RAVENS & MUSES
± EgoGeocêntrico

Convince yourself, nothing really comes in
you are a sad egocentric fuck.

Como detesto esta divisão do meu apartamento mental. As cores psicadélicas no tecto e o verniz cintilante nas paredes, emite um heroísmo irreal de vomitar.
Custa ao meu Ego perceber que o universo não gira à sua volta. Quem não é uma norma estar a cargo de uma responsabilidade distante e independente, quer seja negativa, quer seja positiva. Culpa ou orgulho.
Nestes dias, os termos 'empatia' e 'vaidade' misturam-se, aguados, dentro destes poucos metros cúbicos de osso branco. Assunções que conseguem ser falsas facilmente, estas ilusões de rei e de veneração. Estarei assim tão carente de atenção até ao ponto de ser levado a imaginar que sou a raíz de tudo?

Preciso de um par de estalos. Slap here.

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Raparigas belas. Porquê o rosto carancudo? Talvez elas próprias precisam de algum desprezo da nossa parte. Talvez, inocentes nunca são, sejam tímidas. Talvez as aparências têm sido estimadas demasiado.
Não, não creio que todas as raparigas giras tenham fel como recheio. Não, não pode, provem-no, confirmem-no.



± anti

Mastigo estas batatas fritas - take away, do Burguer King - que há minutos perderam o seu valor estaladiço, enquanto me desisto de esforçar as minhas cordas vocais para produzir um insulto, um desabafo, de como elas estão uma merda.

Mastigo silenciosamente, e com falta de nexo, rebobino e desenrolo noções - os meus olhos vidrados por onde feixes de luz trespassam, uma sala de cinema, a sessão vai começar - que me têm ocorrido nas últimas caminhadas mortas, silenciosas, quase inexistentes, de retorno a casa.

O pouco de romantismo que havia em mim, dissipou-se. Inspirações fugiram, ideiais murcharam, encaro toda a superstição e costumes e crenças e valores de forma antipática e céptica, ou quando posso, apática.

Passeio a alma na costa eterna da Caparica, dunas à esquerda, o oceano à direita, eu em frente, pensando pensamentos brancos e salas vazias.
Se fúria e inveja são os únicos cobertores que me podem aquecer exponencialmente, então rejeito-os, não me deêm fogo para a ignição, pelo contrário, soltem estalos frios e árcticos sobre as minhas faces, camadas de gelo que imobilizam os rostos indelicados, brutos, feios, para que não possam contorcer.
Se a oportunidade de amar se restringe na área de necessidade biológica ou se deriva de processos manipulados, não requer dois julgamentos para me esvaziar as mãos das propostas. Jamais amaria, ou fazer entender que amo, por algo que não sinto, por arrefecer as hormonas, embora muito se diz acerca da associação entre a mente humana e moléculas orgânicas (haverá ocasião dedicada ao debate). Como se pode amar em função de uma terapia emocional?
Quem sabe, no entanto, talvez o amor seja mesmo assim, começar dessa forma pouco ortodoxa, e eu, sendo ainda fanático pelos costumes antigos, pensar de maneira ingénua, a inocência da relação humana. Por vezes temo que, sendo tomado pela necessidade, ao encontrar um verdadeiro amor, vir a prendê-lo, sufocá-lo, consumí-lo sem apanhar folêgo, como se tivesse sido privado de água num deserto.

És tão fascinante como um calhau na sola dum sapato, a minha estima corrente sussura-me ao ouvido.
E estrelas, para que vos quero, se vos ser sincero não implica que um de vós se sacrifique numa queda cadente e tornar o sureal possível, o meu desejo ardente.

Testemunhar, com extrema empatia infelizmente, polos que se convergem assimetricamente, no seio de um círculo aliado. Tão difícil detestar alguém muitíssimo amigável que nos faz sentir inveja pura por dentro, a consideração porquê ele, porque não eu, o estar ali convivendo a uma distância desprezável mas estando, ao mesmo tempo, mais perto do fim do universo do que duma tal conversa cujos estilhaços possuem um sabor efémero de chocolates leves que acompanham as nossas bicas.
Desempenhar o papel d?O Amigo, o famoso figurante que é mencionado duas vezes numa trilogia de nove horas e uma vez nos créditos como - mas não limitado a - O Tipo Que Segurava Velas, O Tipo Cuja Cor Condizia Bem Com O Sofá Onde O Nosso Héroi Esbarra A Heroína, O Tipo Que Sorria Um Sorriso De Poucos Radianos, O Tipo Que Fingia Ser Figurante Mas Que Afinal Era O Varredor, ou simplesmente, um tipo.

Enfim. Faço tudo com a finalidade de pôr termo ? tentar, tentar é mais apropriado ? a agonia que me corrompe, que me atrai à religião da auto-destruição e comiseração. Faço tudo, isto é, corro, entro em agitação, concentro a essência no movimento, e não no objectivo, porquê para além deste, só encontramos os mesmos dilemas que nos esperam pacientemente.

Não ficar parado, senão, penso. E penso, logo e imediatamente, sofro. Ah, filho da puta da maldição.

Tinha só pousado três horas seguidas por um voo brusco. É compreensível.



± the reddening

'Vale mais sozinho do que mal acompanhado.'
disse-me um amigo.

Vem aí aquela época que se culmina no dia 14 com corações vermelhos e pombinhos a encher jardins. Tenho náusea. Vem-me o periodo. Vou fazer os meus preparativos para que, no começo desse dia tão especial, fingir que o mundo não existe nessas 24 horas e praticar a mirra nos cupidos que passeiam no céu.

Vale mais sozinho do que mal acompanhado, vale mais sozinho do que mal acompanhado, vale mais sozinho do que mal acompanhado, vale mais sozi-



± ANGER

Rage seeks secret leaks.



± rich in numbers, poor in love

Quando tens o cartão do telemóvel cheio de dinheiro....

Ou é porque vives longe dos teus pais e não tens de fazer relatórios de cinco em cinco minutos.

Ou é porque não tens namorada, e não podes mandar palavras de amor em SMS, após cada intervalo de trinta segundos.

Nunca na vida foi tão mau e melancólico ser rico em alguma coisa.



± Turn the page

Estou nove dias atrasado.
Tenho os bolsos carentes de rebuçados e de salgados.
Não tenho pão para a celebração.
Não projecto novas ambições porque mal concretizei as anteriores, aquelas colheres que tenho tentado torcer todos os dias, e não apenas na salvação da última hora.
Salvação, profecia cega. Esperança.

Novos anos não me dizem muito.
Podem ir crescendo em dígitos, empacotados com novos acontecimentos mundiais, positivos ou negativos, face à Humanidade.
Universalmente, é curioso, outro passo da evolução humana em rumo a algo por esclarecer. Pessoalmente, da minha parte, é estatística (recorda-me daquele verso provocante de Marilyn Manson "God is just a statistic"), um número tão impalpável, destinado ao desprezo, da mesma maneira que as vítimas de catástrofes são quantificadas na TV, como gramas de fiambre à venda.

Após o instante final da contagem decrescente, assumi-me no papel de célula cancerígena, disposto a abater, com o que tivesse mais à mão, todas as outras que festejavam estupidamente e que olhavam para as bolhas de orgasmos múltiplos que fornicavam celestialmente no céu.
Notei namoradas muito giras, mas tendi a detestá-las. Menos queria saber dos seus namorados protectores. Não me diziam absolutamente nada. Observei caras simpáticas, mas tendi a desprezá-las. Turistas com garrafas, só queria afogá-las.

De que se riem? Devia ter pedido como prenda de Natal, um pack de mísseis que arrasasse o país todo na passagem de ano. Enfim.

É um jardim em todo o lado e eu sou uma tábua de madeira, húmida e antiga. Se crescesse alguma coisa, só poderia ser bolor, e só cresceria em linha recta.
Outra página do meu Livro se vira as costas para mim.



± morri aqui e já não moro cá

Mas morreu alguém aqui?
Cá por estas zonas, parece que sim. Estas paredes falantes, cujas veias possuiem a língua aquática das sereias do esgoto, atormentam-me logo no despertar, embora sejam apenas a última das preocupações.

E assim que abandono o meu único cubículo seguro, passo por aquela porta, sinto a hostilidade e o funeral a esbater-me na cara como um soco.
Esta gente a quem chamo família, ou dançam alegramente e excessivamente na similaridade do Carnaval do Brasil, ou silenciam-se como ciprestes na véspera do Apocalipse.

Não os percebo. Chega a ser irritante.

Se não fosse a merda da empatia, que por acaso tenho em excesso, eu estaria bem mais satisfeito com a vida, e talvez sim, indiferente, mas satisfeito, completo, já que disfrutava do luxo de poder limpar certas variáveis da minha equação, trezentos mil anos luz de distância, duma ponta a outra.

Pensando bem, o problema sou eu.

Tanta agitação interna, carvão no lume, de origem desconhecida. Tanto disso, que um pouco de provocação, é no mínimo, destrutivo.

Só quero estar naquele conforto outra vez. Quero me relembrar do cheiro transcendente dos cabelos de uma mulher, no meio do bosque.

Naquele conforto outra vez. E tudo ficará bem.