junho 29, 2005

Fascinação

Entre os becos da tua vida
Descanso na tua esquina
somos dois distraídos
acumulados nas águas mornas
Porque me fascinas!

Numa organização aflita
Dispo-te entre ramos debotados
nas luzes de um sol traidor
Lentamente assustador
Aonde me fascinas!

Quero-te à beira de uma árvore
Num mar que não me pertence
A tua ausência desliza como pingos
de uma água visitada
Como me fascinas!

Vi-te respirar num rochedo vivo
O teu olhar resultou
num suspiro demorado
Estás nas metades abertas
Num esconderijo de necessidades
E me fascinas, liberdade.


de Susana Pestana

(fascinante é a maneira como esta poetisa se estreia aqui... fascinante)

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Copyright © 2005 by marília campos

Publicado por D_Quixote em 12:29 AM | Comentários (1)

junho 27, 2005

Adeus

Talvez eu nunca mais seja sua,
talvez eu nunca fui sua,
não sei o que sinto por você
se é amor ou paixão.

Lágrimas correm por minha face,
parecem apostar corrida,
uma seguida da outra.

Sangue corre por minha veias
fazendo pulsar cada vez mais forte meu coração.

O punhal cravado em meu peito
faz sangrar minh'alma
que agora vagueia pelo deserto
de meu ser.

Imprimi ontem nossas conversas
espalhei-as pela cama
relembrei as nossa juras de amor eterno
e o quanto você me amava.

Em segundos tudo mudou,
Você sorriu e disse
Adeus,
destruindo todos os sonhos e esperanças
de uma vida feliz.

de Pricila Kovalski

(um poema triste mas lindo que descreve de maneira muito única momentos que quase todos já passamos)

Teen by Fernando Porto
copyright the photographer

Publicado por D_Quixote em 02:27 PM | Comentários (1)

junho 26, 2005

...amor...

Chamei-te eduardo...
porque tinhas mãos de tesoura...
perdi-te naquela curva...
acredita que a tentei contornar....
bebi-te...mas ainda tenho sede...
provei-te...mas não me mataste a fome...
dancei-te...queria-te embalar...
Quem és?!? Onde estás?!?
eu sei...juro-te que sei...
és meu Eros, meu Philos e Àgape...
não preciso ver-te, ouvir-te, tocar-te...
...SINTO-TE...
às vezes oiço-te...acho que caminhas...
antes de te ver viras...
na tal curva ...
de palavras e gestos de quem tem medo de amar...
achas que falo de ti no passado??!!
...Continuas Tão Presente...


de Sofia Ramos (bia)


(acertaste em cheio Sofia... este é um dos meus filmes preferidos... pela alegoria bonita que a fábula esconde...)

Publicado por D_Quixote em 12:09 AM | Comentários (4)

junho 24, 2005

Aniversário

Ontem não fiz anos. Ontem fez anos. Fez um ano que foi a ultima vez que estive contigo. Sentei-me junto a ti no teu leito doente e levei-te algo que os médicos te tinham proibido de beber mas que no último dia da tua vida pouca diferença te iria fazer.
Brindamos a nós e pediste-me muito para que acabasse o meu curso.
E aquele foi o teu último sorriso que ainda hoje trago junto do meu coração.
Sai da tua beira e chorei essa noite sozinho lá fora...
Dois dias depois já nem me reconhecias e no dia a seguir partiste...

Ontem fez um ano pequenina.
Acabei o meu curso como te tinha prometido.
Enchi uma taça de champanhe e disse a toda a gente que aquela era para ti.
Não te vi ontem, mas sei que estiveste lá, e a recordação do teu sorriso que trago comigo, foi a melhor prenda que me podias ter dado.

um beijinho para ti Madrinha

untitled by Yuri Bonder

( e peço desculpa pela minha ausência... a poesia retomará a sua habitual frequência... prometo)

Publicado por D_Quixote em 07:03 PM | Comentários (2)

junho 22, 2005

Momento

A noite ainda não é noite
o dia já não é dia
Do outro lado do horizonte
um repouso que se anuncia.
Retenho a memória viva
deste instante presente...
nesta suave melancolia
e que já é passado
Nostalgia.
Toda a tranquilidade do Mundo,
como fundo.
gaivota sentinela
de vigília à água escura...
na serenidade do azul
um bailado singular
cheio de harmonia !
Um momento de vida e luz e calma...
estas nuvens, que me sobrevoam
são poemas aéreos...
sonhos que todos nós temos,
a ecoar na imensidão!

Amem o momento,
Silenciosamente...


de Tozé Ribeiro

(e ao fim de alguns meses ausente... um regresso em grande com um poema lindo... e nocturno como eu gosto)

Brussels by night
Copyright © 2005 by Nuno Peixoto Branco

Publicado por D_Quixote em 01:51 PM | Comentários (0)

junho 19, 2005

Diário da tua ausência – um mar de desilusão

Hoje pensei muito em ti, mais do que o habitual, confesso… nem sei bem porquê. Talvez o pôr-do-sol triste e encoberto me fizesse sentir saudades de dias mais azuis. Hoje estaria a pensar em ti mesmo junto a ti. Talvez pela desilusão. Ela está presente no meu olhar à medida que olha para tudo o que me rodeia, incluindo quando me olho ao espelho.

Agora dizes o meu coração ser duro como pedra? Engraçado Dalila… o meu coração não é pedra… é um deserto de areia seca gasta pelo corroer lento do vento. É mar salgado e escuro como as lágrimas que outrora tinha e agora secaram. O mar imenso de lágrimas que secou no meu olhar tornando-o um sitio perdido e abandonado. Um mar imenso de desilusão, um cemitério de barcos velhos afundados como o nosso amor.

Tudo me desilude e todos são desilusão. Começo por mim mesmo acredita. Pois eu mesmo já deixei de acreditar seja no que for. E à medida que escrevo mais uma página deste diário noto uma diferença… já não me dói tanto escrever como se me estivesse a esvair em sangue pela ponta da caneta. Estou insensível à dor e a esta tristeza que já se tornou aos poucos parte de mim, aos poucos que fui abandonando todos os sonhos. Tornei-me seco e amargo, admito… mas talvez seja esta a minha verdadeira natureza no acertar de todas as contas.

Limito-me agora a gerir o tempo da melhor maneira possível. Faço por ajudar outros e entrego-me de alma inteira a trabalhos filantropos para expiar todos os meus pecados. Na fútil esperança de que algures consiga gostar um bocadinho mais das pessoas feias que somos. Na parca hipótese de ainda nos salvarmos.

Desisto sabes…!?... O mundo lá fora é um lugar feio, habitado por pessoas feias como nós. Onde todos deambulam à procura de algo efémero e inútil como amor ou felicidade. Os vultos lá fora não devem ter razão. Os vultos dos nossos corações também não. Então fecha os olhos e dorme descansada e deixa os fantasmas saírem esta noite. Deixa-os passear pelas ruas à noite de mão dada com o nosso amor que morre. Deixa os medos… as lágrimas… as desilusões… abandona os fantasmas que temos… os fantasmas de náufragos neste nosso mar de desilusão.


de João Natal

night gosts
Copyright © 2005 by Nuno Peixoto Branco

Publicado por D_Quixote em 11:29 PM | Comentários (11)

junho 15, 2005

Movimento

Dou início ao meu baile estonteante
Com a bênção do acorde sábio & primeiro
Consagro cada fibra deste corpo inteiro
A soberano espasmo livre & galopante

Faço jus à minha requintada maquinaria
Em cada golfada rítmica absorvida
No corpo inicial que entreguei sem vida
Ao perpétuo movimento como exótica iguaria

Ser mais que mortal humano é-me permitido
Pela mística metamorfose que balança
Sagrada o novo corpo exigido

Sou agora a ávida serpente que nunca descansa
& que completa o assaz movimento adquirido
A cada batida de coração mansa


de Xil Veríssimo

(e assim, espero, retomamos ao ritmo de trabalho do café)

The Great Commander by Jean-Sebastien Monzani

Publicado por D_Quixote em 09:29 AM | Comentários (4)

junho 13, 2005

As palavras são o ofício do poeta

Quanto a mim gosto das palavras que sabem a terra, a água, aos frutos do Verão, aos barcos no vento; gosto das palavras lisas como seixos, rugosas como pão de centeio. Palavras que cheiram a feno e poeira, a barro e a limão, a resina e a sol.
Foi com estas palavras que fiz poemas.
Palavras rumorosas de sangue, colhidas no espaço luminoso da infância, quando o tempo era cheio, redondo, cintilante.
As palavras necessárias para conservar ainda os olhos abertos ao mar, ao céu, às dunas, sem vergonha, como se os merecesse e a inocência pudesse de quando em quando habitar os meus dias. As palavras são a nossa salvação.


de Eugénio de Andrade

Foto: in Público, 18/3/90


(uma professora de português e amiga deu-me este texto numa aula do 12º ano... tocou-me de tal maneira que o guardei até hoje com carinho! Acho que são as palavras que melhor descrevem quem Eugénio de Andrade era, escritas na primeira pessoa. Acho que é a melhor homenagem que posso fazer a este grande poeta a que muitos chamam mestre e que me serviu de inspiração para hoje amar poesia como amo... Também não esquecendo Alvaro Cunhal, escritor Manuel Tiago... mas como devem compreender... este é um espaço de poesia e hoje a poesia portuguesa perde um dos seus mais talentosos filhos)

Publicado por D_Quixote em 02:26 PM | Comentários (6)

junho 09, 2005

a outra voz

deus fala pela minha boca, do outro lado
da margem estreita da garganta.
da ponte avessa ao pensamento corre
a viagem através da nebulosa.
vêm rios e risos do corpo da infância,
chuva de espanto na voz aquecida,
ecos que são os gritos de outros ecos
na comunicação de todas as coisas.
estão no limbo da folha possível,
no território de uma habitação
feita de gestos simples, breves,
tão breves como as pedras presas
à raiz das montanhas. há um abraço
no sacrilégio do relógio mudo
onde o sarcófago do tempo vasto
guarda a semente fértil pelos anos;
cativa a voz, delonga dissonâncias.


de José Félix
(in Fácil é o movimento das folhas)

(e volto ao activo com um poema que tanto diz do José... desculpem amigos o meu silêncio recente... problemas tecnicos já superados. E o café retoma a sua rotina de poesia!)

untitled by Saturnino Espin

Publicado por D_Quixote em 06:40 PM | Comentários (9)

junho 05, 2005

Mater

E fez-se luz quando tu deste à luz
No filho lindo a luzir em teus braços
Ao neles reconheceres teus traços
Nesses teus braços que o amparam nus.

Esta tua vida ganha outro sentido
Em tudo aquilo que até aqui se fez
Foram nove meses de gravidez
De duas vidas só, num destino unido.

E tu assim és mãe linda agora
És mulher tão completa e realizada
No sentido de um amor mais profundo.

Ao escutar feliz teu filho que chora
Sabes agora não te faltar nada
Porque trouxeste vida a este mundo.


de João Natal

(Estou de volta finalmente! Já estava com saudades da minha "casa". Agradeço desde já a todos os que continuaram a visitar e a comentar. Este é o poema que ofereci ao Dr. Mário Cordeiro para fazer parte deste livro fabuloso que já vos tinha falado. O gesto deste livro é nobre e merece ser divulgado, por isso apelo a todos que visitem o site que deixo para conhecerem e que procurem este livro que vale a pena pelo sonho que persegue e pela poesia que o recheia... e obrigado Mário por me incluires neste projecto... sinto-me muito honrado)


Publicado por D_Quixote em 05:39 PM | Comentários (6)