidade de cada um, não pode nem deve ser menorizada à priori pelo estado, como se este tudo controlasse, tudo regulasse e em tudo considerasse o cidadão como um ser menor e taxável, por cada dúvida que o estado tem sobre a sua idoneidade, sentido da responsabilidade ou capacidade técnica para o desempenho das suas actividades normais. Para se conduzir existe todo um processo que passa pela instrução, a avaliação de competências técnicas e psicológicas para se propor a exame e o exame, propriamente dito, que lhe deveria reconhecer a formação suficiente para poder conduzir, como qualquer outro cidadão, numa base de direitos e competências legalmente adquiridos e que não deveriam comportar qualquer outro tipo de limitação e de encargos financeiros.

Por outro lado, qual a solução que o estado daria para condutores que só começassem a conduzir dois anos depois de terem tirado a carta de condução? Estariam então aptos a conduzir, sem limitador, apesar de não terem acumulado qualquer experiência de condução durante estes dois anos de abstinência rodoviária?...

O estado não pode aspirar a controlar todas as falhas ou insuficiências naturais que se possam vir a verificar, por parte de cidadãos que acabam de passar num exame oficialmente reconhecido, sob pena de se considerer que este não serve afinal para a total habilitação a conduzir. Era como se, por exemplo, uma pessoa se casasse e não pudesse, durante dois anos, exercer o seu matrimónio em toda a sua plenitude, argumentado, o estado, que este poderia não ter ainda maturidade para tal... Ou que após a constituição duma empresa ou duma sociedade, o estado limitasse a sua actividade, para evitar falências ou dissoluções. O cidadão assume as suas responsabilidades perante a sociedade e perante o estado, no livre desempenho das capacidades para que foi reconhecido pelo próprio estado e não pode estar a ser, constante e aviltantemente considerado inapto pelo estado, ele próprio fraco exemplo de responsabilidade perante o cidadão.

Uma vez que ainda não foi instituído nenhum imposto para ideias parvas, atrevo-me aqui a sugerir uma outra medida, esta talvez mais urgente e necessária, que passaria por responsabilizar políticos e responsáveis da administração pública, pela instalação, nas suas mentes brilhantes, de um limitador de ideias parvas e obtusas, protegendo assim o cidadão destes desvarios reguladores do comportamento humano.

Quando o estado considera todo o cidadão como um potencial prevaricador e irresponsável, como pode o cidadão reconhecer ao estado aquele estatuto tão mal demonstrado de “pessoa de bem” que o estado tanto gosta de exibir e fazer respeitar?

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julho 17, 2007

As novas freguesias duma Lisboa reinventada

É surpreendente o que aprendemos com a prática política de alguns dos partidos e da insondável ginástica manipuladora de alguns dos nossos políticos.

Nas últimas eleições intercalares para a autarquia de Lisboa, na hora da celebração de vitória, por parte do Partido Socialista (PS), independentemente da dimensão dessa mesma vitória, face aos resultados alcançados, aconteceram momentos verdadeiramente surrealistas que não posso deixar de comentar. Por entre a euforia dos seus apoiantes, no local de celebração da conquista da maioria possível, o PS personalizou um dos mais tristes episódios, que se julgariam impossíveis nos dias de hoje.

Inopinadamente descobrimos que Lisboa teria ganho mais três novas freguesias. Quando toda as opiniões apontam para uma urgente necessidade de se rever a injustificada profusão de freguesias na capital, algumas delas apenas com poucas centenas de eleitores, o deambular dos jornalistas, nomeadamente dos canais televisivos, pelo meio dos populares presentes, que celebravam a vitória, questionando este e aquele, sabendo de onde vinham, presumivelmente de que freguesia de Lisboa, confrontou-nos com um inusitado fenómeno. Por coincidência ou talvez não, das informais entrevistas feitas, somos confrontados com origens tão insólitas, como Alandroal, Cabeceiras de Bastos e Famalicão, possivelmente, mais algumas... Seriam novas freguesias duma Lisboa reinventada por acção destas eleições intercalares!?...

Nada disso! Eram apenas populares arrebanhados, é mesmo esse o termo, por responsáveis locais do PS nas localidades em causa, a quem tinha sido oferecido um oportuno passeio à capital, passando pela praia ou pelo Parque das Nações, com direito a visita ao Oceanário, para no final da tarde se juntarem àquela manifestação de júbilo Socialista, engrossando assim, com a sua multicoloridade campestre, a festa de Lisboa!

Estas romagens à capital, como forma de trazerem um certo folclore genuíno a manifestações expontâneas, fazem-me lembrar outros tempos, outro regime e outra forma de fazer política, que afinal nada tem de diferente daquilo que os fieis e devotos apoiantes de Salazar e Marcelo faziam antes do 25 de Abril. Alguns dos entrevistados, mesmo, pareciam seguir o guião de antigamente, pois confessavam não saber ao que tinham vindo... Lamentável! Lamentável e um verdadeiro ultraje à dignidade de pessoas simples e desinformadas que parece servirem perfeitamente para um cada vez mais bafiento exercício de uma política de caciquismo, manipulação e falta de respeito pelos mais elementares princípios de transparência e honestidade.

Será possível que os responsáveis do PS aplaudam e contemporizem com esta prática!? Será possível que não se revejam deformados, feios, porcos e maus nos espelhos concavos e convexos desta feira de vaidades e do vale tudo!?... Será possível que o Secretário Geral do PS não se sinta na emergência de se demarcar desta monstruosidade e de chamar à razão os responsáveis por este fundamentalismo caciquista!?...

Tendo como origem o PS, este episódio não é grave! É gravíssimo! Não bastavam já todos os sinais de uma crescente conspurcação de todo o ideário socialista, com delações, perseguições, vingançazinhas e punições comportamentais que por aí se têm visto e era preciso mais este suprasumo da manipulação de massas, que embora a uma escala diminuta, deixa nitidamente antever o que ainda por aí poderá vir a seguir, como exaltação da unicidade partidária e política dum partido que todos ainda acreditam ter lutado pela implantação da liberdade e da democracia em Portugal!?... Alguém já terá tido o bom senso de lembrar à direcção do PS e seus pequenos ditadores que uma maioria, mesmo absoluta, é apenas um resultado de eleições livres e democráticas e não nenhum passaporte para o despotismo e a libertinagem do poder!?...

Teria tanto mais para dizer, para comentar, para interrogar e para por à consideração de todos, que provavelmente encheria muito mais páginas com este meu desagravo, tal a indignação que sinto, mas a tristeza e o pudor que sinto relativamente a estes preocupantes indicadores do nível de democracia no meu país, passados trinta e três anos do 25 de Abril, leva-me a conter a minha raiva, a interiorizar a desilução que vou sentindo e a reflectir sobre que insondáveis desígnios inspiram os socialistas portugueses neste suicídio colectivo da dignidade e da liberdade então conquistadas. E acho mais urgente que tudo acreditar que ainda é possível salvar a democracia que todos um dia aplaudimos, chorámos, rejubilámos e empunhámos, e honrar todos aqueles que se sacrificaram para que a soubessemos, mais tarde, viver e fazer vingar para bem das gerações vindouras.

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julho 06, 2007

A saudável sucessão dos ciclos

Acredito que todos nós vivemos um pouco em função de ciclos comportamentais que se vão sucedendo ao longo da nossa vida e que reflectem a forma como, em cada momento, encaramos o mundo e nos lemos a nós próprios. Ciclos que nascem no vazio, que se intersectam, que se projectam concentricamente em insistência e renovação ou que simplesmente emergem como reacção a outros ciclos externos, que no entanto nos influenciam e perturbam.

Suponho que estarei a chegar ao fim de mais um deles. Sinto-o e sentindo-o, é um misto de perturbação e alívio, de inquietação e frustração, que me assalta e me projecta para outra atitude temperamental. Este ciclo está a esgotar-se por cansaço, desilusão e também um pouco de raiva, a que chamarei mais contidamente, indignação.

Começo a sentir-me como que sufocado por este clima de controlo exarcebado sobre tudo e todos os que não se contêm, face a uma prática de poder que cerceia os naturais impulsos daqueles que se sentem incomodados pelos mais variados sinais de arrogância, intolerância e nervosismo deste governo, ou pior ainda, pelos intoleráveis tiques acusadores e delatores de insignificantes biltres, duma maioria tristemente equivocada com o significado dos vocábulos liberdade e democracia.

Haverá sempre quem ache que este mutante sentido crítico ou atenta contemporização com a forma como a vida política se processa e da forma como ela influencia as nossas vidas, possa ser confundido com algo condenável, como falta de carácter ou de verticalidade no modo como se encaram os valores da sociedade e da nossa atitude perante a vida. Mas não é tanto assim. Os ciclos que me vão fazendo mover e que constituem, por assim dizer, a minha maneira de entender o mundo, são espaços de ensaio e reflexão e traduzem-se sempre em experiência e enriquecimento da minha própria evolução. Nunca me senti conspurcado por nenhum dos ciclos que vivi até hoje, porque sempre os entendi como absolutamente necessários para a formação da minha liberdade de pensamento, para a construção do ser humano que, sem aspirar à perfeição, encara como essencial a constante busca de um equilíbrio entre uma desejável inquietude e uma imprescindível capacidade de acreditar nos outros homens.

Considero, portanto, normal e potencialmente satisfatória a transição entre ciclos, mesmo quando essa transição possa parecer fracturante e comprometedora, porque ela constitui um desafio e um notável instrumento para nos libertarmos de crenças, sofismas ou dogmas, que só podem condicionar a nossa liberdade de evoluirmos.

Tenho estado, desde há uns tempos, numa atitude contemporazidora face às necessidades de importantes mudanças na nossa sociedade. Considero que esta mudança é inevitavelmente incómoda e penalizadora para largos sectores do nosso povo. Eu próprio o sinto no meu dia a dia e reconheço uma visível desqualificação na minha qualidade de vida. Tenho, no entanto, tentado encará-la como um mal necessário, devidamente enquadrado num espaço temporal, desejavelmente curto, que permitirá ao poder instituído, eleito com base em resultados eleitorais incontestáveis, desenvolver políticas sustentadas para atingir resultados que, finalmente, nos relancem num caminho mais confortável de progresso económico e social.

Este tem sido o meu motivo e a minha atitude, se bem que isso não me torne acrítico e insensível às enormes dificuldades que as pessoas vivem e às crescentes desigualdades, que continuo a não entender, nem a admitir.

Existem, no entanto, limites nesta minha postura contemporizadora e estes têm a ver com valores essenciais e indiscutíveis que devem orientar uma convivência democrática e o elevado respeito pela liberdade, para mim, um bem inegociável, intocável e essencial.

O que está a acontecer, cada vez com mais frequência, na sociedade portuguesa, hoje em dia, é um perigoso e inadmissível desvirtuar destes valores, que assentam nos direitos individuais, na liberdade de pensamento e de expressão e no direito à crítica e à diferença de opinião. Isto, para mim, não é essencial. É indiscutível e sagrado!

O que se passa é que estes valores têm estado a ser postos em causa de uma forma cada vez mais despudorada, em vários níveis da máquina do poder, contra pessoas que os exercem livre e frontalmente e por isso são perseguidas, denunciadas e prejudicadas nas suas carreiras e na sua dignidade, sem que os responsáveis máximos tenham uma atitude de reprovação, face a tais práticas, antes, associando-se em muitos casos a essa autêntica prática anti-democrática e mesmo enaltecendo os ignaros e inqualificáveis agentes que a isso se dedicam.

Nas palavras de uma responsável política do actual governo, foi mesmo sugerido que existem locais próprios para se criticar ou dizer mal do governo. E esses locais resumir-se-iam a um reservadíssimo círculo de amigos e familiares ou pouco mais. Nada de dar expressão pública desses comentários, o que poderia constituir matéria de facto para permitir o exercício dessa tal nova caça às bruxas.

Isto, vindo de um partido, dito socialista, que continua a ter o mérito, mas também a responsabilidade, de ter lutado pelo derrube de uma ditadura e pela implantação da democracia no nosso país, entristece-me profundamente. E assusta-me. E assustando-me, provoca-me naturalmente uma reacção de profunda indignação e de total rejeição destes denegridos valores que uns quantos “novos socialistas” julgam ter chegado a hora de impor ao povo português, num novo código de conduta, que lhes é ditado por um raro sentido de oportunismos e de entronização dum chefe incontestável e idolatrado, talvez na mira de mais uma migalha caída da mesa do poder absoluto, duma maioria que julga estar acima de todas as consensuais regras da convivência democrática.

Isto fez-me lembrar a polémica implantação das chamadas “salas de chuto”, para os toxicodependentes, ou salas de injecção assistida. E lembrei-me que uma solução à altura destes novos cruzados do saneamento crítico nacional, talvez pudesse passar pela institucionalização de “salas de crítica” ou então, salas de maledicência assistida, onde esses transviados cidadãos poderiam dizer mal do governo, num ambiente devidamente esterilizado, embora assistidos por psicólogos, politólogos, fazedores de opinião e uma autoridadezinha, para colorir o ambiente, libertando assim o espaço comunitário, mediático e funcional, de toda e qualquer ameça à bem aventurada hegemonia duma linguagem única, duma opinião única e dum total e definitivo respeitinho pelo senhor primeiro-ministro omnipotente e toda a sua máquina de poder.

Foi assim que terei chegado ao fim de mais um ciclo. Sou insubmisso em demasia para tanto controlo e tamanha sanha castradora das minhas liberdades individuais. Reajo muito mal a estes impulsos de autoritarismo e ainda mais a estes arremedos de delação, perseguição e constante espionagem mental e comportamental.

Se todos mudarmos um pouco os nossos ciclos, talvez ainda se vá a tempo de travar este suicídio das nossas liberdades, porque todos somos responsáveis e um pouco executores desta condenação à morte da liberdade que tanto nos custou a conquistar. Há que mantê-la, reforçá-la e não ter medo de chamar os traidores pelo nome.

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julho 04, 2007

O país por trás do espelho

Um país é aquilo que os seus cidadãos projectam e conseguem dinamizar. É o resultado dessa dinâmica que traça o percurso da sua história, tendo em conta as condicionantes das relações que estabelece com o exterior e a confiança e o diálogo que consegue criar com os seus cidadãos. A leitura actualizada das suas tradições, o respeito pelo conjunto de anseios que emergem de cada um, o equilíbrio e a soma dos interesses mais representativos e o estabelecimento de metas e de sonhos que catalizem as vontades diversas do conjunto da sua população, constituem, em grande parte, a receita para levar por diante uma sociedade com identidade própria, limites definidos e estatuto reconhecido no seio das nações.

O modelo democrático, dito ocidental, foi até agora o menos mau de todos os que se têm experimentado e daí a necessidade de o saber respeitar, e sem hesitações, o tentar aperfeiçoar todos os dias. Essencialmente, saber respeitar a vontade de todos, expressa nas diferenças de cada grupo, de cada projecto e de cada classe, que é coisa que convém não acreditar que desapareceu. Elas existem e têm de ser atendidas e entendidas, nas suas especificidades, nas suas exigências e nas suas carências. Governar um país é um exercício rigoroso, mas não isento de múltiplos desafios, donde, o menor deles não será certamente o respeito pelo direito a iguais oportunidades e a direitos e deveres, que devem sempre assentar no respeito pela pessoa humana, em toda a sua diversidade e inquietude.

Talvez tudo isto para concluir que, hoje em dia, sinto o meu país como um projecto à solta, sem as preocupações que deveriam guiar o exercício do poder e da governação dum executivo que foi sufragado por uma maioria indesmentível. Mas o que significa uma maioria, quando as pessoas vivem desesperançadas e ameaçadas pela arrogância, pela intolerância e pela aparente dissonância dum governo relativamente aos cidadãos que jurou servir?

Talvez o pior estigma dum governo seja acreditar na sua própria maioria para sempre, no espaço limite do mandato que lhe foi conferido, pois essa maioria tem de ser reconquistada, reinventada e reavaliada todos os dias, pelo que a melhor solução seria reforçá-la com a conquista e a contribuição de todas as outras forças envolvidas no processo e não apenas acreditar nas regras ilusórias dos resultados, convencendo-se que uma simples maioria, mesmo que absoluta, chega, por si só, para impor um estilo, uma autoridade e um programa que se respeita naquilo que dá jeito e se renega, nas dificuldades e mesmo irrealismo da sua aplicação.

Não posso deixar de sentir uma enorme tristeza, uma revolta e uma indignação profunda, quando, um partido que lutou pela liberdade, pela conquista das mais elementares regras de vivência democrática, aposta agora num autoritarismo retrógrado e demolidor das liberdades individuais, aceitando e mesmo fomentado a delação, como instrumento promotor de relações de privilégio e perseguição de todos aqueles que ousam fazer uso da liberdade de expressão, de opinião, de oposição e de crítica, mais séria ou mais jocosa, sem respeitar o bem enorme da sã convivência entre as diversas tendências ideológicas ou filosóficas duma sociedade que só se enriquece na sua diversidade.

A capitulação à ditadura da economia, dos deficits e do sucesso materialista, a todo e qualquer custo, relevando para segundo plano as aspirações sociais de camadas significativas da população, com o pretexto que o estado não pode atender a tudo, é um péssimo exemplo duma perigosa e insensível incapacidade de gerir os recursos existentes, face às insuficiências duma população cada vez mais bipolarizada entre os muito ricos e os muito pobres. A isto não se pode chamar desenvolvimento, pese embora todas a histórias de sucesso e todos os mitos criados por um choque tecnológico que se vai apenas vislumbrando em sectores muito pontuais da sociedade ou então em cenários ilusórios em que todos têm acesso a tudo, o que, talvez ainda não tenham reparado, que não é verdade. É mesmo uma mentira e uma mentira muito feia. Escandalosa, mesmo!

Não sei se o primeiro ministro do meu país se costuma olhar ao espelho, pela manhã, quando desperta para mais um dia de trabalho. Nem sei mesmo se ele desperta ou se se mantém acordado e sonâmbulo as vinte e quatro horas do dia, os trezentos e sessenta e cinco dias do ano, acreditando ser ele o povo de que fala. Mas se o faz, era bom que afastasse do espelho a sua imagem de fato cinzento ou azulado, o seu ar impecável e normalizado, a sua postura rígida de sorriso de catálogo e, limpando o embaciamento do seu espelho, se preocupasse em adivinhar o país e as pessoas para além desse seu cenário mediático e políticamente correcto, em que se habituou a exercer o seu mister de político imaculado e salvador da economia nacional. A economia são também os seus concidadãos, que em muitos casos, votaram nele e compraram a ilusão que ele tão bem soube apregoar em período de campanha.

O país que resta para além do seu espelho está entristecido, desiludido, entorpecido pelo desalento que lhe advém de não se sentir retratado na encenação que cada via vê montada pelo responsável máximo do seu país e que não corresponde, nem ao guião por ele apresentado, nem pela simples e humana ambição de uma vida melhor, principalmente quando todos os dias se apercebe que existe uma outra realidade de progresso que não lhe é tangível, como a outros europeus e a parte considerável da casta de sucesso que consigo partilha o mesmo país.

Portugal está afundado numa deprimente crise de desesperança, perigosamente conformado com a insensibilidade de quem o governa, mas eu, ainda mais, estou preocupado com os tristes e ameaçadores sinais de autoritarismo e intolerância que povoam as mentes insondáveis de quem acredita que o respeitinho é muito bonito. Até nisto, o respeito, somos pequenos e mesquinhos...

Publicado por ranenialabs em 09:29 PM | Comentários (0) | TrackBack