maio 30, 2004

Percursos Temporais

Depois do aparatoso acidente
apareces como se nada tivesse passado
na ânsia de um toque meu
Impávido, belo e quedo

Nada dizes
o silêncio consume ecos cristalizados
A dor sorvida e sangrenta escorre-se pelo chão
tal qual lágrimas outrora desperdiçadas

Mais uma vez
A mágoa de Vida* cruzou-nos
e sem perdão,
o Tempo (ainda) crú afastou-nos

de Filipa Paramés

(mais um poema lindo em português Filipa... gosto desta nova fase)

I don't want to be alone. by Birute Zygmantaite

Publicado por D_Quixote em 12:24 PM | Comentários (7)

maio 28, 2004

Um vestido com flores

Um vestido com flores.
Flores soltas de um lilás fugidio.
Pura e bela a cor do teu vestido.
E os teus pés: nus
e os cabelos: soltos.
Verde e fresca a relva que pisavas.
E o vestido voava.
E os cabelos dançavam.
Cada passo teu
sentia o pé, sentia a relva
e cada dedo do teu pé
sentia eu em arrepios de frescura.

A luz do teu aroma cintilava em cada onda do teu corpo.

O teu corpo escondia-se.
As flores escondiam o teu corpo.
Cada flor eras tu, e o vestido voava.
E tu voavas.
O teu corpo sentia a brisa
e a brisa, abraçando o teu corpo,
levava-me até ti. Nu.
O teu corpo estava nu.

As flores bailavam ao vento.
e a relva continuava fresca .
Algumas amarelas: as flores.
E brilhavam. Os teus olhos brilhavam.
Nos teus olhos via todas a cores. Puras.
Nos teus olhos, sentia toda a tua forma.
Do teu corpo extraía a leveza de cada passo
e eu sentia agora o teu amor.
O teu sorriso era o teu olhar.
Sentia a brisa e o calor.

A relva húmida era o sentido da tua caminhada.
E o teu sorriso, a minha lágrima de alegria.
Outras flores surgiam por entre a brisa.
Algumas quentes. Todas frágeis.
E então, abriste os braços,
entregaste ao vento a liberdade do teu corpo,
e surgiste forte.
entre o meu olhar e o teu.


de AMAC

(mais uma cara nova que promete muito dar que falar... um poema fabuloso que adorei...)

Lyra by Afriadi Hikmal

Publicado por D_Quixote em 01:24 AM | Comentários (8)

maio 27, 2004

Soneto

Arrastado em alta vaga em pensamento
contorno do teu corpo a aresta líquida
subo ao perfil mais alto e na subida
de ti arranco a fome e o alimento

Mas quero mais eu quero o tormento
das folhas verdes em ti humedecidas
borboletas em teu colo rosas lívidas
constelações pedrinhas em que aumento

O fogo vertigem o sobressalto do rio
o canto de assombro no sangue que corre
como quem nuvem nasce de repente

E já não se teme o fim o sono frio
porque quem ama assim, amor, não morre
Quem ama assim vive eternamente

de Rui Costa

(que mais dizer Rui da tua poesia que já não tenha dito?... sublime...)


Nooning by sideb2004/SideB

Publicado por D_Quixote em 12:47 AM | Comentários (3)

Pronúncia do Norte

Há um pronúncio de morte
Lá do fundo de onde eu venho
Os antigos chamam-lhe ralho
Novos ricos são má sorte

É a pronúncia do norte
Os tontos chamam-lhe torpe

Hemisfério fraco outro forte
Meio-dia não sejas triste
A bússola não sei se existe
E o plano talvez aborte

Nem guerra bairro ou corte
É a pronúncia do norte

Não tenho barqueiro nem hei-de remar
Procuro caminhos novos para andar
Tolheste os ramos onde pousavam
Da geada as pérolas pontes secaram

Corre um rio para o mar
E há um prenúncio de morte

E as teias que vidram nas janelas
Esperam um barco parecido com elas
Não tenho barqueiro nem ei-de remar
Procuro caminhos novos para andar

E é a pronúncia do norte
Corre um rio para o mar

de Rui Reininho, Toli. Participação: Isabel Silvestre


(hoje o Porto do meu coração tem nas veias o azul e branco da vitória... estou feliz, confesso hoje que sou portista ferrenho e que estou feliz... "carago")

Publicado por D_Quixote em 12:06 AM | Comentários (3)

maio 26, 2004

Quem dera...

Quem dera que o tempo pare
Que o calor do sol não cesse
E que ninguém repare
O que comigo acontece
Como gostava que ficasses
Mais um minuto, para poder sonhar
Talvez minha tristeza calasses
Talvez me fizesses chorar.
Que adianta o sol brilhar
Nesse teu sorriso aberto
Se hà dias que não posso olhar
Parecendo para mim, o estio do deserto
Que adianta de vergonha rosar
Tua face tão macia
Se eu apenas posso tocar
No sonho de cada dia
Quem dera que o tempo passe
E o sol de me queimar cesse
E alguém em mim repare
Que já nada comigo acontece.

de Elísio Pinto

Footprints To Fill. by Trish McCoy

Publicado por D_Quixote em 12:51 AM | Comentários (5)

Duelo

Percorro-te o corpo
Com a ponta dos dedos!
Avanço! Recuo!
Percorro-te sem medos!
Beijo-te! Amo-te!
Serpenteio-me cedo!
À esquerda! À direita!
Serpenteio-me sem medo!
Percorro-te a barriga
Com a ponta da língua!
Volto acima!
...e abaixo ainda!
Conduzes-me a boca
Com a mão aflita!
À esquerda! À direita!
Abaixo! Acima!
Procuro-te o ponto...
... da tal dor esquisita!
Serpenteio-me!
Estremeces!
Ofereces-me a vida!
Aceito-te a vida
Com a ponta da língua!
Gemes! Insistes:
Mais! Mais ainda!
Percorro-te o corpo
Com a ponta dos lábios!
Contorces-te! Gemes!
Tremes!
...Ai que momentos sábios!
Invades-me o corpo,
Apanhando-me desprevenida!
Insistes! Insistes!
Mais! Mais fundo ainda!
Digo-te ao ouvido
Os pedidos da alma!
Toma este Amor colorido!
Mas por favor... com mais calma!
Avanças! Recuas!
Descontrolas-me a alma!
“-De quem são?” São tuas!!!
Vai! Vai! Que se lixe a calma!
Começa a luta
Pelo prazer!
Labuta! Labuta!
Quero mais e mais!
Tem mesmo de ser!
Apanho-te fraco
E salto-te em cima!
Agora sou eu
Que faço a “rima”!
Subo! Desço!
E vou mais fundo ainda!
Calma, Amor!
Esta é a melhor luta da vida!
Beijo-te! Amo-te!
Serpenteio-me em cima!
À esquerda! À direita!
Ao centro e em linha!
Seguras-me no corpo,
Lutando ainda!
Isso, Amor!
Toda a ajuda é bem vinda!
Avanço! Recuo!
Insisto sem calma!
Seguras-me no escuro!
Invades-me a alma!
No meio da luta
Pelo nascer da vida,
Já ninguém escuta
Os pedidos lá de cima!
Em cima! Em baixo!
Segura! Aperta e afasta!
Upsss! Empate técnico!
K.O. duplo e basta!

de Xocolaty
18/05/2004

(um poema... diferente...)

Decay by Adrienne W.

Publicado por D_Quixote em 12:04 AM | Comentários (3)

maio 24, 2004

Epilepsia - 2º Encontro

É verdade amigos, já passou algum tempo desde o sucesso que foi o primeiro encontro da Liga Portuguesa Contra a Epilépsia no Porto.

Como prometido e combinado, aqui fica a divulgação do novo cartaz para o próximo encontro. Espero que as pessoas que aderiram queiram continuar neste lindo projecto e me ajudem a divulgar a iniciativa, assim como espero que novos blogs se juntem a nós.

A todos, o meu mais sincero abraço de agradecimento.


LIGA PORTUGUESA CONTRA A EPILEPSIA



Para isso só têm que colocar no vosso blog o seguinte boneco no template e fazer-lhe link para este mesmo post:



Sabe o que é a epilepsia? Junte-se a nós e venha saber mais!

Publicado por D_Quixote em 08:49 PM | Comentários (4)

A evidência do ser

A verdadeira evidencia do ser
Está nos pormenores da existência.
Somos pedaços ocos
De matéria orgânica fragmentada.
Seres estranhos a nós próprios
Com pensamentos devassos
Escalavrados pelo tempo
E esquecidos na memória das palavras
Que ecoam ao ouvido
Durante segundos de existência.

O medo já não assusta
Quem perdeu tudo e mais alguém
Fica a tristeza da saudade
E a mágoa da lembrança
Do que foi e já não é
Do que havia e já não há!

Ao longe vai crescendo a angústia inefável
Da mutabilidade irreparável
Desta montanha-russa a que chamamos vida.


de Ana Marta


(um regresso em grande desta poetisa fantástica, já estava com saudades dos teus poemas Ana)

.feel.THE.distance. by jo pez

Publicado por D_Quixote em 01:26 AM | Comentários (5)

maio 23, 2004

Eu

Sinto-me zangado
Sinto-me triste
Sinto-me um acabado
Sinto-me um cobarde
Sinto tudo porque faço parte da humanidade

Tomo a iniciativa
O que vou fazer é uma coisa criativa
Espero que quem a leia a ache positiva

A minha inspiração vem de todo o lado
De ti já vem um bocado
Gosto de fazer isto espero que não fique mal habituado
Não vejo tudo preto no branco
Vejo todos os contornos e todas as cores
Tudo isto num jardim de milhões de flores

Consigo rimar com tudo
Até rimo com um k
Vai ser a partir de hoje que fico no mapa
Espero estar a fazer uma coisa boa
Escrevo coisas que sinto
Não me olhes de lado, eu não falo à toa

Dói-me a mente
Já estou cansado de toda a gente
Mas temos de nos unir
Se quisermos ver o futuro a sorrir
Olhar pró céu, não adianta de nada
Só se existir uma força elevada

Não me achas normal?
Sou diferente, mas não sou um marginal
Dizes que sou complicado
Espera aí, ainda só viste um bocado

A minha vida é só problemas
São tantos como o número de temas
E as soluções nem consigo vê-las
Quanto mais percebe-las

Já me falta a motivação
De trabalhar e ter uma profissão
Não quero ter uma ocupação
Quero seguir os meus sonhos
Fazer o que gosto é a minha missão

Tenho algumas esperanças
De ter um futuro melhor
Como isto está não pode haver pior

Há dias e dias que nada valem
Nem os amigos te ajudam
Por mais que eles falem
Sinto um grande vazio
Entre mim e o mundo
Tudo tem falta de brio
Parece que bati no fundo

Guito não há, felicidade também não
O que é que eu faço aqui então?
Deve haver alguma razão
Mas eu não vejo a ligação

Cenas esquisitas e contraditórias
Existem sem razão
Já tou farto disto
Será alguma maldição?

Tudo é irreal
Eu não pertenço aqui
Porque aqui eu não sou feliz
Enchem-nos a mente de sonhos
Mas quando acordamos já não somos o que fomos
Um gajo tenta ser feliz
Mas não vê a felicidade à frente do nariz

A única coisa que tenho agora são indecisões
Tento prever tudo
Mas aparecem sempre novas situações

Todos os dias faço uma introspecção
Pra ver como tá a minha situação
Vejo se ela é boa ou má
Sei que tenho de mudar algo na minha vida
Tem é de ser já!

Isto não é exagero
Talvez seja desespero
É o que sinto
Digo a verdade, em relação a isto eu não minto

Ouço sons de fundo
Sons de felicidade
Estes devem ser de outro mundo
Porque pra mim esse mundo não existe
Acabou de uma forma triste.

de Niu

(mais uma estreia no Café)

alone by Pelin ALTINOZ

Publicado por D_Quixote em 12:04 PM | Comentários (3)

maio 22, 2004

o meu corpo

O meu corpo é um memorial de palavras tatuadas pelas línguas viajantes.

de CCC

(enviado por esta amiga que já se tornou uma certeza por estes lados)

Publicado por D_Quixote em 11:58 PM | Comentários (10)

maio 20, 2004

Crónicas do nada – ao telefone

“- Estou?...”
“- tou... , olá... és tu...”
E assim começou mais uma entre muitas das nossas conversas. O som estridente do telefone aos berros, a corrida desenfreada por entre inúmeros objectos que se interpõem pelo caminho, o arfar ofegante das primeiras silabas ditas...
“- ainda bem que ligaste... estava a pensar em ti...” diz ela...
E o turbilhão de coisas a dizer assolam o pensamento, estorvando palavra a palavra o que se tem a dizer. Pouco se diz então.
“- está tudo bem contigo? Como é que tens andado?” Pergunto.
“- comigo está tudo bem... e contigo?”
“- também...” Respondo.
E o silêncio incómodo surge na conversa, o tom lacónico do jogo pergunta/resposta dá lugar ao vazio, ao espaço imenso de tanta coisa para dizer e tão pouca coragem de o fazer. Os dedos brincam com o fio enrolado do telefone, esticando-o, retorcendo-o, tornando-o um escape mental da situação em si, como contas de um rosário nas mãos de uma velha devota em hora de terço.

“- posso-te ver mais logo?”
A minha pergunta vem como algo de esperado mas temido, evitável. Como a certeza de algo que já se sabe que lá está mas que se tenta ignorar a todo o custo. Ela espera, respira, engole em seco, volta a respirar fundo e responde:
“- tu sabes que não João... tu sabes que é melhor não...”
“- sei?...”
“- sabes... sabes sim...” Responde.
A voz quase trémula dela fortalece inesperadamente, tornando-se consistente, decidida, segura, fria... calca decidida os demónios da dúvida que a fazem hesitar, torna-se forte, forte demais...
“- tu sabes que não dá, não sei para que é que insistes... tu já sabes como é que as coisas são... tu sabes que eu não gosto disto... de me sentir amarrada... olha... tenho de ir... fica bem... adeus...”
E o sinal intermitente, substitui a pessoa intermitente.

de João Natal

Lost in Translation by Abdul Kadir Audah

Publicado por D_Quixote em 12:16 AM | Comentários (10)

maio 19, 2004

Madrigal para um amor

Luz da Noite Lis da Noite
meu destino é te adorar.

Serei cavalo marinho
quando a lua semi fátua
emergir de meu canteiro
e tu tiveres saído
em meus trajes de luar.

Serei concha privativa,
turmalina, carruagem,
Mas só se tu, Luz da Noite,
teu delírio nesta margem
já quiseres desaguar.

(Não te faças tão ingrata
meu bem! Quedo ferido
e meus olhos são cantatas
que suplicam não me mates
em adunco anzol de prata!)

E quanto nós nos amamos
em nossa vítrea viagem
de geada e de serragem
pelo meio continente!

Luz da Noite Lis da Noite
meu destino é te seguir.

Meu inábil clavicórdio
soluça pela raiz,
e já pareces tão farta
que nem sequer onde filtra
meu lado bom te conduz:
Minha amiga vou fremindo
embebido em tua luz.

de Cacaso
(Antônio Carlos Ferreira de Brito)
Rio, 1964.


(enviado pelo impagável Jaime Martins)

Suspended by Rick Mccawley

"A maior pena que eu tenho,
punhal de prata,
não é de me ver morrendo,
mas de saber quem me mata."

Cecília Meireles

Cacaso (Antônio Carlos Ferreira de Brito) nasceu em Uberaba (MG), no dia 13 de março de 1944. Com grande talento para o desenho, já aos 12 anos ganhou página inteira de jornal por causa de suas caricaturas de políticos. Antes dos 20 anos veio a poesia, através de letras de sambas que colocava em músicas de amigos como Elton Medeiros e Maurício Tapajós. Seu primeiro livro, "A palavra cerzida", foi lançado em 1967. Seguiram-se "Grupo escolar" (1974), "Beijo na boca" (1975), "Segunda classe" (1975), "Na corda bamba" (1978) e "Mar de mineiro (1982). Seus livros não só o revelaram uma das mais combativas e criativas vozes daqueles anos de ditadura e desbunde, como ajudaram a dar visibilidade e respeitabilidade ao fenômeno da "poesia marginal", em que militavam, direta ou indiretamente, amigos como Francisco Alvim, Helena Buarque de Hollanda, Ana Cristina Cezar, Charles, Chacal, Geraldinho Carneiro, Zuca Sardhan e outros. No campo da música, os amigos/parceiros se multiplicavam na mesma proporção: Edu Lobo, Tom Jobim, Sueli Costa, Cláudio Nucci, Novelli, Nelson Angelo, Joyce, Toninho Horta, Francis Hime, Sivuca, João Donato e muitos mais. Em 1985 veio a antologia publicada pela Editora Brasiliense, "Beijo na boca e outros poemas". Em 1987, no dia 27 de dezembro, o Cacaso é que foi embora. Um jornal escreveu: "Poesia rápida como a vida".

O poema acima foi extraído do livro "Lero-lero", Viveiros de Castro Editora (7Letras) - Rio de Janeiro e Cosac & Naif - São Paulo, 2002, pág. 204.

Publicado por D_Quixote em 09:09 PM | Comentários (2)

maio 18, 2004

o outro lado do amor

confiado encaminhei
o outro lado do amor
em função da minha perspectiva
e o vidro quebrou-se nas mãos
que usei para caminhar
noutra direcção
e no zénite do braço extendido
o vidro partiu de novo
recolhendo o cristal
o edifício reconstruí e no tecto
violento se espedaçou o vidro
uma e outra vez
partida
a mão retomou
a procura do mesmo reprodutor vidro
a quebrar


de Antero B.

(enviado pela amiga Cotada em Bolsa)

Shattered Dreams by Sarah Chatham

Publicado por D_Quixote em 11:41 PM | Comentários (3)

maio 17, 2004

Tango de Verão

Foi numa noite de Verão
Em que o Amor me abandonou,
Que te conheci no salão
Num Tango que me marcou!

A música começou,
Tu apareceste-me de rosa na boca,
Eu aceitei, dizendo: “Já cá estou!”.
Entrelacei-me!
Colei-me a ti!
Fiz-me de louca!
Roubei-te a rosa com um beijo...
Na boca!
Fizeste-me calor!
Rodopiei (segura por uma nádega)!
Inclinaste-me!
Beijaste-me com ardor!

Oh sim, foi um Tango, meu Amor!

Dancei nas tuas mãos,
Chamaste-me boneca,
Transformámos aquele Tango...
Numa queca!

Oh não, não foi um Tango meu Amor!

Fui marioneta!
Seguravas-me...
Agarravas-me...
Beijavas-me...
Largavas-me...
E eu fugia de ti...
Pensando:
“Oh meu Deus,
Se isto não fosse aqui...?”

Ajoelhavas-te
E beijavas-me a púbis,
Para mais tarde me agarrares,
Inclinares e prometeres rubis!

Largaste-me no meio de salão
Quando a última nota soprou!
Fiquei sozinha cantando o refrão!
Sonhando com o homem que nunca me amou!

Sim, sim! É um Tango meu Amor!


de Xocolaty

(e com o calor vem este poema caliente desta nossa já conhecida amiga)

Tango 6 by Jorge Vasconcelos

Publicado por D_Quixote em 08:06 PM | Comentários (8)

maio 16, 2004

Não deixes que o sonho apague

Não deixes que o sonho apague
Ou se deixe esvair
Não deixes que a razão esmague
O teu desejo de sorrir
Despe-te do Inverno
Veste comigo a sensação
Deixa nosso amor ser eterno
Vem sentir a brisa de Verão
Partilha o desejo que agarras
De descobrir o Mundo inteiro
Abandona essas amarras
Faz-te ao mar com teu veleiro
Deixa-te pela brisa levar
Leva tua alma com teu corpo
Se não para quê estar no mar
Se nunca abandonas o porto
Deixa que o mar te conheça
Eleva tuas velas ao vento
E sempre que o Sol em ti amanheça
Não esqueças por nós cada momento
Deixa-te molhar
Pela água do mar mais salgada
Só aí poderás provar
Que a água salobra não sabe a nada
Deixa de acreditar
Que só existe uma verdade
Pois sempre que vento soprar
Apagará em ti toda a saudade
Vem, vem provar o sabor
Do sonho, da razão
Vem, vem salvar, nosso amor
Faz navegar nossa paixão


de Elísio Pinto

(enviado pela Paula Loureiro a quem tanto gosto de servir um cafezinho)

Sunbeam and Waves by Joann Winborn

Publicado por D_Quixote em 11:58 PM | Comentários (3)

maio 14, 2004

Diário da tua ausência – vale a pena?

A noite afaga-me sempre. Cobre-me carinhosa como uma mãe atenta. E eu sinto-me sempre tão bem nos seus braços, apesar de tudo, apesar da minha solidão, apesar do meu vazio imenso de gente até quando estou em grupo.
Hoje saio com amigos, daqueles que conheço há anos e mal conheço ou nem sei se tenho, e é nessa companhia mais ocasional e provocada que habitual que mergulho na noite em direcção à aventura. Copos, farra e diversão, sem amarras e sem consciências, livre, apenas livre.

O local escolhido é escolhido por alguém que não eu. É um lugar sombrio de luzes pesadas, com música ambiente. O ar que se respira é fumo de tabaco e perfume barato. É uma casa de ócio e pecado, onde as fronteiras se esbatem e os riscos se ultrapassam quase sem consciência disso. Sentei-me a um canto sorvendo lentamente um copo de absinto com maracujá.

Ela veio ter comigo. Atiçada pelo grupo que me acompanhava numa tentativa desesperada de me animar e atirada pelo ímpeto predatório de facturar. Sentou-se no banco a meu lado e disse:
“- Não pagas nada?”
Eu fiz um gesto aberto com a mão ao barman dando indicação de lhe servir o que quisesse, contudo continuei mudo e sério sem esboçar reacção à investida.
“- Nunca te vi por estes lados... é a primeira vez?” Continuou tenazmente levando-me segura na conversa para onde queria.
“- Posso só fazer-te uma pergunta?” Respondi.
“ – Claro” Retorquiu algo estupefacta pela minha resistência.
“- Vale mesmo a pena?... isto tudo?... esta vida...?” Perguntei.
O olhar dela arquejou de surpresa e apreensão. Ficou por momentos introspectiva. Tirou da carteira de imitação barata de pele um maço de cigarros. Acendeu lentamente um, tirou uma passa e, como se regressasse a ela mesma naquele momento e respondeu:
“- Não... não vale...”

E a conversa evoluiu para sítios muito agradáveis. Falamos da sua infância, de como sempre tinha procurado independência, nem sempre enveredando pelos caminhos mais correctos. Falou-me que estudava, que escrevia poesia, que também sentia, também amava. Vi a pessoa por detrás da pintura, debaixo da mascara.

“- Obrigada, nunca tinha falado com ninguém assim... normalmente só me dizem palavras feias, insultos, caminhos directos para o que querem. Sexo. Nunca ninguém me tinha tratado assim... como uma pessoa... és uma boa pessoa.” Disse sorrindo.
“- Obrigado eu... por teres falado comigo... trata bem de ti... acaba os estudos e deixa isto...” respondi paternalista mas conscencioso, como um amigo que dá um simples conselho e parti deixando os meus “colegas” para trás e a nova “amiga” também.

Levei nessa noite uma triste figura no pensamento. Eu e ela éramos iguais de algum modo. Ela vendia o corpo por dinheiro e guardava a alma. Eu vendia a alma por amor e guardava apenas dor. Qual dos dois a maior puta?
Deitei-me essa noite sem conseguir dormir...



de João Natal

Alone on New Years by Ashley Massey

Publicado por D_Quixote em 08:14 PM | Comentários (10)

maio 13, 2004

sem principio nem fim

lembro-me dos traços a surgir,
vagueio ao sabor do vento indomável,
permaneço pelas folhas enraizadas
com o sorriso das estrelas
junto á liberdade do mar.

Rolo em mim
sou o porto a que sempre volto,
após cada esquecimento.
trago um pedaço de pele
que rasguei
a mais uma alma desbravada.


de CCC.

(mais um poema teu, muito bom como sempre... a tua poesia é já uma certeza)

left aside by Ryan Winton

Publicado por D_Quixote em 11:50 PM | Comentários (3)

poema do absurdo circunstancialismo humano

Morri...
Os meus olhos perderam a luz,
O brilho,
O sonho,
A vida...
Num caminho sem futuro, nem regresso.
Da erva fresca onde descansei,
Restam hoje ervas daninhas.
Todas as flores que toquei, murcharam.
E o relógio da torre da igreja, lá continua na soma do tempo.
A cascata de água cristalina onde me banhei,
É agora uma torrente de lama,
Os pássaros pararam de cantar.
E o relógio da torre lá continua imparável...
Das mulheres que amei,
Restam pedaços de dor,
Sinfonias de corpos feridos,
Sem rumo nem destino.
E o relógio da torre continua impassível.
Morri...
Abençoada Providência, que ainda castiga os pecadores.
Subi ao cadafalso, no meio de uma multidão ululante de raiva,
De mim levaram apenas o silêncio...
Num último desejo, pensei...
Morram os ABENÇOADOS.
E os sinos tocam a compasso,
Marcando o fim de um tempo.
De três tempos,
Três notas,
Três sons,
Três letras,
Três suspiros,
Três angustias,
Três esgares,
Três enganos,
Três equívocos...
Uma mulher,
Uma sinfonia,
Uma sonata,
Um acorde,
Um despertar,
Um sorriso,
Um sonho.
Um mundo, tão grande como a minha janela,
De onde diviso o nevoeiro em que me perdi,
O mar onde me afoguei,
O pequeno barco que me levou ao mar alto,
Onde tudo é tão salgado como lágrimas,
Que marcaram este pedaço de pedra inerte,
Que a erosão corroeu, e o tempo desfez,
Resta apenas areia,
Onde ainda uma criança poderá brincar,
E desse modo entrar neste falecido,
Como oferta Divina de nunca ter sabido ser criança.
O relógio da torre parou,
O meu tempo acabou...
Nem os finados ouvi,
A minha alma perdeu-se,
Nem Deus nem o Diabo a encontrarão,
Até eles próprios a repudiam.



de Rogério Nunes

(mais uma estreia auspiciosa no palco do café)

Shadow Angel

Publicado por D_Quixote em 08:33 PM | Comentários (3)

maio 12, 2004

O meu número de telefone é 2041711

O meu número de telefone é 2041711
Mas evita ligar amanhã
Porque não vou estar em casa
Podes deixar um pouco da tua voz no gravador
Desde que os assuntos não sejam sérios
Esses não estou capaz de os resolver, percebes?
Já há algumas semanas que não lhe mudo a roupa
Mas ela também não sai de lá!
Ainda sou o único corpo que a conhece.
Não me lembro de alguma vez ter feito amor numa cama
Embora não possa ajuizar muito bem
Pois sempre que o fiz pouco soube acerca do lugar onde me encontrava.
Sabes o que sentes quando olhas para um retrato teu?
Eu sinto o mesmo!
E sinto muito.

Quanto ao número de telefone, ele existe, é o meu.
Se preferires roupa limpa, trá-la contigo.
Caso contrário, dá-me uns minutos...
Têm vindo a diminuir as meias na gaveta.
Quanto à memória, pode ser falta de cama
Posso sempre tentar mudar alguns hábitos.


de Miguel Patrício

(que te dizer Miguel?... sou um adepto confesso e incondicional da tua poesia...)

pauleth #3 by Marília Campos

Publicado por D_Quixote em 11:50 PM | Comentários (6)

Shit Damn Motherfucker

Why are you sleeping with my woman
Why are you sleeping with my woman
This comes as a total surprise
I just can't believe my eyes
My best friend and my wife

Shit, Damn, Motherfucker
Shit, Damn, Motherfucker
Shit, Damn, Motherfucker

Why the both of U's buck-balled naked?
Why the both of U's buck-balled naked?
I tell ya what's on my mind
I'm 'bout to go get my nine
And kill both ya'lls behind

Shit, Damn, Motherfucker
Shit, Damn, Motherfucker
Shit, Damn, Motherfucker

Why the both of U's bleeding so much?
Why the both of U's bleeding so much?
Why the both of U's bleeding so much?
Why am I wearin' handcuffs?


de D' Angelo

(um poema fantástico... com uma musica... bem... procurem ouvir e falem comigo depois...)

Publicado por D_Quixote em 08:49 PM | Comentários (0)

conteúdo imaterial

longínquo sussurro
musical
preenche um espaço nulo,
sideral,
alvitra um sentimento
avisual.

fomento esta palavra
insipiente.
conteúdo imaterial,
adstringente.

como eu queria ter-te
verdadeira,
opúsculo de mensagem,
derradeira
face, de sentido
inconsequente.

como eu desejo ver-te
possuída,
no teu corpo de arenga
descabida
sucumbida ao meu domínio
inexistente.


de Bruno Amaral
Abril 2004, BMA

(uma cara nova, e uma estreia "em grande")

inside III by Torben Wirkestad

Publicado por D_Quixote em 12:06 AM | Comentários (0)

maio 10, 2004

ofusco

Fugi da tua névoa
perdi-me no confronto
com o escuro
Invoco os deuses do passado
mas a fome não se cala
nas ruínas
dos templos caídos

ofusco
esta noite ainda mais


de A.S.

(mais um poema com a qualidade reconhecida)

How To Become by marcus claésson

Publicado por D_Quixote em 11:53 PM | Comentários (7)

Fernando Pessoa

F_Filho de Joaquim Seabra Pessoa
E_E Maria Madalena Pinheiro Nogueira,
R_Reconhecido gênio é Fernando Pessoa.
N_Notável Poeta está na linha primeira.
A_Aos treze de junho, nascido em Lisboa,
N_Não morre jamais! A Nação inteira
D_Declama seus versos, e no mundo ecoa,
O_O Clássico ou Caieiro, à sua maneira.

A_Acende a galáxia e, na efervecência,
N_Aa intimidade do ser-total independente,
T_Transcende a operação da consciência,
O_Ostenta o oculto do sujeito inconsciente.
N_Numa reflexiva pseudo-autobiografia
I_Intersecciona ao real bem envolvente,
O_O irreal, o abstrato, de sua existência.

N_Na dialética da verdade intuitiva,
O_O seio dessa problemática essência
G_Guarda a pura doutrina sensitiva.
U_Único na literatura, nesta referência.
E_E põe a natureza transitiva, em gestação
I_Intelectual e metafísica, na congruência.
R_Retida a trinta de novembro sua criação,
A_A morte traz o passaporte à investigação.

P_Pré-Modernista, predestinado universal,
E_Evoca seu ego, cria o imortal heterônimo.
S_Supra-Pessoa, Português, Místico , Plural,
S_Semeia lirismo, em desencantado ortônimo;
O_O Poeta em” Mensagem”, messiânico total,
A_Assina sua sina, nacional e internacional.



Acróstico-biográfico de Sílvia Araújo Motta
(BH-MG-Brasil)
Belo Horizonte, 10 de junho de 1995

(enviado pelo sempre fantástico Jaime Martins)

Fernando Pessoa por Almada Negreiros

Publicado por D_Quixote em 08:06 PM | Comentários (2)

maio 09, 2004

A Bela Acordada

Era uma vez uma mulher que tão depressa era feia era bonita,
as pessoas diziam-lhe:
- Eu amo-te.
E iam com ela para a cama e para a mesa.
Quando era feia, as mesmas pessoas diziam-lhe:
- Não gosto de ti.
E atiravam-lhe com caroços de azeitona à cabeça.
A mulher pediu a Deus:
- Faz-me bonita ou feia de uma vez por todas e para sempre.
Então Deus fê-la feia.
A mulher chorou muito porque estava sempre a apanhar
com caroços de azeitona e a ouvir coisas feias. Só os animais
gostavam sempre dela, tanto quando era bonita como quando
era feia como agora que era sempre feia. Mas o amor dos animais
não lhe chegava. Por isso deitou-se a um poço. No poço,
estava um peixe que comeu a mulher de um trago só, sem a mastigar.
Logo a seguir, passou pelo poço o criado do rei, que pescou o peixe.
Na cozinha do palácio, as criadas, a arranjarem o peixe,
descobriram a mulher dentro do peixe. Como o peixe comeu a
mulher mal a mulher se matou e o criado pescou o peixe mal o
peixe comeu a mulher e as criadas abriram o peixe mal o peixe
foi pescado pelo criado, a mulher não morreu e o peixe morreu.
As criadas e o rei eram muito bonitos. E a mulher ali era
tão feia que não era feia. Por isso, quando as criadas foram
chamar o rei e o rei entrou na cozinha e viu a mulher, o rei
apaixonou-se pela mulher.
- Será uma sereia ? – perguntaram em coro as criadas ao rei.
- Não, não é uma sereia porque tem duas pernas, muito
tortas, uma mais curta do que a outra – respondeu o rei às criadas.
E o rei convidou a mulher para jantar.
Ao jantar, o rei e a mulher comeram o peixe. O rei disse à
mulher quando as criadas se foram embora:
- Eu amo-te.
Quando o rei disse isto, sorriu à mulher e atirou-lhe com
uma azeitona inteira à cabeça. A mulher apanhou a azeitona e
comeu-a. Mas, antes de comer a azeitona, a mulher disse ao rei:
- Eu amo-te.
Depois comeu a azeitona. E casaram-se logo a seguir no
tapete de Arraiolos da casa de jantar.


In Adília Lopes – OBRA – A Bela Acordada, pag 300, Ed. Mariposa Azual, Lisboa 2001

(enviado pelo amigo Rui Costa)

Castle by Menno Naber

Publicado por D_Quixote em 12:35 PM | Comentários (10)

maio 07, 2004

Fractura Exposta

Queima-me,
rega-me com gasolina!
Acende o fosforo e sorri...
pouco o fogo me ha-de queimar
vai-te até menos magoar
do que certamente
ficar sem ti.

Cega-me,
vasa-me os olhos
com sorrisos de vidros cortantes!
Rasga-me os meus pulsos
para deixarmos convulsos
de ser para sempre
assim errantes.

Não vês que o amor nada é mais que uma fractura exposta da alma?


de João Natal
20/04/2004

self-portrait by Magdalena Krajewska

Publicado por D_Quixote em 12:50 AM | Comentários (10)

maio 06, 2004

Procuro-te

Perscuto no lúgubre céu cinzento
nestas ruas tão vazias cheias de gente,
por este frio inferno de cimento
onde passo todos os meus dias demente.

Busco na luz morta de desalento
destas ruas onde ninguém ama nem sente,
qualquer sincero e vero sentimento
na apatia fria do olhar indiferente.

Procuro sem fim por ti meu amor,
perdido na ansia de te encontrar,
perseguindo insistente os teus passos.

Onde no fim do sofrimento e dor
sei, no final do dia vou repousar
no prazer infinito dos teus braços.


de João Natal
20/04/04

(aqui, onde te encontro...)

Futurotrotter by Anders Blomqvist

Publicado por D_Quixote em 01:05 AM | Comentários (4)

maio 05, 2004

Este estado de Agonia em que...

ser nada mais é que não ser
e estar é não ficar
e ver não passa de olhar.

Chamam-lhe amor!

Eu chamo-lhe dor
por sentir aquilo que ninguém sente,
por calar aquilo que quero gritar,
por me faltarem as palavras para o exprimir,
por simplesmente sentir!

Chamam-lhe Amor!

Chamam amor a este estado pardacento,
em que nada mais fazemos senão levitar
e ainda me dizem em jeito de alento:
"Gelatina, pára de flutuar!
Desce mulher que logo pensas em namorar!"

Raios partam todos aqueles que não o sentem,
malditos sejam todos os que se esqueceram
do quanto é bom amar e poder sonhar
que a próxima palavra, o próximo gesto
virá como prova desse amor,
que nos consome e nos leva a desesperar!


de Gelatina

(já não haviam duvidas sobre o teu talento... este teu poema deixa-me encantado... beijinhos... e boa sorte)

Only Time by Rachel S.

Publicado por D_Quixote em 08:39 PM | Comentários (7)

maio 04, 2004

Leve, devagar e de mansinho

Leve é o vento
Que te percorre o olhar
Transporta no ar abafado
Um gemido de sonho salgado
Encharcado de tanto suar.

Devagar…bem devagar
Não vale a pena correr.
O amor não faz sofrer
Quem tem tempo a perder
Para num sonho habitar.

De mansinho, sem apressar
Sente o desejo a chegar
E a vontade de te querer
Embriagar em prazer
Só com a magia do meu andar.


de Ana Marta

(mais um bom poema desta poetisa que por aqui já muito tem brilhado)

silhouette by Akgün Günay

Publicado por D_Quixote em 12:40 AM | Comentários (4)

maio 03, 2004

Amor, álcool e realidade!

Vê a lua? Percebe o quanto especial pode ser o momento? O quanto o silencio noturno é hospitaleiro? Por entre os galhos os raios lunares me atingem, aquecem a alma enquanto o sereno resfria meu corpo todo, em meio a embriaguês os pensamentos fluem correndo por entre os vales da mente, em meio ao turbilhão de idéias surge tua face brilhando diante de mim, como uma visão, imponente, sólida e confiante, sinto um calafrio percorrer meu corpo, realidade e imaginação se confundem, com um tom cínico seus lábios pronunciam "te amo", mas de forma derradeira vai se afastando, vou à sua direção, chego ao abismo do esquecimento, a vejo no outro lado... Quantas vezes desejei o que estava no outro lado? Quantas vezes em busca do amor caí no abismo? Meu coração sangra pela duvida, quanto mais terei de sofrer? Qual é meu caminho? Que ideais devo seguir? Se juntares todos meus pedaços terás nada mais que o quebra cabeças de um homem. A lua, amiga confidente, única a partilhar de minha dor, de minha insanidade ébria. Tantas foram nossas madrugadas, quantas ainda teremos? Muito tempo se passou, nós mudamos, mas a dor continua a mesma.
Mais uma madrugada finda, mais uma garrafa se esvazia, o sol da manha surge acompanhado de uma dor de cabeça insuportável, que me pune pelo excesso da noite anterior.


de Antonio Kovalski Junior

(obrigado Junior por mais um texto fantástico)

"THE MOON & THE TREE" by Walt Mesk

Publicado por D_Quixote em 12:31 AM | Comentários (5)

maio 02, 2004

Canção do Boêmio

Que noite fria! Na deserta rua
tremem de medo os lampiões sombrios.
Densa garoa faz fumar a lua,
ladram de tédio vinte cães vadios.

Nini formosa! Por que assim fugiste?
Embalde o tempo à tua espera conto.
Não vês, não vês?... Meu coração é triste,
como um calouro quando leva ponto.

A passos largos eu percorro a sala,
fumo um cigarro que filei na escola...
Tudo no quarto de Nini me fala,
embalde fumo... tudo aqui me amola.

Diz-me o relógio, cinicando a um canto:
— Onde está ela que não veio ainda? -
Diz-me a poltrona: por que tardas tanto?
Quero aquecer-te, rapariga linda.


de Castro Alves

(enviado por Jaime Martins... um leitor que me apraz imenso ver por aqui)

Insmonia Express by Khairul Haque

Em vão a luz da crepitante vela
de Hugo clareia uma canção ardente;
tens um idílio — em tua fronte bela...
um ditirambo — no teu seio quente...

Pego o compêndio... inspiração sublime!
Pra adormecer... inquietações tamanhas...
Violei à noite o domicílio, ó crime!,
onde dormia uma nação... de aranhas...

Morrer de frio quando o peito é brasa. . .
quando a paixão no coração se aninha?!
Vós, todos, todos, que dormis em casa,
dizei se há dor que se compare à minha!...

Nini! o horror deste sofrer pungente
só teu sorriso neste mundo acalma...
Vem aquecer-me em teu olhar ardente...
Nini! Tu és o cachenê dest'alma.

Deus do Boêmio! São da mesma raça
as andorinhas e o meu anjo louro...
Fogem de mim se a primavera passa,
se já nos campos não há flores de ouro...

E tu fugiste, pressentindo o inverno,
mensal inverno do viver boêmio...
Sem te lembrar que por um riso terno
mesmo eu tomara a primavera a prêmio...

No entanto ainda do Xerez fogoso
duas garrafas guardo ali... Que minas!
Além, de um lado, o violão saudoso
guarda no seio inspirações divinas...

Se tu viesses... de meus lábios tristes
rompera o canto... Que esperança inglória!...
Ela esqueceu o que jurar-lhes vistes,
ó Paulicéia, ó Ponte Grande, ó Glória!...

Batem!... Que vejo! Ei-la afinal comigo...
Foram-se as trevas... fabricou-se a luz...
Nini! Pequei... dá-me exemplar castigo!
Sejam teus braços... do martírio a cruz.

Antônio de Castro Alves (1847-1871), nasceu na Bahia. O maior romântico brasileiro e, com Tobias Barreto, um dos fundadores da escola condoreira, inspirada em Vítor Hugo. Nativista, revelador da paisagem brasileira, republicano e abolicionista - o cantor do Navio negreiro é o nosso grande poeta social e nacional.

Texto extraído do livro "Humor e Humorismo - Poesias e Versos", Editora Brasiliense - São Paulo, 1961, pág. 110, antologia organizada por Idel Becker.

Publicado por D_Quixote em 11:21 AM | Comentários (1)