dezembro 31, 2005

Feliz 2006

Aqui ficam os meus votos de um feliz 2006 para todos, cheio de felicidade e poesia.

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Publicado por D_Quixote em 04:40 PM | Comentários (6)

dezembro 30, 2005

Luís um miúdo da minha rua

Luís um miúdo da minha rua perguntou-me?
- Também há o natal dos animais?
– É possível!
- E eles recebem presentes?
– Isso não sei.
- Se calhar os animais pobres não recebem
– É possível
– Ontem estive a conversar com o galo
– É?!
- Passou o dia todo a queixar-se.
- E do que é que se queixou?
- Disse que era contra o natal, sabes! Disse-me ele, não gosto do natal, noite de paz, noite de amor, mas é tudo conversa, quando eu menos esperar estou a enfeitar o prato na noite de consoada. Já reparaste se houvesse o natal dos bichos?! Imagina nós a cozinharmos o homem?!
- Nem sei o que dizer-te!
– Outro dia o teu pai entrou aqui armado em rei Herodes e zás cortou umas cabeças. Se o teu pai percebesse o meu cacarejar eu dizia-lhe que o menino Jesus só bebia leite com mel, se eu bebesse leite com mel ficava com a voz mais afinada, a ração que a tua mãe me dá deixa-me tonto.
- Gostava de te ajudar.
- Preferia que uma raposa me deitasse as unhas, conheci uma que tinha unhas para tocar guitarra, certa madrugada embalou com a sua voz a galinhada cá do bairro, num abrir e fechar de olhos entraram-lhe no papo.
- Gostas da árvore de natal?
- Nunca vi nenhuma!
– Não?!
– Às vezes passa por aqui o gato esse bicho anda sempre a troçar do meu bico. " Ontem provei uma canja de fazer eriçar os bigodes. - Isso é cruel. - Já imaginas-te como se sentiriam o burro ou a vaca se depois do que fizeram pelo menino Jesus acabassem no talho, deram-lhe calor.
- E tu?
– Eu canto, o meu canto é o melhor dos despertadores.
- Desculpa, acho que tens razão, vou pedir á minha mãe que não te cozinhe
– Que lhe vais dizer?
- Na verdade não sei, podia abrir-te a porta e tu seguias o teu caminho.
- Não ia ser fácil, o mundo está cheio de perigos e não é fácil arranjar trabalho, conheço um primo que passou por uma churrascaria, precisasse empregado dizia o letreiro, era no tempo dos contratos a prazo, acabou na barriga do patronato.
- Já ouviste falar na Etiópia?!
– Não.
- Há por lá muita fome, não se vê um pé de feijão, nem uma pata de frango.
- Deve ser dramático... a culpa são as guerras, juro que nunca me hei-de alistar no exercito, talvez no exercito de salvação.
– Olha a minha mãe está a chamar-me, tenho de fazer os deveres da escola.
– vai lá, gostei de conversar contigo, falar ajuda a passar o tempo.


de Lobo

(um Natal diferente... mas fantástico... obrigado amigo Lobo)

Good morning... by Palmi Einarsson
copyright of the photographer

Publicado por D_Quixote em 02:19 PM | Comentários (0)

dezembro 28, 2005

raiz

de que serve
esta belíssima árvore
no seu esplendor
este sossego
estranho
esta maresia
se não vejo o olhar
nem o brilho de um peito


essência

persiste em mim
a raiz de um sorriso
não a recordação
nem a imagem
mas a sua plena luz


de poemar

Happy New Year By: Ahmed Hadrovic
Copyright of the photographer ©2005

Publicado por D_Quixote em 03:08 PM | Comentários (5)

dezembro 26, 2005

O PAI NATAL VEIO DESCANSAR

Ninguém o ouviu entrar e por isso os pares continuaram rodopiando pelo salão. As crianças adornavam a casa, assaltando em jeito descuidado a baby sitter, uma jovem rapariga de piercings nas sobrancelhas e olho distraído pelo mundo.
A mesa opulenta do salão, retirada a um canto, permanecia embevecida pelo esplendor dos seus adereços, velas da China, rosmaninho da Índia, sedas e perfumes, especiarias várias, odores casados com outras paragens. Por isso o embevecimento do seu olhar comprometedor, atraía e aconchegava o tapete marroquino, um pouco desnorteado com o movimento colorido, e as personagens brilhantes e destapadas, esplendorosas, fervilhando efemeramente pelo salão.
A um canto o dálmata de olhos tristes dormitava ao som do crepitar da lareira e as suas pintas heterogéneas dançavam nos olhos calculistas do persa, enroscado desconfiadamente no cadeirão. A música incomodou-o repentinamente. Sentiu-se desconfortável no cadeirão e também lhe apeteceu rodopiar por todo o salão, mas os ombros doridos, as pernas cansadas, longas as caminhadas por todo aquele inverno, o corpo dorido, o trenó permanecia desconfortável, a obesidade, todos lhe ofereciam a ceia e a todos agradava com um ou outro aperitivo, bombom, bolo rei, filhoses, rabanadas, e até havia quem o obrigasse a jantar, pois a noite seria longa e necessário e urgente colmatar a fome que se avizinharia. Finalmente conseguira sentar-se. Os meses de trabalho terminaram naquele cadeirão confortável e vazio e não percebendo bem o porquê, de repente invadira-o uma leveza inquietante, mas ainda assim a paz, a imensa paz, convidaram-no a adormecer e foi assim, que espantou todos os convidados para a ceia.
E foi por isso que as crianças deixaram de assaltar os piercings da ama e aconchegaram de mansinho aquele velho homem de barbas, gordo, de faces bondosas, e afinal de tudo e apenas, com uma roupa vulgar e velha.
De manhã, quando acordaram, telefonaram para a televisão proclamando: gostava que dessem no telejornal uma notícia boa, nós os Afonso Henriques, habitantes do velho reino da Lusitania, descendentes de homens audazes e valorosos, proclamamos para todo o sempre: o Pai Natal existe, dormiu connosco esta noite e pede desculpa, mas não fala convosco porque... gosta pouco da fama.
Bem poderiam esperar as crianças pelo tratamento jornalístico, mas os jornais e jornalistas desta era, não acreditam no Pai Natal. Apesar de promulgarem o contrário.

de Nancy Brown

(eu também acredito no Pai Natal e na tua poesia linda Nancy... obrigado...)

Christmas time. by Gaetan Chevalier
copyright of the photographer

Publicado por D_Quixote em 05:46 PM | Comentários (1)

dezembro 25, 2005

Natal Transparente

gostaria que fosse natal
sem caridade
sem perdão
sem subserviência
sem culpa
ou qualquer obrigação.
que fosse apenas natal
e que em cada ser humano houvesse,
nem que fosse por um dia,
aceitação!
que o não haja
ou que o seja com alegria
um momento de paz
antes da fuga
ou da crucificação


de TCA

(obrigado amigo por teres enviado um bocadinho do teu Natal... já tinha saudades dos teus desenhos por aqui... continuação de umas boas festas em família)

waiting for christmas #3: transparent star by TCA
copyright of the artist

Publicado por D_Quixote em 12:10 PM | Comentários (9)

dezembro 23, 2005

carta ao pai natal

senhor pai natal eu sei
que és um anjo de deus nosso senhor
e como mensageiro do céu como diz
o meu amigo que mora na torre em frente
à minha barraca da favela onde vivo
quero pedir-te que transmitas lá no céu
como vou passar o natal com a minha mãe.

tenho dez anos e nunca tive um brinquedo
a não ser de aqueles que nós fazemos com
arame carros com rodas e tudo e volante.
desde que cheguei de cabo verde que moro aqui
nesta casa de madeira sem luz sem água
e só a lua acende as ruas estreitas tão estreitas
que chego a bater nas casas com os cotovelos.

nunca fui à escola e não sei ler nem escrever
por isso pedi ao meu amigo menino para fazer
uma carta. é tão estranho a caneta dele desliza
sinais no papel das coisas que eu digo que é
difícil acreditar que as minhas palavras ali estão.

às vezes espreito pela grade da escola que fica
ali perto e vou ver os meninos no recreio a brincar
quando a minha mãe diz para ir comprar pão
no senhor inácio porque o dinheiro eu conheço
dez vinte cinquenta as moedas e as notas.

senhor pai natal eu só queria olha já disse
que não quero brinquedos não me importo
mas diz a deus para dar um homem à minha mãe
ela queixa-se muito passa a vida a dizer que
a casa precisa é de um homem principalmente
quando o meu irmão de dezoito se pica nos braços
e fica para ali parece um morto mas quando acorda
começa a partir as coisas que restam por isso
é que nós não temos prateleiras para pôr as panelas
fica tudo no chão a monte. há dias deitou abaixo
a porta da casa e dormimos toda a noite com os cães
da rua a entrar e a sair. eu quase não dormi porque tive
de enxotar os cães que iam lamber as pernas
ao meu irmão e à minha mãe. foi engraçado.

ah sabes neste bairro que não é bairro
não vem a camioneta buscar o lixo
o carro que vem é a carroça dos cães para os levar
não fazem mal a ninguém mas eles dizem que são vadios
os cães têm dono mas eles não querem saber
e dizem que são nossos amigos os cães.

vem também um senhor padre dizer
para irmos à missa rezar e obedecer a deus
mas a minha mãe e eu não temos tempo é preciso
ir buscar água a uma torneira que uma senhora pôs
no quintal para a gente . é quando
vou à água que eu vou brincar para a lixeira
e às vezes trago uma lanterna velha um secador
que trabalha mas a minha mãe não precisa dele
porque tem o cabelo curto e é carapinha.

ainda há outra coisa que eu queria pedir-te
diz a ele ao deus e se ele se lembrar por causa
dos polícias que aparecem aqui todas as noites
é só para eles não aparecerem no dia de natal
e porque a minha mãe quando os vê fica doente
porque eles mataram o meu pai que fugiu com medo
e eles deram-lhe um tiro nas costas.

já não sei o que tenho mais para dizer
era tanta coisa mas o meu amigo que mora na torre
diz-me para não escrever muito porque assim
o senhor pai natal não tem tempo para ler todas as cartas
que os meninos os que podem enviam.

vou dizer ao meu amigo para ler em voz alta
para saber se ele não se esqueceu de alguma coisa
até porque a minha mãe está a chamar-me para
pôr uma bacia a apanhar a água que está a cair
em cima da cama. está a chover muito e é sempre
assim é quando a mãe canta «sodade di nha crecheu»

agora lembrei-me tu que és o pai natal
o mensageiro de deus e portanto sabes onde
está tudo porque vais dar as prendas a toda a gente
quando passares por cima da minha casa com o teu
carro de madeira puxado por aqueles animais que têm cornos
e parecem árvores no dia de natal faz-me só um sinal
um sinal só para mim só para mim.
e não te esqueças lembra-te da minha mãe.


de José Félix

(obrigado José por este momento... para todos pensarmos no que temos e no que queremos neste Natal... eu queria um mundo melhor onde todos podessemos ser felizes... não apenas alguns...)

Boys by Garik Avanesian
copyright of the photographer

Publicado por D_Quixote em 12:43 AM | Comentários (9)

dezembro 17, 2005

Dia Após Dia

Dia após dia
A solidão cada vez mais presente
Num corpo cada vez mais ausente
De si mesmo.

Dia após dia
Um acréscimo gradativo de tristeza
Nos meus olhos,
Na minha boca,
Na minha mente
E no meu coração...

Coração que pulsa cada vez mais devagar
O sangue a circular pelo meu corpo,
Pelo resto do meu corpo
Cada vez mais afundado num vazio imenso,
Numa escuridão plena...

Lágrimas a serem expelidas...
Sangue a ser jorrado...
Tristeza e mais tristeza a ser consumida
Por um ser solitário.

Dia após dia
Um rosto cada vez mais afundado,
Um lágrima a ser derramada,
Uma gota de sangue a ser chorada
Por um corpo sempre, mais e mais,
Perdido em si mesmo.


de Marcus Vinicius Costa Almeida Junior

(mais um belo poema triste do outro lado do mar... amigos... isto tem sido bastante mau, aliando a minha falta de tempo a uma quebra de links do alojamento das fotografias... vou passar os próximos dias a repor links perdidos e a tentar planear a semana de poesia de Natal... uff... suspiro)

take me
Copyright © 2005 by vili ivanova

Publicado por D_Quixote em 07:27 PM | Comentários (1)

dezembro 13, 2005

Natal à porta

Olá amigos, poetas e cafeínodependentes...

O Natal está aí já a chegar e o mote vai ser os próximos tempos do Poetry dedicados inteiramente à poesia Natalícia.

Encham lá o peito de coragem, peguem nas renas pelas hastes e vamos lá enviar essa poesia linda para enfeitar a arvore do café.

O tema é livre... metam neve, arvores, prendas, o menino Jesus, o gordo vestido de vermelho... o que vos apetecer! Aguardo-vos no email do costume, e peço desculpa pelos atrasos que ultimamente têm havido no processamento dos poemas. Prometo mais empenho e melhor gestão de tempo como objectivo para 2006.

Um forte abraço.

Publicado por D_Quixote em 11:59 PM | Comentários (7)

dezembro 11, 2005

O amor é kitche

Não durarei este minuto, nem mais, talvez notas soltas, saudade em arremessos, por mim trepando, nas teclas entranhando-se, nos dedos, espelhando os teus olhos negros e morenos, esses olhos tão pequenos…
Este minuto, não suporto nem mais, oco e sem tino, aflito, recusando esse teu corpo luzidio, tão fugaz …
Importa? Não nada! Depois de ti o silêncio, opressor, aflito, experimentando o nada e a tristeza trepando pelas paredes, sei lá o que de ti pensar, senão... a vida ilimitada e infinita, circunscrita em ti e tu noutros amplos espaços.
As palavras anoitecem e escondem-te e a tua injusta serena beleza... e por esses vastos areais o teu corpo e eles, eles? que tais?
Não durarei o suportar destas palavras…


de Nancy Brown

(e como eu já tinha saudade da tua poesia amiga, avisa quando já estiveres para os lados de Coimbra, temos que marcar um café com o nosso staff poético da zona)

tomorrow by marília campos

Publicado por D_Quixote em 11:37 PM | Comentários (4)

dezembro 07, 2005

As palavras a fugirem dos homens

Assim de repente dou um salto, ponho as palavras a fugir dos homens ou leio nas cartas de amor subentendidas histórias de polícias e ladrões. Foi assim; desenterras-te o machado de guerra, depois beijaste-me os lábios. Lisboa ficava no lugar daquela cicatriz. O amor era profundo e o sangue que corre alimenta as feridas de te desejar, de não ter palavras. Assim de repente dou um salto, parece que sou eu o movimento da terra, que sou eu no meu silêncio a dizer que te quero. Agora desejava nascer, nascer no sentido de não perceber o lugar onde estou e ser ai o prazer na primeira forma de existência. Assim de repente dou um salto, ponho as palavras a fugir dos homens e no entanto há as músicas e do outro lado do mundo o pulsar do coração. A meu modo fiz a minha viagem á lua, dou um salto e desço á tua profundidade. Entretanto fico na minha superfície de homem e de aventureiro.

de Lobo

(que as palavras nunca te fujam amigo, pois precisas delas para escrever estas coisas lindas como só tu sabes... abraço)

Golden Street
Copyright © 2005 by kadir barcin

Publicado por D_Quixote em 12:21 AM | Comentários (2)

dezembro 04, 2005

Anjos caídos

Menino estrela de brilho especial
É indiferente seres diferente
Pois toda a diferença está na mente
Daqueles que não te tratam de igual.

Brilhas sozinho no meio de gente
Num mar de gente mormente banal
Que não percebe o quanto está mal
Ao rotular-te como deficiente.

As pessoas lindas que falo aqui,
São anjos caídos que queremos cuidar
Em luta corajosa e decidida

Mas com o tempo passar eu já aprendi
Que afinal estão aqui p’ra ensinar
Tudo o que há de mais bonito na vida.


de João Natal

(ontem foi o dia especial deles, não o dia internacional do deficiente pois eu continuo a pensar que é impróprio este termo, que magoa, que classifica pessoas como objectos com defeito de fabrico. Prefiro chamar especiais, e quem os conhece bem sabe perfeitamente o porquê de eu o fazer, pela sua pureza, pela sua inocência pela sua beleza interior. Ontem e hoje este meu poema faz parte de um panfleto a ser distribuido no FeiraNova em Santa Maria da Feira, numa acção conjunta de Cercis locais. Mostro-vos aqui, para que a mensagem também chegue aos vossos corações e para que o muito que ainda precisa ser feito encontre a luz do dia.)

foto retirada de Apatris

Publicado por D_Quixote em 12:46 PM | Comentários (10)