abril 27, 2006

Sentido Inverso

categoria: Textos soltos

I a X


1 - Se te lançam uma OPA, faz publicidade como nós.

2 – Três amigos: um conhece dois, dois conhecem apenas um. Lado a lado num mesmo sofá, o mais conhecedor está ao centro. O dilema de “um que conhece dois” não é simplesmente comunicar, mas antes saber como gerir a comunicação em dois sentidos – a que se transmite e a que se recebe.

3 – O falhanço subtil da democracia é o povo: os que não sabem; os que nunca tiveram a oportunidade de saber; os que não sabem como saber; os que sabem mal; os que não querem saber de todo; os que sabem, porque é do povo que saem os eleitos. E depois há os jornalistas.

4 - Pérez-Reverte diz que, por natureza, “todos os homens são filhos da puta”. Se o tom for religioso, Deus está em forma.

5 - Face da realidade mediática: a verdade na notícia anda receosa do pudor. O mundo que se lê, ouve ou vê nem sempre é igual ao de quem escreve e/ou edita - o problema não é da leitura, é do que se sabe e não se conta. Fica por evidenciar se os media podem ganhar mais com o círculo invertido - a verdade nem sempre é vendável.

6 - O elemento silencioso de um grupo reúne o item chave da participação: a observação. A imaginação, por sua vez, alimenta o espírito susceptível do presente ausente.

7 - Entre os diversos fenómenos que orienta, a vida entrega-se repetidas vezes em duas assumpções: em tamanho e em valor. O gato morto na estrada sensibiliza o dedo que esmaga a formiga na mesa - a vida que se vê; o milionário que poderia ser apenas rico se humanizasse a distribuição da riqueza pela mão-de-obra humilde garante da abundância - a vida que se suga.

8 - A estupidificação promovida pelos media é propaganda comprometedora da preguiça de conhecimento e lucidez intelectual. Quão pior é a oferta, mais lucrativo é o retorno e menos esclarecido o sujeito. Mas, diante da imoralidade de não querer/saber ensinar, a ameaça última vislumbra também a resignação à facilidade de não aprender.

9 - Nietzche diz que "é pelas suas virtudes que se é melhor castigado". Com certeza que não se referia aos políticos profissionais.

10 - Face ao criminoso comum, o Estado de alguns homens de hoje possui o requinte constitucional de poder roubar com legitimidade. Ainda assim, tem-se apenas limitado a roubar.

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publicado por Germano • 12:46 PMComentários [ 6 ]

abril 11, 2006

Decisivo

categoria: FotografiaReportagem

Incapacidade,

de te reter.
de te voltar a ter.

Não te reproduzo, guardo apenas um detalhe de ti. Um momento. Um momento do momento. Decisivo.

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publicado por Germano • 06:16 PMComentários [ 0 ]

As cores da cidade...

categoria: Design
Imagem: Travis Smith • Seempieces

... ou uma mímica dos homens.

publicado por Germano • 05:59 PMComentários [ 1186 ]

abril 05, 2006

"Charlot the Harlot"...

categoria: Fotografia
Fotografia: Lars Raun

... ou uma coreografia da liberdade.

publicado por Germano • 08:47 PMComentários [ 0 ]

abril 04, 2006

Sem título

categoria: Fotografia
Fotografia: Diamantino Mendes

publicado por Germano • 04:17 PMComentários [ 0 ]

Vida além da morte

categoria: Pintura
Impression: Sunrise [1873], Claude Monet

A
14 de Novembro, Paris dá à luz um amante de nenúfares. Cinco anos volvidos, o rebento Claude Monet parte com a família para Le Havre, onde cria as memórias presentes da infância. Dois anos após a morte da mãe, os 19 anos de Monet regressam a Paris na companhia da irmã Louise. Decide estudar arte, após uma primeira experiência pouco motivante com o ensino. “A escola teve sempre em mim o efeito de uma prisão e nunca me consegui habituar à ideia de lá passar nem que fossem quatro horas por dia. Sobretudo quando o sol estava convidativo, o mar estava belo e sabia tão bem andar a correr sobre as falésias, nos grandes espaços ou então a andar a brincar na água”, solta sobre as vivências em Le Havre.

Em 1870, casa com Camille, que passeia em obras como “The Walkers”. A vida traz-lhes dois filhos, Jean e Michel. Oito anos mais tarde, Camille morre. “Impressão: nascer do sol”, de 1873, apresenta-se por entre o amor de ambos em vida e dá designação ao “Impressionismo”.

Após a depressão que se socorre do trabalho, 1892 traduz-se num segundo casamento. Alice, que tinha igualmente perdido o cônjuge, torna-se na segunda esposa de Monet. Blanche, filha da nova mulher, faz crescer a família. Jean e Blanche acabam por se casar mais tarde.

À perda de visão que se vai acentuando, soma-se um novo desgosto ao tormento de Monet: Jean morre em 1914. Até ao fim da vida, que se faz sentir 12 anos mais tarde, Blanche acompanha o padrasto no desgosto e ajuda o artista nas vicissitudes caseiras.

A 5 de Dezembro de 1923, uma encomenda suspende-se à porta de Monet: um lote de nenúfares japoneses, os que mais lhe compõem a alma, são entregues. Um dia depois, mais uma morte, desta vez a sua, vítima de cancro no pulmão. A única a que a luz da sua pintura não consolou a dor. Mas talvez já não fosse pertinente.

publicado por Germano • 03:31 PMComentários [ 2 ]

Forma de ave

categoria: Pintura
The Broken Column [1944] • Frida Kahlo

O olhar confrange-se perante a ameaça de uma dor tão imensa, suspensa em dimensões irrespiráveis - a tela contorna-se ao longo de um impiedoso espaço saturado (a exposição no CCB assim se expõe perante a presente prosa). A aridez da paisagem, penetrada pela auto-representação de Frida, trespassa a esperança que o azul convulso do céu permite ingenuamente especular: há lágrimas cuja violência se anseia transformada em regeneração da terra, onde se exige vida; mas semelhante realidade, por verosímil que se conceba, aflige-se no grito imenso que Kahlo pinta – não há esperança que sobreviva à dimensão agonizante retratada. E, diante de “The Broken Column” [1944], o que magoa indiscriminadamente é o olhar lancinante que se dispõe por debaixo das sobrancelhas unidas em forma de ave. "I drank to drown my pain, but the damned pain learned how to swim, and now I am overwhelmed by this decent and good behavior."
publicado por Germano • 03:21 PMComentários [ 3 ]

Vulnerabilidade

categoria: Fotografia
Fotografia: Garrit Pieper

publicado por Germano • 03:10 PMComentários [ 0 ]

abril 03, 2006

Mecenato em quatro pisos

categoria: LazerReportagem


D
uzentos anos após ter adquirido a forma de casa senhorial, e já depois de ter assumido os contornos académicos de república de estudantes, os traços cicatrizados do edifício que ostenta o número 372 da descomplexada Rua Álvares Cabral, no Porto, inscreve “Contagiarte” na fachada. Com a arte enquanto “leit motiv”, por aqui coabitam as mais diversas linguagens, com ou sem forma física: a invisibilidade dos sons varre os 900 metros quadrados interiores do espaço, seja sob as urbano-depressivas pautas intuitivas de uns Joy Division, através das pinceladas góticas do “rock” charmoso de um Nick Cave ou no revivalismo estético-sonoro de uns BMRC; os quatro pisos – cave, rés-do-chão, primeiro e segundo andares, rematados pelo idílio aconchegante de um pequeno jardim – espreitam rastas compridas sobre o descuido detalhado de roupas largas ou pólos despidos a abraçar uma camisa da moda, num eclectismo que aceita camisolas com o camuflado pouco discreto dos trajes militares; ao passo que o piso zero aceita a confraternização como pretexto para saborear o amarelo fresco de uma Super Bock, o andar de cima vislumbra os exercícios de arte contemporânea oferecidos pela empenho delicado de uma artista nocturna, entregue voluntariamente a uma sala de ensaio vazia. E tudo ocorre em simultâneo.

Copo para a arte. Ponto fundamental: o “Contagiarte” não é um bar. “Diria que a maior dificuldade que temos passa por fazer perceber a natureza da motivação que nos une, que algumas pessoas não entendem ao certo: isto não é um bar, é uma associação”, define Maria José Fernandes, relações públicas do Contagiarte e parte activa da ACARO (Associação Cultural de Artes Organizadas), entidade responsável pelo espaço. “Um bar tem fins lucrativos, nós não. O apoio à arte é a nossa missão: o ‘copo’ é necessário para sobreviver, para apostar nas actividades que desenvolvemos e proporcionar melhores condições aos artistas, mas não nos sustentamos no conceito ‘bar’”, precisa.

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publicado por Germano • 09:26 PMComentários [ 12 ]

Festival Despido

categoria: MúsicaReportagem

Um Elton John ainda com cabelo próprio e um ansiado Manfred Mann ditaram há 34 anos, perante 30 mil pessoas, o despontar de um mito na actual senda “festivaleira” portuguesa. Vilar de Mouros nascia em 1971, sob um regime fascista que não impediu a afirmação de uma pequena freguesia minhota no Verão musical. O tempo ditou apenas mais duas edições espontâneas, uma em 1982 e outra em 1996. A partir de 1999, a fórmula estabiliza e os contornos de Vilar de Mouros, que começa hoje, são por demais conhecidos: o festival potencia definitivamente o encontro de três gerações, através da composição de um cartaz estruturado com esse objectivo; o convívio, antes da música, é a motivação central. Perante tanto segredo desvendado, o desafio proposto é metediço: o que se faz antes do evento começar e que histórias correm nos bastidores?

A
lgures num Minho verde tocado pelo calor, uma outrora estrada penosa vizinha de Caminha surge com um competente asfalto remodelado. Com a foz situada em Vilar de Mouros, a via acolhe uma azáfama previsível de máquinas e tractores, debruçados sobre pormenores rodoviários por limar. A nove dias de acolher o já tradicional surto anual de carros que se adivinha, os preparativos do histórico festival fazem-se sentir a cerca de 10 quilómetros do recinto.

Enquanto o automóvel agradece o piso de algodão, o humor é a melhor estratégia para enfrentar a opção que se vislumbra. Para precaver os pneus de se confrontarem com o lamentável furo, os técnicos de obras recorreram a diversos sinais de trânsito, colocados nos pontos da estrada com protuberâncias agressivas. A particularidade é perceber que alguns dos sinais, por exemplo, alertam para a proximidade de semáforos, que, como se constata mais à frente, não existem. À falta de recursos apropriados, o remendo não deixa de ser invulgar.

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publicado por Germano • 09:18 PMComentários [ 0 ]