outubro 29, 2003

Porto Sentido

Porto Sentido


Quem vem e atravessa o rio
junto à serra do Pilar
vê um velho casario
que se estende ate ao mar

Quem te vê ao vir da ponte
és cascata, são-joanina
dirigida sobre um monte
no meio da neblina.

Por ruelas e calçadas
da Ribeira até à Foz
por pedras sujas e gastas
e lampiões tristes e sós.

E esse teu ar grave e sério
dum rosto e cantaria
que nos oculta o mistério
dessa luz bela e sombria

Ver-te assim abandonada
nesse timbre pardacento
nesse teu jeito fechado
de quem mói um sentimento

E é sempre a primeira vez
em cada regresso a casa
rever-te nessa altivez
de milhafre ferido na asa

de Carlos Tê
(este poema é a melhor fotografia que existe da cidade do Porto, e na voz quente de Rui Veloso encontrou a imortalidade)


para mais fotos ver ou ver

Publicado por D_Quixote em 10:57 PM | Comentários (3)

VAIDOSA

Vaidosa


Dizem que tu és pura como um lírio
E mais fria e insensível que o granito,
E que eu que passo aí por favorito
Vivo louco de dor e de martírio.

Contam que tens um modo altivo e sério,
Que és muito desdenhosa e presumida,
E que o maior prazer da tua vida,
Seria acompanhar-me ao cemitério.

Chamam-te a bela imperatriz das fátuas,
A déspota, a fatal, o figurino,
E afirmam que és um molde alabastrino,
E não tens coração como as estátuas.

E narram o cruel martirológio
Dos que são teus, ó corpo sem defeito,
E julgam que é monótono o teu peito
Como o bater cadente dum relógio.

Porém eu sei que tu, que como um ópio
Me matas, me desvairas e adormeces,
És tão loira e doirada como as messes,
E possuis muito amor... muito amor próprio.

de Cesário Verde

Publicado por D_Quixote em 10:48 PM | Comentários (0)

contigo

Trago os olhos cansados de não te ver
e encontro os teus olhos cansados de olhar para mim.
O silencio tornou-se demasiado ruidoso,
o teu olhar demasiado frio,
já nem sequer tentas mais sorrir.

Que será nos sinto esmorecer
como prenuncios negros anunciados de um fim?
Quando rejeitas um meu gesto carinhoso;
tudo o que fica por um fio
e tudo o que sei ainda sentir...

Será amar assim tão complicado?
Será que não é para nós?
Quero tanto perceber e não consigo...
porque será que em todo o lado,
juntos estamos sós,
quando só quero mesmo estar... contigo...

de João Natal 29/10/2003

Publicado por D_Quixote em 01:33 AM | Comentários (1)

Ouvi dizer

Ouvi dizer...

ouvi dizer que o nosso amor acabou
pois eu não tive a noção do seu fim
pelo que eu já tentei eu não vou vê-lo em mim
se eu não tive a noção de ver nascer um homem
e ao que eu vejo
tudo foi para ti
uma estupida canção que só eu ouvi
e eu fiquei com tanto para dar
e agora
não vais achar nada bem
que eu pague a conta em raiva
e pudesse eu pagar de outra forma

ouvi dizer que o mundo acaba amanhã
e eu tinha tantos planos para depois
fui eu quem virou as paginas
na pressa de chegar até nós
sem tirar das palavras seu cruel sentido
sobre a razão estar cega
resta-me apenas uma razão
um dia vais ser tu
e um homem como tu
como eu não fui
um dia vou-te ouvir dizer
e pudesse eu pagar de outra forma
sei que um dia vais dizer
e pudesse eu pagar de outra forma

a cidade está deserta
e alguem escreveu o teu nome em toda a parte
nos carros, nas casas, nas pontes, nas ruas
em todo o lado essa palavra
repetida ao expoente da loucura
ora amarga, ora doce
pra nos lembrar que o amor é uma doença
quando nele julgamos ver a nossa cura

de Ornatos Violeta com Vitor Espadinha em "um monstro precisa de amigos"


Publicado por D_Quixote em 01:04 AM | Comentários (2)

outubro 28, 2003

Distância

Passa ao longe amor
segue calmo, distante,
não vás tentar-me
segue calmo e feliz
não me entristeças.
Passa ao longe amor
não vás chamar-me
porque eu não vivo só.
Passa ao longe
e não espreites
nem provoques a guerra das lágrimas
e a dor de te vêr partir de novo!
Passa ao longe tentação
não me agarres
não me culpes
nem me roubes a alegria
e paz de coração.
Busca novo enredo
novos laços
porque os meus braços não são teus.
Passa ao longe amor
não querias dizer-me adeus!...

de Maria Beatriz Santos Ferreira "reflexos"

Publicado por D_Quixote em 12:39 AM | Comentários (2)

outubro 27, 2003

Pedra Filosofal

Pedra Filosofal


Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.


de António Gedeão "In Movimento Perpétuo, 1956"


Publicado por D_Quixote em 08:10 PM | Comentários (0)

Você

Você...
que tanto tempo faz
Você que eu não conheço mais
Você que um dia eu amei demais...

Você que ontem me sofucou
de amor de felicidade;
hoje me sufoca
de saudade...

Você que já não diz pra mim
as coisas que eu preciso ouvir,
Você que até hoje eu
não esqueci...

Você que eu tento me enganar,
dizendo que tudo passou;
na realidade aqui em mim
você ficou...

Você que eu não encontro mais,
os beijos que já não lhe dou;
fui tanto pra você
e hoje nada sou...

de Maria Bethania "Você"... uma das musicas mais lindas de sempre... a dor... a perda... tudo presente em cada silaba da melodia desta mulher fabulosa... há poucas musicas tão repletas de poesia como esta...

Publicado por D_Quixote em 07:52 PM | Comentários (0)

Velho preto que caminhas na berma da estrada

Velho preto que caminhas na berma da estrada
Os anos pesam mais que o caminho.
O teu passo é incerto e o teu rumo perdido
Não há futuro, só passado
E nem isso te incomoda...
Nada te envergonha...
A tua bengala é um pau,
Torto e arquejado,
Retorcido e decrépito como a tua aparência...
Os carros passam por ti como o tempo,
Indiferentes,
Frios,
Trocistas,
Desdenhando em sorrisos daquilo em que te tornaste...
Aquilo que és...
Encetas um dialogo com ti mesmo;
Barafustas e protestas,
Esbracejas agitando tua bengala no ar;
Nada no mundo é teu
Nem mesmo o teu mundo...
Velho preto que caminhas na beira da estrada
Continuas errante,
cambaleante por entre o transito,
divagas...
sem que mais ninguém repare,
sem que mais ninguém queira reparar
até que alinha do horizonte
te consuma
e suma
adeus velho preto...

“velho preto” 09/07/03
João Natal


Publicado por D_Quixote em 01:48 AM | Comentários (4)

O autor aos seus versos

O autor aos seus versos

Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza e sem brandura,
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz, não busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:

Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz e tirania:

Desculpa tendes, se valeis tão pouco,
Que não pode cantar com melodia
Um peito de gemer cansado e rouco.

de Bocage

Publicado por D_Quixote em 01:34 AM | Comentários (0)

outubro 26, 2003

Eu, que sou feio...

Eu, que sou feio...

Eu, que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te, sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.

Sentado à mesa dum café devasso.
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura.
Nesta Babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.

E, quando socorreste um miserável,
Eu que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.

«Ela aí vem!» disse eu para os demais;
E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, - talvez não o suspeites!-
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.

Ia passando, a quatro, o patriarca.
Triste eu saí. Doía-me a cabeça.
Uma turba ruidosa, negra, espessa,
Voltava das exéquias dum monarca.

Adorável! Tu muito natural,
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, num largo arborizado,
Uma estátua de rei num pedestal.

de Cesário Verde

Publicado por D_Quixote em 11:14 AM | Comentários (1)

As palavras que te envio são interditas

As palavras que te envio são interditas

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.


de Eugénio de Andrade

Publicado por D_Quixote em 10:51 AM | Comentários (6)

outubro 24, 2003

Frémito do meu corpo a procurar-te

Frémito do meu corpo a procurar-te,
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doido anseio dos meus braços a abraçar-te,

Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,
Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que me não amas...

E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas...

de Florbela Espanca ("He hum não querer mais que bem querer-III")



Publicado por D_Quixote em 12:48 AM | Comentários (2)

Sem Resposta

Sem resposta

Já nem sei entender porque
Finjo não entender
O código preguiçoso
Dos seus olhares subtis

Tento te esquecer
Fujo pra não deixar
Legítimos sentimentos
Ainda sem resposta

Como um vento que ameaça você
Bate sempre tão forte porquê
Chuva de Verão é você
Tempo que nunca passa é você

É melhor ficar assim
Vou deixar ficar
A dúvida insistente
Nesses desejos banais

Juro que eu tentei
Tantas vezes quis
Dizer que ficar contigo
Me deixa tão feliz

Como um vento que ameaça você
Bate sempre tão forte porquê
Chuva de Verão é você
Tempo que nunca passa é você

(Celso Fonseca)


dia 24 (Hoje mesmo...) Celso Fonseca e Fernanda Porto no HardClub em Gaia, vai ser um maximo e eu vou estar lá...
ver...

Publicado por D_Quixote em 12:29 AM | Comentários (0)

para Luisa

Nem choros, nem despedidas
Porque é mesmo assim a vida
Com chegadas e partidas
E custa-nos por seres tão querida...

Já andamos a pensar
Naquela época especial
Quem vai tão contente cantar
"É Natal, é Natal, é Natal" ?

Mas como tudo no mundo
Tem a sua razão de ser
É nosso voto profundo
Que sais daqui para vencer

Como herança preciosa
Deixas-nos a tua amizade
A tua presença graciosa
E a tua boa vontade.

Nós queremos que leves também
E conserves no pensamento
Os bons momentos e as amizades
Do BBVA Finanziamento

(escrito por Ana Duarte)


Hoje publico algo diferente, não é um poema elaborado, rico de texto, decorado com figuras de estilo... é um poema simples, escrito de forma simples com sentimentos simples... a despedida feita ontem a uma pessoa querida com quem partilhamos sempre, com muita amizade, ano e meio de trabalho... apesar de humilde... é um poema cheio de emoção, da mesma forma que o li com a voz falhando... e toda a poesia que existia... eram as lagrimas antecipadas de saudade... que todos vertemos na despedida da nossa querida amiga...
a ela... todo o tributo da poesia...
porque serás sempre uma amiga nos nossos corações...
um poema à Ana Luisa...

Publicado por D_Quixote em 12:17 AM | Comentários (1)

outubro 23, 2003

Vem

vem comigo esta noite,
vem...
que as estrelas cintilam no chão de cristal,
a lua sorri e espreita;
tudo é jovem,
tudo é permitido...
vem dançar comigo num copo de absinto
e fazer amor com o olhar,
vem namorar com o meu sorriso
e sorrir entre um beijo roubado;
a musica toca
e os corpos vibram,
vai mais um copo!
embriaguemo-nos de sedução
e bebamos sem pudores...
vem comigo esta noite,
vem...
rende-te,
entrega-te ao proibido;
porque somos nós que fazemos as regras
e somos nós que as quebramos
e o prazer é uma linha de horizonte,
sem fim,
sem barreiras...
então voemos esta noite
que a manhã só nos trará
o vazio de dois corpos,
perdidos no branco dos lençóis,
estranhos,
esquecidos,
para partir de novo...
vem comigo esta noite,
vem...

“vem...”
João Natal
26/08/02

Publicado por D_Quixote em 01:43 AM | Comentários (1)

Adeus

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

de Eugénio de Andrade

Publicado por D_Quixote em 12:58 AM | Comentários (2)

outubro 21, 2003

Isto

Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está em pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

de Fernando Pessoa

Publicado por D_Quixote em 12:30 AM | Comentários (0)

Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino do Aquém e de Além dor!

É ter de mil desejos o explendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dize-lo cantando a toda a gente!


de Florbela Espanca (quem não conhece este imortal poema?)

Publicado por D_Quixote em 12:19 AM | Comentários (1)

Ouvir estrelas

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."


de Olavo Bilac (enviada pelo amigo Márcio Gama)

Publicado por D_Quixote em 12:08 AM | Comentários (0)

outubro 20, 2003

Recordação

"Recordação"

Sentei-me
apoiei meus braços
e olhei em frente
vi a cor doirada
do sol poente
gaivotas
brancas
tristes
levantam vôo
poisam sobre as águas
falam-me de ti
em soluços de água
rebentando em mim
e a imensidão da areia
como a minha ideia
não tem cor
nem fim!...

de Maria Beatriz dos Santos Ferreira in "Reflexos"

(este é um poema da autoria de uma amiga do meu pai, alguem que publicou um livro custeando a edição, o que ainda me faz adorar mais estes poemas lindos que ela escrevia, pela coragem e dedicação do seu esforço)


Publicado por D_Quixote em 12:50 AM | Comentários (0)

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

de Fernando Pessoa

(que posso dizer deste poema? é uma referência para mim e para toda a literatura portuguesa, para mim, não desconsiderando nenhum outro poeta, Pessoa foi o mestre, o expoente maximo da poesia lusa)

Publicado por D_Quixote em 12:33 AM | Comentários (2)

Paradiso Perduto

"paradiso perduto"

Não te lembras.
Tu não te lembras, tenho a certeza.
Mas houve uma noite
Em que tudo foi meu.
Havia uma rua, gente, uma mesa.

Chegaste e disseste "Ciao"
calaste-te depois.
Mas nessa altura,
Nesse instante de vertigem
E prazer,
Esse instante em que 1 é soma de 2
Já eu me tinha virado na cadeira
Para tentar perceber
Já tinha sorvido daquele som,
Da palavra simples,
A profundeza da voz,
A intensidade da presença.
A imortalidade
Descendo em nós.

"Ciao" quer dizer olá
Nunca adeus.


de Anna Tomás (cortesia da própria)

Publicado por D_Quixote em 12:17 AM | Comentários (0)

outubro 18, 2003

Perdi

Obscuros desejos de ti,
inoquidade preversa no olhar,
sonhos decrépitos de solidão
na tenebrosa nocturna ausencia de som...
onde me agasalho de trevas
no meu manto retalhado de sombras;
que estranho ser eu me tornei...
se soubesses a quantidade de coisas tristes
que trago dentro de mim,
o papel de carta amarrotado
que o meu coração é...
as horas que não passam,
as palavras que não se dizem,
os beijos que não se roubam,
o amor que não foi...
reduzi-me a um rabisco nervoso num papel,
que simplesmente diz...
perdi...

"perdi"

João Natal 14/10/2003

Publicado por D_Quixote em 05:51 PM | Comentários (0)

Corcovado

Um cantinho, um violão
Este amor uma canção
Pra fazer feliz a quem se ama
Muita calma pra pensar
E ter tempo pra sonhar
Da janela vê-se o Corcovado
O Redentor, que lindo

Quero a vida sempre assim
Com você perto de mim
Até o apagar da velha chama
E eu que era triste
Descrente deste mundo
Ao encontrar você, eu conheci
O que é felicidade, meu amor

de Antonio Carlos Jobim (quem não conhece a musica fabulosa deste poema? eu aconselho vivamente a minha versão preferida, na interpretação dos Everything But The Girl no album Red Hot & Rio)


Publicado por D_Quixote em 05:45 PM | Comentários (0)

Especially when the October Wind

Especially when the October wind
With frosty fingers punishes my hair,
Caught by the crabbing sun I walk on fire
And cast a shadow crab upon the land,
By the sea's side, hearing the noise of birds,
Hearing the raven cough in winter sticks,
My busy heart who shudders as she talks
Sheds the syllabic blood and drains her words.

Shut, too, in a tower of words, I mark
On the horizon walking like the trees
The wordy shapes of women, and the rows
Of the star-gestured children in the park.
Some let me make you of the vowelled beeches,
Some of the oaken voices, from the roots
Of many a thorny shire tell you notes,
Some let me make you of the water's speeches.

Behind a pot of ferns the wagging clock
Tells me the hour's word, the neural meaning
Flies on the shafted disk, declaims the morning
And tells the windy weather in the cock.
Some let me make you of the meadow's signs;
The signal grass that tells me all I know
Breaks with the wormy winter through the eye.
Some let me tell you of the raven's sins.

Especially when the October wind
(Some let me make you of autumnal spells,
The spider-tongued, and the loud hill of Wales)
With fists of turnips punishes the land,
Some let me make you of the heartless words.
The heart is drained that, spelling in the scurry
Of chemic blood, warned of the coming fury.
By the sea's side hear the dark-vowelled birds.

Especially when the October Wind by Dylan Thomas

Sim, em Inglês... e porque não? Poesia é poesia em todo o lado, e é dificil encontrar boas traduções do que este excepcional poeta escrevia...

Publicado por D_Quixote em 05:39 PM | Comentários (0)

outubro 16, 2003

Versos Íntimos

Versos Íntimos


Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!


de Augusto dos Anjos (enviado pelo amigo brasileiro Marcio Gama)

Publicado por D_Quixote em 08:04 PM | Comentários (0)

REALIDADE

REALIDADE

Em ti o meu olhar fez-se alvorada
E a minha voz fez-se gorjeio de ninho
E a minha rubra boca apaixonada
Teve a frescura pálida do linho

Embriagou-me o teu beijo como um vinho
Fulgo de Espanha, em taça cinzelada
E a minha cabeleira desatada
Pôs a teus pés a sombra de um caminho

Minhas pálpebras são cor de verbena
Eu tenho os olhos garços, sou morena,
E para te encontrar foi que eu nasci

Tens sido vida fora o meu desejo
E agora, que te falo, que te vejo,
Não sei se te encontrei... se te perdi...

de Florbela Espanca (enviado por Ana Duarte)

Aproveito para confessar... nunca fui grande fã de Florbela Espanca, sempre a considerei como demasiado "feminina" para mim, demasiado sensivel... hoje, talvez sejam coisas que a idade vai trazendo, dou por mim a gostar cada vez mais das coisas que esta mulher extraordinária dizia...

Publicado por D_Quixote em 07:55 PM | Comentários (0)

Poesia

Poesia


Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos atos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Publicado por D_Quixote em 07:49 PM | Comentários (0)

Recordação

“recordação”

O nevoeiro é espesso
Baço como a recordação de ti
A chuva escorre latente na janela
E o vento murmura lá fora
Tudo gira e revira do avesso
Papeis esvoaçam e passam aqui
Tudo me lembra dela
E estou tão sozinho agora

Os meus olhos fecham
E regressas para me assombrar
Percorro as linhas da tua face
Suavemente com as pontas dos meus dedos
E os teus risos não me deixam
Ecoam sem parar
Sem que esta loucura me passe
Eu revivo os meus medos

Já está tudo tão distante
Ténue, desaparecido
Gasto como um velha fotografia
Despojada de todo o encanto
E assim continuo errante
Como se nunca tivesse sido
Como se nunca num esquecido dia
Te tivesse amado tanto

João Natal 1/12/2002


Publicado por D_Quixote em 12:51 AM | Comentários (2)

Soneto da Fidelidade

Soneto da Fidelidade


De tudo, meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor ( que tive ) :
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


de Vinicius de Moraes (gentilmente enviado por Marcio Gama "o Reacionário")

Publicado por D_Quixote em 12:24 AM | Comentários (2)

Tarde de mais

Tarde de mais

Quando chegaste enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar;
E para o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar

Chegaste, enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar
E as pedras do caminho florescer!

Beijando a areia de oiro dos desertos
Procurara-te em vão! Braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!

E há cem anos que eu era nova e linda!...
E a minha boca morta grita ainda:
Porque chegaste tarde, ó meu Amor?!...

de Florbela Espanca (gentilmente enviado por Ana Duarte)

Publicado por D_Quixote em 12:19 AM | Comentários (0)

outubro 15, 2003

tanto tempo

A seára acena
como a multidão que vibra,
e o vento galga o campo
como a tua mão deslizava no meu cabelo.
já lá vai tanto tempo
que o tempo junto a ti parava,
agora passa frenético
como areia de praia levantada pela tempestade,
como a força do mar esmagado na rocha
e envolve-me...
consome-me...
como o fumo seco
de um cigarro aceso,
semicerrado dormente
nos labios de um velho;
caindo a cinza,
levemente,
neste mundo de pó...
encosto a cabeça
ao frio vazio do vidro da janela
e murmuro o teu nome,
choro,
o tempo não mata o amor
mas afasta os amantes;
e já lá vai tanto tempo
que o tempo junto a ti parava...
tanto tempo...

"tanto tempo" João Natal 5/5/2003

Publicado por D_Quixote em 12:43 AM | Comentários (0)

Chuva

as coisas vulgares que há na vida
não deixam saudade
só as lembranças que doem
ou fazem sorrir
há gente que fica na história
na história da gente
e outras de quem nem o nome
lembramos ouvir
são emoções que dão vida
à saudade que trago
aquelas que tive contigo
e acabei por perder
há dias que marcam a alma
e a vida da gente
e aquele em que tu me deixaste
não posso esquecer

a chuva molhava-me o rosto
gelado e cansado
as ruas que a cidade tinha
já eu percorrera
ai... o meu choro de moça perdida
gritava à cidade
que o fogo do amor sob a chuva
à instantes morrera

a chuva ouviu e calou
o meu segredo à cidade
e eis que ela bate no vidro
trazendo a saudade

a chuva molhava-me o rosto
gelado e cansado
as ruas que a cidade tinha
já eu percorrera
ai... o meu choro de moça perdida
gritava à cidade
que o fogo do amor sob a chuva
hà instantes morrera

a chuva ouviu e calou
o meu segredo à cidade
e eis que ela bate no vidro
trazendo a saudade

e eis que ela bate no vidro
trazendo... a saudade...


Chuva... da fadista Mariza... haverá qualquer necessidade de palavras?



Publicado por D_Quixote em 12:36 AM | Comentários (2)

outubro 14, 2003

Caminho

Caminho

I

Tenho sonhos cruéis; n'alma doente
Sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro,
Embebido em saudades do presente...

Saudades desta dor que em vão procuro
Do peito afugentar bem rudemente,
Devendo, ao desmaiar sobre o poente,
Cobrir-me o coração dum véu escuro!...

Porque a dor, esta falta d'harmonia,
Toda a luz desgrenhada que alumia
As almas doidamente, o céu d'agora,

Sem ela o coração é quase nada:
Um sol onde expirasse a madrugada,
Porque é só madrugada quando chora.

Camilo Pessanha

Publicado por D_Quixote em 11:50 PM | Comentários (0)

Caroline

Caroline

J'étais cool, assis sur un banc, c'était au printemps
Ils cueillent une marguerite, ce sont deux amants
Overdose de douceur, ils jouent comme des enfants
Je t'aime un peu, beaucoup, à la folie, passionnément
Mais à la suite d'une douloureuse déception sentimentale
D'humeur chaleureuse je devenais brutal
La haine d'un être n'est pas dans nos prérogatives
Tchernobyl, tcherno-débile ! jalousie radio-active
Caroline était une amie, une superbe fille
Je repense à elle, à nous, à nos cornets vanille
A sa boulimie de fraises, de framboises, de myrtilles
A ses délires futiles, à son style pacotille

Je suis l'as de trèfle qui pique ton coeur, Caro-Line

Comme le trèfle à quatre feuilles, je cherche votre bonheur
Je suis l'homme qui tombe à pic, pour prendre ton coeur
Il faut se tenir à carreau, caro ce message vient du coeur
Une pyramide de baisers, une tempête d'amitié
Une vague de caresse, un cyclone de douceur
Un océan de pensées, Caroline je t'ai offert un building de tendresse
J'ai eu une peur bleue, je suis poursuivi par l'armée rouge
Pour toi j'ai pris des billets verts, il a fallu qu'je bouge
Pyromane de ton coeur, canadair de tes frayeurs
Je t'ai offert une symphonie de couleurs
Elle est partie, maso
Avec un vieux macho
Qu'elle avait rencontré dans une station de métro
Quand je les vois main dans la main fumant la même mégot
Je sens un pincement dans son coeur, mais elle n'ose dire un mot

C'est qu'je suis l'as de trèfle qui pique ton coeur, Caro-Line

Claude MC prend le microphone genre love story ragga muffin
Pour te parler d'une amie qu'on appelle Caroline
Elle était ma dame, elle était ma came
Elle était ma vitamine
Elle était ma drogue, ma dope, ma coke, mon crack
Mon amphétamine, Caroline

Je repense à elle, femme actuelle, 20 ans, jeune et jolie
Remets donc le film à l'envers, magnéto de la vie
Pour elle, faut-il l'admettre, des larmes ont coulé
Hémorragie occulaire, vive notre amitié
Du passé, du présent, je l'espère du futur
Je suis passé pour être présent dans ton futur
La vie est un jeu d'cartes,
Paris un casino
Je joue les rouges... coeur, caro

Hoje afixo um poema diferente... a letra de uma musica fantástica, de um autor fantástico... alem disso, faz-me recordar muito do ambiente citadino parisiense, aventuras nocturnas de metro na cidade luz... este poema de MC Solaar retrata bem o amor de rua, de um poeta de rua... a todos aconselho tambem conhecer a musica...

Publicado por D_Quixote em 12:09 AM | Comentários (1)

outubro 13, 2003

Interrogação

Interrogação

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.


Camilo Pessanha

Publicado por D_Quixote em 09:46 PM | Comentários (4)

O teu riso

O teu riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

Pablo Neruda


Publicado por D_Quixote em 12:47 AM | Comentários (2)

outubro 12, 2003

“Casino”

Violenta é a razão dos que amam,
pobre a fortuna dos que perdem...
O amor...
...o amor é um jogo de azar
e a casa ganha sempre.
Comprei todas as fichas que podia,
vendi tudo,
perdi tudo,
até a alma pus no prego
para tentar mais uma vez
a minha sorte contigo.

Neste jogo viciado,
de cartas marcadas,
de dados tendenciosos,
de roleta russa
com croupier sabido...
Somos todos jogadores
Uns com sorte...
... outros como eu...
Vendi tudo,
perdi tudo,
até a alma pus no prego
para tentar mais uma vez
a minha sorte contigo...
... meu vicio...

“Casino” João Natal 21/03/03

Publicado por D_Quixote em 11:16 AM | Comentários (0)

outubro 11, 2003

Oceano Nox

Antero de Quental

Oceano Nox

Junto do mar, que erguia gravemente
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o vôo do pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas, vagamente...

Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que idéia gravitais?

Mas na imensa extensão, onde se esconde
O Inconsciente imortal, só me responde
Um bramido, um queixume, e nada mais...


Publicado por D_Quixote em 01:10 AM | Comentários (0)

outubro 09, 2003

"E a Morte Perderá o seu Domínio"

"E a Morte Perderá o seu Domínio" Dylan Thomas


E a morte perderá o seu domínio.
Nus, os homens mortos irão confundir-se
com o homem no vento e na lua do poente;
quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos
hão-de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.
Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;
mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão-de ressurgir;
mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;
e a morte perderá o seu domínio.


E a morte perderá o seu domínio.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
não morrerão com a chegada do vento;
ainda que, na roda da tortura, comecem
os tendões a ceder, jamais se partirão;
entre as suas mãos será destruída a fé
e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;
e a morte perderá o seu domínio.


E a morte perderá o seu domínio.
Não hão-de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;
onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor
erguer a sua corda em direcção à força das chuvas;
ainda que estejam mortas e loucas, hão-de descer
como pregos as suas cabeças pelas margaridas;
é no sol que irrompem até que o sol se extinga,
e a morte perderá o seu domínio


Este é um dos meus poemas preferidos, um poema fantástico de um poeta fantástico... um pedaço de reflexão acerca da separação, da morte, da partida...
Foi mote principal no belissimo filme "Solaris" de Steven Soderbergh, um dos filmes que mais gostei até hoje, sobretudo pela fábula que representa... é o poema que balbucio sempre que perco alguem querido para os crueis braços do destino...

Publicado por D_Quixote em 09:10 PM | Comentários (2)

Genesis

Um poeta
é um velho...
...como eu,
que divaga
sem nada
porque tudo perdeu.

Queria tudo,
tenho nada...
nem mulher,
nem amada.
Apenas só o que me resta,
apenas só eu.

Um poeta...
era um homem...
...que de velho
morreu.

Começo assim o meu blog de poesia, com um poema antigo meu, cheio de mofo e pó, mas ainda tão actual pra mim... não sou pretensioso ao ponto de querer encher o blog de poesia minha, assim irei afixando todos os poemas que me tocarem, todos os que me ficarem na retina e trouxer no coração...

a todos os que vierem ler... um grande bem haja...

Publicado por D_Quixote em 09:07 PM | Comentários (1)