março 26, 2007

Sem palavras

Que posso eu dizer,
que possa ter importância?
Não há dias, nem há meses,
nem quilómetros nem distância.

Não há perto nem há longe,
nem o tempo que corre em vão.
O meu tempo só é medido,
no bater do teu coração.

Não há alegria nem tristeza,
nem dias e noites sem fim.
Só tu, minutos e segundos,
a viver dentro de mim.

Mas que posso eu dizer...
que possa ser o bastante?
Apenas e só, que te amo.
Agora e por diante.

de Luis Nascimento

My Blue Lagoon by Sue Anna Joe

copyright of the photographer

(mas que belo poema Luis... parece uma canção daquelas que a melodia não tiramos da cabeça... obrigado por partilhares aqui no café mais este teu trabalho...)

Publicado por D_Quixote em 12:58 AM | Comentários (19) | TrackBack

março 21, 2007

Chove

Chove, uma chuva grossa e quente. Eu estou sentada, do lado de dentro e tenho a janela aberta, podendo desta forma sentir os pingos aveludados a entrarem pela túnica dentro, massajando-me as costas tensas.

Gosto do Verão! Noites em que nos confundimos com o Universo, sentimos-lhe a grandeza e a proximidade. Deixamo-nos envolver pela escuridão polvilhada aqui e ali por luzes brilhantes.

O céu está plúmbeo, pesa por cima das nossas cabeças, já se fazem sentir os trovões! Uma trovoada de Verão: a ideia de aconchego de um Inverno que se avizinha, o cheiro que emana da terra seca, estorricada pelo Sol.

A beleza de um dia de chuva de Verão!

de Cristina Cupertino

Foggy morning #8 by Tim Holte
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(Cristina, que bela maneira de te estreares por aqui, espero que envies muitos mais trabalhos porque gostei desta pequenina amostra. Jinhos e não deixes de escrever!)

Publicado por D_Quixote em 12:11 AM | Comentários (9) | TrackBack

março 13, 2007

CANTAR

Pudera eu rasgar tua alma
Como quem rasga tuas vestes,
Nela entrar de forma calma
No calor de nós a resistência despes.

Pudera eu moldar-me a jeito,
Como quem meu corpo esculpe,
Formato de mim, encaixe de teu peito,
No desejo de ti minha alma exulte.

Pudera eu limitar o tempo,
Pairar em ti, teu sonho navegar,
E ambos bolinados ao vento
De teu seio canções a brotar.

Pudera eu que fosses a vida,
Eu a essência do teu imaginar,
Não mais sermos ambição tremida,
Antes a construção do verbo amar.

Pudera eu elaborar poemas
Para os meus braços te atirar,
Por nenhum tempo manter as penas,
Para todo o sempre te cantar.

de António Viana

about cinema. by James Parbleu
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(mas que belo poema para hoje... o sol brilha e dá mesmo vontade de cantar poesia! Obrigado António pelo teu poema, espero que envies mais! Abraço.)

Publicado por D_Quixote em 10:24 AM | Comentários (1009) | TrackBack

março 09, 2007

A Grande Viagem

Uma voz emocionada falou do outro lado
Uma frase
Deu-se inicio ao fim
a dissolução física de uma família até hoje completa

Estava longe
e dei inicio a uma caminhada
Que me angustiava a cada minuto que me aproximava
Como se a distancia permitisse não acreditar
Os olhos e a voz embargados numa luta entre o sonho e a realidade
Num desejar crónico que o tempo parasse
A qualquer momento
Para que alguém me acordasse
E dissesse... Está tudo bem.

Nunca tinha perdido ninguém
Mas hoje
Sei que não há defesas
Não há livro de instruções
Nada conforta os sentidos
Que nó é este que nos aperta o peito
Que impotência é esta que nos prende a alma
Somos Homens e tão frágeis
Magoamo-nos fisicamente,
fazemos guerras,
passamos dias sem comer
em (im)perfeitas angustias pessoais e profissionais,
e superamos... melhor ou pior.
mas a perda de alguém que amamos...
Sentimo-nos frágeis comos as asas de uma vida
Que não podia ser de outra vida.
É um sopro de pequenez
Que nos desperta para a vulnerabilidade daquilo que somos

E no dia seguinte ...
a realidade ...
Esperava-te sentado naquele mesmo cadeirão
A tua voz rouca a ecoar na casa
O teu riso e gargalhadas cristalinas
que soltavas do fundo do teu peito
Tantas tardes quentes de Verão que passámos juntos
Aquele Alentejo solarengo que só nós conhecemos
Os serões na (im)possível e escassa frescura da noite
Sentados cá fora ouvindo “estórias” do antigamente
Quanta sabedoria
Lembro de uma noite ter-te feito rir desalmadamente
Da avó me contar que te continuaste a rir já deitado;
Lembro de irmos à pesca e comermos o peixe debaixo de um chaparro grande
E de dormirmos a sesta na hora do calor
Os dias eram tão grandes
Não tinham fim
O céu, ao final do dia
ficava laranja
e tu dizias - com essa tua experiência de vida - "amanha vai estar mais
calor"
e estava.

Fica em mim parte de ti
Guardo e abraço tudo o que recebi

Escrevo-te,
não para exorcizar a dor
Mas para que saibas
Que fui sempre eu do teu lado
Que foi tudo incondicional
Que as ultimas palavras que ouviste foram as minhas
Que era eu que chorava desalmadamente como uma criança
Porque sim
Porque fazes falta.
Ponto.

Partiste no mês em que nasci,
Não sei para onde vais
Se olhas por mim, por nós
Mas se o fizeres
Fá-lo sempre com a mesma inocência com que viveste para mim
Como uma criança grande
Cabelos grisalhos e coração grandioso
Com o mesmo brilho nos olhos.
O Mundo é feito de Grandes Homens como tu

Boa Viagem Avô

Miguel Cruz

Dusty Death by Lars Raun
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(um belo e emocionado texto... obrigado Miguel por partilhares aqui no café... abraço!)

Publicado por D_Quixote em 11:09 AM | Comentários (5) | TrackBack

março 02, 2007

Recolecção III

anoitecer ainda que assim
um ontem tão longínquo agora não se traduza
no emudecer secreto da máquina de escrever

isso e muito mais

derrocara daquele som inaudível
despertara a memória
temera a desonra gastara todas as palavras

agora

inalava todos os sons e aromas da criação do mundo nas frestas do café forte
os novíssimos companheiros afiançavam diziam-lhe repetidamente
- ela nem sequer estivera por ali

e então

ele escrevera em todos os lugares
(quando a noite chegar o pequeno inferno vai começar)
cigarras e copo na mão

eis

a visitação a epifania
captura-me em camera lenta (sorris)
estou-te a (rever)

sim

as lantanas as eiras repletas de figos buganvílias
esse sopro espraiara-se pelas ruas e ruelas
esplanadas e roupas estivais nas dunas litorais

até

nas salas de exposição
no salitre que ainda hoje repousa nos carris
outro homem que se vai

ao encarar o mar

os seus passos eram um murmurar cadenciado pelas ondas em alabastro
tinha agora mais amigos
( - e depois nasce o dia e já não importa donde sopra o vento)



resta a purpurina daquele mar o mesmo resplendor também na auréola dos teus seios
do nosso olhar rompe o sol na palma das mãos
na ventura de beber o dia a dia nos lábios

um do outro.

de Renaldo Ventura

Nuance #55 by Nana Sousa Dias
copyright of the photographer

(o que mais dizer da tua poesia Renaldo... já se tornou uma referência não só no café como na blogosfera portuguesa... um abraço!)

Publicado por D_Quixote em 11:53 AM | Comentários (5) | TrackBack