junho 13, 2006

A dimensão do meu país

Cada vez mais o meu país encolhe na dimensão do senso e da razão.

O meu país tem a dimensão dum estádio de futebol e a sua população estende-se, amontoada pelas bancadas, num ritual multicolor e carregado dos símbolos mais diversos. Cachecóis, bonés, camisolas, faces e cabelos pintados, os mais óbvios e também os mais despropositados adereços duma mística incontrolável.

O meu país, pior ainda, tem a dimensão de uma bandeira. Uma bandeira de que poucos conhecem o real significado, o código das cores e dos símbolos que a completam, mas que desfraldam, penduram, atamancam e usam nas formas mais diversas, mesmo aquelas que lhe retira toda a nobreza do seu ser. A banalização das cores e dos símbolos ameaça as suas reais e nobres mensagens, a verdadeira linguagem que pretende transmitir.

O meu país está reduzido a uma preocupante histeria de heróis e banalidades que me amachucam todos os dias com as suas fúteis trivialidades de produto enganoso e publicitário.

O meu país transformou-se num imenso esgar de aculturação colectiva que parece mesmo agradar a muitos daqueles que se dizem responsáveis e conscientes. Festejam, comentam, criticam e endeusam os heróis de pés de barro que a chamada imprensa desportiva e não só, ajudaram a criar, numa assustadora campanha de intoxicação popular.

O meu país encolheu o seu orgulho e vontade de vencer e reduziu-se a um marcador, que no fim há-de mostrar apenas a vitória ou a derrota de um mero espectáculo desportivo.

Como é possível um país reduzir-se a isto e esquecer o seu orgulho, a sua urgência de fazer renascer a esperança de todo um povo por um futuro melhor e não apenas e exclusivamente por um resultado futebolístico!?...

O meu país anda dependurado em janelas e varandas, marquises e automóveis, esvoaça nas pequenas e insignificantes almas de um povo que se reduz a si próprio a figurante, quando deveria ser ele o actor, o protagonista e o vencedor.

Sinto-me triste e desesperado ao ver o meu país assim despromovido, deturpado, depauperado de consciência cívica e cultural. Um país que cabe num relvado, que se revê num jogo, entre tantos e que idolatra personagens tão ocos e tão vazios de valores, que não sejam os do dinheiro e da vaidade. Um país que respira por emotividade assistida e injectada por uma máquina demolidora da identidade de cada um e tenta vender uma identidade reles e balofa...

O meu país está na corrida para a decadência do indivíduo, em nome, sei lá de quê!?... Em contrapartida, temos uma claque imensa que pula, ulula, festeja e delira e que cria um país virtual onde se projecta num imenso mar de euforia e felicidade que se esvazia no minuto seguinte, numa pura demonstração de patriotismo descartável e consumista.

Juro que este, muito dificilmente coincide com o meu conceito de país, o qual também engloba futebol e outras actividades lúdicas, o qual também aceita entusiasmos, festa e euforia, mas é um país que sabe respeitar os seus reais valores e luta por eles, que acredita que o futuro há-de ser construído por todos e não apenas por uma mera equipa de futebol.

O meu país anda perdido e ameaçado de más companhias. O meu país já não é um projecto nacional, é uma selecção onde o “mister” desempenha o papel de pregador e a turba aplaude ou injuria, mas, pelo sim, pelo não, lá vai colocando a bandeirinha, à guisa de santinho protector. Um bocadinho de fé nunca fez mal a ninguém.

E entretanto, o meu país vai adaptando o horário do seu futuro e do seu progresso, aos jogos do mundial. E eu sinto-me perdido, no meio de horário nenhum, com a estranha sensação de que não me resta mais espaço para o sonho e a esperança de ver renascer Portugal, quando todas as bandeiras apodrecerem nas varandas, nas marquises, nas antenas dos automóveis e na consciência deturpada deste ritual a quem querem chamar povo!

NOTA: e no entanto, também ficaria contente se Portugal ganhasse… naquilo que é apenas um jogo de futebol, mas há tanto mais para além disso…

Publicado por ranenialabs em 04:10 PM | Comentários (1) | TrackBack