julho 23, 2004

Movimento Perpétuo

Foi longa... muito longa, a ausência de mim próprio, que de mim me tenho afastado em busca do outro eu que ainda não encontrei. Mas não dou como desperdiçado este tempo que se escoou por entre as minhas dúvidas e os meus anseios... por entre as minhas inconstantes certezas e a certeza da minha constante busca de mim mesmo.
Poderia ter escrito um longo monólogo sobre tudo aquilo que se passou neste espaço de vida que me consumiu mais um pouco das minhas esperanças, mas prefiro antes a escrita do silêncio que é bom guardador de sonhos e de raivas.
Às vezes dou comigo a deliciar-me com o silêncio dentro de mim e então fico calmo e sereno, embalado numa melopeia de pensamentos que me tonificam o cansaço provocado pelo absurdo da sociedade que me rodeia. São absolutamente necessários estes momento passados dentro de mim próprio, onde reencontro a minha única razão de ser e a força necessária que faz com que acredite em mim mesmo, mais do que na própria certeza. Porque só o facto de acreditarmos em nós próprios nos pode validar a esperança de um dia podermos acreditar nos outros...

Hoje acordei com uma dor indescritível que me apanhava a alma e a memória e foi então que me anunciaram a morte da verdade. Tinha morrido Carlos Paredes e nada pode ser mais verdadeiro que a sua arte, a sua música e a sua existência. Porque, como todos nós sabemos, as verdades são difíceis de explicar e vai ser difícil, mais tarde fazer alguém areditar que existiu um ser humano assim. Um homem que se distinguia de todos os outros porque existia, apenas e tinha quase vergonha, acanhamento, timidez da sua afirmação como musico e criador sublime.
Carlos Paredes terá sido um daqueles seres humanos que o país, só muito parcelar e singularmente, tenha merecido, tal a grandiosidade da sua pureza face ao envergonhado e hesitante reconhecimento da sua dimensão.

A sua música, porque é disso que se trata, e de tudo o que a ela estava associado, inclusivamente a sua própria forma de estar na vida, tinha um não sei quê de pureza, nostalgia, desespero e ao mesmo tempo esperança e determinação, que traduziam de forma singular a nem sempre perceptível alma lusa, nos seus insondáveis e rebuscados sentimentos de alegria e tristeza, de esperança e desilusão, de humildade e orgulho e ainda duma enorme dose de improviso que se estende à própria vida de cada português que se sente verdadeiramente lusitano.

O acorde final da obra maior de Paredes, que foi o seu próprio exemplo de vida, fez-se ouvir no momento em que Portugal se lembrou que se tinha esquecido do seu mestre por excelência na arte de desenhar os sons duma portugalidade semi-esquecida mas brilhantemente conseguida nas cordas da guitarra de todo um povo.
Guardo para mim o dedilhar dos seus dedos na memória da minha saudade dos tempos em que o simples acto de tocar era considerado revolucionário e progressista. Em que a sua presença num qualquer palco do país recolhido e triste, inculto e amordaçado, abria os espírito das pessoas e fermentava a esperança dum povo que almejava a liberdade.
Revejo os sons únicos que durante décadas ajudaram um povo a ser mais português do que o próprio destino que o tolhera nas amarras da ignorância e do despotismo e não posso nem quero esconder as lágrimas que finalmente tenho a liberdade de exprimir por ver desaparecer um homem que acompanhou todo o meu crescimento social e cultural e me ajudou também a ser hoje quem sou, porque de arte, cultura, cidadania e coragem também se alimenta o sonho e a afirmação de qualquer homem que se preze.

Tenhamos pois a capacidade de poder ouvir nos acordes da sua guitarra o lamento, a raiva e a determinação que ele sempre nos quis traduzir. O seu movimento perpétuo que por isso mesmo há-de continuar para além da mesquinhez da nossa incapacidade de reconhecer os homens raros e únicos que acontecem nas nossas vidas.

Publicado por ranenialabs em 01:22 PM | Comentários (0)