janeiro 31, 2005

A Ti Poetry Café

Oásis de poetas esquecidos
Beijo para quem quer sentir
Rasgos de versos perdidos
Irreverência para quem se quer evadir
Grito de amor
Arte de fazer sonhar
Discurso de dor
Ou apenas e só, vontade de amar

Poemas de poetas escondidos
Onde apenas descrevem neles, pensamentos proibidos
Encantamento do Sol sobre a terra
Ternura da Lua pelas marés
Rebento silvestre arrancado na serra
Yucca com trago de aloés

Confraria do saber
Abrigo de profetas
Felicidade ou prazer
É o ponto de encontro dos poetas


de Téofilo Pinto

(Obrigado eu pela mensagem do lado esquerdo na vertical e um abraço)


Vodka Orange by Teresa Sousa

Publicado por D_Quixote em 06:38 PM | Comentários (6)

janeiro 30, 2005

Maria não é rum

Cristina não é cafeína e Lisboa pode ser um som e o Porto pode ser um dom e tu se fores talvez sejas uma gota de amanhecer. Maria ainda pode ser o azul para me despertar e a Cristina a cafeína que faz adormecer. Maria não é rum mas os olhos escuros conseguem voar. Vou tomar a sopa, vou usar o café, vou-te pintar os cabelos e a roupa.
Teresa é sumo de laranja, franja nos olhos e no cabelo e nancy é um Porto doçura. João é água aventura e José é um anis peregrino. Vem o fim do mês, vem o peixe fresco. Maria é rum, Cristina é cafeína e tudo isto é luz e tudo isto é bom.
E como ainda há o sorriso eu não preciso de açúcar no café.

Maria é rum, Cristina é cafeína, Teresa é laranja e João uma aventura de água e assim eu ponho uma lágrima, uma poesia, uma certa fé no meu café
E depois vou navegar…no teu rum , no teu café.


de Lobo

(e é assim que o amigo Lobo vê o nosso espaço... desta maneira linda que escreve e desta maneira linda que pinta...)

Poetry Café by Lobo

Publicado por D_Quixote em 12:34 AM | Comentários (11)

janeiro 28, 2005

welcome to the poetry café

welcome
to the poetry café
please have a seat
your coffee is on its way
relax
free your mind
there's plenty of time to think
now
now it's time to feel
enjoy
enjoy the aroma and look around
seek nothing in particular
but observe
capture the best expression
and seal it with a drop
got it?
I knew you would go for a smile
go on
free your dreams
let your imagination go wild
ho... the missing drop wakes you up?
come back tomorrow
we'll provide the coffee
inside
inside you'll find a smile


de TCA

(e um trabalho completo do amigo TCA... haja talento para tanto... quem me dera conseguir assim desenhar e escrever como tu, um abraço!)

Poetry Café by TCA

Publicado por D_Quixote em 01:13 AM | Comentários (6)

janeiro 27, 2005

Breve retrato com café

És uma concha
um lar,
um refúgio
num mar.
Destino ou
partida,
comida!,
desenhos de vento
no ar.
Teus néons abraçam-me
na noite
ouço o murmúrio de um búzio,
até.
E o teu cheiro
(que o tens, pois é)
traz-me raiva
ou calma
ou fé.

de Paulo Fogg

(incrivel esta descrição...)

Cafe Senza by Luis Argüelles

Publicado por D_Quixote em 12:15 AM | Comentários (4)

janeiro 26, 2005

feliz dia 26

Interrompo apenas este ciclo porque há coisas mais importantes...

Feliz dia 26 amor...


thinking by Nuno Peixoto Branco

Publicado por D_Quixote em 11:59 PM | Comentários (4)

Poetry Café

O Poetry, sabes nunca fiz uma jangada, não por ter olhado as arvores, preocupado com a madeira não. Tem ardido tanta! O rio está cá, com as margens costuradas.
Quando lhe apanho uma malha solta, uma linha, escrevo para ti.
As botas na loja, muitas vezes na mão, sabendo que as tenho na mão ainda as descalço, entro na água.
Um tronco, cabeça e membros, outra vez o tronco agarrado a outro tronco.
Talvez seja assim que se faz uma jangada.
As palavras arrumam-se em nós, estacionam no espaço que temos para elas.
Oxalá o espaço seja sempre a liberdade da fuga que nos prende, aquele nó humano,
desatado, vindo das entranhas.
Oxalá o mundo seja verdadeiro para nós, como a nossa altura no bilhete de identidade,
há quanto tempo foi? Não importa.
Como posso dizer quem sou a quem se cruza comigo no autocarro, se eu mesmo me cruzei
nesse naufrágio dos dias todos.
Há coisas que só entram na pele à distancia, fora do sitio para onde vamos, porque não vamos juntos.
Temos de nos unir separados, para que não nos sintamos sós, temos de nos unir separados.
Eu não sei para quem escrevo, amei uma mulher, vou à casa de banho para mil tarefas,
o pequeno almoço raramente o saboreio.
Uso umas calças para o amor que ainda não chegou.
Pisco o olho para quem está em mim, no momento em que me lês, pisco o olho para quem está em mim.
Letras são coisas que não consigo usar nos tênis quando vou trabalhar, qualquer rapariga de sapataria sabe do que falo, eu gosto das raparigas do comércio calçado.
O número está no avanço do dedo grande do pé, a palavra é uma disponibilidade que recua na voz.
Ela mora lá para ganhar o seu dinheiro, a minha esperança é ser amado mesmo assim...
Se dormes num carro roubado, problema teu, esse sono nunca será uma vida inteira propriedade tua.
Escrever é isto, não ter desculpa, ejacular dentro da vagina de uma mulher e amar o resultado,
azar se foi errado.
A tesão é, será sempre um problema teu.


de Miguel Patrício

(bem... acho que a este ninguem ficará indiferente... diferente mas brilhante...)


Drinks, anyone? by Yvonne Ng

Publicado por D_Quixote em 12:14 AM | Comentários (6)

janeiro 25, 2005

Poetry

Um lugar de sons,
fumos quentes,
cheiros, aromas doces,
de tons diversos e tranquilos.
De segredos,
de palavras,
de momentos em harmonia.
Num apelo aos sentidos,
todos se fundem e fazem nascer um lugar suave e flutuante,
de tons ténues, no qual não me canso de estar.


de Ester Cavaco

(e o ciclo continua de forma tão bela...)

Inside that old Cafe... by Luis Argüelles

Publicado por D_Quixote em 02:30 PM | Comentários (8)

janeiro 23, 2005

Poetry Café

O cansaço apoderara-se dos seus ombros, daí o movimento cíclico e sem parar.
Stress! a doença dos modernos, diria Jack. Os ombros, as costas, o braço esquerdo sujeitos à doença dos modernos e a rapariga citadina e solitária, recostando a indiferença na mesa quadrada do salão e mirando os frequentadores, o seu passatempo preferido.
Naquele café, e ao contrário dos de Amesterdão, não se sente mal com a sua
pele, veste-a e despe-a e ninguém se acossa, tão pouco ela. A doença dos
modernos de Jack ficara na cidade dos diques e na red zone e não lhe faz mal
nenhum... absolutamente nenhum, esquecer-se da Nancy com a doença dos
modernos, na cidade da praça circense, a mesma que agasalha os descendentes de Eros.
Por ali aconchega o olhar no barman e na sua complacência e bondade, devorando o micro enquanto escrevinha uma derradeira poesia no guardanapo branco ou na mesa cedida por um vizinho benemérito, nas noites soalheiras com os assíduos anónimos e os ébrios dos vocábulos perfeitos.
Em Amesterdão há muitos cafés acolhedores, empregados de mesa profissionais e elixires da eterna juventude, naquele café há o barman e as palavras dos sequiosos, sopros de vida. Por isso, deixara a doença dos modernos de Jack, na cidade dos homens bicicleta, e expira agora o indecifrável fumo do cigarro, por entre as últimas sílabas destemperadas, encontradas ao raiar do dia no café da poesia.

de Nancy Brown

(acho que depois de tão cintilante ideia, a honra de começar este ciclo devia estar entregue ao talento inconfundível da Nancy... obrigado pela tua poesia, e pela tua presença...)

reflected red by Mark Mahar

Publicado por D_Quixote em 04:17 PM | Comentários (6)

janeiro 22, 2005

Ciclo de Poesia - Poetry Café

E começa assim mais uma semana temática de poesia.

Desta vez o desafio lançado foi a criação de textos que tivessem como tema este sitio, o Poetry Café.
A ideia partiu de uma habitual poetisa, a Nancy Brown, mas foi de tal maneira brilhante que eu não podia deixar passar em claro...
Assim, mãos à obra e convite feito aos poetas que por aqui passaram e deixaram a sua marca.

Alguns participaram, outros não se sentem à vontade em escrever com temas pré-definidos, outros preferiram pintar... o resultado está aí...
Irá ser postado durante esta semana...

A todos os que participaram o meu prévio obrigado, a todos os que ainda não o fizeram ainda vão a tempo... e a todos mesmo... um grande abraço, e um café!!!

Java by tony swan

Publicado por D_Quixote em 06:58 PM | Comentários (3)

janeiro 21, 2005

Porque Escrevo

Escrever para vós não é só ver,
mas sentir
É arrancar flecha espetada na carne,
como um arpão
Cupido,
que me deixa exibir
Como troféu,
O que escrevo, sobre tamanha paixão
É a janela,
que fica entreaberta
Para de todos,
respirarmos a magia
É o sentir do esvair,
da frase mais bela
Mostrar nossa alma,
na mais doce e profunda poesia
É o fazer-me acreditar,
que como outros mortais sei sentir
Rever-me em vós,
sonhando sem chorar
Ler vossos versos,
sempre a sorrir
Vocês são,
prova, que ao meu amor faltava
De meu ser a noção,
de minha alma enganada
Toque de vida,
Vontade de escrever sem razão
Sois tela,
onde pinto e descrevo
Luz do lume,
de nossa vela,
Sensação ou arrepio,
relâmpago ou trovão
Sois montra de saudade,
do querer da inspiração
Sois montra de minha vaidade,
do meu amor,
da minha maior paixão.

de Teófilo Pinto

(eu sei bem porque te leio... porque adoro o que escreves...)

... by Rares Cuciureanu

Publicado por D_Quixote em 12:15 AM | Comentários (1)

janeiro 20, 2005

Pequenos gestos

Lembro-me do momento exacto em que descobri que queria ficar contigo mais do que um fim-de-semana.
Estava apanhar sol na varanda da tua casa. Adormeci e tu cobriste-me com uma toalha, para que eu não me queimasse. Bastou isso. Não foi preciso mais nada.
Vivemos de pequenos gestos que nos tocam com força.
Quando era pequena gostava de me fechar no meu mundo e de brincar sozinha com as bonecas. Inventava histórias intermináveis, e lia livros de Fadas, aos poucos elas transformaram-se nas minhas melhores amigas e deram-me o dom de acreditar que tudo é possível. Mas eu deixei de brincar com bonecas, e as Fadas deixaram de me visitar. Crescer tem destas coisas, e a correria de todos os dias rouba-nos um pouco da nossa essência.
Lembras-te de quando subi a uma montanha só porque queria estar mais perto do céu? Ou quando deixava tudo, para apanhar o comboio? Três horas depois estava a bater à porta de tua casa, e tu recebias-me com um poema.
Um dia dei-te um barco no Tejo que só navegou nos meus sonhos e nas tuas poesias. Mas bastava isso e o chapéu de palha que me ofereceste e que foi levado pelo vento.
No Inverno ocupamos a cabana de madeira que havia na praia, onde não vivia ninguém. Fizemos muitos piqueniques na varanda com vista para o mar. Nós sorriamos porque naquele momento não precisávamos de mais nada. Depois eu contava-te histórias para adormeceres e vigiava o teu sono. Sempre gostei de ficar a olhar para ti enquanto dormias.
Escreveste muitos poemas nesses tempos, depois davas-mos e eu lia-os para ti. Entrava neles descalça e eles passavam a fazer parte de mim. Por vezes ainda sou perseguida por algumas dessas tuas palavras que me vestiam de cores, sempre que era tocada por elas. Eu sentava-me no sofá, perto de ti, e fingia que estava entretida com algum livro. Gostava de te ouvir desenhar palavras no teclado do teu computador. O silêncio que tomava conta de nós tinha cheiros e sabores, e éramos embalados por ele. Ser íntimo de alguém é saber partilhar os silêncios.
Por vezes lembro-me da tua vizinha do prédio em frente. A velhinha espiava -nos com curiosidade nas noites em que não conseguia dormir por causa do calor. Eu achava que ela era a nossa Fada – madrinha e que nos protegia de longe. Quando eu dizia essas coisas tu sorrias, como se não acreditasses. Agora tenho mesmo a certeza de que ela tomava conta de nós, e que gostava de nos ver aos pulos pela sala, com a música altíssima às três da manhã. Nós riamos e dizíamos que estávamos a dançar. Ela era o nosso único público e aplaudia -nos com o olhar.
Quando nós partimos ela sentiu-se sozinha e nós ficamos sem protecção. Até as Fadas gostam de se sentir acompanhadas, nem que seja pelos vizinhos do prédio em frente.
Foi nessa altura em que eu e tu seguimos caminhos diferentes. Tu foste para o frio e eu fiquei com o sol e o mar.
Ainda me lembro daquela boneca de neve que um dia fizemos, e que só durou o instante de tirar uma fotografia. Depois veio um rapaz e desmanchou-a com um pontapé. Lembras-te de termos seguido o rapaz? Atiramos-lhe uma bola de neve, e eu gritei qualquer coisa que ele não entendeu. Era tão linda a nossa boneca, mas ainda guardo a fotografia.
Muitas vezes tive vontade de ir ter contigo e ficar também eu lá no frio, mas tinha que seguir em frente no meu caminho. Tinha pessoas e sítios para conhecer, e não podia fugir a isso porque tudo isso tornou-me na pessoa que sou hoje.
Ainda vou até à praia no Inverno e fico lá sentir o sol. A nossa cabana já não existe. Às vezes o vento traz-me a memória da tua gargalhada, e sou abraçada por ela.
Hoje lembrei-me de ti ao ler um poema que escreveste. Ainda entro descalça nas tuas palavras, ainda as leio em voz alta. Mas tu sabes que tenho demasiada vida em mim, e que por isso mesmo, penso que estou sempre perto do fim. Não gosto de esperar, nunca gostei. Gosto de viver de imediato, sem adiar nada. Por isso não consegui esperar pelo teu regresso e encontrei-me no trilho que segui.

de Claudia Souto

(não consegui resistir a postar um dos textos mais bonitos e bem escritos que já alguma vez li)

Zochna by Artur K.

Publicado por D_Quixote em 12:27 PM | Comentários (7)

janeiro 19, 2005

O desafinador de criações

No tempo do antes, ainda muito antes do nascer do mundo e do existir do homem parece que a única coisa com vida era um piano de cauda. O Deus parece ter-se inspirado para a sua vontade de criação, soprando nas sete notas, criando esse poder de fazer e soprar as águas; viu ele que havia melodia e com o ritmo encheu os lagos, os rios e os mares de peixes e outros aparentados, depois tocou o ré e o dó, assim sucessivamente como criança saltando de pedra em pedra; fez macho e fêmea sensuais e elegantes como uma clave de sol, depois pediu que as suas criaturas fechassem os olhos, assim ficou de noite, uma noite tão íntima de tão escura. O Deus imaginou que o mi era erva a crescer e o sol uma árvore a pingar de frutos. Nesse tempo, no tempo do antes pensou ele em compor uma canção e do verbo fez um anjo, um anjo que dançava e que com as suas asas sacudiu uma pequena nuvem que por ser frágil sentiu uma dor de ficar chuva, assim se pode explicar o sofrimento do mundo.
Adão e Eva os habitantes daquele jardim correram para se abrigarem na densa folhagem da árvore da sabedoria. Rastejando pelos costados de seu tronco ia a serpente considerada o desafinador de criações. Por causa daquela chuva torrencial o piano de cauda tinha apodrecido e eles tinham que sair, ir serrar madeira para construírem de novo um grande piano de cauda e encontrarem ao mesmo tempo alguém que caminhando nas suas teclas juntasse de novo o primeiro som e a primeira origem da água ser água e o fogo ser fogo e o amor andar a fermentar poesias e satisfações. Passaram já muitos milhares, milhões de anos, homem e mulher trabalharam o ferro, fizeram tanques de guerra, coroas para coroar reis, espadas para decepar suas raízes de irmandade. Deus continua á espera de um piano de cauda e o mundo é ainda uma serpente e um desafinador de criações.

de Lobo

(e o Lobo escreve como Deus desenha nuvens... lindo...)

Cancel by Britova Elena

Publicado por D_Quixote em 12:38 AM | Comentários (8)

janeiro 18, 2005

É o amor…

De repente descobri
A cidade cheia de vida
Os carros, as pessoas, as máquinas…
Descobri o que as faz andar, descobri como funcionam,
Sentei-me no carro parado a olhar o mundo
O rapaz feio de mão dada com a menina bonita
As amigas velhinhas a descerem a rua da conversa em dia
O puto rufia com a bola debaixo do braço a correr para os amigos
A dona de casa atrasada com o saco das compras
O executivo apressado olhando o relógio para não chegar tarde à namorada
O mundo todo funciona a amor
Não é o dinheiro, não é a fama, não é nada que brilhe nos bolsos de um homem
Não é ódio, nem a avareza humana, nem os troféus na sala de caça.
É o amor… ele faz tudo funcionar
Ele faz o mundo andar à roda
E as pessoas andarem à roda do mundo
Ele faz um olhar acender como uma árvore de Natal em Dezembro
Faz a distancia parecer pouca e o sofrimento valer a pena
É o amor…
A moeda nas mãos da criança em pleno shopping
Que o faz voar nas costas da abelha Maia…
E o sonho de que um dia, não tenhamos que crescer
Agarrados com a mão cheia ao dedo indicador do nosso pai
É o amor…
Sabias?...
E foi assim que reparei o quanto te amava…


de João Natal

enlightened by Art Lastowski

Publicado por D_Quixote em 12:11 AM | Comentários (7)

janeiro 16, 2005

vieste de mansinho

vieste de mansinho
depois da trovoada.
lembro-me dos teus seios
na carícia dos lábios,
toando uma canção
sem nome. ela abria
cortinas de fantasmas
que iam com os relâmpagos
na fogueira da noite.
para mim eras deusa,
a fortuna da noite
que me beijava leve
o rosto de anjo branco
enquanto a chuva brava
lia no quintal velho
as aduelas direitas
onde se aconchegavam
os cães, os gatos e o
olhar menino com
brincadeiras de azul.


de José Félix
01.01.2005 (inédito)

(e de mansinho a poesia do José veio para ficar...)

Missing Him by Astrid M

Publicado por D_Quixote em 11:41 PM | Comentários (4)

janeiro 15, 2005

As palavras que nunca te direi

"Querida Catherine:
Lamento não te ter falado durante tanto tempo.
Sinto que andei perdido...
...sem rota, nem bússola.
Estava sempre a esbarrar nas coisas, talvez por carolice.
Nunca me tinha sentido perdido.
Tu eras o meu verdadeiro Norte.
Quando tu eras o meu porto, sabia sempre voltar para casa.
Perdoa ter ficado tão zangado quando partiste.
Continuo a achar que foram cometidos alguns erros...
...e estou à espera que Deus os corrija.
Mas já ando melhor.
O trabalho ajuda-me.
Acima de tudo, tu ajudas-me.
Ontem apareceste-me num sonho, com aquele teu sorriso...
...que sempre me prendeu a ti...
...e me consolou.
Tudo que me lembro do sonho...
...foi uma sensação de paz.
Acordei com essa sensação...
...e tentei conservá-la tanto quanto me foi possível.
Escrevo para te dizer que estou a trabalhar para alcançar essa paz.
E para te dizer que lamento tantas coisas.
Lamento não ter tratado melhor de ti. ..
...para que não passasses minuto algum doente, com frio ou com medo. "
"Lamento não me ter esforcado mais...
...por te dizer aquilo que sentia.
Lamento nunca ter arranjado a guarda da porta.
Arranjei-a agora.
Lamento as discussões que tive contigo.
Lamento não te ter pedido mais vezes desculpa. . .
...por ser demasiado orgulhoso.
Lamento não ter elogiado...
...tudo aquilo que vestias e todos os teus penteados.
Lamento não te ter agarrado com tanta forca...
...que nem Deus te pudesse arrancar de mim. "

"Com todo o meu amor, G. "


de Nicholas Sparks

Blue Sadness by Nuno Peixoto Branco

Publicado por D_Quixote em 07:23 PM | Comentários (7)

janeiro 14, 2005

Na Beira da Estrada....

Meu coração continua batendo fraco
Como se um compasso de um segundo
Durasse quase uma longa eternidade

Lágrimas despejadas
Memórias de historias não contadas

A esperança de uma nova vitória
Arde vivida nessa lúgrube alma

Paciência é quase loucura
Para quem não consegue respirar
Esperar é como gritar sim a insanidade
Para quem a tempos desaprendeu o que é viver

Sentada na estrada de pedras antigas
Minhas asas já cansaram de tentar se reerguer
No agora fraquejam sujas de tanto serem arrastadas

Olhando para o nada
Vendo o tempo passar

Esperando por ajuda
Sem nem voa para gritar...ou implorar

Viver é utopia
Para quem não consegue acordar
Voar é um sonho triste de uma noite mal dormida
Para quem não consegue sequer levantar

As horas passam e o tempo caminha lentamente
A vida rasteja e eu espero por cura pacientemente
Até quando?... onde será que tu estas?


de Marta Silva
(o regresso da poesia tão linda da Marta...)

Angelic by Tamara Loncar-Agoli

Publicado por D_Quixote em 12:55 AM | Comentários (3)

janeiro 13, 2005

anda alguém a desacertar o relógio do mundo ou foi encontrada uma mulher morta com sêmen nos olhos - VII Ultimo episódio

O estrangeiro que estava a passar uns dias na rua das lágrimas com chuva perguntava num espanhol arranhado que era aquilo da missa do terceiro dia, o sem pernas explicou que era uma tradição muito antiga, tão antiga como a questão do ovo e da galinha, uma tradição como o fado ou como a procissão em honra da nossa senhora dos azeites. O estrangeiro abanava a cabeça, mas não percebia nada e o cauteleiro mudava de assunto e logo vinha conversa de futebol, grande abada aqueles dez a zero e o estrangeiro sorria, parecia ás vezes um sorriso amargo... dez a zero é muita fruta mas são coisas que acontecem depois o poeta Alexandre recitava um poema, o poeta Alexandre recitava um poeta inglês, e o cauteleiro enchia o copo do estrangeiro e bebia de um gole, como se desse a beber a fortuna, a um mundo cheio de sede, um mundo onde faltam mãos apertadas e firmes testemunhando uma convicção de liberdade. O estrangeiro ouvira falar da revolução, da guerra colonial, não sabia nada , não sabia que fora uma revolução militar, ouvira falar de Amália Rodrigues, do Eusébio e pouco mais e até julgava que eram nomes de generais.


de Lobo

"Contour" by Kharlamov Sergey

(e chega assim ao fim esta nossa aventura... espero que tenham gostado tanto quanto eu...)

Tu estavas na missa do terceiro dia, olhavas para mim e olhavas como quem tenta agarrar qualquer coisa ao longe, a paisagem parece que vai desaparecendo dos olhos, não confundas os meus olhos com as tuas lembranças de criança, tu olhas-te as outras pessoas, escutas-te as gargalhadas, coisas impróprias eram permitidas, desces-te a blusa, se a noite descesse a blusa via-se no bico do peito a ponta de uma estrela. Sozinho com o resto das pessoas estava o estrangeiro, picaste-lhe o olho, o piscar do olho ainda é tão universal como a palavra taxi, ele pegou um torrão de terra, ficou parado e deixou seguir o desfile. Amanha ia deixar aquela rua, apanhar o comboio...mas ainda queria reter certos gostos, saber que são incompletos, quando queremos que sejam absolutos.

O estrangeiro sentou-se nas escadas do comboio, havia um destino e ele sabendo, pouco importava. Tinha na boca certos gostos, imagens de pessoas conhecidas num dia e que ficam condensadas numa comunicação de toda a vida. O estrangeiro chamava-se Franco, soa a nome italiano, embora falasse inglês. O comboio continua, a mulher que mora no céu, está acordada e vigilante, nos olhos dela não há lágrimas, não há sémen...se agora nesta nossa rua alguém pusesse uma música a tocar, podia ser tudo, menos a valsa do policia gordo. Alzira comparava os movimentos de uma dança, ao movimento das mãos a descascar, tu e o estrangeiro enroscaram-se como o bicho na pele da tua fruta. Quando somos amantes de alguém, parece que as ruas ficam desertas. O estrangeiro continua na sua viagem, Deus a escrever a sua criação e um dia chegará aquela rua um contador das outras coisas do céu e das alma penada de um policia gordo.

Publicado por D_Quixote em 12:34 AM | Comentários (3)

janeiro 12, 2005

Avó

Avó
Tantas vezes me disseste
Que não chorasse pore ele...
Mas por quem hei-de eu chorar?
Lembro que oferecias as verdades
Como caramelos e a sorrir atiravas:
Atrás desse outros virão...
Saber de experiências humilde.
E vieram avó, alguns mais
E chorei por todos, e por motivo
O amor
Nesse estender de rugas pelo tempo
Sorrias dizendo: há sempre montes
Que nascem mais altos...
Verás que tenho razão!
E tinhas avó.
Avó, e não se pára de amar?
E não seca este coração??
Avó?

(Tinha 15 anos quando escrevi isto, estava a minha avó a morrer cancerosa quando foi editado num jornalzeco de cidade do interior e li-o á cabeceira da sua cama. Ela ja cansada pela doença e pelas dores, ia molhando os cobertores, tal como eu tenho molhado montes de kleanex em nome do amor. Penso que mostra bem a adolescência idolatrada, a procura de um colo, o segredo partilhado entre duas gerações, de relação assente na ternura de uma neta a viver os amores primeiros e de uma avó em salvar lágrimas, em minimizar a dor de uma inocência que não queria perdida.)

de Nina

untitled by Valentin Russanov

Espero que este poema vos toque quanto me tocou a mim...

Publicado por D_Quixote em 12:56 AM | Comentários (6)

janeiro 11, 2005

A soberania do nada

Apenas o sonho trespassa
na luz da madrugada interrompida.
É a flâmula, a chama, a guia da cinza redentora
sem religião, e só amar uma pedra
pela fala superior com que se comunica
no trabalho das arestas.

A alquimia da obra num Maio global
dá o orvalho, a nobreza do metal,
o desejo de um reflexo no espelho dos deuses,
e um raio nos olhos de um cavalo
sobre as montanhas submersas,
sob aquilo que chamamos água
ou lava ou saliva ou lágrima,
e no estrondo da noite, a dor ser um deus
imperceptível, morder o corpo como
a lâmina de uma navalha
sem a interrupção conjuntiva da gramática
que oprime a frase, o lábio, contrai as faces.
Num período de impropérios
resgatar a alma
ou uma fotografia de bruma.

É o carvão incandescente que mantém
a lucidez antes da morte. É o carvão
incandescente que treme nos lábios
quando se pronuncia o nome das coisas.
É o carvão incandescente que diz, morreste,
morreste-me, quando ainda volita a cinza
no primeiro vento.

É isto que é a separação da vida e da morte.
É tudo isto que é a união da vida com a morte,
a celebração contínua da existência
que dança na copa iluminada da fala,
na sombra e no equilíbrio das cores,
porque a morte é a mais longa morte, mais longa
que o sossego de um pássaro. é o infinito mais
infinito que a definição matemática,
o sorriso, o grito, a admiração, e mais do que isto,
a soberania do nada.


de José Félix

Inner Beauty by Nuno Peixoto Branco

Publicado por D_Quixote em 12:02 AM | Comentários (5)

janeiro 09, 2005

Insónia

Insónia - I

A noite veio
Roubar-me o sono.
O brilho do meu olhar
Cintila na escuridão
Imensa, fria e cerrada...
Nela busco o meu sonho
Para embelezar o dia
Que chegará de mansinho;
Nela te busco Amor
Para enterrar os meus medos
Nos escombros da tua bravura...

Insónia - II

Vagueio pela noite
Dos teus olhos negros.
Busco [Te],
Desesperada e incessantemente,
O carinho adormecido
Num tempo esquecido.
Tento adormecer com ele
E esquecer uma existência
Mortífera, castradora.
Necessito [Te]
Encontrar a certeza
Das tuas dúvidas
Para poder duvidar do destino
Que se apresenta como certo.
Amo [Te]
A escuridão que penetra
O meu olhar e cujo brilho
As estrelas absorvem...


de Teresa Sousa

(aqui a devida homenagem à tua poesia que, de uma forma tão linda, tem crescido de dia para dia... beijinho)

Sorrow by Nuno Peixoto Branco

Publicado por D_Quixote em 12:24 AM | Comentários (7)

janeiro 06, 2005

O Amor e a Dor

uma coleção de mentiras,
uma porção de dor,
um bocadinho de sentimento,
me transformaram no que sou.
Uma sombra a espreitar-se
pelos guetos escuros da vida.
Garota! Não quero teu corpo,
mas de me teu amor.
Não despreze o toque de minha mão em teu cabelo,
por que teu repudio me enfraquece.
Não sei do tempo que me resta,
mas eterno é meu sentimento.
Por que preocupar-se com o tempo
se o amor é eterno?
Efêmera existência, vida sem sentido.
Vida louca que se esvai
como grãos de areia por entre nossos dedos,
talvez meus dragões sejam moinhos de vento,
talvez eu não tenha vida,
talvez eu sequer tenha existido,
mas meu amor persiste no infinito.
Olhe em meus olhos,
leia neles que jamais escreverei
por não saber como definir
este abstrato infinito de sentimento
que inunda meu peito.


de Antonio Kovalski Junior

Kama by Paul Dzik

Publicado por D_Quixote em 11:17 PM | Comentários (4)

Cinderela

Eles são duas crianças a viver esperanças, a saber sorrir.
Ela tem cabelos louros, ele tem tesouros para repartir.
Numa outra brincadeira passam mesmo à beira sempre sem falar.
Uns olhares envergonhados e são namorados sem ninguém pensar.

Foram juntos outro dia, como por magia, no autocarro, em pé.
Ele lá lhe disse, a medo: "O meu nome é Pedro e o teu qual é?"
Ela corou um pouquinho e respondeu baixinho: "Sou a Cinderela".
Quando a noite o envolveu ele adormeceu e sonhou com ela...

Então,
Bate, bate coração
Louco, louco de ilusão
A idade assim não tem valor.
Crescer,
vai dar tempo p'ra aprender,
Vai dar jeito p'ra viver
O teu primeiro amor.

Cinderela das histórias a avivar memórias, a deixar mistério
Já o fez andar na lua, no meio da rua e a chover a sério.

Ela, quando lá o viu, encharcado e frio, quase o abraçou.
Com a cara assim molhada ninguém deu por nada, ele até chorou...

E agora, nos recreios, dão os seus passeios, fazem muitos planos.
E dividem a merenda, tal como uma prenda que se dá nos anos.

E, num desses momentos, houve sentimentos a falar por si.
Ele pegou na mão dela: "Sabes Cinderela, eu gosto de ti..."


de Carlos Paião

PARA OUVIR E OUVIR...

(desculpem amigos e amigas, mas não consegui resistir a postar aqui este poema lindo que é intemporal... a acompanhar a música igualmente eterna. E a saudade fica da música do Carlos Paião... música que me acompanhou na infancia e que ainda me toca e diz muito)

Publicado por D_Quixote em 12:30 AM | Comentários (8)

janeiro 05, 2005

anda alguém a desacertar o relógio do mundo ou foi encontrada uma mulher morta com sêmen nos olhos - VII

Ainda é muito cedo para que te lances. Vais-te estatelar no chão das duvidas, tu nascida nesta rua, baptizada com o aroma da fruta, sabes que encostando o ouvido á terra se ouve o táximetro do taxi destino. Não penses que é só levantar a mão e de um modo decidido e até um pouco arrogante, dizer simplesmente, leve-me ao céu! Tu sabes que aqui aconteceu um crime, disseram-te que foi um polícia gordo e tu fizeste não sei quantas dietas com receio de que te achassem parecida ao tal polícia gordo. Estás a ficar um pouco perturbada, o que te tem ajudado é o tempo que passas na gruta dos comboios à conversa com o rapaz negro. Aquela não é uma vida que se gasta. Tu olhas na direcção do céu, parece que estás a olhar um pensamento muito longe. A mulher com sémen nos olhos pensa que deveria ter-se tratado com um psicanalista antes de subir aos céus, ficar uns tempos no purgatório das seduções. O inspector inclinando sobre ela o seu olhar paternal, desvendou num sorriso aberto todos os crimes. Serias tu capaz de desvendar os crimes praticados em nome do amor, o amor que se trava corpo a corpo, tal uma guerra que é a conquista de um território e que no amor é uma luta do nosso corpo pela conquista do corpo do outro. Enquanto dissertamos sobre o amor e sobre a guerra a mulher que tem sémen nos olhos está a massajar os pés do criador, quando Pedro regressar da pesca é quase certo que as massagens lhe vão fazer bem aos ossos. Quando Pedro já se encontrava no céu, ocupando de novo as funções de guardador, ele e o inspector passavam as tardes a conversar sobre a descida do dólar e as mil maneiras de cozinhar bacalhau. Havia o bacalhau grelhado no inferno, o bacalhau protestante e uma receita francesa que a mulher com sémen nos olhos conhecia. A dada altura um anjo da legião dos espertos disse que o que mais apreciava no bacalhau eram as asas. Nesse dia o céu estremeceu de riso.


de Lobo

(estamos quase a chegar ao fim desta aventura... mais se seguirão... prometo!)

time.... by emil schildt

O poeta Alexandre resolveu falar com um padre, saber se era possível a missa do terceiro dia. O padre disse que a igreja de Deus não era uma barraca das farturas. O poeta Alexandre olhou-o com espanto e começou a desbobinar umas verdades, que o Vaticano andava cheio de ouro, que o papa andava a viajar e que ainda recebia um subsídio por cada milagre inventado, que a igreja católica é um negócio como fazer armas ou produzir droga, que as crianças passam fome e que Deus contrata criminosos para guardar o céu, não falando dos seus representantes, cambada de padrecos a sexuados que nem para rezar missa do terceiro dia são capazes. O padre disse que ia ver o que é que se podia fazer e que ele não era um padre como os outros e que se o criador tinha escolhido um polícia gordo não era assunto para ser questionado, ele devia ter as suas razões. O padre quis saber se o poeta Alexandre e os amigos sabiam o pai-nosso, o poeta Alexandre disse que cada um sabia do seu próprio pai e o padre disse que com o pai-nosso mais o Iva ficava coisa menos coisa, 250 euros. A missa do terceiro dia lá se realizou na gruta dos comboios. Passadas umas semanas, o padre que tinha feito a celebração, escreveu uma carta ao cardeal pedindo renúncia dos votos que tinha feito. O padre que agora era ervanário foi viver para uma aldeia atrás do sol-posto. Quando Pedro o pescador e guardador das portas do céu e possuidor da chave dos enigmas piorava dos ossos, Deus enviava á terra um dos seus, esse ser vestido com o holograma da pobreza franciscana, rogava por umas gotas de remédio para as dores dos ossos. Durante muitos anos o padre que não era padre mas um curandeiro que curava os males das pessoas e dos bichos recebeu numa manhã de chuva a visita de uma pobre que andava por aqueles sítios a guardar as cabras e que dizia que lhe tinha aparecido a nossa senhora dos azeites.
- Que te disse ela?
- Falou do pecado da gordura meu senhor.
- E que pecado é esse?
- Comer com as mãos engorduradas e conceber os filhos cheirando a gordura durante o acto.
- Que idade tens?
- 12 Anos.
- Tu entendes-te as palavras da senhora?
- Fiquei um pouco confusa, quando o meu irmão mais novo nasceu, o meu pai cheirava a óleo, será que o meu irmão tem no corpo o pecado da carne com gordura. No momento em que esta parte da história decorre tu estás no teu trabalho domestico, enquanto passas a ferro olhas-me a dormir, estou a dormir profundamente, sonho que a virgem dos azeites me aparece, ela mostra-me o policia gordo, agora está mais magro, trabalha agora numa taberna, continua a dizer indecências e a dar arrotos. Tu olhas os meus olhos a abrir.
- Dormiste bem
- Sonhei coisas estranhas.
- Coisas estranhas?!
- Apareceu-me a virgem do azeite e um polícia gordo que no meu sonho era quem tinha cometido o crime ocorrido na rua à coisa de um mês.
- O tal crime anda a dar a volta à cabeça das pessoas da rua e desde a morte do inspector que as coisas andam piores.
- Coitado! Morrer assim…
- Achas que vai aparecer outro investigador?
- Não sei.
Depois levantei-me fiz a barba e fui comprar fruta. A dona Alzira perguntou se eu tinha ido à missa do terceiro dia? Disse-lhe que tinha ficado em casa. Ela perguntou-me se eu acreditava em almas do outro mundo? Na verdade acredito em almas do outro mundo e de outras freguesias, acredito em tudo disse eu. Ela com a sesta da fruta misturada com a sesta das novidades, contou que a igreja tinha um padre novo, parece que vai ser a perdição das mulheres, o homem é bonito, muitas vão ficar no confessionário arranjando pecados a toda a hora. Eu despedi-me e segui para casa para preparar o pequeno-almoço. Tu já tinhas passado a roupa a ferro e agora estavas concentrada no romance policial cuja leitura tinhas interrompido. Na nossa rua tudo estava calmo, parece que também no céu nada acontecia de novo, a não ser o inspector pegar num lenço branco e limpar os olhos da mulher que tinha sémen neles.
- Senhora, quero dizer... menina, gostava de lhe fazer uma pergunta, quando estive na terra andei a investigar, a tentar descobrir o autor do crime cometido contra si, infelizmente não consegui descobrir, se não é incomodo revelar-me uma pista.
- Foi um policia gordo disse ela prontamente.
- Sabe que cheguei a pensar que um tal Garcia podia ser o verdadeiro criminoso. Agradeço-lhe por ter dissipado esta dúvida da minha cabeça. Se me dá licença vou-me retirar. O inspector fez uma vénia e retirou-se em direcção aos seus aposentos. Instalado nos seus aposentos, acendeu o cachimbo e pôs-se a contemplar um carreiro de nuvens. Recordava os dias na terra, as pessoas que pareciam um carreiro de nuvens pesadas, acotovelando-se umas ás outras. O inspector de quando em quando deixava sair uma tosse seca, o criador na sua infinita compreensão embora muitos pensem que nas suas longas barbas esconde algo parecido ao código penal, aconselhava-o a reduzir o tabaco, a seguir chamou a mulher e pediu que lhe lê-se as notícias boas da terra, o que era um pouco difícil, a terra estava aumentada de guerras, de comida intragável e outros lixos que nem a reciclagem era capaz de resolver.

Publicado por D_Quixote em 12:38 AM | Comentários (2)

janeiro 04, 2005

as sombras escondidas

como um bailado clássico
a espuma da folhagem
reinventa silêncios

em orações de sul.
são tão frágeis os ramos
que a seiva nobre deixa

feridas nas palavras
breves, graves, no tronco
solitário do chão.

dança o tempo no olhar
e o vento chove a água
nas sombras escondidas.

de José Félix

(suave... lindo... mágico... eu sou um viciado na poesia deste homem...)

Publicado por D_Quixote em 12:01 AM | Comentários (5)

janeiro 02, 2005

Silêncio

Nos momentos de silêncio
Em que todo o sentimento fala mais alto
E em que tudo o que mais quero é não pensar
A lembrança do teu olhar é inevitável
Procuro apagar, anular-te do meu pensamento
Mas, quanto mais te afasto mais de ti me aproximo
Porque se do consciente desapareces
No consciente despertas
Porque há cheiros que a ti me ligam...
Porque há palavras que a tua boca lembram
E há momentos em que os gestos que esboço trazem a mim gestos teus...
Tu que inspiras a minha fantasia
Tu que na realidade nunca serás
Tu que olhas para mim
Como quem olha por mim...
Tu, que sem lugar em mim insistes em estacionar no meu pensamento
Alugas o tempo em todos os meus espaços...


de Someia Umargi
1/11/03

****** by Yuri Bonder

Publicado por D_Quixote em 11:30 PM | Comentários (6)