julho 02, 2005

Diário da tua ausência – guarda um tempo para mim (reedição)

A noite chega ao fim do dia como sempre. Na cruel inevitabilidade do passar do tempo. E o tempo de regressar a casa e encontrar a tua não presença amedronta-me. Faço por demorar nas pequenas tarefas que tenho a fazer até lá chegar. Paro reflectidamente na padaria a escolher o pão. Demoro mais no supermercado a comprar a pasta de dentes. Não passo nos sinais amarelos no semáforo para desespero dos mais apressados que vêm atrás de mim. Tudo para não chegar depressa à solidão que me aguarda no meu apartamento vazio. A solidão que me aguarda como uma esposa fiel.

Hoje não me apetece jantar. Mas mesmo assim aqueço uma sopa no microondas, coloco um guardanapo sobre a mesa e uma colher. Acendo uma vela. Ligo a leitor de CD e coloco um jazz calmo a tocar. Como se esperasse alguém especial para jantar apesar de só servir sopa. Acabo por desistir dela ao fim de 4 colheres, o olhar perde-se fundido no boiar dos ingredientes e som da música transporta-me para longe dali. E quando volto a mim a sopa está fria. E não há sopa nenhuma do mundo que me aqueça esta noite.

Afundo-me no sofá com um copo de Jack Daniels. As pedras de gelo dançam no copo ao som do jazz que toca e as minhas lágrimas correm pela minha face ao pensar em ti vertendo lentamente caindo no whisky. Lá longe a música toca, ao som do saxofone calmo e melodioso a voz de Kevin Mahogany vai dizendo:
Days go by so fast
Seams to me we’re never really free
Something’s shouldn’t matter quite so much
And some, should never be
But one fine day you will look to me
We’ll have moments, two or three
Keep me close to where you run to hide
I’m never hard to find
Just take your time
And save that time for me…

Talvez um dia seja como a canção diz… talvez um dia te apercebas do quanto erraste… eu tenho tempo como a canção… guarda um tempo para mim também.
E adormeci a pensar em ti no sofá, na companhia do jazz, da mágoa e do whiskey e da saudade.

de João Natal

(resolvi hoje reeditar este texto já antigo porque queria partilhar com todos vocês a música que nele falo, e na altura da primeira edição não tinha esse meio ao meu alcance... espero que gostem, é uma das músicas que mais me diz a mim)

Publicado por D_Quixote em julho 2, 2005 12:20 AM
Comentários

Olá Nuno! Andei um tempo sumido...
Sou 'viciado' no seu Diária da tua ausência.
Um melhor que o outro...

Esse então, fiz questão de ler de novo!

Abraço Amigo!!

Afixado por: Marcus Vinicius em julho 2, 2005 03:56 PM

...perdi-me no teu diário e kuskei esses momentos e bebi do teu whiskey e nem percebi que nos teus olhos havia lágrimas...muito bom gosto o jazz. Concordo com opinião anterior...faço questão de me ler este teu diário que, espero, um dia seja publicado. Jack Daniels e kevin Mahogany...tão próprio de ti ;)

Afixado por: Nina em julho 3, 2005 12:16 AM

Preciso comentar de novo este seu "diário", revejo-me na sua escrita... A ausência da pessoa que amamos vive encoberta pelo silêncio em que quase desesperamos...
Gostei mesmo muito das suas palavras, mesmo muito!!

Afixado por: Gertrud em julho 9, 2005 05:13 PM