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janeiro 29, 2007

Sexta-feira

São tão breves os nossos encontros,
E tu esquivas-te receosa e recatada,
Olhos fugidios e dedos enervados,
Desejos contidos, vontade embargada.


És mais natural quando distante,
Libertas-te e as tuas palavras saem,
És, nessas alturas, a melhor amante,
Nua dos receios que se esvaem.
Mas logo os teus medos te dominam,
Ciumentos do ardor com que me falas,
Vestem-se de moralismo e preconceitos,
Afogam os sentimentos que tu calas.
Esgotam-se-me todas as palavras,
Ou eu não encontro as mais certas,
Para escrever o quanto eu te quero,
Para demonstrar o desespero,
Dos dias tristes em que não me apertas,
Nos teus quentes braços com esmero.
São tantos, infelizmente, esses dias,
E tão grande o sofrimento que provocam,
É tanta a angústia e dor que me evocam,
Por não poder partilhar-te as alegrias.
Procuro outras palavras que te falem,
Sintagmas que conjuguem este amor,
Sinónimos deste sentir amargurado,
Letras que ao que sinto dêem cor.
É tão grande a vontade de te ter,
É tão forte o desejo de te abraçar,
Tão louco o anseio de te amar,
Tão doloroso o receio de te perder.
Vivo deste modo por entre dias,
Uns de alegria por ser igual,
Esta forma alucinada de querer,
Sem ver nesse desejo qualquer mal,
Outros são escuros e sombrios,
Não tens vontade de venceres os desafios,
Desculpas-te na família ou na idade,
E eu duvido que o teu amor seja verdade.

Christian de La Sallette

Publicado por Poeta das 5 às 11:00 PM | Comentários (4)

janeiro 12, 2007

Usurpação

Entraste dentro de mim abruptamente,
Invadiste o meu espaço intimamente,
Ocupaste-me todo o corpo, até a mente,
Usucapiaste-me por usufruto permanente.


Apropriaste-me como se fosse coisa tua,
Tiraste-me toda a minha propriedade,
Já nada de meu tenho, roubaste-me a lua,
E até me tiraste a liberdade.
Acompanhas-me para todos os lugares,
Deitas-te comigo, todos os dias, no meu leito,
Entras nos meus sonhos sem sonhares,
Tens sobre mim domínio perfeito.
Sou um fantoche que colocas no teu dedo,
Marioneta que se move ao teu desejo,
Condenaste o meu arbítrio ao degredo,
À minha vontade deste ordem de despejo.
Sou-te assim como um boneco de crianças,
A quem arrancas braços, cabeça, tronco e pernas,
Despes-me e vestes-me e disso não te cansas,
Bates-me de má e dás carícias ternas.
És tão dona de mim que já não sei,
Se é verdadeira a minha existência,
Ou se apenas vivo num mundo que inventei,
Se apenas existo na tua consciência.
Duvido-me de mim, serei alguém?
Terei corpo palpável, serei presente?
Ou sou mais um no meio de ninguém,
Corpo que se move por entre um mar de gente?
És tu quem conduz o meu destino,
És tu quem me dita o caminho,
És tu que me fazes sentir menino,
Quando te vais sem me deixar sozinho.
Usucapiaste-me por usufruto permanente,
Entraste dentro de mim abruptamente,
Invadiste o meu espaço intimamente,
Ocupaste-me todo o corpo, até a mente.

Christian de La Sallette

Publicado por Poeta das 5 às 10:56 PM | Comentários (3)

janeiro 03, 2007

Vício

És como o primeiro cigarro
Vício inicial de adolescente,
Misto de prazer agoniado,
Enjoo e tontura entorpecente.


És condensado e nicotina,
Dose inalada de alcatrão,
Que me inebria a mente e me domina,
Boneco articulado em tua mão.
És como vinho novo ou aguardente,
Copo de cerveja à pressão,
Que me embriaga e embota os sentidos,
Que me levanta e logo atira ao chão.
És haxixe, erva, marijuana,
Mary Jane, pedra, chá, cavalo,
Droga entranhada no meu corpo,
Lapa que não quer abandoná-lo.
És a cocaína injectada,
Seringa de heroína cavalar,
Que me tira todas as certezas,
E coloca o desconhecido em seu lugar.
És anfetaminas, barbitúricos,
Whisky, vodka, rum, ou a tequilha,
Que se mistura em shots inocentes,
Prazer que se revela armadilha.
Dás-me sensações já esquecidas,
Fazes-me imaginar as ilusões,
Prometes felicidade em neblinas,
Logo te esfumas noutras confusões.
És o meu vício, droga, ou bebida,
Tudo o que não devo consumir,
Porém, sem ti não faz sentido a vida,
Só tu me fazes louco a sorrir.

Christian de La Sallette

Publicado por Poeta das 5 às 03:15 PM | Comentários (4)