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dezembro 21, 2006

Diz Qualquer Coisa

Diz-me coisas banais. Que gostas do sol, do riso das crianças, do cheiro das flores e das suas cores, que detestas a tristeza e a guerra, porque estas também são coisas banais. Infelizmente…
Diz qualquer coisa.

Diz qualquer coisa.
Estás sempre a arranjar pretextos para esconderes, talvez de ti própria, a vontade de dizeres o que sentes, de me dizeres o que realmente desejas.
Não haverá solução para nós? Estaremos condenados antes de sermos julgados? Penso que não. Sei que não. Tens é receio de te deixares dominar pelos teus sentimentos e que as consequências te façam sofrer ainda mais. Por isso tentas afastar-me. Por isso não consegues deixar-me. Tenho esperança que a parte que há em ti que me quer, consiga vencer a outra que me rejeita.
Diz qualquer coisa.
Senti a tua falta hoje. Sei que não vieste encontrar-te aqui comigo porque não podias. Talvez seja difícil falarmos nos próximos dias. Vou deixando mensagens offline.
Ainda não foi hoje que vieste. Costumo vir aqui, neste cantinho só nosso, espreitar se há alguma mensagem tua, qualquer vestígio da tua passagem. Deparo-me, inevitavelmente, com o monitor em branco e a mesma mensagem do Messenger a dizer que pareces estar offline. Também poderia dizer que pareces estar offlife, my lyfe, está-se mesmo a ver.
Diz qualquer coisa.
A tua imagem é bastante apropriada; duas cadeiras vazias viradas para o mar. Ninguém à espera de coisa nenhuma numa praia qualquer. É uma alegoria ao poema Onda do Mar. Neste momento estás nas tuas viagens por outros mares.
Continuo aqui à espera, praia de duas cadeiras sob um chapéu-de-sol, vazias...
Tenho saudades. Sinto-te a falta. Sinto até a falta dos teus receios, porque, pelo menos, sei-te desse lado, ao contrário deste momento.
Diz qualquer coisa.
Diz até que nada importa. Que te apetece fazer loucuras, fugir de dentro de ti própria, dessa obrigação doméstica e familiar em que se transformou a tua vida. Ou então diz-me para ter juízo, que já tenho idade para não ter ideias parvas, de quarentão taradinho que só está à espera de uma fenda nas tuas defesas.
Diz qualquer coisa.
Diz-me que hoje está frio. Que gostavas de me ter ao pé de ti a aquecer-te, a aconchegar-te. Que gostavas de estar num país quente neste momento. Que gostavas de ir à lua ou de haver alguém que te levasse lá na sua imaginação. Diz que os azulejos da cozinha são brancos e os da casa-de-banho são azuis.
Diz qualquer coisa.
Continuas ausente. Tenho receio de não chegares a ler o que te escrevo. Tenho mais receio de que tenhas desistido e te tenhas conformado com a tua vida ou com a rotina da tua vida. Tenho receio de tudo o que não dizes. Do que fazes enquanto pensas no que deves fazer. Preciso-te. É uma necessidade que vai aumentando todos os dias.
Diz qualquer coisa.
Preciso de imaginar o teu sorriso enquanto lês o que te escrevo. Preciso imaginar-me beber as tuas lágrimas quando te emocionas, impedir que elas desçam nas tuas faces ou bebê-las quando tocam os teus lábios. Preciso de sentir o teu toque virtual.
Diz qualquer coisa.
Diz-me disparates. Que te apetece fugir para a Cochinchina, onde quer que isso seja, ou para outra parte qualquer inimaginada pelos outros, apenas imaginada por nós dois, amantes virtuais que se amam nas pontas dos dedos (ainda não consigo escrever com os lábios).
Diz qualquer coisa.
Diz-me que a vida só te importa se me souberes deste lado do computador, ou ainda mais próximo. Diz-me que precisas tanto de mim como eu de ti, que sem a nossa relação o mundo deixa de ter cores alegres; apenas está pintado de monotonia, de um lento passar de dias, de um doloroso passar as noites sozinha no meio de gente que já não te diz nada, a quem nada dizes. E eu digo-te que sou o teu espelho de sentimentos, que aquilo que sentes se reflecte em mim, ainda que não seja verdade. Ainda que te mascares com a distância e inventes culpas que não queres ter ou pecados que não queres fazer.
Diz qualquer coisa.
Diz que vais passear ao Jardim onde estivemos nos braços um do outro e fechas os braços apertando-me, imaginariamente, a ti. Diz que tens necessidade do meu cheiro, do meu olhar de desejo, da minha vontade incontrolável de te levar para maus caminhos. Será que eles existem?
Diz que precisas de mim como de um vício, o substituto desse cigarro que teimas em acender, com a mesma sofreguidão com que tentas apagar este lume que te arde na alma.
Diz-me como gostas de ser acordada nas manhãs frias de Inverno ou nas quentes do Verão. Quais as primeiras palavras que te fariam feliz em cada dia. O que te apetece fazer quando ainda estás estremunhada, se te espreguiçares tentando agarrar o sono que te foge ou levantares-te de um salto temendo que o sono não te largue.
Diz-me coisas banais. Que gostas do sol, do riso das crianças, do cheiro das flores e das suas cores, que detestas a tristeza e a guerra, porque estas também são coisas banais. Infelizmente…
Diz qualquer coisa.

Publicado por Poeta das 5 às 08:40 PM | Comentários (5)

dezembro 18, 2006

Destino

Deixa, então, o teu destino
Com o meu destino a seu lado
Juntar num único caminho
A amada e o amado.

Tivéssemos nós vinte anos
No auge da juventude,
Teria sido diferente?
Terias outra atitude?
Viverias só para mim
Completa e apaixonada,
Ou dessa vida conjunta
Já estarias cansada?
Quererias ficar comigo?
Ou estarias como agora,
Apaixonada por outro
Com vontade de ir embora?
Seria eu teu amor
A razão para viveres?
Seria eu o calor
P’ra no frio te aqueceres?
Seria o teu Sol, teu mundo,
A tua noite ou manhã?
O teu sonho mais profundo?
Ou vida oca, vazia e vã?
Seria o amanhecer
Em quente cama de linho,
Ou insónico adormecer,
Pedregulho no caminho?
Seriam as tuas filhas
Testemunhas do amor,
Ou algemas que te prendem,
Grilhetas do teu senhor?
Haveria alegria
Em cada dia que passa,
Vida cheia de harmonia,
Ou promessas de desgraça?
Cada vez que os teus olhos
Nos meus olhos se encontrassem,
Brilhariam de contentes
Ou em lágrimas se lavassem?

Se soubesses o teu destino
Nada mais te importaria,
Nem a noite nem o dia,
Nem tristeza ou alegria.
Sei que em parte não sabida,
Algures nesse caminho,
O teu destino e o meu
Quiseram fazer um ninho,
Mas ou porque assim queria
Ou porque nós o quisemos
Nem o ninho se teceu
Nem esse ninho tivemos.
Foi cruel nosso destino?
Foi má a nossa fortuna?
Será que é nossa sina
Que este amor nunca se una?

Não creio que assim seja.
Tal não pode suceder.
Não posso ter-te encontrado
P’ra te voltar a perder.
Há-de haver uma razão
Para estes anos volvidos,
Nós os dois apaixonados
Voltarmos a estar unidos.
Não sei se isso é destino,
Ou assim quer nossa sorte,
Que apenas fiquemos juntos
Um dia para além da morte.
Tudo eu hei-de fazer
Para que tal não aconteça,
Mesmo que nisso me perca,
Mesmo que nisso esmoreça.
Peço-te a mesma vontade
De vencer tal desafio.
E, quem sabe, consigamos
Aquilo que hoje porfio.



Christian de La Sallette

Publicado por Poeta das 5 às 11:42 PM | Comentários (3)

dezembro 12, 2006

Onda do mar

És como onda marinha
Que anda ao sabor da maré.
Ora se deita na areia
Ora foge do meu pé.
Eu sou areia na praia
Onde te deitas brejeira
P’ra depois ao mar voltares
Em perpétua brincadeira.

Trazes-me ofertas na espuma,
Tábuas, garrafas, pneus,
Levas-me a quietude
De quem dorme a sete céus.
Viajas pelo mar fora
Por outras praias distantes
Deixando-me na minha praia
Sem a calma que tinha antes.

Voltas numa outra maré,
Grávida de outro oceano,
Eu areia sossegada
Acordo para outro engano.

Estava eu praia sossegada
Escostada a uma rocha
Vens tu onda desalmada
Envolver-me como trouxa,
Embrulhar-me nos teus braços
De branca espuma revolta
Entranhando-te na areia
Deixando-me a vontade solta,
Para depois, minha ingrata,
Sentindo-me por ti molhado
Recuares pró mar alto
Rindo-te como uma gata,
Te esconderes ao desafio
Nas ondas de um navio,
Seguindo na sua esteira
Mar a dentro, terra inteira,
Deixando-me de novo sozinha
Praia de areia molhada
Que fica à tua espera
Dia, noite e madrugada.

És como onda marinha
Que anda ao sabor da maré.
Ora se deita na areia
Ora foge do meu pé.

Christian de La Sallette

Publicado por Poeta das 5 às 04:41 PM | Comentários (186)

dezembro 07, 2006

Amor em movimento

Chegaste cautelosa, sem ruído,
Pé ante pé devagarinho,
Sorriso trocista, maroto risinho,
Despertando-me a inquieta libido.

Despiste-me nervosa e apressada,
Rasgando-me a roupa em farrapos,
Os medos e vergonhas foram trapos,
Da moral e do pudor restava nada.

Tiraste lentamente o vestuário,
Fingindo que dançavas num bordel,
Em varão imaginário, qual corcel,
Montada sensual do imaginário.

E vieste bamboleante, para mim,
Teu corpo enguia a chamar o meu,
Brilhante cicatriz nesse pneu,
Gordura sedutora em cetim.

Vinhas de olhos fechados, dançarina,
Temendo que os espelhos te espreitassem,
Receio que os quarenta te lembrassem,
O quão diferente eras em menina.

Eu, braços abertos, te aguardava,
O corpo hirto pleno de desejo;
Roçaste-me ao de leve com um beijo,
Ósculo de rameira que encantava.

Corpo em corpo iniciámos uma dança,
Frenéticos movimentos apaixonados,
Dedos como garras enlaçados,
Meu fálico desejo como lança.

Livraste-te dos últimos empecilhos.
Puxaste-me para ti sofregamente.
Rendido ao teu ardor, quase demente,
Entrei por fim no ninho de teus filhos.

Christian de La Sallette

Publicado por Poeta das 5 às 03:23 PM | Comentários (78)

dezembro 05, 2006

Primeiro Amor

Quis o destino que te perdesse,
Depois de tantos anos sem te ter,
E condoído da dor que eu sentia,
Deixou-me os meus olhos a chover.

Fugazes os carinhos que me deste,
A medo de que dando-te ficasses,
Eternamente presa nesses braços,
Que desejavam nunca os deixasses.

Restam poucas coisas do momento
Em que abraçados juntos como dantes
Sentia o teu corpo em movimento
Pedindo-me que nos tornássemos amantes.

Como posso agora esquecer-te
Se estás gravada a fogo na lembrança
E vives enlaçada nos meus sonhos
Rodando no pensamento em eterna dança.

Não posso olvidar-te meu Amor,
Não consigo esquecer-te minha Amada,
Posso esconder a minha dor,
Mas nunca a minha alma destroçada.

Adeus, assim pediste, embora a custo
E eu porque te amo obedeço,
Só tive beijos teus, poucos afectos,
Jamais o teu amor, não mais to peço.

Christian de La Sallette

Publicado por Poeta das 5 às 03:03 PM | Comentários (81)