agosto 31, 2005

Oceano

Diariamente o escritor olhava o mar do terraço e observava a mulher que entrava água dentro vestida e sorridente. “- É louca -” pensava. Depois mergulhava nos seus escritos e na sucessão de dias iguais e monótonos sentindo o tempo escoar-se a conta gotas.
Num momento em que o tédio se tornou insuportável e a insatisfação o invadiu uma vez mais, caminhou até ao areal, olhou a imensidão azul e , quase instintivamente entrou no mar sem tirar roupas e sapatos.
O choque da água gelada acordou-o.
Descobriu então que jamais esqueceria aquele banho, diferente dos outros todos, em que não respeitara as convenções mas que o acordara.
Por magia percebeu que até aí se limitara a passar pela vida e a fazer o correcto, o certo...o que os outros esperavam dele.
E, serenamente, decidiu começar a viver a sentir intensamente as coisas pequenas. Mergulharia nas águas revoltas uma e outra vez. E, quando lhe chamassem louco saberia sorrir, como só os loucos felizes o sabem fazer.

de Cristina M.

(um mar cheio de boa poesia neste pequeno texto desta autora que hoje se estreia aqui... amigos... um grande aplauso a esta nova poetisa!!! Hoje cafézinho por conta da casa... e oxalá voltem os dias de chuva)

Cue the music and roll the credits by James Wages
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Publicado por D_Quixote em 11:52 PM | Comentários (6)

a poesia

a poesia esgota-se nas palavras que respiram através das coisas...
a poesia de um olhar não cospe chispas afoga tempestades...
o tempo lava então as memórias e enxuto recupera-se sem afectação...
a poesia cria histórias de bombas de gasolina que tomam banho num lago,
alimenta os peixes e furibunda foge a todos os esforços de decifração...
a poesia suja-se nos esgotos de betão e inebria-se dos mendigos alcoólatras...
a poesia não pára de sofrer
está na impaciência das frases inarticuladas
e treme nas entranhas!

de Nancy Brown

(o regresso da tua poesia amiga... peço desculpa pelo atraso na edição... mas o meu tempo escasseia hoje em dia. Ainda bem que me vai ainda restando tempo para poemas lindos como os teus... jinhos)

untitled by Cherry Blossom
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Publicado por D_Quixote em 12:07 AM | Comentários (8)

agosto 29, 2005

escorre mel dos teus lábios

na noite no dia
o mel. que semeias
escorre. por mim toda
sobe. numa candura
imensa. de cor quente.
mas tu ainda não sabes.
não faz mal.
no dia da minha morte
eu conto-te o segredo.

quero uma nave espacial.


de marília campos

(não consigo deixar de me viciar nas tuas palavras e nas tuas fotos amiga... obrigado por este momento puro de inspiração, completamente ao teu cuidado... texto, foto e música)

untitled by marília campos
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Publicado por D_Quixote em 02:15 PM | Comentários (5)

agosto 25, 2005

Hotel Nights

Não sei se foram estas paredes
que nos guardavam
Se foi o choro do vento
lá fora
Queria um sol especial para os meus dias
Uma cor que fosse diferente
a cada olhar
Que fosse feita de açúcar
Que me aquecesse
a alma
Que fosse viva
e respirasse da mesma serenidade
Dos meus olhos
Sei lá se foram as paredes!
Ou se os velhos retratos
pendurados
Se me esqueci de ligar o despertador
e ainda não acordei
Se deixei a luz acesa tempo demais
e ceguei
E fumei outro cigarro
Sem pensar
Nestas paredes
Que ainda nos guardam
E me mostram a cor da saudade
Pintada
em cada suspiro

Não sei!...
Faz frio nestas horas
Faz-me falta um carinho
dos meus pés
Um mimo
da minha boca
Um cigarro.
Para me poder abraçar
e deixar
de estar tão só

de Rita "les_un"

(esta autora chegou-me pelos links de visitas e de forma surpreendente deparei-me com uma escrita muito madura e consistente que me agarrou logo. Com devida autorização de mais uma cliente do Café, apresento-vos a sua poesia, espero que gostem)

untitled by Rita "les_un"
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Publicado por D_Quixote em 01:54 AM | Comentários (5)

agosto 24, 2005

Vagas do Silêncio

Sinto desprezo de mim, as palavras nada têem na sua mensagem, nada comunicam, serei eu invisivel?
Talvez seja para quem me pisa, serei mais um objecto de momento, ou, talvez um relogio sem corda jé esquecido entre o pó no fundo de uma gaveta milenar, que ninguém ousa abrir.
Não sei...
Sinto me mal com o silencio das paredes, já nem mesmo a fumaça companheira de tão solitário silencio fala comigo.
É triste andar á margem do mundo que tanto tento entrar.
ficarei a admirar as vagas que agora chegam a mim, e te entrego a ti meu pedaço amigo, que consome tudo o que digo ou sinto e que amo.
Talvez te ame mais a ti, por tanta lealdade tua, ou, mesmo pela total atençao que me dás, quem me derá que pudesses tu de vida seres feito e cuidares de mim, pois cansado já não aguento tanto silencio e desprezo de mim.

de Miguel Pereira
17/06/2005

(obrigado Miguel poe este fantástico poema... espero conseguir acompanhar com a foto este momento tão introspectivo)

Le coin surnaturel by radi polgo
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Publicado por D_Quixote em 01:15 AM | Comentários (0)

agosto 20, 2005

A nuvem que é um anjo e que me quer levar para casa

Certo homem procurava uma casa para poder habitar, muitas vezes dormira na rua, sujeito ao frio que vinha das montanhas ou recebendo os raios de sol que eram trazidos pelo perfume das flores e pelo suspiro dos jovens apaixonados. Andava ele nesta procura quando ouviu uma voz que o chamava:
- Olha para cima! disse a voz. E ele olhou e viu uma nuvem pequena e azul.
- " De certeza que não foi ela que me chamou, as nuvens não sabem falar embora sejam criaturas sentimentais.
- Olha! Ó homem estou a falar contigo, estou aqui neste céu que tem sido a tua casa, sei que procuras uma casa dessas onde moram homens como tu, onde se acasalam, tem filhos, tem um trabalho, fazem projectos e um dia vem o outono e leva-os para um jardim frio.
- Onde fica esse jardim frio e porque estás a falar comigo esssas coisas?!
- Sabes embora eu tenha a aparência de uma nuvem, na verdade sou um anjo. Tu procuras uma casa, um lugar onde possas repousar sem sobressaltos de especie alguma, sem medo dos salteadores de estrada, um lugar onde possas ficar a sós com a tua alma, onde possas reflectir sobre a tua condição e sobre o sentido de toda a tua vida, quero dizer-te que tenho uma casa para ti.
- E onde fica esse lugar? É muito longe daqui?
- Para habitares essa casa tens de sentir que todas as tuas dores vão saindo como uma gota de água se evaporando dos olhos, tu só podes habitar esta casa quando não houver em ti nenhuma solidão e nenhum desejo.
- Estava a pernsar que durante este tempo que dormi na casa do universo, durante esse tempo em que me alimentei do fruto das árvores e de distintas raizes, em que senti o frio das montanhas e os braços das mulheres rodeando este meu coração fraco e cheio de duvidas sobre o amor, me apercebi também que uma luz me entrava na alma quando os livros que trazia comigo eram os poetas, esses seres sujos e pobres, essas criaturas insignificantes aos olhos dos bispos e dos juizes. Mas quando chegava uma chuva torrencial e as pesadas gotas caiam sobre eles eu julgava que estavam a ser abençoados, que aos seus pés se formava um arco irís tão colorido e brilhante como uma recompensa depois da morte. Depois não me importava o frio e nem a fome me torturava o espirito. Antes de saber que eras um anjo olhava-te ou olhava outras como tu e sentia que estava tão leve e tão silencioso que me esquecia de tudo e que no fundo eu era o pequeno grão de terra e toda a montanha era criação dos meus olhos.
- Dá-me as mãos, vou levar-te a essa casa.
- Estou com medo!
- De que tens medo
- Eu procurava uma casa e agora encontro uma nuvem que é um anjo e que me quer levar a uma casa que sinto ser aquela que quer receber a minha alma, aquela onde deixarei à porta as minhas dores, a minha fome, as minhas palavras e os meus amores carnais. Estou indeciso parece que preciso de me recolher por uns dias naquela velha igreja e aconselhar-me com os pássaros que costumam poisar sobre a toalha de linho estendida no altar.
E o homem ficou durante três dias naquela velha igreja onde há muito a unica liturgia era o canto dos pássaros e onde o sol se convertia aquele mistério. A nuvem passado alguns dias entrou naquela igreja onde prostrado sobre umas escadas de pedra estava ele. O anjo pegou na sua alma e levou-a para aquela casa que é o grande sol, que é o grande oceano, que é a grande porta que se abre para o novo bater de um coração.

de Lobo

(amigo... estou sem palavras perante este teu texto... é mais um daqueles teus que me deixam completamente pequenino e maravilhado... o teu talento realmente só é excedido pela beleza do teu coração, e és daquelas pessoas que me orgulho de conhecer... um grande abraço nortenho)

L'angelo by Michele Gereon
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Publicado por D_Quixote em 03:01 PM | Comentários (2)

agosto 18, 2005

Se...

Se lá fora a chuva que cai,
Fosse o teu olhar enlameado de vida...
E o odor do teu abraço,
Abafasse toda a humidade...
Se o perfume da terra molhada
Se confundisse com o teu cheiro,
E as pingas esguias que caem
Fossem como estrelas
Indicando qual o caminho para te ter...
Se lá longe no horizonte
Houvesse uma fonte de coragem,
Eu beberia até não poder mais!
Se cruzar os dias contra a verdade,
E incendiar os minutos
Em loucuras de pasmas
No sofrimento que teima
Em não querer abrandar...
Se as flores secassem
E os rios parassem
Só para te poder ver...
Se as curvas do sonho
Não fossem meras ilusões,
E se o teu coração
Não tivesse já um trono...
E se a vida não fugisse
E a felicidade não corresse de mim...
E se as tuas palavras
Não humedecessem outros lábios,
E o teu olhar
Não inundasse outra face...
E se o teu querer
Não flutuasse noutra alma...
E se o arco-íris
Iluminasse a minha vida...
E se eu não te amasse tanto
Talvez tu me amasses também...
Talvez eu não te ame mais...
Ou talvez tu me venhas a amar um dia!
Ou talvez eu nunca te esqueça
E sejas sempre o beijo que nunca te dei!


de Armanda Bragança e Teresa Afonso

(uma fantastica estreia aqui no café, destas duas autoras... porque a informção que tenho é de que este poema foi escrito em conjunto pelas duas... que a poesia sirva como uma ponte de amizade e que nasçam coisas tão bonitas como este poema)

Dancing by nahoj sennah
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Publicado por D_Quixote em 11:34 AM | Comentários (0)

agosto 17, 2005

Cada amanhecer

Em cada amanhecer, cada acordar
Em cada movimento meu
Regista-se mais um dia que passa
Horas de pura ilusão…ou talvez não…
Em cada minuto que passa, cada hora
Torna-se cada vez mais difícil viver
Nesta realidade que teima em me fazer sofrer
Em cada pôr-do-sol, cada aparecer da lua
Regista-se mais uma noite que passa
Onde os sonhos se tornam em falsa realidade
Onde as coisas acontecem sem maldade
Onde tudo que me rodeia se desvanece
E apenas o meu mundo prevalece
Em cada amanhecer …
… uma nova ilusão de vida.

de Ana Cunha

(quantas vezes já não nos sentimos assim?... o mais dificil e conseguir colocar em palavras como conseguiste... gostei muito!)

La Defense by Dominik Kuklinski
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Publicado por D_Quixote em 11:03 AM | Comentários (1)

agosto 15, 2005

Não Estar

Sentir,
não é ter
Não é ser dono de alguém
É estar e sorrir
Não estar,
e ser ninguém
É esperar,
que o tempo não passe
Quando passas por mim
É como se a lua chorasse
Por mais um dia ter fim.
É sofrer,
e sorrir sem vontade
É não esquecer,
Não ter pudor,
nem vaidade.
É gostar dos teus defeitos
Adorar atitudes
É esquecer preconceitos
Venerar virtudes
É não te esquecer
Mesmo quando sei, que o quero
E não perceber
Que é por ti,
amanhã que espero.
É dizer não,
entoar o sim
É sentir a sedução do beijo,
quando estás
Perto ou longe de mim.

de Teófilo Pinto

(um poema lindo como sempre já nos habituaste amigo... este é daqueles que deixam toda a gente pensativa... que bom quando a poesia tem este poder)

M
Copyright © 2005 by marília campos

Publicado por D_Quixote em 11:38 PM | Comentários (11)

agosto 14, 2005

De volta

Desculpem amigos a ausência.
Precisei de uma semana em Sligo na Irlanda e pensei que teria possibilidade de manter o Poetry a funcionar através de lá. Estava completamente errado, porque nem tomadas electricas compativeis, nem uma ligação por perto à internet, pelo menos no meu hotel. Assim ficou o Poetry parado, mas por uma boa causa.

Portugal foi bem representado, eu cresci muito como pessoa, e para o ano, o Eyie 9 - Encontro internacional de jovens com epilepsia, será realizado no Porto. O que vai exigir de mim nos próximos tempos muito tempo e dedicação.

Mas agora o Poetry retoma a sua rotina normal e posso-vos dizer que adorei a "heart of land's desire" terra natal de um dos meus poetas preferidos na lingua Inglesa, Yeats.

He Wishes for the Cloths of Heaven

Had I the heavens' embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.

Se tivesse eu os panos bordados dos céus,
Entremeados com luz dourada e de prata,
O azul e os panos não ofuscantes e escuros
Da noite e da luz e da metade-luz,
Eu espalharia os panos debaixo dos teus pés:
Mas eu, sendo pobre, tenho somente os meus sonhos;
Eu espalhei os meus sonhos debaixo dos teus pés;
Pisa com cuidado porque pisas os meus sonhos.

de William Butler Yeats...

Publicado por D_Quixote em 12:29 PM | Comentários (3)

agosto 05, 2005

Pensei que seria fácil

Pensei que seria fácil arranjar o que te dizer,
Agarrar num punhado de palavras sem sentido e compô-las à laia de bouquet colorido de primavera, que bem conjugado, até nem fica mal…
Mas enganei-me… (engano-me em tantas coisas, no que a ti te diz respeito) e logo eu, que tanto gosto de brincar com as palavras, acabo enredada nas sílabas e ditongos em que me escudo.
Pudesse este ser um dos nossos muitos silêncios que acrescentavam cores ao arco-íris e sons às ondas do mar, até que mais nada restasse do que o eco de um abraço e o clarão de um beijo…
Quem bom seria descer a rua e ver-te de novo encostado ao muro, com o Tejo ao fundo e um cacilheiro recortado na luz ténue do pôr-do-sol,
E eu correria em passos lentos de paixão, para me aninhar nos teus braços, com sorrisos de puro deleite.
Mas aqui, onde me deixaste, o Tejo escureceu e o muro há muito desmoronou…
Lá ao fundo, onde as gaivotas se encontravam com o reflexo da luz do sol, as ondas já não vêm beijar as rochas gastas pelos nossos passos,
E o pregão do velhinho que vendia castanhas junto ao cais, há muito que não é mais do que um murmúrio do rio e das estrelas que ouviram as nossas juras de amor.
Não, não são lágrimas aquilo que adivinhas, mas não resisto a fechar os olhos e inventar de novo aquele muro, só para o saltar ao teu colo...
E num impulso, desses que já não me conhecias, atrevo-me a pedir-te que faças o mesmo…
Assim, quem sabe assim, talvez adivinhes tudo aquilo que não te consigo dizer em palavras,
Até porque se calhar, sabes que até nem as há…


de Madalena Castro

(que bela maneira de te estreares aqui... adorei o teu texto, ficarei a aguardar ansiosamente por mais...)

Leaving the city by Jorge Paulo
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Publicado por D_Quixote em 11:44 AM | Comentários (6)

agosto 03, 2005

Nocturno asfalto

Venço a recta num instante inconsequente. A curva que se aproxima foge-me do olhar cansado. Sigo em frente de olhos cerrados porque esse me parece o caminho.
No escuro total, o escuro da estrada engoliu a luz das luzes que se apagam por um segundo.
Momento mais que suficiente para lançar um último olhar inconsciente ao limite em que gosto de me mover.
Senti-me dormir no negro asfalto da noite e quando acordei já não conseguia acordar.


de Gustavo Vasconcelos

(que belo e negro pedaço de prosa... posto-o aqui amigo pois o Nox tem estado completamente em coma e não sei se o reanimarei... um abraço)

Turbo
Copyright © 2005 by Nuno Peixoto Branco

Publicado por D_Quixote em 02:05 PM | Comentários (4)

agosto 01, 2005

Semana de dance music no MP3za

Boa segunda feira para todos...

e que melhor maneira de começar a semana do que com uma semana inteira com dance music no MP3za?

Assim se comemora um ano de existência do blog.

A todos uma boa semana de trabalho ou férias cheia de boa música e ritmo... muito ritmo...

Publicado por D_Quixote em 12:59 AM | Comentários (4)