junho 22, 2006

Língua que não sabe ler

Quando pre-sinto, por sentidos ter,
Sentido é já meu antes de o sentir.
Ouvir é já ouvido antes de ouvir.
E o Ver é já visto antes de ver.

No que toco, em partes Alma e Eu -
A Alma com tudo o que é claro vivido
E Eu a parte em sombra do sentido
Que me faz errar e chamar-lhe meu.

O resto é saber porquê o pensar,
Que súbito vai sem nada explicado,
Qual mensageiro que parte a troçar

Dita a mensagem sem nada dizer;
Como tendo a chave de papel cifrado
Escrito em língua que não saiba ler.

(Fernando Pessoa, Poesia Inglesa I)

Publicado por castafiore às 12:01 AM | Comentários (246)

junho 09, 2006

Vida do mar

Quantas tardes, eu vou, sózinho, passear
Ao longo do brumoso e soluçante mar ...
E vejo, ao cair do sol nas ondas abrasadas,
Entre as rochas que estão de espuma coroadas,
Tristes habitações de pobres pescadores...
Telhados pra abrigar soluços, ais e dores.
São choupanas onde há postigos e janelas,
Donde a Tristeza vê, ao longe, as brancas velas,
Navios onde vai ao leme a Saudade...
Sopra um vento que traz a viuvez e a orfandade...

(Teixeira de Pascoaes, in Para a Luz. Vida Etérea. Elegias. O Doido e a Morte)

Publicado por castafiore às 12:29 AM | Comentários (1203)

junho 07, 2006

Árvore do paraíso

"Há uma árvore de gotas em todos os paraísos."
(Herberto Helder, in Ou o poema contínuo)

Publicado por castafiore às 11:14 PM | Comentários (2442)

junho 03, 2006

Vigílias

Não
não tenho medo de morrer aqui
nem receio os cães velocíssimos de guarda
às azenhas não reveladas de teu corpo

medo da memória
sim ... receio que as cabeças tristes dos galgos
aqueçam na fulguração breve dos relâmpagos
e corram repentinamente para fora do papel fotográfico
destruindo estes preciosos trabalhos do olhar

Al Berto (1948 - 1997)
Vigílias

Publicado por castafiore às 12:08 AM | Comentários (0)

abril 12, 2006

Cavalo à solta

Minha laranja amarga e doce
Meu poema
Feito de gomos de saudade
Minha pena
Pesada e leve
Secreta e pura
Minha passagem para o breve
Breve instante da loucura

Minha ousadia, meu galope
Minha rédia
Meu potro doido, minha chama
Minha réstia
De luz intensa
De voz aberta
Minha denúncia do que pensa
Do que sente a gente certa

Em ti respiro
Em ti eu provo
Port ti consigo esta força que de novo
Em ti persigo
Em ti percorro
Cavalo à solta pela margem do teu corpo

Minha alegria
Minha amargura
Minha coragem de correr contra a ternura

Minha laranja amarga e doce
Minha espada
Poema feito de dois gumes
Tudo ou nada
Por ti renego
Por ti aceito
Este corsel que não sossego
À desfilada no meu peito

Por isso digo
Canção, castigo
Amêndoa, travo, corpo, alma
Amante e amigo
Por isso canto
Por isso digo
Alpendre, casa, cama, arca do meu trigo

Minha alegria
Minha ternura
Minha coragem de correr contra a ternura

Minha laranja amarga e doce
Meu poema
Feito de gomos de saudade
Minha pena
Pesada e leve
Secreta e pura
Minha passagem para o breve
Breve instante da loucura

... Para mim um dos mais belos poema de Ary dos Santos...

Publicado por castafiore às 11:27 PM | Comentários (1)

setembro 27, 2005

Todas as cores do arco irís

"Células de porcelana branca
contêm mel, azul, verde, vermelho.
Primeiro, faz-se a lápis,
em papel grosso, um jardim.
Os vidoeiros, o alpendre, a arrecadação,
tudo salpicado de luz do sol. Mergulho
e rodo a ponta do pincel
no belo amarelo laranja;
e, entretanto, no godé cheio,
no brilho do seu vidro lapidado,
que cores se acenderam,
que êxtase floriu!"

(Vladimir Nabokov, O Dom)

Publicado por castafiore às 11:08 PM | Comentários (1)

setembro 25, 2005

O jardim

"O jardim, como todos os jardins de Ain Krorfa, era na verdade um pomar. Debaixo das laranjeiras havia pequenos canais que corriam de uma fonte construída numa das extremidades de um planalto artificial. As palmeiras mais altas ficavam na extremidade oposta, perto do muro que bordejava o leito do rio; debaixo de uma delas estava estendido um grande tapete de lã, vermelho e branco. Sentaram-se aí, enquanto um criado trazia lume e uma maquineta para fazer chá. O ar estava pesado do odor da hortelã que crescia junto aos canais. (...)."

(Paul Bowles, O Céu que nos protege)

Publicado por castafiore às 08:39 PM | Comentários (0)

setembro 23, 2005

Silêncio

"Eu remava num lago. Era uma gruta abobadada sem luz do sol, mas estava claro, havia uma luz transparente e homogénea que irradiava da pedra azul-pálida. Embora não se sentisse nem uma ponta de vento, as ondas subiam, mas não tanto que isso pudesse representar qualquer perigo para o meu barco, pequeno, mas sólido. Eu continuava a remar calmamente entre as ondas, mas quase nem pensava nos remos, estava todo concentrado em absorver ao máximo o silêncio que dominava o lugar, um silêncio como nunca o tinha sentido em toda a minha vida. Era como um fruto que eu nunca tivesse comido mas fosse o mais suculento de todos. Agora, tinha os olhos fechados e sorvia-o. Mas não sem alguma perturbação. O silêncio era ainda total, mas sentia-se uma perturbação contínua; qualquer coisa ainda sustinha o ruído, mas ele estava à porta, a rebentar de vontade de entrar subitamente. Rodei os olhos na direcção daquele que não estava ali, soltei um dos remos da amarração, pus-me de pé no barco que baloiçava, ameaçando o vazio com o remo. Mas o silêncio persistiu e eu continuei a remar."

(Franz Kafka, Parábolas e Fragmentos)

Publicado por castafiore às 11:50 PM | Comentários (0)

setembro 20, 2005

Sentir!

"É preciso fazer um esforço para deixar de sentir o presente, como na música para deixar de ouvir o timbre dos instrumentos."

(Hugo von Hoffmannsthal, in Livro dos Amigos)

Publicado por castafiore às 01:08 AM | Comentários (0)

julho 18, 2005

Sonhar

"A inacção consola de tudo. Não agir dá-nos tudo. Imaginar é tudo, desde que não tenda para agir. Ninguém pode ser rei do mundo senão em sonho. E cada um de nós, se deveras se conhece, quer ser rei do mundo. Não ser, pensando, é o trono. Não querer, desejando, é a coroa. Temos o que abdicamos, porque o conservamos sonhado, intacto, eternamente à luz do sol que não há, ou da lua que não pode haver."

(Bernardo Soares, O Livro do Desassossego)

Publicado por castafiore às 11:56 PM | Comentários (80)

julho 02, 2005

Um pouco mais

Um pouco mais de sol - eu era brasa
Um pouco mais de azul - eu era além.

(Mário de Sá Carneiro)

Publicado por castafiore às 11:03 PM | Comentários (0)

julho 01, 2005

Velocidades comtemporâneas

"Em voz baixa e nunca perante mais de uma pessoa, pode um segredo contar-se a quem quer que seja; exigindo, sempre, que o não conte a ninguém. Se esta regra for cumprida, um segredo pode ser conhecido por todos sem deixar de ser um segredo.
Num tempo longínquo, inexistente, como tudo o que é decisivo, as pessoas, que não eram sabiam. Digamos que era o tempo de um Cristal sem falhas.
Cada um se reconhecia na sua certeza e, sabendo-a comum a todos, não precisava de a partilhar. Só raramente algures alguém contava ainda, em voz baixa o Segredo."

(Alexandre Melo)

Publicado por castafiore às 11:57 PM | Comentários (2)

junho 30, 2005

Fórmula mágica

Fórmula para se pronunciar em voz alta para não se morrer uma segunda vez no reino dos mortos:

Eu não te prenderei, eu não te levarei, assim como é verdade que vive para ti o teu pai, o filho de Nut.
Eu sou o teu filho, Ur, aquele que vê os teus mistérios. Eu apareci como rei dos deuses. Eu não morri uma segunda vez no reino dos mortos.

(in, O livro dos mortos do antigo Egipto)

Publicado por castafiore às 11:58 PM | Comentários (3)

junho 02, 2005

Food for thought

"O primeiro alimento literário da minha infância estava nos muitos romances de mistério e aventuras pavorosas. Os livros ditos para rapazes, que relatam experiências emocionantes, pouco me interessavam. Não me atraía a vida saudável e natural. Ansiava, não pelo provável, mas pelo incrível, nem sequer pelo impossível em grau, mas sim pelo impossível por natureza."

(Fernando Pessoa, in Escritos autobiográficos, automáticos e de reflexão pessoal)

Publicado por castafiore às 11:29 PM | Comentários (0)

maio 31, 2005

Os não-infelizes

"Se houvesse um livro de Bernardim Ribeiro que começasse "Menina e moça voltei para casa dos meus pais e desde esse dia nunca mais chorei uma só lágrima", nunca teria arranjado editor. Portugal pode não ser um país triste, mas é decididamente um país infeliz. Em mais nenhuma língua ser feliz, que deveria ser uma coisa natural, significa também ter sorte, ser bem sucedido.
Ninguém tem pena das pessoas felizes. Os portugueses adoram ter angústias, inseguranças, dúvidas existenciais dilacerantes, porque é isso que funciona na nossa sociedade. As pessoas com problemas são sempre mais interessantes. Nós, os tontos, não temos interesse nenhum porque somos felizes. Somos felizes, somos tontaços, não podemos ter graça nem salvação. Muitos felizardos (a própria palavra tem uma soar repelente, rimador de javardo) vêm-se obrigados a fingir a dor que deveras sentem, só para poderem brincar "com os outros meninos"."

(Miguel Esteves Cardoso, in Os meus problemas)

Publicado por castafiore às 12:41 AM | Comentários (4)

maio 30, 2005

Desaprender

"Há uma altura em que, depois de se saber tudo, tem de se desaprender."

(Alexandre O'Neill)

Publicado por castafiore às 12:43 AM | Comentários (0)

maio 27, 2005

Almas

"Compreendiam-se perfeitamente as nossas almas - tanto quanto duas almas se podem compreender. E, todavia, éramos duas criaturas muito diversas."

(Mário de Sá-Carneiro, in "A Confissão de Lúcio")

Publicado por castafiore às 01:42 AM | Comentários (0)

maio 22, 2005

Palavras traiçoeiras

"Num mundo cada vez mais ligeiro não há tempo para reflexões sobre as palavras. Umas gastam-se por abusos continuados, perdendo o primeiro sentido que todos lhe conferiram à nascença, outras são convocadas para situações de conveniência, deixando que nelas se instale um significado, senão trocado, pelo menos incompleto. E quando alguém, por determinação ou por rigor, elege uma dessas palavras e a coloca no seu significado, é considerada bizarra.

Foi desta forma que olharam para mim quando, durante uma recente e rápida entrevista, me socorri de uma escolhida palavra para responder a uma questão. Perguntaram-me qual o valor que eu mais considerava e perguntaram-me também como me classificava a mim mesmo em relação a esse valor. Não é fácil arrumar conceitos nas estreitas condicionantes de uma entrevista apressada mas respondi que o valor que mais me importa é a minha liberdade e que, em consequência dessa escolha, me considerava libertino.

Há palavras que metem medo e esta é uma daquelas que só se utiliza em caso alheio, com a agravante de também ser uma palavra que tem vivido minguada do seu verdadeiro significado."

(Alfredo Saramago, in "Os prazeres de Alfredo Saramago")

Publicado por castafiore às 10:41 PM | Comentários (0)

maio 18, 2005

Liberdade

Liberdade querida, e suspirada,
Que o despotismo acérrimo condena;
Liberdade, a meus olhos mais serena
Que o sereno clarão da madrugada.

Atende à minha, voz, que geme e brada
Por ver-te, por gozar-te a face amena;
Liberdade gentil, desterra a pena
Em que esta alma infeliz jaz sepultada.

Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,
Vem, oh consolação da humanidade,
Cujo semblante mais do que os astros brilha:

Vem, solta-me o grilhão da adversidade;
dos ceús descende, pois dos céus és filha,
Mãe dos prazeres, doce Liberdade!

(Bocage, "Liberdade querida, e suspirada,")

Publicado por castafiore às 12:13 AM | Comentários (0)

maio 15, 2005

Outras realidades

"Ao fim da noite, Paras'-ura-ma viu doces sonhos que não foram pensados com a sua mente. Viu-se a si próprio montando um elefante, um cavalo, uma montanha, uma varanda, um touro e uma árvore em flor; viu-se a chorar e a ser comido por vermes; todo o seu corpo besuntado de urina e fezes, coberto de banha e pus; estava a tocar alaúde; ... viu-se a comer muitos tipos de comida deliciosa; viu-se aterrorizado, a ser devorado por uma sanguessuga, um escorpião, um peixe e uma cobra, e viu-se a fugir deles. Viu depois que tinha entrado na órbita do Sol e da Lua; estava a olhar para uma mulher que tinha um marido e um filho... Enfeitado com jóias e coberto de trajes celestiais, deitou-se, no seu sonho, com uma mulher proibida. Viu uma bailarina e uma prostituta e bebeu sangue e vinho; e no seu sonho, todo o seu corpo estava coberto de sangue. Comeu carne de pássaros amarelos e de homens. Subitamente, viu-se preso com correntes e o seu corpo foi ferido por uma faca. Pela madrugada, depois de ter visto tudo isto, acordou cheio de alegria, pois tinha a certeza de ir vencer o seu inimigo."

(Wendy Doniger O' Flaherty, in "Sonhos, Ilusão e Outras Realidades")

Publicado por castafiore às 02:06 AM | Comentários (2)

maio 10, 2005

Torturas várias

Ontem à noite, domingo, estava eu na minha saga de visionamento ininterrupto dos meus episódios de X-files, e após 3 seguidos decidi parar e ir dormir antes de começar a ver homenzinhos verdes com antenas por todo o lado. Eis senão quando desligo o DVD e zás.... fico sintonizada na TVI que estava a dar um qualquer programa especialissímo sobre a famigerada "Quinta das Celebridades" que pela 1.ª vez me forcei a ver por um período superior a 15 segundos...

Aquilo é realmente muito mau! O que leva alguém a sujeitar-se a fazer aquelas figuras? Só pode ser uma enorme necessidade de dinheiro e uma total impossibilidade de o obter por outra qualquer forma.... Que degradante tudo aquilo é: desde o cenário, às pessoas, a própria apresentadora ... enfim, não há palavras.

E fiz uma associação a este breve excerto que tinha lido recentemente, noutro contexto:

"Sociedade do supérfulo. Uma raparigazita ganhou a sorte grande na lotaria infantil. Lá está ela no palco, radiante de excitação, ao lado do apresentador; cinco auxiliares de cena sobem ao palco com um gigantesco embrulho transparente contendo mil bonecas. Mas que raio de presente é este? Mil vezes a mesma boneca, mil camponesas da Floresta Negra iguais umas às outras. Os pais, presentes na sala, pensam a princípio tratar-se de uma graça crítica feita a seu propósito e riem timidamente. Mas o apresentador, que não sabia do que constava o primeiro prémio, fica desarmado e não volta a referir o assunto. A criança tenta sufocar um soluço com os pequenos punhos mas perde o controlo e desata a chorar com todas as froças. O público fica num desassossego, os pais irritam-se e ouvem-se apupos e protestos. "Organização de tortura infantil!" grita a mãe numa queixa raivosa; lança-se sobre o palco, seguida de outras pessoas, e afasta a filha para o lado, protegendo-a do primeiro prémio."

(Botho Strauss, in A Dedicatória)

E a nós quem nos protege?

Publicado por castafiore às 12:22 AM | Comentários (0)

maio 06, 2005

Fios

“Considerai comigo que a existência individual é uma corda que se estende do infinito até ao infinito, e que não tem fim nem princípio, nem é susceptível de ser quebrada. Essa corda é composta de inúmeros pequenos fios, os quais, juntos e apertados, constituem a sua grossura. Estes fios são incolores, são perfeitos nas suas qualidades de serem direitos, fortes e paralelos. A corda, passando, como passa, por todos os lugares, sofre estranhos acidentes. Muitas vezes um fio é preso e preso fica, ou talvez é apenas violentamente desviado do seu paralelismo com os outros. Então durante muito tempo desordena-se e desordena o conjunto. Por vezes um deles suja-se ou colora-se, e acontece não só que a mancha se alastra para além do ponto onde caiu, mas também que descolora outros fios.”

(Mabell Collins, Luz sobre o caminho)

Publicado por castafiore às 01:15 AM | Comentários (0)

maio 01, 2005

Lisbon Revisited

Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) -
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer cousa?

Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sózinho para o diabo!
Para que havermos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sózinho,
Já disse que sou sózinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Ó céu azul - o mesmo da minha infância - ,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa, de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sózinho!

(Álvaro de Campos, Lisbon Rivisited, 1923)

Publicado por castafiore às 09:53 PM | Comentários (1)

abril 27, 2005

Aproveitar

Aproveitar o tempo!...
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisas,
A poeira de uma estrada, involuntária e sózinha,
O regato casual das chuvas que vão acabando,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O peão do garoto, que vai a parar,
E oscila, no mesmo movimento que o da terra,
E estremece, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.

("O Noticias ilustrado", Álvaro de Campos, 27/05/1928)

Publicado por castafiore às 12:26 AM | Comentários (1)

abril 26, 2005

Mais leituras

Já acabei de ler. Gostei mas não fiquei fascinada. Está muito, muito longe de obras como "Cem anos de solidão", "O amor nos tempos de cólera" ou "O outono do patriarca". Ainda tem a mesma magia, mas parece que agora sem centelha...

Enfim... também García Márquez estará no seu outono de vida e literário...

Vou já começar com outro livro, pois a pilha de leituras em stand-by cresce com mais frequência do que a consigo desbastar. E a ordem de prioridades está em permanente alteração. Assim sendo, e passando à frente de outros que ja aguardam há algum tempo, segue-se:

Estou muito curiosa em relação a este livro.

Publicado por castafiore às 12:47 AM | Comentários (3)

abril 24, 2005

Amores infelizes

"Tomei consciência de que a força invencível que impulsionou o mundo não são os amores felizes mas os contrariados"

(Gabriel García Márquez, in memória das minhas putas tristes)

Publicado por castafiore às 09:06 PM | Comentários (0)

abril 18, 2005

Leituras

Acabei ontem de ler um livro bastante interessante. Chama-se "Viúva por um ano", da autoria de um escritor norte-americano, John Irving. Recentemente foi adaptado ao cinema e o filme (que não vi ainda) chama-se "A Porta do chão", razão pela qual o livro é vendido com 2 títulos e 2 capas sobrepostas. A história é densa e intensa, mas sendo uma narrativa tão psicológica tenho uma certa curiosidade de ver como é que a adaptaram e filmaram. Espero não ter uma desilusão muito grande quando vir o filme; como já saiu dos circuitos tenho de ficar à espera da edição em DVD.

Entretanto, como ando em fase de leituras compulsivas já iniciei a leitura da "Memória das minhas putas tristes" do Gabriel García Marquez. Estou curiosa para ver o que dali sai.

Publicado por castafiore às 11:27 PM | Comentários (0)

abril 11, 2005

Um dia (quase) de Verão

"Como quem num dia de Verão abre a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a cara toda,
Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa
Na cara dos meus sentidos,
E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber
Não sei bem como nem o quê..."

(Alberto Caeiro, in "Poemas")

Publicado por castafiore às 10:33 PM | Comentários (0)

março 23, 2005

As Árvores

"Pois nós somos como troncos de árvore na neve. Temos a impressão de que assentam sobre ela, e que com um pequeno empurrão seríamos capazes de os deslocar. Não, não somos capazes, porque eles estão firmemente presos à terra. Mas - quem diria? - até isso é ilusório."

Franz Kafka (1883-1924), in "Parábolas e Fragmentos"

Publicado por castafiore às 12:18 AM | Comentários (2)

fevereiro 22, 2005

Traduções ou se calhar não...

Há muitos anos, quando estudava literatura anglo-saxónica no Bristish Council, li um livro de um escritor americano, de seu nome J. D. Salinger, chamado "Tha catcher in the rye" de que gostei bastante. O livro é um clássico da literatura norte americana dos anos sessenta e narra os problemas da adoslecência, na pessoa do seu herói, um rapaz de 16 anos, em plena crise, psicologicamente perturbado e a atravessar todas as angústias, dúvidas, temores e certezas pelas quais todos passamos naquela idade. O dito personagem, em determinada fase da história, e colocado face ao dilema do que gostaria de ser em idade adulta, profissionalmente falando, diz que se imagina muita vezes num campo de cevada ("rye"), colocado à beira de um abismo e onde diversas crianças correm em todas as direcções; a sua função seria apanhá-las, evitando que caissem e garantindo, assim, a sua segurança. Integrado no perfil que dele é traçado e na história, esta alegoria faz sentido e percebemos uma personalidade arrogante e desafiante de tudo e de todos mas que acima de tudo quer ajudar aqueles que mais precisam. A sua ambição é ser o "catcher in the rye".

Anos depois voltei a ler o livro e confirmei que realmente era muito bom.

Passado algum tempo, a deambular numa livraria (um dos meus sítios preferidos para deambular), constatei que o livro, na sua tradução portuguesa, tinha recebido o título de "A agulha no palheiro", o que de alguma forma, e para quem o leia, acaba (com alguma boa vontade, há que admiti-lo...) por fazer sentido e ser uma tradução ainda mais metafórica do que a própria metáfora que ele representa. Mas imaginando-me a mim própria a ter de traduzir o título e perante alguma dificuldade pois nada parecia ser tão subtil e tão forte como o título origunal, acabei por aceitar aquela versão.

Recentemente, porém, descobri uma nova edição, da DIFEL, há que dizê-lo, e lamentavelmente não pude verificar de quem é a tradução, porque o ataque de riso que me acometeu impediu-me de qualquer outra acção. É que a nova versão chama-se: À ESPERA NO CENTEIO...

Não que não seja uma tradução exacta, mas...

Publicado por castafiore às 10:57 PM | Comentários (3)

fevereiro 17, 2005

A macaca e o passarinho

"Encontrando a macaca um ninho de passarinhos, toda contente procura aproximar-se, mas sendo eles já capazes de voar, só conseguiu apanhar o menor. Cheia de alegria, com ele na mão foi para a sua toca; e pondo-se a olhar para o passarinho, começou a beijá-lo; e levada pelo profundo amor, tanto o beijou e revirou e apertou que lhe tirou a vida. Aplica-se àqueles que, por não castigarem os filhos, lhes fazem mal."

(Leonardo da Vinci, 1452-1519, "Bestiário, Fábulas e Outros Escritos")

Publicado por castafiore às 01:04 AM | Comentários (0)

fevereiro 04, 2005

Água

"Sem esquecer, é claro, que se não existisse tudo o que não são plantas, nem tudo o que não é água, tanto uma coisa como a outra não existiria. A água é tudo quando não acaba em nada, nem no pingo que ainda pinga - ou já não pinga - dos ramos da Roseira, nem no charco que alaga o calhau da Calçada."

(Manuel Zimbro, "O mundo, visto da terra, aqui à volta de casa")

Publicado por castafiore às 12:20 AM | Comentários (0)

janeiro 30, 2005

Tão pouco

Em tão pouco em tão nada afinal acredito
Só me empolga o rigor com que o digo e não digo.

(David Mourão-Ferreira)

Publicado por castafiore às 06:04 PM | Comentários (0)

janeiro 16, 2005

A pousada de Soka

"No segundo ano da era de Genroku (1689) comecei a minha longa viagem, por terras de Oou. Amedrontava-me o pensamento de ver os meus cabelos brancos em sítios tão longínquos, mas esta ideia era atenuada pela própria violência do desejo de as conhecer e dava-me esperanças de regressar com vida. Nesse mesmo dia cheguei à pousada de Soka. Doía-me o corpo do peso da carga que os meus fracos ossos suportavam. Para viajar deveria bastar-nos o nosso corpo; mas as noites reclamam um agasalho; a chuva, uma capa; o banho, um traje limpo; o pensamento, tinta e uma pena. E as prendas que não se podem recusar... As dávidas estorvam os viajantes."

Matsuo Bashô (1644-1694), "O Gosto Solitário do Orvalho", seguido de "O Caminho Estreito"

Assim não me sinto tão culpada do excesso de carga com que ando sempre atrás quando viajo... E principalmente do peso com que regresso...

Publicado por castafiore às 05:38 PM | Comentários (0)

janeiro 07, 2005

Silêncio

Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragância da brisa de qualquer céu.

(Fernando Pessoa)

Publicado por castafiore às 11:34 PM | Comentários (0)

janeiro 02, 2005

À tona de água

Paira à tona de água
Uma vibração,
Há uma vaga mágoa
No meu coração.

Não é porque a brisa
Ou o que quer que seja
Faça esta indecisa
Vibração que adeja,

Nem é porque eu sinta
Uma dor qualquer.
Minha alma é indistinta
Não sabe o que quer.

É uma dor serena,
Sofre porque vê.
Tenho tanta pena!
Soubesse eu de quê!...

(Fernando Pessoa, in Poesias)

Publicado por castafiore às 07:53 PM | Comentários (0)

dezembro 04, 2004

A praia

Tinha o tamanho da praia
O corpo era de areia.
E ele próprio era o início
Do mar que o continuava.
Destino de água salgada
Principiado na veia.

(Natália Correia)

Publicado por castafiore às 10:16 PM | Comentários (0)

dezembro 03, 2004

Mergulho

Moldei as chaves do mundo
A que outros chamaram seu,
Mas quem mergulhou no fundo
Do sonho, esse, fui eu.

(António Gedeão)

Publicado por castafiore às 12:13 PM | Comentários (0)

outubro 11, 2004

Peregrinação

Recomendo vivamente a edição que o Expresso começou a publicar no passado dia 9, da obra Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, com ilustrações de Carlos Marreiros. Fabulosa!

Publicado por castafiore às 01:07 AM | Comentários (1)

setembro 18, 2004

Angels and demons

Apesar do enorme sucesso que o livro "O código da Vinci" faz em todo o mundo, o seu autor, até agora desconhecido para o público português, já tinha escrito outros livros.

Sem ser uma fantástica obra literária, é uma história que prende desde o princípio, uma intriga interessante e engraçada que, ainda para mais, tem a vantagem de ensinar muita coisa. É que muitos dos factos que constam do livro como históricos ou reais, são mesmo, ao contrário do que muita gente prefere pensar.

Para isso basta uma investigação na net sobre certos assuntos e verificamos que aprendemos muita coisa com aquele livro.

Mas ....

Para quem quiser ler mais coisas do escritor Dan Brown recomendo porém uma outra obra, anterior a esta, mas com o mesmo herói: "Angels and Demons", por enquanto só na versão americana original e disponível na Amazon.uk (não na Amazom.com porque vindas dos EUA as encomendas de livros pagam uma pequena fortuna na alfandega).

A história ainda é mais interessante e a intriga mais densa. Li o livro em 5 dias e recomendo-o vivamente. Não ganha nenhum Nobel da literatura mas distrai, diverte e ensina. Já não é nada mau...

Publicado por castafiore às 11:43 PM | Comentários (0)

setembro 12, 2004

Quem me roubou

Quem me roubou o tempo que era um
Quem me roubou o tempo que era meu
O tempo todo inteiro que sorria
Onde o meu Eu foi mais limpo e verdadeiro
E onde por si mesmo o poema se escrevia

(Sophia de Mello Breyner Andresen, "Quem me roubou", inédito, Setembro de 2001, in revista Relâmpago)

Publicado por castafiore às 10:55 PM | Comentários (0)

agosto 25, 2004

Meio-dia

Dois amantes ditosos fazem um só pão,
uma só gota de luar na erva,
deixam, ao andar, duas sombras que se juntam,
deixam somente um sol vazio numa cama.

De todas as verdades escolheram o dia:
não se prenderam com fios mas com perfume,
e não despedaçaram a paz nem as palavras.
A felicidade é uma torre transparente.

O ar, o vinho acompanham os dois amantes,
a noite oferece-lhes as suas pétalas felizes,
têm direito a todos os cravos.

Dois amantes ditosos não têm fim nem morte,
nascem e morrem muitas vezes enquanto vivem,
são eternos como a natureza.


(Pablo Neruda, in "Cem sonetos de amor", Meio-dia, poema XLVIII)

Publicado por castafiore às 11:47 PM | Comentários (0)

julho 17, 2004

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

(Porque, Sophia de Mello Breyner Andresen)

Publicado por castafiore às 12:55 AM | Comentários (1)

julho 12, 2004

O meu amor

Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio
ou seta de cravos que propagam o fogo:
amo-te como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.

Amo-te como a planta que não floriu e tem
dentro de si, escondida, a luz das flores,
e, graças ao teu amor, vive obscuro em meu corpo
o denso aroma que subiu da terra.

Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde,
amo-te directamente sem problemas nem orgulho:
amo-te assim porque não sei amar de outra maneira,

a não ser deste modo em que nem eu sou nem tu és,
tão perto que a tua mão no meu peito é minha,
tão perto que os teus olhos se fecham com o meu sono.


(Pablo Neruda, Manhã - soneto XVII, in "Cem sonetos de amor")

NOTA - Porque hoje celebramos 100 anos sobre a data de nascimento do Poeta.

Publicado por castafiore às 11:52 PM | Comentários (1)

julho 08, 2004

Até ao fim

O que é preciso rever
é o destino, não antigos papeis;
lugares e capítulos de uma vida inteira
anotar ou emendar.

E mergulhar no anonimato,
e ocultar nele os nossos passos,
como foge a paisagem na neblina
em plena escuridão.

Que outros nesse rasto vivo
seguirão o teu caminho passo a passo,
mas tu próprio não deves distinguir
a derrota da vitória.

E não deves por um só instante
recuar ou trair o que tu és,
mas estar vivo, e só vivo,
e só vivo - até ao fim.

(excerto do poema "Hamlet", Boris Pasternak)

Publicado por castafiore às 12:49 AM | Comentários (0)

julho 06, 2004

Em liberdade

Um único ser, mas não existe sangue.
Uma carícia apenas, morte ou rosa.
Vem o mar e reúne as nossas vidas,
sózinho ataca e reparte-se e canta
em noite e dia e criatura e homem.
A essência: fogo e frio: movimento.

("O Mar", Pablo Neruda, in "Cien Sonetos de Amor")

Publicado por castafiore às 12:00 AM | Comentários (0)

julho 05, 2004

Hai-Kai

Nós temos cinco sentidos:
são dois pares e meio d'asas.

- Como quereis o equilíbrio?

(David Mourão-Ferreira, in "Canto I")

Publicado por castafiore às 11:52 PM | Comentários (0)

junho 23, 2004

Se eu morrer

Se eu morrer, sobrevive-me com tanta força pura
que despertes a fúria do pálido e do frio,
de sul a sul levanta teus olhos indeléveis,
de sol a sol que soe tua boca de guitarra.

Não quero que vacilem teu riso nem teus passos,
não quero que agonize minha herança de alegria,
não chames o meu peito, estou ausente.
Na minha ausência vive como numa casa.

É uma casa tão espaçosa a ausência
que através das paredes passarás
e no espaço suspenderás os quadros.

É uma casa tão transparente a ausência
que eu, já sem vida, te verei viver
e se sofres, amor, morrerei novamente.

(Pablo Neruda, "Cien Sonetos de Amor")

Publicado por castafiore às 01:03 AM | Comentários (0)

junho 22, 2004

Penumbra

Na penumbra dos ombros é que tudo começa
quando subitamente só a noite nos vê
E nos abre uma porta nos aponta uma seta

para sermos de novo quem deixámos de ser

(David Mourão-Ferreira, in "Do tempo ao coração")

Publicado por castafiore às 12:25 AM | Comentários (0)

junho 20, 2004

Passional

Tenho no coração
espuma de muitas águas,
flores de muitos países
e solidões sonhadas.
Seca o mar, seca as fontes,
vê e corta todos os ramos das árvores!
Pois se o meu coração quiser,
outro mundo dele brotará.
E aquele que tanto soube amar,
montanhas erguerá!

(Frederico García Lorca, in "Alguns Poemas de Juventude")

Publicado por castafiore às 01:42 AM | Comentários (0)

maio 26, 2004

Soneto da infidelidade

Toda a poesia é feita de traição
e ao que somos fiéis já não sabemos:
da terra de que vimos só retemos
memórias que nos duram sem razão.

Escondemos na poesia o que não sabe
seu nome nem seu canto na memória:
escondemos na poesia não vitória,
mas restos de viver, o que não cabe

na fria tábua rasa da experiência
destilando sem fim na consciência
o mais fino licor da emoção.

É infiel ao verso a poesia:
nela se apura a noite contra o dia
e a nós mesmos nos trai o coração.

(Luís Filipe Castro Mendes)

Publicado por castafiore às 11:59 PM | Comentários (0)

maio 17, 2004

Soneto presente

Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.

Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso dizer eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.

Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.

Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que for o meu.

(José Carlos Ary dos Santos)

Publicado por castafiore às 11:13 PM | Comentários (0)

maio 14, 2004

Quem sou?

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E ao ver-me, tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

(Fernando Pessoa)

Publicado por castafiore às 11:59 PM | Comentários (0)

maio 13, 2004

As mãos

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema - e são de terra.
Com mãos se faz a guerra - e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.

(Manuel Alegre)

Publicado por castafiore às 11:57 PM | Comentários (1)

maio 10, 2004

E por vezes

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
Nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a vida nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

(David Mourão-Ferreira)

Publicado por castafiore às 11:20 PM | Comentários (0)

maio 09, 2004

Quero

Quero
Nos teus quartos forrados de luar
Onde nenhum dos meus gestos faz barulho
Voltar.
E sentar-me um instante
Na beira da janela contra os astros
E olhando para dentro contemplar-te,
Tu dormindo antes de jamais teres acordado,
Tu como um rio adormecido e doce
Seguindo a voz do vento e a voz do mar
Subindo as escadas que sobem pelo ar.

(Sophia de Mello Breyner Andresen - in Coral)

Publicado por castafiore às 04:48 PM | Comentários (0)

maio 07, 2004

Ecce Homo

Desbaratamos deuses, procurando
Um que nos satisfaça ou justifique.
Desbaratamos esperança, imaginando
Uma causa maior que nos explique.

Pensando nos secamos e perdemos
Esta força selvagem e secreta,
Esta semente agreste que trazemos
E gera heróis e homens e poetas.

Pois Deuses somos nós. Deuses do fogo
Malhando-nos a carne, até que em brasa
Nossos sexos furiosos se confundam,

Nossos corpos pensantes se entrelacem
E sangue, raiva, desespero ou asa,
Os filhos que tivermos forem nossos.

(José Carlos Ary dos Santos, in A liturgia do sangue)

Publicado por castafiore às 01:12 AM | Comentários (2)

maio 05, 2004

Oração de joelhos

Bendita seja a mãe que te gerou!
Bendito o leite que te fez crescer!
Bendito o berço aonde te embalou
A tua ama pra te adormecer!

Bendito seja o brilho do luar
Da noite em que nasceste tão suave,
Que deu essa candura ao teu olhar
E à tua voz esse gorjeio d'ave!

Benditos sejam todos que te amarem!
Os que em volta de ti ajoelharem
Numa grande paixão, fervente, louca!

E se mais, que eu, um dia te quiser
Alguém, bendita seja essa mulher!
Bendito seja o beijo dessa boca!

(Florbela Espanca, in O Livro D'ele)

Publicado por castafiore às 01:43 AM | Comentários (0)

maio 04, 2004

Liberdade

Numa disciplina constante procuro a lei da liberdade
medindo o equilíbrio dos meus passos.

Mas as coisas têm máscaras e véus com que me enganam,
e, quando eu um momento espantada me esqueço, a força
perversa das coisas ata-me os braços e atira-me
prisioneira de ninguém mas só de laços, para o vazio
horror das voltas do caminho.

(Sophia de Mello Breyner Andresen, in Coral)

Publicado por castafiore às 12:53 AM | Comentários (0)

maio 02, 2004

Estou só

Sei que estou só e gelo entre as folhagens
Nenhuma gruta me pode proteger
Como um laço deslaça-se o meu ser
E nos meus olhos morrem as paisagens.

Desligo da minha alma a melodia
Que inventei no ar. Tombo das imagens
Como um pássaro morto das folhagens
Tombando se desfaz na terra fria.

(Sophia de Mello Breyner Andresen, in Coral)

Publicado por castafiore às 11:40 PM | Comentários (0)

maio 01, 2004

Leito de sal

Neste leito de ausência em que me esqueço
desperta o longo rio solitário:
se ele cresce de mim, se dele cresço,
mal sabe o coração desnecessário.

O rio corre e vai sem ter começo
nem foz, e o curso, que é constante, é vário.
Vai nas águas levando, involuntário,
luas onde me acordo e me adormeço.

Sobre o leito de sal, sou luz e gesso:
duplo espelho - o precário no precário.
Flore um lado de mim? No outro, ao contrário,
de silêncio em silêncio me apodreço.

Entre o que é rosa e lodo necessário,
passa um rio sem foz e sem começo.

(Ferreira Gullar)

Publicado por castafiore às 07:31 PM | Comentários (0)

abril 30, 2004

Renascer

Depois da cinza morta destes dias,
Quando o vazio branco destas noites
Se gastar, quando a névoa deste instante
Sem forma, sem imagem, sem caminhos,
Se dissolver, cumprindo o seu tormento,
A terra emergirá pura do mar
De lágrimas sem fim onde me invento.

(Sophia de Mello Breyner Andresen, in Coral)

Publicado por castafiore às 12:33 AM | Comentários (0)

abril 29, 2004

Luta corporal

Calco sob os pés sórdidos o mito
que os céus segura - e sobre um caos me assento.
Piso a manhã caída no cimento
como flor violentada. Anjo maldito,

(pretendi devassar o nascimento
da terrível magia) agora hesito,
e queimo - e tudo é o desmoronamento
do mistério que sofro e necessito.

Hesito, é certo, mas aguardo o assombro
com que verei descer de céus remotos
o raio que me fenderá no ombro.

Vinda a paz, rosa-após dos terramotos,
eu mesmo juntarei a estrela ou a pedra
que de mim reste sob os meus escombros.

(Ferreira Gullar)

Publicado por castafiore às 01:09 AM | Comentários (0)

abril 26, 2004

Da condição humana

Todos sofremos.
O mesmo ferro oculto
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta.
O mesmo sal nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme
A humanidade que nos foi imposta.
Onde nos encontramos, divergimos.
É por sermos iguais que nos esquecemos
Que foi do mesmo sangue,
Que foi do mesmo ventre que surgimos.

(José Carlos Ary dos Santos)

Publicado por castafiore às 11:59 PM | Comentários (0)

abril 23, 2004

Nova cantiga de amigo

Senhor,
Partem tão tristes
Estes olhos que vos dei
Por não saber encontrar
Maneira de em vós chegar
Um amor que haja lei.

Partem tão tristes os tristes,
Tão doentes da partida
Que, por muito que chorassem,
Mais ainda desejassem,
Jamais vos convenceriam
Em vós ter descansado
Meu coração minha vida.

Se na porfia de amar,
Vos aborreço e desgosto,
Partirei meu corpo um mar,
Meus olhos vazios parados,
Buscando ternuras cem.

E como de amor perdidos
Inda levo meus sentidos
Penas de vosso desdém,
Nunca tão tristes vistes,
Outros nenhuns por ninguém.

(Tito Lívio - glosa da cantiga "Partindo-se" de João Roiz de Castelo Branco do "Cancioneiro Geral" de Garcia Resende)

Publicado por castafiore às 12:22 AM | Comentários (0)

abril 21, 2004

Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do reino de aquém e de além dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer o que deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

("Ser poeta", in "Charneca em flor" - Florbela Espanca)

Publicado por castafiore às 01:07 AM | Comentários (2)

Se tu me esqueces

Quero que saibas
uma coisa.

Tu sabes como é:
se contemplo
a lua de cristal, os ramos rubros
do outono lento da minha janela,
se toco
ao pé do lume
a impalpável cinza
ou o corpo enrugado da lenha,
tudo a ti me conduz,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
em direcção às tuas ilhas que me esperam.

Ora bem,
se a pouco e pouco deixas de amar-me,
deixarei de amar-te a pouco e pouco.

Se de repente me esqueceres,
não me procures,
que já te haverei esquecido.

Se consideras longo e louco
o vento de bandeiras
que percorre a minha vida
e decidires
deixar-me à margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
nessa hora,
levantarei os braços
e as minhas raízes irão
procurar outra terra.

Mas se em cada dia,
em cada hora,
sentes que a mim estás destinada
com doçura implacável.
Se em cada dia em teus lábios
nasce uma flor que me procura,
ai, meu amor, ai, minha,
todo esse fogo em mim se renova,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor do teu amor se nutre, amada,
e enquanto viveres continuará nos teus braços
sem abandonar os meus.

("Se tu me esqueces", in "Os versos do capitão" - Pablo Neruda)

Publicado por castafiore às 12:04 AM | Comentários (0)

abril 18, 2004

David Mourão-Ferreira

"Começas a vestir-te, lentamente,
E é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo..."

(David Mourão-Ferreira)

Publicado por castafiore às 11:56 PM | Comentários (1)

abril 17, 2004

Twelve Songs - W.H.Auden

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with a muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let the aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crêpe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.

The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.

(W.H. Auden- Twelve Songs)

NOTA - os saudosos do filme "Quatro casamentos e um funeral" são capazes de reconhecer este poema...

Publicado por castafiore às 12:30 AM | Comentários (1)

Canto Franciscano - Ary dos Santos

Por onde passaste tu
que não soubeste passar?
Pela sandália do tempo
pelo cílio do luar
pelo cílio do vento
pelo tímpano do mar?
Por onde passaste tu
que não soubeste passar?

Por onde passaste tu
que me ficaste cá dentro
tenaz do fogo divino
irmão pinho ou aloendro?
Por onde passaste tu
que me ficaste cá dentro?

Pois bem: nos campos da fome
ou nos caminhos do frio
se eu encontrasse o teu nome
lançava-te o desafio:
por onde passaste tu
pétala viva dos cerdos
rei das chagas e dos podres
- por onde passaste tu
não passaram as minhas dores!

Nasci da mãe que não tive
do pai que nunca terei
e aquilo que sobrevive
é o irmão que não sei:
uma espécie de fogueira
de corpo que me deslumbra.
Tudo o mais à minha beira
é uma réstia de sombra.
- Por onde passaste tu
com artelhos de penumbra?

Eis-me. Eis-me incendiado
por não saber perdoar.
Meu irmão passa de lado
- Eu sei como hei-de passar.

(Ary dos Santos - cantado por Fernando Tordo)

Publicado por castafiore às 12:02 AM | Comentários (0)

abril 16, 2004

Alma Perdida

Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma de gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dor, suavemente...
Talvez sejas a alma, alma doente
D'alguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste ... e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh'alma
Que chorasse perdida em tua voz!...

(Florbela Espanca - Livro de Mágoas)

Publicado por castafiore às 01:10 AM | Comentários (0)

abril 14, 2004

Fernando Pessoa - III

Contemplo o que não vejo.
É tarde, é quase escuro,
E quanto em mim desejo
Está parado ante o muro.

Por cima o céu é grande;
Sinto árvores além;
Embora o vento abrande,
Há folhas em vaivém.

Tudo é do outro lado,
No que há e no que penso.
Nem há ramo agitado
Que o céu não seja imenso.

Confunde-se o que existe
Com o que durmo e sou.
Não sinto, não sou triste,
Mas triste é o que estou.

(Fernando Pessoa)

Publicado por castafiore às 11:49 PM | Comentários (0)

Um fado: palavras minhas

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
- que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

(Pedro Tamen)

Publicado por castafiore às 12:00 AM | Comentários (1)

abril 13, 2004

Quem morre?

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajectos,quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções, justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente, quem abandona um projecto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige
um esforço muito maior que o simples facto de respirar.
Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio esplêndido de
felicidade.

(Pablo Neruda)

Publicado por castafiore às 01:15 AM | Comentários (0)

abril 09, 2004

Cântico Negro - José Régio

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olhos-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam os meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um atómo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí!

(José Régio - Cântico Negro)

Publicado por castafiore às 08:51 PM | Comentários (2)

abril 02, 2004

Fernando Pessoa - II

Eu amo tudo o que foi,
tudo o que já não é.
A dor que já me não dói,
a antiga e errónea fé.
O ontem que a dor deixou
e o que deixou alegria.
Só porque foi...
... e voou ...
E hoje é já outro dia.

(Fernando Pessoa)

Publicado por castafiore às 11:59 PM | Comentários (0)

abril 01, 2004

Para a minha Mãe

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...
P'ra que o dia fosse enorme
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos da minha Mãe...

(Sebastião da Gama)

Publicado por castafiore às 08:29 PM | Comentários (0)

março 31, 2004

Ary dos Santos - Kyrie

Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!

(José Carlos Ary dos Santos, Kyrie)

Publicado por castafiore às 11:06 PM | Comentários (2)

março 28, 2004

Ferreira Gullar

Aqui me tenho
Como não me conheço
Nem me quis
Sem começo nem fim.
Aqui me tenho
Sem mim
Nada lembro
Nem sei
À luz presente
Sou apenas um bicho
Transparente

(Ferreira Gullar)

Publicado por castafiore às 11:42 PM | Comentários (0)

Fernando Pessoa

Temos todos que vivemos
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada.
E a única vida que temos,
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

(Fernando Pessoa)

Publicado por castafiore às 11:41 PM | Comentários (0)