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fevereiro 25, 2007

Ciúme

Nascem em mim sentimentos negativos,
Ódios, invejas, desespero e sofrimento,
Nascem-me desejos imperativos
De te amar sem o teu consentimento.

Arde um fogo imenso no meu peito,
Alastra-se uma dor intensa de ciúmes,
Saber que outro dorme no teu leito,
Respira sem pudor os teus perfumes.
Dói-me saber-te tocada por outros dedos
Beijada por outros lábios indecentes,
Mas o maior de todos os meus medos
É que os teus olhos se fechem de contentes.
Dói-me essa traição legitimada,
Por mero compromisso anelar,
Mesmo que ele te represente nada,
Tem sempre o privilégio de te amar.
Dói-me esta angústia dos momentos
Em que te imagino nua a seu lado,
Teu corpo, gemidos e lamentos
A ele se entregando sem pecado.
Dói-me não te ter só para mim,
Magoa-me a inveja de seres dele,
Do seu desamor e mesmo assim,
Deixares que te toque a tua pele.
Doem-me os fluidos que partilhas,
Essa tua entrega/rendição total,
Dói-me não serem minhas as tuas filhas,
Sacrificares-te por dever matrimonial.
Nascem em mim sentimentos negativos,
Ódios, invejas, desespero e sofrimento,
Nascem-me desejos imperativos
De te amar sem o teu consentimento.
Dói-me não te ter ao anoitecer,
Quando as luzes do dia se extinguem,
Dizendo-me querendo receber,
A semente que carrega a minha origem.
Dói-me não te ter de madrugada,
Deitada a meu lado adormecida,
Amante satisfeita e regalada,
Fera domesticada e rendida.
Dói-me este destino tão irónico,
Que cruel me destrói e me definha,
Por ter somente teu amor platónico
Possuir-te sem nunca seres minha.


Christian de La Sallette

Publicado por Poeta das 5 às 10:12 PM | Comentários (4)

fevereiro 21, 2007

Permissão

Abre as portas do teu mundo,
As tuas janelas de par em par,
Nem que seja por um segundo
Dá-me permissão para entrar.

Abre-me o teu pensamento,
Dá-me espaço no teu olhar,
Deixa-me por um momento
Os teus sonhos povoar.
Abre um sorriso nos lábios,
Cada vez que no teu lembrar,
Esqueces conselhos sábios,
És tentada a pecar.
Coloca-me nas tuas estantes,
Como se fosse um troféu,
Deixa-me pensar por instantes
Que além de mim só o céu.
Deixa-me entrar em alegria,
E aninhar-me ao teu colo,
Nem que seja por um dia
Quero ser creme do teu bolo.
Abre-me a tua vida,
Escancara o coração,
Recebe-me esbaforida,
Entrega-me a tua paixão.
Tudo o que alcance o olhar,
No teu horizonte visual
Te peça para eu entrar
No teu espaço carnal.
Abre-te de corpo e alma,
Entrega-te a mim totalmente,
Encontra em mim a calma
Da tempestade iminente.
Não te feches de repente,
Abre-te sem vacilar,
Nem que seja eternamente
Dá-me permissão de te amar.

Christian de La Sallette

Publicado por Poeta das 5 às 06:31 PM | Comentários (3)

fevereiro 08, 2007

Derrota

Deixa-me só esta noite,
Escapa-te da minha mente,
Torna-te inexistente,
Que estou cansado de sofrer.


Deixa-me só este dia,
Para ver se esta agonia,
Sai de vez da minha vida,
Que anda confusa, perdida,
Sem saber o que fazer.

Volta atrás no pensamento,
Num regresso temporal,
Deixa-me naquele tempo,
Onde não me fazias mal,
Onde tudo era diferente,
Noite e dia sempre igual,
Onde tudo era contente,
Por não te saber real.

Regressa à tua infância,
Tenta mudar o destino,
Tenta guardar a distância,
Não te cruzes mo meu caminho,
Que é tão triste a minha vida,
Cada vez que eu te lembro,
Cada vez que me despertas,
Para mais um dia ausente,
Como chuva de Setembro
A findar um Verão quente.

Pede àquele que te guia,
Para ter muita atenção,
Há caminhos que te levam,
Para a minha perdição,
Caminhos que os duendes,
Como diabretes que são,
Vão enfeitando com flores,
Tão perfumadas que estão,
Te enganam os meus sentidos,
Me dão a tua paixão,
Puro engano dos bandidos,
É apenas ilusão.

Deixa-me só nesta vida,
Finge que nunca exististe,
Estou cansado e perdido,
Apaixonado mas triste,
De cada vez que te encontro,
Nestas palavras escritas,
Rejubilo por momentos,
Ao ler os teus pensamentos,
Mas depois, quando regresso,
De volta à realidade,
Vejo-te desaparecida,
Só a dor é de verdade.

Christian de La Sallette

Publicado por Poeta das 5 às 12:47 PM | Comentários (4)

fevereiro 06, 2007

Silêncio Calado

Deixei de ouvir as palavras escritas no computador. Deixei de as escrever e elas ficaram sem som.

Já não se ouve a dor, o sofrimento, a angústia das palavras que magoam, o riso daquelas que alegram, a tristeza daquelas que choram. Não preciso mais de esconder o coração nas palavras ou descobri-lo em confissões indesejadas. Está livre para não sentir. Não se ouvem os sons que magoam; sons de ciúme, sons da distância, sons que se ouviam com a tua falta (alguns deles eram lágrimas a correrem para dentro dos olhos), sons da consciência a impor-se ao pecado. Resta o ecrã em branco, silencioso. Nem sequer se ouvem os murmúrios dos soluços, ou o riso escarninho da razão. Ela ganhou-nos. Foi mais forte que a insegurança da nossa relação moribunda à nascença, como feto abortado sem licença, aborto espontâneo por falta de útero onde germinasse e crescesse, feto sem som e como tal sem vontade. Já não se ouvem os gritos mudos da minha paixão alucinada e cega; gritos-frases que te escrevia à sexta-feira, gritos-poemas que te continuo a escrever. Não se ouvem os dias a passar longe de ti. É um silêncio que oprime, que vai apertando a solidão como uma amarra, não a deixando soltar-se, partir para outros lados, navegar noutras almas que se amam sem serem correspondidas. Como nós…
Dizes-me que é mentira, que o que eu sinto se corresponde em ti, e eu te digo que apenas se corresponde nas palavras e por isso elas se calam, cansadas de serem usadas por nós dois. Cansadas de serem só palavras que dizem sentimentos sem os sentirem; palavras de amor não amadas. Palavras-letras marionetas, que dançavam com a nossa vontade, ora se deitando por volúpia, ora se levantando com vergonha de se terem despido. Palavras-beijo que viviam na memória e se perderam no correr dos dias, por falta de alimento, por se esquecerem como eram quando estavam abraçadas aos nossos lábios. Palavras-sonho que viveram na nossa imaginação, que se cansaram de ser sonho e se transformaram em palavras-utopia.
Calaram-se todas as palavras, deixando em seu lugar um silêncio-estátua, imóvel, um silêncio calado.

Christian de La Sallette

Publicado por Poeta das 5 às 03:09 PM | Comentários (4)