maio 30, 2008

Outono

Teus olhos são tão tristes como as tardes de Outono
Tua voz é melancólica como a brisa nocturna
Que perpassa entre as folhas
A minha alma no deserto aguarda em silêncio
Você ouve uma canção e quase chora
Não ouso falar
Eu te vejo absorta e por um momento parece feliz
Então eu penso: deve ser uma lembrança
Um raro momento bom
Teus olhos são tão tristes como as tardes de Outono
A canção é muito triste
Quase tão triste quanto você.

de Carlos Augusto dos Santos
Porto Alegre 28 de maio de 2007

Dolls movie scene by Takeshi Kitano

(e do outro lado do oceano chega-nos este poema, lindo e triste. Depois de ter visto o Dolls tive que o trazer para aqui... obrigado Carlos, ficarei à espera de mais! Abraço.)

Publicado por D_Quixote em 01:14 AM | Comentários (2)

maio 28, 2008

E por falar em cinema...

O Poetry Café também recomenda:

O Maravilhoso Mundo do Cinema - este blog sobre cinema é um projecto da cadeira de Atelier de Jornalismo de uma amiga que também escreve habitualmente para aqui. E que, para muito orgulho meu, irá publicar muito em breve a sua poesia.

Um sitio a visitar e a comentar!

Publicado por D_Quixote em 12:15 PM | Comentários (1)

maio 25, 2008

O Poetry Café Recomenda - The Fountain

...

Como começar a descrever aquele que provavelmente é o filme da minha vida?...

Simplesmente lindo e inenarrável... assim é The Fountain, o ultimo capitulo. Um filme espiritual e profundo de Darren Aronofsky, que versa sobre o amor, a vida, a morte, o renascimento, a alma e sobre a transcendência de todos os seres.

O filme reparte a narrativa em 3 momentos diferentes mas interligados: Tomas, é um descobridor ao serviço da corte de Espanha na sombria época quinhentista que, lutando contra a inquisição parte para o Novo Mundo em busca da arvore da vida por demanda da rainha Isabel de Espanha. Tom é um cientista no presente, que luta uma batalha contra o tempo, tentando descobrir uma cura para salvar a sua mulher Izzy, que definha com um cancro. Tommy é um homem no futuro, em 2500 D.C. que parte numa nave espacial em forma de bolha, com destino a Shibalba, uma estrela moribunda que o povo Maia acreditavam ser um portal para outro plano existencial, levando consigo a Arvore da vida que está a morrer.

A composição estética de Aronofsky, a música de Clint Mansell, a fotografia de Matthew Libatique, tudo isto aliado a duas interpretações estrondosas de Hugh Jackman e Rachel Weisz tornam este filme um filme obrigatório de possuir e de rever vezes sem conta.

Odiado e menosprezado pela critica americana, idolatrado por quem gosta verdadeiramente de um cinema pensado. Este filme é algo de uma beleza transcendente que irá ser visto e revisto, como foi no passado, hoje e daqui a muitos, muitos, muitos anos, como uma das grandes obras alguma vez feitas na sétima arte.

Para quem ficou um bocadinho curioso, deixo a ponta do véu.

Our bodies are prisons for our souls; all flesh decays, death turns all to ash and thus, death frees every soul.

Publicado por D_Quixote em 01:32 AM | Comentários (16)

maio 23, 2008

Cyberlove

Pensando no que hei-de dizer
com um brilho eléctrónico á frente
que me turva a mente
e me impede de ser.

Ziliões de sinais de fumo
aquecendo espirais de cobre
visionados por óraculos cancerosos
que tossem sangue e luxúria
ao sentir a nossa fúria
do outro lado do mundo.

E eu, cowboy que cavalgo
um cavalo de perna partida
que relincha descompassadamente
á procura do pôr do sol...
Que sei eu dos indígenas?

Talvez por isso tenha pesquisado
amor no google.

de Daniel Afonso

Cyber Love by ~Spidou
copyright of the photographer

(simples mas bonito, obrigado Daniel por mais um poema dos teus e desculpa pelo atraso na edição.)

Publicado por D_Quixote em 10:35 AM | Comentários (2)

maio 19, 2008

O OURO E O CASCALHO

Sou o poeta das planícies,
Que do Alentejo do meu coração,
Onde molho o pão no azeite
Das Grandes-Oliveiras
E refresco a garganta com o tinto
Que o suor e calor criou;
Monto o burrico que me levou,
Ao ritmo do vento breve
Á Grande Cidade de Lisboa,
Que tanto amo.

Aqui vivo,
Como poeta vestido de negro
Bêbedo dos sentidos,
Vagabundeando pelas
Palavras,
Rodando na minha bicicleta ferrujenta e sábia,
Que só roda quando quer,
Como o espírito livre dos árabes.

Ruas de nevoeiro,
Aqui vou,
Dormindo nas esquinas relvadas,
No manto de folhas abandonadas
Pelas preguiçosas árvores
Do belo bairro dos Olivais.
Estou em casa!
Sou um cão magro e feliz!

Farto e cansado
Do jogo da simetria ambulante
Dos homens-comuns
Que tudo endireitam
Para satisfazer a sua luxúria de mentalidades.
A natureza é torta e bela,
Porquê simetria a mais do que aquela que
Deus nos quis dar?
Lixo! Lixo! Lixo!

Estranho os ciprestes e sequóias de betão,
Desenhadas por artistas cegos,
Mastodontes silenciosos
Esperando o armagedon
Que os livre.

Pena dos homens e mulheres,
Crianças de rosto triste
A lamberem os vidros de 4x4
Fedorentos que se bufam negramente
Para o ambiente que Jeová criou.

Jeová criou.

Vinho tinto, vinde,
Estou só.

Poeta pobre e feliz…
Hoje alimento-me de nevoeiro e neblina,
Amanhã de ar e relva,
De Whitman e sol.
Pobres oliveiras sós,
Esquecidas entre
Pomares de pedras cinzentas com olhos quadrados
Onde moram pessoas infelizes nas suas entranhas.

Bairro dos Olivais!
Alameda das Oliveiras Tristes!

Bicicletas ferrugentas com gordas mulheres
Com gordos sacos de compras
Com gordos braços a estender roupa
Com paredes de tijolo de burro
Ruas direitas e ruas tortas para pesadelo de carteiro
Por entre relvas centenárias
Nuas e carecas
Oliveiras riem-se ao vento
Incólumes e perversas na sua tranquilidade das décadas
Cães velhos vadios magros famintos doentes sós
Por aí
Gajos que não lembra ao diabo
Por aí
Que fazem Onde dormem O que comem
Tiveram mães e pais?
Rostos cavados de medo e sombra,
Para onde ides?

de Carlos Luis
in “Tijolos de Verde Rude”, Corpos Editora

Alentejo II by ~antipopmarket
copyright of the photographer

(o que dizer deste poema Carlos? É simplesmente genial e fez-me voar na imaginação por terras perdidas tão nossas deste Portugal. Escolhi-te um som do Pedro Barroso... porque para ilustrar um tão grande poema, fui buscar outro grande poeta cantor! Aquele abraço e ficarei à espera de mais textos assim tão bons como este.)

Publicado por D_Quixote em 12:39 AM | Comentários (5)

maio 12, 2008

O Poeta

O poeta é um cajado já rachado
Gasto na estrada d'um velho a caminhar
É um lobo cansado e esfaimado
Que só não está cansado de amar

O poeta é uma arma de fogo
Sem travão de segurança nem balas
É uma mulher tímida que vai a jogo
Sem Ases nem Figuras nas jogadas

O poeta é uma vida enrugada
A voz áspera no xaile da fadista
É as gargalhadas que voam nas noitadas
E a tristeza que sempre nos mancha a sina

O poeta é um cajado já rachado
Gasto na estrada d'um velho a caminhar
É um lobo cansado e esfaimado
Que só não está cansado de amar

de Daniel Afonso

The poet. by ~nettocastro
copyright of the photographer

Publicado por D_Quixote em 01:43 PM | Comentários (10)

maio 07, 2008

A tua casa

A tua casa era algo entre névoas. Era algo ameno e confortável, e tudo se podia navegar. O branco da vivenda ocupava sempre o lugar fresco do ar, e parecia impor-se às cores menos luzentes das outras casas. Ficava no canto da vila, virada para o bosque.

A tua casa eras tu à janela, no primeiro piso, a espreitar de dez em dez minutos para ver se eu já tinha chegado e a espreitar dez minutos depois para veres que eu já tinha chegado. Eu adivinhava um sorriso enquanto descias as escadas.

A tua casa estava sempre de entreluz por dentro e tinha cheiros de boas vindas. E andavas à minha frente levando-me pela mão, e falavas, mas pareciam-me pássaros a cantar e a dançar nas teclas de um piano.

A tua casa tinha molduras chamadas janelas onde estava pintado um bosque até ao azul celeste. E havia uma estrada de terra que atravessava o bosque e acabava num sítio que – se o visitássemos – decerto veriamos que ali começava outra estrada.

A tua casa permitia que os raios solares entrassem para desencobrirem dos teus olhos um índice de verde, e tudo parecia que era um filme feito a partir de alabastro. As películas eram segmentos das tuas pequenas unhas a passar pela minha face.

A tua casa calava-se quando eu sentia a energia dos teus braços sobre os meus, enquanto te abraçava e imitavamos asas. E incorporávamos a felicidade. E eram honestos e sinceros todos os arquipélagos que se formaram através da erupção do nosso amor, no fundo do mar.

A tua casa era quando alimentávamos a nudez pura com o desejo de sacrilégios. E seguiamos o trilho que nos levava á intimidade, com cuidado para não tropeçarmos um no outro. Acertavamos todos os passos de dança, no salão vitoriano, os deuses da paixão aplaudiam.

A tua casa era a última estrela a apagar-se naquele bairro, todas as noites. Como se, mesmo depois do sistema solar ter desaparecido, nós continuássemos a reluzir. E havia sempre calor e conforto e segurança e carinho.

A tua casa é uma morada perdida no tempo e na memória, e é o lar do meu refúgio nostálgico. Lá, ainda verias no tecto um pressentimento dos sonhos que sonhei contra ele. Lá, não existe o pranto deste abandono.

de Daniel Paiva

window to my soul by *don-paolo
copyright of the photographer

(obrigado Daniel por este texto que nos faz pensar tanto nas nossas "casas". Espero que envies muitos mais, porque adorei ler-te. Abraço e desculpa o atraso na edição.)

Publicado por D_Quixote em 11:41 AM | Comentários (6)

maio 05, 2008

Na serenidade dos rios que enlouquecem

O tempo passou por nós, não vês?
Crescemos, tornámo-nos tristes.
No fundo, crescemos.
Perdemos as brincadeiras,
Os sentimentos sem sentido.
Perdemos a inocência,
A leveza das palavras
Que teimámos tantas vezes
Em esconder.
Não existem culpados,
Mas sentimos no nosso corpo
O ardor dos cactos,
Quando as lágrimas,
Queimando o rosto,
Caem desamparadas no chão.
Não há súplica que ecoe
Nos tempos de vidro,
Nas noites de metal,
Que nos ferem o peito.
Venho para dizer-te,
Que já não tenho endereço,
Que já não tenho idade,
Que este já não é o corpo
Onde tantas vezes te escondias.

de Paulo Eduardo Campos
in "Na serenidade dos rios que enlouquecem"
Ed. Amores Perfeitos, 2005

Sadness by ~joiM
copyright of the photographer

(obrigado Paulo pelas tuas palavras de apreço, são e-mails como o teu que me dão alento para continuar com este projecto em defesa da poesia em português. Quanto ao teu desabafo... olha... o meu forte abraço e acredita que um dia há-de ser dado mais reconhecimento ao trabalho dos poetas portugueses, tanto por parte das editoras como por parte do publico em geral. Até lá, obrigado por partilhares comigo estas trincheiras do combate pela defesa da poesia!)

Publicado por D_Quixote em 12:14 AM | Comentários (4)