outubro 25, 2006

Defunto

eternamente a ideia do fugir
que idiotas
e para onde?
tenham um buraco a mao,e pensem nele
e escavem-no,com a pele
ate que esta se gaste e deixe os ossos prontos para desfalecerem para dentro
fito a terra,o po e o cheiro acre dos mortos dos outros
as romarias no cemiterio,o desfile de bouquets que se enfeitam mutuamente
como que se perfumassem e trajassem a rigor para fazerem companhia ao defunto
e ele ali sem ver a cerimonia mais triste que lhe reservaram
com que o presentearam no seu ultimo aniversario

vejo de longe a lagrima que corre do olho em desespero pelo queixo para se quede no abismo
para que pingue
e atordoe as pedras em que tomba
e as parta
e nos partimos
e somos nos que partimos
ele fica
deitado
nem quieto,nem languido
deitado

e pelas entranhas do caixao
cheira a morto
e se chove
constipa-se
e se se ensopa no seu perfeito fato escuro
o unico
o eterno
que raio de consolo estar impecavel para ser nada.

de Vashco Leão

untitledby Rene Asmussen
copyright of the photographer

(uma excelente estreia aqui no café deste novo autor. Vasco gosto muito da maneira inovadora como apresentas este tema. Espero que envies muitos mais trabalhos porque este deixa uma forte impressão e a vontade de ler mais. Abraço)

Publicado por D_Quixote em 11:09 AM | Comentários (3)

outubro 19, 2006

Inconsistência

O ar denso que me desperta deste sonho faz-me acordar para a realidade. Mas esta realidade não é aquela que eu queria para mim, para a nossa história em conjunto ou por vias separadas, porque o destino pode pregar-nos tantas partidas. Bem sei que tudo o que digo e penso não parece de todo com o sentido mais certo, mas nunca me defini como uma mente brilhante e segura, tantas vezes encho de dúvidas o meu pequeno refúgio. Espero que um dia volte a encontrar esse ponto de fuga para o outro universo que é tão diferente dos meus passos, da minha rota que às vezes mais parece de colisão total e irreparável.
Não gosto de divagar só por divagar, preciso dos motivos certos ou que o estado das coisas seja de destruição eminente e de absurdos incompreensíveis. Por tudo parecer estar sempre ao contrário, o mundo, os pássaros desalinhados, as tuas palavras, por tudo fico agoniada e com vontade de agarrar o mundo com as minhas mãos e fazer as coisas acontecerem.
Ou não acontecerem porque são erradas. Ou parar o tempo para descansarmos os dois deste desatino que nos troca as voltas todos os dias, fazendo-nos parecer máquinas a pilhas ou com bateria eterna mas frágil. Este rodopio que alguém impensadamente chamou de vida baralha-me os sentidos e a imaginação, já não sei o que fazer para ser única, toda a gente tem um clone ou uma fotocópia que processa os mesmos sentimentos supostamente autênticos. A única autenticidade na minha vida é a procura de uma essência só minha que todos querem roubar, eu quero dar-ta só a ti, tu vês-me como ninguém consegue ver, e eu sou assim porque sou para ti. Mas é difícil encontrar um sítio que ainda ninguém tenha pisado, ou uma frase que ninguém se lembrou de dizer.
Sem sentir o corpo dormente levanto-me do meu estado hipnótico e olho em volta. Mas só vejo papéis trocados, e só oiço discursos estranhos repetido até à exaustão, sinto-me confusa e perdida nas palavras que insistem em entrar pelos meus ouvidos, mesmo que ponha as mãos à frente continuo a ver os teus lábios a apertarem-me contra a parede. Parece que voltei novamente àquela fase de contenção e limites, pensei que já os tinha ultrapassado e podia encontrar livremente experiências diferentes todos os dias, sem me
destruir com medos ou inquietações. O tempo parece mudar lá fora, mas não sei se está a chover ou se já é verão, perdi a noção até da temperatura do meu corpo, será isto a realidade ou voltei a mergulhar num sonho que não entendo, sinceramente já não quero saber. Deixa-me só ficar a olhar para ti, não digas nada, estragas o silêncio e ele é tão belo, deixa-me ser eu a dizer as últimas palavras. Deixa-me assim, está bem?

Afinal faz frio lá fora. O ar denso abafa-me um pouco os sentidos, por isso prefiro sair. Gostava que fosses comigo para outro lado mas não tenho coragem de te pedir mais nada hoje. Voltamos à realidade de prazos curtos e de clones dispersos por todo o lado, o negócio das pilhas deve dar bom resultado nos dias que correm. Talvez precise de trocar as minhas, talvez precise de um corpo novo. Talvez precise de algo mais. Mas o destino não muda nunca! .

de Milú Almeida

untitledby James Parbleu
copyright of the photographer

(Obrigado Milú por este texto fabuloso... é uma estreia em grande aqui. Acho que tens muito a dizer e acho que sabes muito bem como faze-lo... espero que este seja apenas o primeiro de muitos que iremos ler teus. Obrigado e beijinho)

Publicado por D_Quixote em 07:51 PM | Comentários (4)

outubro 16, 2006

Deitar

Deitar-se-ia nua. Numa espécie de homenagem fúnebre ao seu corpo cansado. Afastaria o lençol e os sonhos. Limitar-se-ia a esperar que os odores e as ausências se dissipassem. De olhos postos no tecto. Afugentaria o desejo sem qualquer gesto. Acabaria por adormecer.

de Alexandra Gil

untitledby Natalie Shau
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(pequenino... mas tão profundo! Ando com saudades dos teus escritos Alexandra, vê se envias mais. Jinho)

Publicado por D_Quixote em 01:07 PM | Comentários (35)

outubro 13, 2006

Teu corpo

Teu corpo
ondulando
na areia
quente
de um verão
que ainda nem começou

Teu corpo
deitado
na areia
sussurado
pelo vento
que suspira
nessa tua pele

Teu corpo
soletrado
na areia
e eu
junto-me a ele
eternamente

de Francisco Marques

Nuance #45by Nana Sousa Dias
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(mas que poema quente e leve... olha que pouca gente consegue escrever um poema assim tão belo como este, os meus parabens)

Publicado por D_Quixote em 01:05 PM | Comentários (5)

outubro 09, 2006

“Manhãs de jade”

Olha!... Não são muitos os meus sorrisos claros
e certos como as manhãs de jade.
Olha, com calma e com temor,
porque não sou só a pele, mas sim o cheiro,
não sou só o beijo, mas sim a porta.
Uma porta rasgada.
Olha e fica, como pedi e como peço ainda.
Olha...
Fechei os meus olhos e suavemente senti
o sorriso da alma clara e a certeza de
que este instante mágico já o foi antes de nós, antes de mim...
Fechei os olhos para descobrir na paisagem vaga
do meu silencioso mundo virgem,
a sabedoria de uma energia que me atordoa,
muito para além dos sentidos conhecidos...
Fechei os olhos para te ver,
para me render ao inevitável momento de perfeição
que sinto quando eu já não sou eu e tu és tudo o que pressinto.
Fechei os olhos para me ver.
E agora, que os dias começam a clarear no céu da cidade de pedra,
voa comigo, porque neste instante descobri que és parte de mim.

Estela Ribeiro.

delicate by marília campos
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(mais um texto muito bom e repleto de emotividade e de uma visão das coisas tão tua. Adorei amiga... é sempre muito bom quando voltas à escrita, fico sempre à espera de mais. Jinho)

Publicado por D_Quixote em 12:47 PM | Comentários (7)

outubro 05, 2006

VEM

Vem, que ainda me rasgam de sangue as veias!
Que ainda me soltam gritos e sonhos e versos, e tenho ainda
Um olhar para o gesto de olhar para alem de tudo que é o que não resta.
Quero me perder, perder-te, como se o nada em que tivemos fosse apenas o limite.
Quero sentir o mar, verde, azul, cinzento e as arvores contando as estações em verde e nada.
A música nunca parou! E o gesto foi sempre o mesmo gesto…De te abraçar!
As horas e os dias, apenas e sempre, o momento para te ver sorrir. Sentir-te.
Porque o tempo parou quando partiste! E parou quando não voltaste!
Vem! Que o meu coração só pode ser a tua casa!

de Paulo Sousa

50/50 by VONDETraumer
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(Paulo, tu escreves com a alma toda, e depois dá nisto, textos fortes e inesqueciveis. Aquele abraço)

Publicado por D_Quixote em 12:50 PM | Comentários (5)

as minhas desculpas, a minha desilusão...

Há algum tempo atrás eu lancei o desafio de me escreverem sobre o Verão e, ao mesmo tempo, disse que ia começar uma pequena rúbrica sobre cinema. Como devem ter reparado, nem uma coisa nem outra aconteceram, tudo por minha culpa, confesso.

Os poemas sobre o Verão foram só 2 ou 3, não os suficientes para uma semana temática, o cinema pouco tenho visto... o tempo escasseia para as coisas que tenho e tinha a fazer. Os exames da ordem, os recursos dos exames da ordem, os pedidos de revisão dos recursos dos exames da ordem... enfim... toda a minha vida é caótica e repleta de desilusão, do campo pessoal ao campo profissional... tudo é desilusão. E acabo por também vos desiludir leitores, escritores e clientes do café...

Por vos ter desapontado, as minhas enormes e humildes desculpas... as minhas desculpas para quem escreveu sobre o Verão e não viu o poema editado... as minhas desculpas a quem veio para os ler e não os encontrou.

Acabo por ser uma desilusão para mim também como sou para os outros.

um abraço triste a todos

Publicado por D_Quixote em 12:10 PM | Comentários (13)

outubro 03, 2006

Perdi

Perdi-me nos teus olhos …
Iluminas-te a minha vida e a minha alma estremeceu.

Bebo a tua alegria em doces tragos
E trago-te comigo numa dança de volúpia e embriaguez…
Tens-me dentro de ti, afagando e amando cada gesto teu.

Neste ter-te e não ter, te vou sonhando,
A cada gemido suspirado esbraseando
Esta fogueira inconstante de viver!

de Lavinia Matos

это никак не назвать by Станислав Ясинский
copyright of the photographer

(mais um dos teus textos lindos amiga, mais uma pequena e bonita poesia que nos consegue sempre tocar bem cá dentro)

Publicado por D_Quixote em 12:32 PM | Comentários (12)

outubro 01, 2006

Rio do Amor

Perdi a minha ninfa
Agora olho para o Tejo
À espera de encontrar
Aquilo que já não vejo

Busquei também no Douro
Aquele olhar tão belo
Procurei esse tesouro
Dentro de um barco rabelo

Subi à Serra da Estrela
Para ter algum sossego
E em busca dessa donzela
Desci todo o Mondego

Seguindo o meu fado
Rumei para Sul
Nadei por todo o Sado
Mas só vi um olho azul

Cheguei ao Guadiana
Já com alguma fome
Nada fiz pois este rio
Só me lembrava o seu nome

Era altura de ter juízo
Decidi voltar então
E procurar esse sorriso
Nas margens do Nabão

Caí na realidade
Procurar no rio, era puro engano
Pois amor tão grande
Só cabe num oceano


de Alexandre Batista

Barcos no Douro by Manuel Ventura
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(é bom quando a poesia flui como água corrente, não é? Obrigado Alexandre por este belo poema... fico à espera de mais. Abraço)

Publicado por D_Quixote em 11:53 AM | Comentários (2)