julho 28, 2005

Estou cansada

Estou cansada. O sono apodera-se de mim e adormece a desilusão que me abraça. Sou um farrapo que alguém usou e desprezou. Sou os restos mortais de alguém que amou sem nunca conhecer a infinitude de um ser maior. Chove por dentro de mim. Uma chuva torrencial que quebra a transparência do meu ser. Procuro-me nas tuas palavras na ânsia de me rever ontem, hoje e sempre. Procuro nelas o abrigo para o inverno que se faz sentir nas entranhas do meu ser. Encontro um abismo sem fim. Tudo oco. Tudo vazio. E tecla a tecla, vou imprimindo palavras soltas na tentativa de redesenhar o meu percurso, delinear novas metas. Vou tentando retirar-te da minha vida, apagar as tuas marcas e esquecer-te no mais íntimo de mim. Não sou poeta, falta-me o ser erudito, a eloquência para te satisfazer e te prender. Nunca o fui. Nunca a tive. Talvez por isso, me amasses menos. Talvez por isso, buscasses outros enredos. Outras aventuras.

Eu... sou o que sou e nada mais! Um ser imperfeito, inacabado. Às vezes, desejável, mas sempre insuficiente. Gostas de histórias de palácios e dragões. Princesas por resgatar, sentimentos por desbravar, sensações mágicas.... Eu sempre fui a realidade possível, a princesa de chinelos, sem palácio e sem dragões. O sentimento comum, a sensação vulgar. O beijo mais banal num contexto sofrível, mas no qual nunca precisaste de ser o herói. Comigo, nunca viste estrelas, nunca provaste o salgado, nunca andaste descalço. Nunca sentiste borboletas!

Eu... sou apenas o tempo ultrapassado. Um tempo que se desfaz em cinza por um espaço que se dilui a cada segundo. Sou as memórias de um livro por reinventar. As lembranças de uma história por reescrever. Sou um sonho que se esfumaça a cada passagem do teu ser. Uma lágrima a cada ponta do véu levantada.

Queria adormecer e não voltar mais a esta vida que visto, sem formas e sem cores. Queria despir-me do peso de um passado que não escolhi mas que agarrei. Queria despir-me de ti. Não mais sentir-te em mim, no modo como te instalas e sais impune. Queres palavras bonitas? Eu quero mais! Quero um amor talhado no céu. Um amor com as minhas insígnias. O meu nome inscrito em cada centímetro de pele. O meu rosto em cada olhar devolvido. O meu sorriso em cada gargalhada espontânea. Quero rever-me em alguém. Ser a alegria e a tristeza partilhada. Ser a vida e a morte de alguém.

Faltam-me as forças para quebrar este pensamento obssessivo, no qual as ideias se atropelam e nada revelam. Não cabem em papel. Não cabem na alma, na vida. Assumes a forma de um estranho que me despertou para uma consiência que depois abandonou. Um estranho que já me tocou e que viria a rejeitar-me no sonho que não partilhou. Procuro alcançar-te com as minhas mãos, mas sob elas encontro um papel em branco por preencher. Procuro gritar e chamar-te, mas outro chamamento prevalece. E enquanto tudo se redefine, o cansaço vai-me adormecendo e embalando a desilusão que tarda em abandonar-me!


de Cátia Pinto

(esta é mais uma explêndia estreia por estes lados... quando eu hoje olho para trás e penso na quantidade e qualidade dos poetas que já passaram por aqui e de repente tenho destes presentes na minha caixa de correio, fazendo-me sonhar com um futuro sorridente da literatura portuguesa... parabéns Cátia... continua, pois irei ficar à espera de mais trabalho teu)

Red3 by petek arici
copyright the photographer

Publicado por D_Quixote em 06:52 PM | Comentários (13)

julho 26, 2005

Não sei escrever poemas de amor

Não sei escrever poemas de amor.
Esgotei-os numa só paixão.
Naquela que me ensinou o amor.

Foi numa época em que morria lentamente.
Como um náufrago tentava não soçobrar em mar alto.
Vieste não sei de onde e estendeste-me a tua mão.
E estava de tal forma entorpecida pela água gélida que só te via as mãos.
E escutei uma voz longínqua que se foi tornando quase ensurdecedora que me
encheu os pulmões de vida, me aqueceu o sangue e despertou. Para a vida.
E esta metamorfoseou-se então num imenso carrossel, de voltas imprevisíveis.
Nunca me assustei. Estavas sempre ali.
Com as tuas palavras para me acalmar.

Um dia foste embora.

Recordo-te hoje para não te perder.
Para não perder a convicção no potencial da paixão,
na consistência do amor.
E observo a rua. E a sua realidade barulhenta.
E sei que sou uma sonhadora.
E revivo aqueles momentos como se fossem os primeiros e os últimos.


de Raquel Vasconcelos

(para quem diz que não os sabe escrever... acho que escreveste aqui um muito lindo... obrigado por o teres enviado.. fico à espera de mais)

the last light by Natalie Shau
copyright of the photographer

Publicado por D_Quixote em 12:34 PM | Comentários (50)

julho 23, 2005

Inicio e Fim

Onde estará a origem deste impulso que me leva a escrever,
Impulso que conduz minha mão tremula, de força tênue,
Abalada pelo torpor do álcool.
Este grande amigo que hoje aquece minhas noites mais solitárias.
O cheiro do amor a permear a lã de minha blusa.
Um dialogo antes perfeito, agora tem um final triste.
Um fechar de portas.

O que começou com uma faísca,
Que deu inicio a chamas,
Que fizeram no meu peito arder a maior das paixões,
Por muito tempo deu sentido de minha vida,
Foi o ar que respirei,
Fazia-me acordar,
Dava forças para sustentar-me por mais um dia.
Hoje sufoca, oprime, aflige.
Semeou e fez germinar,
A duvida em minha mente.

Agora também penso em você,
Que não resiste mais,
Que me faz cansar.
Que é isto a nos afastar?
Este contraste orquestrado por nossas origens?
Tudo isto é apenas uma pagina na história de nossa inabalável amizade?

A chuva se precipitou sobre minha cidade,
Durante a noite toda,
Fez de seu barulho a sinfonia de meu silencio,
Eu a via, sentia teu perfume,
E o mesmo torpor,
Mais uma vez se apoderou de meu corpo.
E a doce ilusão fez-me sentir,
Irreverentes lábios que tocavam meu nariz e sopravam,
Depois graciosamente se punham a rir.

Não consigo lembrar se respirava fundo ou ofegava,
Mas lembro que vivi.
Recordo de nossos dias.
Sinto falta do que foi!
O que começou implacável agora é tênue.
Onde este caminho levará?

de Antonio Kovalski Junior

(um poema fantástico daqueles bem negros como eu tanto gosto...)

gin by Mathew Huron
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Publicado por D_Quixote em 05:52 PM | Comentários (5)

julho 22, 2005

Coragem

Hoje não posto poesia...

apenas um recado muito pessoal para ti!

Se não consegues à primeira, ou à segunda... levanta, sacode o pó e atira-te à luta outra vez... um dia os moinhos de vento serão todos vencidos...
Acredita em ti que consegues tudo e o céu é o limite.

beijinho...

Publicado por D_Quixote em 12:02 AM | Comentários (18)

julho 20, 2005

Soturna

Na escuridão soturna,
panoramas pantanais,
o cheiro da verdade só uma
e o sofrimento de amor de mais.

Cemitérios de sonho,
mistificado apocalipse de luz,
negro de desenho
o negrume que seduz.

Escuridão que todos temos,
o seu luar já não,
silêncio para sempre o teremos
que a nossa memória enterrarão.

Estalar das pegadas no chão,
é o único rasto da alma do ser,
as noites para sempre o serão
só não o é o viver.

Noite soturna,
paixão do viver,
solidão é uma,
a outra o perder...


de Afonso de Melo

(mas que bela forma de estrear aqui... espero ainda receber muita mais poesia deste autor... espero mesmo...)

hour of joy by Natalie Shau
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Publicado por D_Quixote em 12:03 AM | Comentários (11)

julho 15, 2005

Carta do Meu Amor Eterno

Porque houve um dia e um momento...
Tu deitado naquela praia, proferias palavras sucessivas como quem desfia um terço e, subitamente, sem mesmo saberes, disseste tudo! Rendi-me à revelação surpreendente de uma vida.
Aquele concerto. Aquela música entoada por ti e sussurrada ao meu ouvido, como quem chamava por mim. Perdi-me na luz do teu olhar, na doçura da tua voz, no fulgor do teu gesto, na firmeza da intenção que então desconhecias, ou pensavas desconhecer, e que só mais tarde assumirias.
Aquela noite, aquele gesto premeditado que adivinhava um beijo roubado e que viria ser o primeiro de muitos, num jogo arriscado e viciante.
E então ... aquele dia, vivido como a eliminatória final. Expus-me, fragilizei-me e esperei pelo veredicto. E no final das tuas hesitações, entre jogadas de espera, ouvi-te, uma vez mais, chamar por mim. E hoje, ainda aqui estou para ti ... porque houve um dia e um momento em que me mostraste o AMOR!


de Miguel Cruz

(obrigado Miguel por este pequeno grande texto... e desculpem a todos a minha ausência... tem sido dificil acompanhar tudo isto!)

Alone by F. Monteiro
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Publicado por D_Quixote em 01:28 AM | Comentários (0)

julho 13, 2005

um poema de pasolini

Os pássaros, presas da existência, cantavam na poeira fina numa trama complicada, incerta, ensurdecedora.

pobres paixões perdidas entre as copas humildes de amoreiras e sabugueiros: e eu como eles nos lugares desertos.

reservados aos puros, aos perdidos, esperava que a noite caísse, que se sentissem em redor os mudos
cheiros a fumo, a miséria alegre que o angelus soasse, velado pelo mistério novo, camponês
no antigo mistério consumado.

foi uma paixão breve. Eram servos aqueles pais e aqueles filhos, tão rudes, para mim, que viviam de religião.

as noites de "casarsa": as suas alegrias austeras eram a monotonia de quem, embora pouco, algo possui

a igreja do meu amor adolescente morrera ao longo dos séculos, e só vivia no antigo e doloroso odor.


de Pasolini enviado por Lobo

(um poema fantástico enviado pelo amigo Lobo... já tenho saudades de abrir a caixa do correio e encontrar coisas tuas... ainda bem que mandaste mais... e desculpa a confusão com o autor deste poema)


Chapel by F. Monteiro
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Publicado por D_Quixote em 12:28 AM | Comentários (2674)

julho 10, 2005

uma possibilidade

há uma possibilidade
de reter o equilíbrio
no limbo de uma folha seca
peneirando o tempo na lucidez
da queda

não há destino
e as moiras só obedecem
ao sopro que vai com as harpias;
fêmeas dóceis ou abutres
que contaminam o pão.

de José Félix

(seco como este ar quente de Verão... tenho que reparar este ar condicionado do café.. :-/)

Fall leaf by Susan Wolfe
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Publicado por D_Quixote em 12:46 AM | Comentários (612)

julho 06, 2005

Epi - Logotipo

Hoje não posto poesia.
Faço é um pedido em jeito de desafio.
A Epi, a nova associação que estamos a criar para doentes, familiares e amigos de epilepsia, precisa de um novo simbolo ou logotipo.

Este era o antigo:

Peço a todos os leitores do Poetry que tenham talento para o desenho que me enviem por favor para o meu email as propostas. Prometo uma recompensa, que ainda não foi determinada, mas que valerá a pena, acreditem.

Por isso mãos à obra e enviem-me isso quanto antes pois a necessidade urge!

Um abraço...
Nuno

Publicado por D_Quixote em 11:48 PM | Comentários (5)

Teimosia

Novamente cá estou eu,
neste poço sem fundo,
tentando me encontrar,
Mais uma vez brigo com mim mesma,
tento entender
como isso aconteceu novamente,
mas não acho respostas,
não acho soluções para o que estou sentindo,
como um anjo caído,
teimo em bater minhas asas
mas elas já não voam mais,
meu coração teimoso,
volta a sofrer,
volta a chorar,
volta amar.


de Pricila Kovalski

(um poema belo e triste desta amiga do outro lado do mar... aos poucos Pricila a tua poesia já arranjou o lugar aqui)

Winning the battle against terror. by Klaus Sommer
copyright of the photographer

Publicado por D_Quixote em 12:45 AM | Comentários (3)

julho 05, 2005

poemas de amor

Não sei escrever poemas de amor.
Esgotei-os numa só paixão.
Naquela que me ensinou o amor.

Foi numa época em que morria lentamente.
Como um náufrago tentava não soçobrar em mar alto.
Vieste não sei de onde e estendeste-me a tua mão.
E estava de tal forma entorpecida pela água gélida que só te via as mãos.
E escutei uma voz longínqua que se foi tornando quase ensurdecedora que me
encheu os pulmões de vida, me aqueceu o sangue e despertou. Para a vida. E
esta metamorfoseou-se então num imenso carrossel, de voltas imprevisíveis.
Nunca me assustei. Estavas sempre ali.
Com as tuas palavras para me acalmar.

Um dia foste embora.

Recordo-te hoje para não te perder.
Para não perder a convicção no potencial da paixão, na consistência do amor.
E observo a rua. E a sua realidade barulhenta. E sei que sou uma sonhadora.
E revivo aqueles momentos como se fossem os primeiros e os últimos.


de Raquel Vasconcelos

(mas que bela estreia esta com um poema lindo... espero receber mais Raquel...)

Elements - Water
copyright by Vladimir Labaj

Publicado por D_Quixote em 12:44 AM | Comentários (1)

julho 03, 2005

O pólen das flores

vem dançar voando de flor em flor e na dor da madrugada novos enlaces e
tertúlias congeminar;
vem tergiversar e no talento madrigal... saltaricar jovial e de malmequer em bem
me quer... atrair um não querer;
vem dançar em busca de néctar, fonte de açucares,
e de pólen fonte de proteínas
mas...não venhas sem desvario!
vem inteira e temperamental e vive, nas palavras ditas, os alvoroços
interiores;
vem sem nada de muito rigoroso, e na presença da tua alma, chistosa e desusada,
dá por ti distinguindo lúcida o pensamento;
vem pois de bordão e de lousa
desde os primórdios
e vem sempre angustiada, em rejuvenescimento contínuo e neste galhofeiro alegro
em assídua imperfeição;
e se neste repasto perfumado surgir o orgulho, o ciúme, a inveja...
e se na formosura se insinuarem outras fantasias...
vem sentindo o crepúsculo noctívago e... talvez... uma nova forma de...
rodopiar;
vem simplesmente como és!
eu receberei os grãos de pólen e cantar-te-ei esfuziante e digna, apta a
morrer de perturbação...


de Nancy Brown

(a Primavera já lá vai, mas aqui fica um poema alegre e colorido da nossa amiga Nancy)

Malmequer
Copyright © 2005 by Nuno Peixoto Branco

Publicado por D_Quixote em 11:32 PM | Comentários (1)

julho 02, 2005

Diário da tua ausência – guarda um tempo para mim (reedição)

A noite chega ao fim do dia como sempre. Na cruel inevitabilidade do passar do tempo. E o tempo de regressar a casa e encontrar a tua não presença amedronta-me. Faço por demorar nas pequenas tarefas que tenho a fazer até lá chegar. Paro reflectidamente na padaria a escolher o pão. Demoro mais no supermercado a comprar a pasta de dentes. Não passo nos sinais amarelos no semáforo para desespero dos mais apressados que vêm atrás de mim. Tudo para não chegar depressa à solidão que me aguarda no meu apartamento vazio. A solidão que me aguarda como uma esposa fiel.

Hoje não me apetece jantar. Mas mesmo assim aqueço uma sopa no microondas, coloco um guardanapo sobre a mesa e uma colher. Acendo uma vela. Ligo a leitor de CD e coloco um jazz calmo a tocar. Como se esperasse alguém especial para jantar apesar de só servir sopa. Acabo por desistir dela ao fim de 4 colheres, o olhar perde-se fundido no boiar dos ingredientes e som da música transporta-me para longe dali. E quando volto a mim a sopa está fria. E não há sopa nenhuma do mundo que me aqueça esta noite.

Afundo-me no sofá com um copo de Jack Daniels. As pedras de gelo dançam no copo ao som do jazz que toca e as minhas lágrimas correm pela minha face ao pensar em ti vertendo lentamente caindo no whisky. Lá longe a música toca, ao som do saxofone calmo e melodioso a voz de Kevin Mahogany vai dizendo:
Days go by so fast
Seams to me we’re never really free
Something’s shouldn’t matter quite so much
And some, should never be
But one fine day you will look to me
We’ll have moments, two or three
Keep me close to where you run to hide
I’m never hard to find
Just take your time
And save that time for me…

Talvez um dia seja como a canção diz… talvez um dia te apercebas do quanto erraste… eu tenho tempo como a canção… guarda um tempo para mim também.
E adormeci a pensar em ti no sofá, na companhia do jazz, da mágoa e do whiskey e da saudade.

de João Natal

(resolvi hoje reeditar este texto já antigo porque queria partilhar com todos vocês a música que nele falo, e na altura da primeira edição não tinha esse meio ao meu alcance... espero que gostem, é uma das músicas que mais me diz a mim)

Publicado por D_Quixote em 12:20 AM | Comentários (3)