outubro 31, 2007

"crescer"

Frio. Eu odiava o frio, os cheiros que me gelavam o nariz e os sabores que me doíam na língua. Porém, sentado numa cadeira de café, admirava a neve. Mais lívida que a morte, mas, no entanto, mais pura que virgens. Suscitadora dualista, incitava ao amor e ao ódio, ao romance, e á tristeza.

Enquanto deixava penetrar no meu esófago o calor do café colombiano, eu reparei num Serra Da Estrela com traços lupinos que caminhava sem vagar, enterrando os pés no tão odiado frio da tão amada neve. Pela forma pesarosa como caminhava, também devia odiar o frio, apesar do seu espesso pelo cinzento com uma grande mancha branca na barriga e na cara. Foquei-me então em olhar o cão nos olhos, para me esquecer do frio. Eram azuis, mais claros que a água que tinha num copo ao lado da chávena de café, e quando nos olhámos nos olhos, quase que nos cegámos mutuamente. Quão doloroso era olhar para aquele velho cão! Não só pelo seu olhar afiado, mas pelo seu pelo embaraçado, com ar bafiento e longíquos cheiros a mofo. "Deve ser abandonado" - Acabei por concluir.

Agora destacava-se uma outra personagem. Uma jovem ruiva que, passando com o seu grupo de amigos, parou para abraçar o cão. Ignorando plenamente o resto do grupo, acariciou-o e fez-lhe festinhas. O seu cabelo era como o fogo, e para o cão era-o mesmo, pois parecia feliz ao farejá-lo. Os seus olhos, portanto, sabiam a chocolate, e a sua pele tinha uma tez a apenas cinco miligramas de melanina da lividez. Decidi sair e cheirar o seu cabelo também. Mas o que me queimou foi uma chapada.

Como amo a adolescencia e odeio a puberdade!

de Daniel Afonso

(li e reli com um enorme sorriso... adorei este texto Daniel, relembra-me muita da inocência que ficou algures lá para trás, fico à espera de mais!)


so pra dizer 13 by Devaneios PurpurA
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Publicado por D_Quixote em 09:13 PM | Comentários (8) | TrackBack

outubro 24, 2007

A ESCRITA DE NÓS

Tu és tesão, tu és amor!
Tu és tesão no poema!
Tu és poema no tesão!
Tu és o voar
Onde gosto de estar!
Eu sou sofreguidão, sou o acalmar,
Eu sou o escriba no papel,
A colagem do teu pairar,
Como que aberta para mim
A te saborear, em ti a entrar.
Como o cansaço que se atenua
Na satisfação da escrita,
Com o formato dos nossos desejos,
No torneado de nossos corpos!
Assim, segurando nossas cabeças,
Olhos nos olhos a penetrar,
Como ao nos comungarmos
Um no outro nos perdêssemos.
E só queremos o nosso amor
De nossos íntimos a fusão
E só queremos nossas bocas,
Da alma o pecado,
O pecado da nossa imaginação,
Que mais nos solta os desígnios,
O interior que escondemos,
Mais avilta o animal que somos
A carne que nos sentimos.
Dos lençóis do nosso ter
Grita no papel o nosso ser.

de António Viana

(que poema quente para aquecer estes dias de Inverno que já chegam. Obrigado por mais um momento, grande, da tua poesia António. Aquele abraço!)

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Publicado por D_Quixote em 11:38 AM | Comentários (1)

outubro 03, 2007

Ele

São apenas anjos negros, às vezes doces como seda, de asas feias manchadas com o sangue da sua própria morte. Não são monstros, não têm garras, são apenas sós, tristes e muito negros...

Vozes escuras por entre a noite murmuravam-me.
Eu sentia-te como uma faca numa mistura de névoa e água. Sentia-te silêncio esquecido nos meus lábios na maneira como me odiavas.
Gritaste, e por um só segundo um grito mudo, amargo, esfomeado.
Gritaste como se fora algum dia força em ti, como se o vento chorasse sob ventanias que nunca suplicam.
Foi então que te vi! Vi as tuas asas enormes e desfeitas. Eu não tenho asas e não queria ter umas assim. Não sei se sabes que eram feias, mas os teus olhos lembravam pedras agoniadas pelo brilho de uma estrela. Ás vezes a pedra tem a fatalidade de um espelho….
Não conhecia a tua linguagem, mas o que não sabia era que a esquecera.
Esquecera a tua linguagem de sabor a ferro e fontes, esquecera-te no meu corpo, esquecera tanta coisa.
Não sabia que se pedisses um desejo seria cor-de-rosa, como quando eu pequena. E quando eu pedia desejos sabiam a jasmim e a flores mortas que nunca existiam.
Davas-me cabanas e dizias que eu era tua.
Davas-me um poema e julgavas ter a minha alma.
Arranjavas-me prisões como a de pássaros e cortavas as minhas asas com uma faca mal afiada. Depois reza-va-las sete noites junto ao mar e molha-va-las com o meu sangue coagulado.
Quando não gostaste das minhas linhas da mão com uma lâmina acrescentaste novas.
Depois o meu olhar......odiavas-me e ele era mais doce. Mas tu sabias que não. Tu também gostas de acreditar, era doce e tinha o teu nome.
E ficaste louco...
Eu beijava-te e tu não te apercebias do corpo demasiado pesado, dos olhos talvez vazios, mas que….eram doces e tinham o teu nome...
Houve um dia em que me pediste que te lavasse as asas, eu parti-as e num último beijo menti-te como veneno.
Depois deixaste de vir. O meu corpo cansado tinha tantas saudades do teu.
Nalgum dia sei que ainda fui, e às vezes quando sem o teu corpo bastava sê-lo nos teus olhos. Porque às vezes tinha medo, tu eras sempre igual e não me olhavas.
Queria que viesses porque eu também existia quando choravas e te perdias.
Depois os deuses abandonaram-te, mas foi a mim que me expulsaram...
Esqueci-te e nunca mais gritei o teu nome.
Andei perdida, vagueava de margem em margem e às vezes deixava-me ficar. Alguém aparecia e abraçava-me. Não sabiam quem eu era e também não faziam perguntas. Eu queria perguntar o universo inteiro.
Mas eles pressentiam que eu não era daquele mundo e vedavam-me os seus jardins e fontes onde eu me queria afogar. Depois simplesmente abandonavam-me em desertos que criavam só para mim. Eu que esquecera quem fora às vezes preferia permanecer naquelas imensidões áridas que ter de voltar a perder-me. Mas nelas nunca me encontrava. Em mim também não.
Quando vi o anjo não o reconheci e eu que sempre tive a força de demónios, fugi.
Passou-se muito tempo.
Um dia vi um ser belo de asas compridas, límpidas como cristal. Era o anjo!!!!
Senti o peso nas costas e quando me virei lá estavam elas, feias, grandes e manchadas.

São apenas anjos. Anjos que às vezes têm o meu nome e são como espelhos. Já não sei se as suas asas serão assim tão feias e partidas. Não sei se são pássaros, mas sei que não são monstros. Mas são tristes, muito tristes e velhos.

de Sofia Farinha

(Este é um texto escuro mas muito bonito Sofia. É preciso talento para escrever assim e espero que não deixes nunca de escrever e de te exprimires com esta intensidade)

Fallen Angel by Luis Royo
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Publicado por D_Quixote em 01:47 PM | Comentários (21)