maio 29, 2004

Liberdade

"Defendo incondicionalmente a liberdade em todas as áreas e essa é a minha religião."

(Pedro Almodóvar, a propósito do seu novo filme "A má educação", cuja estreia aguardo ansiosamente)

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maio 27, 2004

Trombas

Não sou adepta do FCP, sou benfiquista. Ainda assim ontem segui o jogo com toda a atenção e a torcer pela vitória da nossa equipa. No final foi uma grande alegria, evidentemente e a festa da celebração, observando o contentamento dos participantes directos que transmite uma sensação de felicidade por sugestão ou contágio.

Ao vivo a festa ainda é mais vibrante; para quem participa é um sentimento de euforia que fica espalhado por todo o lado.

Assim sendo julgo que é de louvar o treinador José Mourinho. Não apenas pelo excelente trabalho técnico que levou a cabo, mas também, e principalmente, pelo facto de no meio de tanta felicidade ter conseguido manter umas trombas monumentais e inalteráveis e um ar de fúria e desdém no meio da festa dos seus atletas e do seu clube..... Nem o mais pequeno sorriso se lhe vislumbrou!

Caramba! Qual será o problema daquele homem?

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maio 26, 2004

Soneto da infidelidade

Toda a poesia é feita de traição
e ao que somos fiéis já não sabemos:
da terra de que vimos só retemos
memórias que nos duram sem razão.

Escondemos na poesia o que não sabe
seu nome nem seu canto na memória:
escondemos na poesia não vitória,
mas restos de viver, o que não cabe

na fria tábua rasa da experiência
destilando sem fim na consciência
o mais fino licor da emoção.

É infiel ao verso a poesia:
nela se apura a noite contra o dia
e a nós mesmos nos trai o coração.

(Luís Filipe Castro Mendes)

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maio 23, 2004

Boda Real

Estou doente!

O que começou há 2 semanas como uma alergia, evoluiu para uma infecção alastrada nas vias respiratórias e culminou no diagnóstico de uma gripe hepática, seja lá o que isso for! O resultado é péssimo e poupo-vos a descrição dos detalhes mais "sórdidos". Numa tentativa desesperada de recuperar, passo os fins de semana em casa. Assim sendo, ontem "vegetei" em frente da televisão e apanhei um concentrado de "Boda Real" espanhola em todos os canais nacionais e em muitos da TVCabo.

Considerações à parte sobre a pompa e circunstância da festa, 2 meses apenas após os atentados do 11 de Março, a minha atenção vai para um detalhe mais fútil: o dia do casamento não é um dia de festa e alegria????

Então porque é que a noiva esteve com aquele ar de dor de estomâgo durante toda a cerimónia, de olhinho arregalado e aparentando trazer às costas todo o sofrimento do mundo???? Ninguém explicou à rapariga que já que era para celebrar, aquela cerimónia era uma festa e não um velório?

Ou será que a futura raínha já acha que um sorriso rasgado e um ar de felicidade assumida são manifestações de emoção demasiado plebeias????

Publicado por castafiore às 05:24 PM | Comentários (0)

maio 22, 2004

O que é saudade?

"Saudade é um mal com que me regozijo, um bem de que sofro."

(D. Francisco Manuel de Melo)

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maio 20, 2004

Esqueci-me das mais-valias!!

De acordo com informações da Agência Lusa, a ministra de Estado e das Finanças, principal responsável pelo combate à evasão fiscal, esqueceu-se de declarar ao fisco cerca de 15 mil euros em mais-valias na declaração de rendimentos de 2002, tendo corrigido a falha no ano passado.

O gabinete de imprensa do Ministério das Finanças confirmou a falha ao Jornal “24horas”, que na sua edição de hoje especifica que Manuela Ferreira Leite não incluiu na declaração de IRS de 2002 as mais-valias resultantes da venda de uma casa de família na zona de Sintra. "A Dra. Manuela Ferreira Leite fez uma correcção à liquidação do IRS respeitante ao ano de 2002 para antecipar um pagamento", escreve o gabinete do Ministério, ressalvando que a ministra fez a rectificação "antes de ser notificada pela Administração Fiscal da necessidade de o fazer".

Ou seja, ao notificar o fisco das mais-valias fora do prazo Manuela Ferreira Leite cometeu uma infracção punível pelo Regime Geral de Infracções Tributárias. O advogado Dias Ferreira, irmão da ministra, afirmou ao mesmo jornal que se tratou de "um esquecimento de todos", ou seja, dele próprio, da ministra e dos outros dois irmãos. "Foi um descuido em que caímos (...) por um misto de desatenção e de desconhecimento", disse o advogado, justificando a rectificação fora do prazo das declarações dos quatro irmãos.


Palavras para quê ... ???????

Publicado por castafiore às 11:26 PM | Comentários (2)

maio 18, 2004

Fundamentalismos!

Não sou fumadora! O fumo dos cigarros incomoda-me! Muito!!! E o cheiro, nas roupas e no cabelo depois de se estar num ambiente de fumo é horrível... Isto para já não mencionar o efeito que esses ambientes têm nos meus olhos e nariz e o estado em que a minha alergia fica depois dessas experiências... Reuniões de trabalho com fumadores são experiências muito dolorosas principalmente no inverno.

Mesmo assim ... fundamentalismos é que não! E certas coisas enervam-me!

Primeiro em Nova Iorque não se podia fumar nos hotéis nem mesmo em quartos especiais; depois na Irlanda acabaram com a possibilidade de se fumar em bares e restaurantes. Há inúmeros edifícios smoke free para já não se falar nos aviões: tudo no limite do razoável ainda. Mas agora na Austrália querem tornar as praias em zonas onde é proibido fumar! O argumento? Mais do que a perturbação do fumo, é o facto de em média, por dia, naquelas praias aparecerem na areia cerca de 700.000 beatas...

E que tal sistemas alternativos para as pessoas as porem em vez de as enterrarem na areia (realmente nada pior do que estendermos a nossa toalha em cima de um monte de beatas ...)? Que tal criar um sistema de multas pesadas para quem não cumprir? É que o facto de lá estar esse elevado número de beatas quer dizer que quem vai à praia fuma. E será que vai continuar a ir àquela mesma praia com uma proibição dessas em vigor?

Bom senso, acima de tudo, por favor! Uma norma destas, caso eu fosse australiana era suficiente para me por a fumar como uma chaminé cada vez que chegasse à praia, como forma de protesto... Já agora porque é que não proíbem também a venda de cervejas nos bares das praias? Toda a gente sabe que apanhar banhos de sol com álcool no estômago é meio caminho andado para uma congestão. Porque não regulamentar o tipo de protector solar que podemos utilizar? É que os que são em spray podem não ter o sistema aerosol e prejudicar ainda mais o buraco na camada de ozono... E finalmente considerar a instalação de uma cortina de duches mesmo à beira mar para que o nosso corpo com creme, desodorizante, suor, perfume e sabe-se lá que mais não afecte de forma irreversível o ecosistema das algas e eventuais peixinhos, ao mergulharmos de forma abrupta no meio das ondas!

São medidas como esta que tiram seriedade e credibilidade a coisas sérias e elementares como aquilo que afinal visam proteger: o investimento fundamental em educação cívica, num meio ambiente saudável, em hábitos de vida equilibrados e acima de tudo, em ensinar as pessoas a preocuparem-se e respeitarem os outros e os locais onde se encontrem ... Acreditem que é possível! Mas com medidas destas duvido...

Publicado por castafiore às 11:58 PM | Comentários (1)

maio 17, 2004

Soneto presente

Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.

Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso dizer eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.

Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.

Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que for o meu.

(José Carlos Ary dos Santos)

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maio 16, 2004

Finalmente!

Parece que depois da tragédia que o ano passado ocorreu em Portugal durante o Verão com os incêndios que destruiram o nosso país, o Governo decidiu fazer alguma coisa concreta em vez de se limitar a deixá-lo arder novamente.

Podem não ser as medidas mais eficazes, mas pelo menos já são alguma coisa: decidiram equipar com mais meios a protecção florestal e os bombeiros, porem os militares que passam todo o dia no quartel sem fazer nada a patrulhar as matas, permitirem que os jovens em regime de ATL que assim o pretendam possam também ajudar nessa missão; mais, os que recebem o rendimento social mínimo e pretendam receber um pequeno acréscimo, podem ter direito a isso se estiverem dispostos a ir ajudar a guardar o nosso património ecológico.

Para quem quiser saber mais detalhes sobre esta medida, sugiro que vejam o BIOTERRA num post de 13 de Maio.

Só um país com mentalidade do assim chamado "3.º mundo" deixa que, ano após ano, aconteça o que acontece em Portugal todos os verões com os incêndios.

Perdão! Fui injusta! Nenhum país do 3.º mundo permite que deliberada e sistematicamente façam às suas matas, florestas, campos de cultivo e sementeiras o que nós permitimos que aconteça. Esses países sabem o valor incalculável e totalmente insubstituível que esse património tem. É que a nossa mentalidade não é de 3.º mundo, é bem pior: é de novos ricos...

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maio 15, 2004

Ele há cada coincidência...

Outro dia de manhã ouvi na TSF uma notícia de acordo com a qual a ANACOM tinha decidido fazer uma queixa contra os CTT uma vez que face aos preços praticados e ao tarifário em vigor, a qualidade de serviços fornecida não corresponde aos padrões de exigência: correspondência perdida ou atrasada, demora no atendimento, falta de qualidade nos serviços em geral, tudo tinha motivado a razão da interposição da dita queixa. Contra ela insurgia-se o representante dos CTT de acordo com quem, teria havido de facto alguns problemas na empresa, todos insignificantes e todos eles largamente ultrapassados uma vez que para os CTT, 2004 é o ano da Qualidade.

Coincidência ou não, quando cheguei nesse dia ao escritório o pânico estava instalado pois tinham telefonado da delegação do Porto onde há 2 dias deveria ter chegado o original de um importantíssimo contrato, enviado via Postlog, mas que até à data ainda não tinha dado sinal de vida. Lá se improvisou uma solução mas o transtorno causado foi significativo.

Ainda não tinha tido tempo de respirar fundo, e de volta à minha sala atendo o telefone: era a minha mãe, à beira de um ataque de nervos! É que pela 10.ª vez em 2 meses o carteiro tinha deixado toda a correspondência trocada lá em casa; sendo assim a minha mãe predispunha-se a mais uma ronda pelas casas dos vizinhos, num convívio com motivo forçado a que se vêem obrigados desde que o novo carteiro entrou em funções, para trocarem cartas, avisos, postais, encomendas e revistas até todos terem aquilo que lhes pertence. Estava disposta a fazer queixa de tão irritada estava.

Uma vez que eu própria tinha de ir levantar uma encomenda à estação dos correios, ofereci-me para, em nome dela, redigir a dita queixa e fazer a respectiva entrega. À hora do almoço lá fui eu: estação dos correios da Av. João XXI; nova, recente, equipada com as mais modernas tecnologias, senhas de vez, ecrã electrónico, 6 guichets, hora de maior afluência, 2 funcionários e uma espera de 32 pessoas à minha frente que se traduziu numa permanência de 45 minutos naquela estação. Os ânimos foram-se exaltando e contra alguns protestos os zelosos funcionários, dignos representantes da irmandade do caracol, respondiam que não tinham culpa que era hora do almoço.... Pois claro!

Terminada a epopeia e de regresso ao escritório, aproveitei passar à porta e, por pura curiosidade, espreitei a estação de correios da Av. da República; mais pequena, com apenas 4 guichets, mas com a mesma filosofia de empresa: apenas funcionava 1! Pelo menos existe coerência. Tirei senha e constatei que aquela única funcionária era muito mais eficiente que as outras 2 colegas pois a espera era “apenas” de 25 pessoas.

Voltei ao trabalho com aquela frase de 2004 ser o ano da Qualidade para os CTT na cabeça.... De facto há coincidências lixadas....

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maio 14, 2004

Quem sou?

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E ao ver-me, tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

(Fernando Pessoa)

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maio 13, 2004

As mãos

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema - e são de terra.
Com mãos se faz a guerra - e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.

(Manuel Alegre)

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maio 12, 2004

Mortalidade infantil


Nos Estados Unidos da América do Norte em cada 1000 crianças que nascem, 8 morrem na idade compreendida entre os zero meses e os 5 anos.

Na Bolívia essa taxa de mortalidade infantil passa para as 80 crianças mortas entre aquelas idades.

E no Mali atinge as 224...

... não vale a pena dizer mais nada, pois não?

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maio 11, 2004

Heresias-2

Publicado por castafiore às 12:32 AM | Comentários (1)

Mourinho

O José Mourinho vai treinar o Chelsea já a partir da próxima época e por 3 épocas consecutivas. A prova de um bom trabalho reconhecido. Sem dúvida! E os factos? Esses revestem a forma de um contrato milionário em que irá receber, por mês, e perdoem mas vou regressar momentaneamente aos escudos para ser de mais fácil apreensão o que vou escrever, vai receber por mês, repito, 60 mil contos...
Provavelmente merece-os; para qualquer verdadeiro "dragão", ou para qualquer amante convicto de futebol merece-os de certeza...
Nem sei bem o que vos diga sobre isto. Correndo o risco de todos os fãs de futebol deixarem de me falar, mesmo assim não consigo deixar de achar um bocado escandaloso.
Ainda mais se pensarmos que um médico, um cirurgião que trabalha no hospital onde dia após dia salva vidas humanas recebe pouco mais de 200 contos.
Se pensarmos que um professor que nos transmite as bases da nossa educação, e nos prepara para o nosso futuro, nem a isso chega.
Se pensarmos que um jornalista free-lancer que vai para o teatro de guerra e arrisca a vida para conseguir uma boa reportagem em que relata situações importantes e relevantes para a nossa vida (da humanidade entenda-se) a seguir anda de porta em porta a tentar vender o seu trabalho ....
Se pensarmos que todos os dias, voluntários anónimos vão pelas ruas da cidade dar uma refeição quente aos sem abrigo e tentar ajudá-los a sobreviver mais um dia, em troca de um simples olhar de agradecimento....
Não sei realmente.... o trabalho de um treinador de futebol será muito meritório decerto mas mesmo assim ....

Publicado por castafiore às 12:16 AM | Comentários (0)

maio 10, 2004

E por vezes

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
Nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a vida nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

(David Mourão-Ferreira)

Publicado por castafiore às 11:20 PM | Comentários (0)

maio 09, 2004

Uma viagem

"Uma viagem de 10.000 kms. começa sempre com 1 simples passo"

(Lao Tsu)

Publicado por castafiore às 09:52 PM | Comentários (0)

Quero

Quero
Nos teus quartos forrados de luar
Onde nenhum dos meus gestos faz barulho
Voltar.
E sentar-me um instante
Na beira da janela contra os astros
E olhando para dentro contemplar-te,
Tu dormindo antes de jamais teres acordado,
Tu como um rio adormecido e doce
Seguindo a voz do vento e a voz do mar
Subindo as escadas que sobem pelo ar.

(Sophia de Mello Breyner Andresen - in Coral)

Publicado por castafiore às 04:48 PM | Comentários (0)

maio 08, 2004

Em trânsito

Hoje de manhã ouvi uma notícia extraordinária: parece que na madrugada de dia 7 passou no aeroporto da Portela um empresário francês, cujo nome não me recordo, confesso, procurado por suspeita de tráfego de armas com o Iraque e relativamente a quem existem diversos mandatos de captura internacionais. Foi identificado mas não foi detido. Perguntarão porquê? Pois ao que parece porque os funcionários do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras entenderam que tecnicamente ele não estava no território Português porque se encontrava “em trânsito”…

…!!!!!!!?????!!!!!!?????!!!!!????

Pergunto eu em estado de pura ingenuidade: e ainda que a detenção se viesse a revelar ilegal, o que sinceramente duvido, mas ainda que assim fosse, detê-lo e posteriormente libertá-lo não iria de algum modo ajudar a localizá-lo, seguir-lhe o percurso daqui para a frente, avisar as autoridades desse país de destino, manter os seus passos mais vigiados…????

Será que o dever de cooperação internacional a que Portugal se encontra vinculado ao abrigo de todos os tratados e organizações de que faz parte não impõe obrigações concretas? Será que o mais elementar bom senso não permite contornar estes tecnicismos exagerados atrás dos quais quem não quer assumir responsabilidades se escuda? Será que enlouqueceram todos definitivamente?

Publicado por castafiore às 01:15 AM | Comentários (0)

maio 07, 2004

Ecce Homo

Desbaratamos deuses, procurando
Um que nos satisfaça ou justifique.
Desbaratamos esperança, imaginando
Uma causa maior que nos explique.

Pensando nos secamos e perdemos
Esta força selvagem e secreta,
Esta semente agreste que trazemos
E gera heróis e homens e poetas.

Pois Deuses somos nós. Deuses do fogo
Malhando-nos a carne, até que em brasa
Nossos sexos furiosos se confundam,

Nossos corpos pensantes se entrelacem
E sangue, raiva, desespero ou asa,
Os filhos que tivermos forem nossos.

(José Carlos Ary dos Santos, in A liturgia do sangue)

Publicado por castafiore às 01:12 AM | Comentários (2)

Mel com fel

Todas as manhãs, um pouco antes das 10.00, a TSF tem uma rubrica chamada “Mel com fel” em que são convidadas 2 personalidades, mais ou menos anónimas, para dizerem, respectivamente, bem e mal daquilo que acham mais importante realçar.

No dia 4 de Maio, a personalidade convidada para a secção do “Mel” foi uma tal Alfreda Fonseca, professora e membro de um auto-intitulado Movimento dos Profissionais Católicos, que decidiu elogiar a recente nomeação de uma mulher para um alto cargo no Vaticano.

Entre outras “pérolas” de sabedoria pessoal não posso deixar de destacar duas que falam por si próprias.

1.ª citação:
- “(...) orgulho nomeadamente de uma mulher ter acesso a um lugar até agora reservado à gerontocracia masculina, onde começam a entrar sem ser para fazer as limpezas, com direito a gabinete e tudo (...)”;
2.ª citação:
- “(...) o Papa verificou que as mulheres têm cérebro e que há toda a vantagem em pô-lo ao serviço da comunidade eclesiástica (...)”.

E depois ainda se queixam que são discriminadas.... O pior é que por estas pagamos todas.....

Publicado por castafiore às 12:29 AM | Comentários (0)

maio 06, 2004

Sondagem de opinião

A ONU resolveu fazer uma grande pesquisa mundial. A pergunta era: "Por favor, diga honestamente, qual sua opinião sobre a escassez de alimentos no resto do mundo."

O resultado foi desastroso; um fracasso total:

- Os europeus não entenderam o que é "escassez".
- Os africanos não sabiam o que era "alimentos".
- Os argentinos não sabiam o significado de "por favor".
- Os norte americanos perguntaram o significado de "o resto do mundo".
- Os cubanos estranharam e pediram mais explicações sobre o significado de "opinião".
- E, finalmente, o congresso brasileiro ainda está a debater o que é que "honestamente" quer dizer.


Publicado por castafiore às 11:29 PM | Comentários (0)

maio 05, 2004

Oração de joelhos

Bendita seja a mãe que te gerou!
Bendito o leite que te fez crescer!
Bendito o berço aonde te embalou
A tua ama pra te adormecer!

Bendito seja o brilho do luar
Da noite em que nasceste tão suave,
Que deu essa candura ao teu olhar
E à tua voz esse gorjeio d'ave!

Benditos sejam todos que te amarem!
Os que em volta de ti ajoelharem
Numa grande paixão, fervente, louca!

E se mais, que eu, um dia te quiser
Alguém, bendita seja essa mulher!
Bendito seja o beijo dessa boca!

(Florbela Espanca, in O Livro D'ele)

Publicado por castafiore às 01:43 AM | Comentários (0)

Bloco operatório


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maio 04, 2004

Liberdade

Numa disciplina constante procuro a lei da liberdade
medindo o equilíbrio dos meus passos.

Mas as coisas têm máscaras e véus com que me enganam,
e, quando eu um momento espantada me esqueço, a força
perversa das coisas ata-me os braços e atira-me
prisioneira de ninguém mas só de laços, para o vazio
horror das voltas do caminho.

(Sophia de Mello Breyner Andresen, in Coral)

Publicado por castafiore às 12:53 AM | Comentários (0)

Choque de gerações

Outro dia recebi este texto por email:
“Olhando para trás, é difícil acreditar que estejamos vivos. Nós viajávamos em carros sem cintos de segurança ou air bag. Não tivemos nenhuma tampa à prova de crianças em frascos de remédios, portas, ou armários e andávamos de bicicleta sem capacete. Bebíamos água directamente da mangueira e não da garrafa. Saíamos de casa de manhã, brincávamos o dia inteiro, e só voltávamos quando se acendiam as luzes da rua. Ninguém nos podia localizar. Não havia telemóveis. Nós partimos ossos e dentes, e não havia nenhuma lei para punir os culpados. Eram acidentes. Andámos à bulha, fizemos troça uns dos outros e aprendemos a superar isto. Nos jogos da escola, nem toda a gente fazia parte da equipa. Os que não fizeram, tiveram que aprender a lidar com a decepção e não foram todos parar aos divãs dos psicólogos e psiquiatras...

Comemos doces e bebemos refrigerantes mas não éramos obesos. Estávamos sempre ao ar livre, a correr e a brincar. Compartilhámos garrafas de refrigerante e ninguém morreu por causa disso. Não tivemos Playstations, X-box’s, 99 canais de televisão, filmes em vídeo, telemóveis, computadores ou internet. Nós tivemos amigos que vinham para nossa casa brincar ou com quem andávamos em grupo por todo o lado.

Alguns estudantes não eram tão inteligentes quanto os outros. Chumbavam e repetiam o ano! Não inventavam testes extras. Éramos responsáveis pelas nossas acções e arcávamos com as consequências. Não havia ninguém que pudesse resolver isso. A ideia de um pai a proteger-nos, se desrespeitássemos alguma lei, ou alguma regra era inadmissível! Se fossemos malcriados com os professores éramos suspensos ou mesmo expulsos das escolas e podíamos não voltar a ter autorização para as frequentar. E conseguimos aprender a lidar com essas situações. Tivemos liberdade, fracasso, sucesso e responsabilidade, e aprendemos a lidar com isso.”.

Depois do post que aqui há tempos fiz sobre a “Geração Heidi vs. Geração Pokémon” não gostava que ficassem com a ideia que sou um “velho do Restelo” sempre a achar que dantes é que era bom e que agora nada presta. Não se trata de nada disso, mas acho que hoje em dia se perderam muitos valores e muitas normas pelas quais, na minha opinião, é fundamental pautarmos a nossa vida. Não se trata tanto do que se podia ou não podia fazer; hoje pode-se fazer tudo, pelo menos muito mais do que quando eu era adolescente (e já então não era pouco o que se fazia...), mas em compensação nada é exigido. Face à forma como as crianças são hoje criadas, à desresponsabilização que lhes é incutida e ao “facilitismo” que lhes é proporcionado em tudo, pergunto-me muitas vezes se estaremos hoje em dia a criar adultos responsáveis, capazes de lidar com as contrariedades que a vida infelizmente trás a todos nós, ou se a incapacidade de ouvir um “não” e a vida já “pré-mastigada” em versão soft que muitas pessoas entregam aos filhos não lhes faz mais mal do que bem.

Cresci num ambiente de quase total liberdade mas com regras absolutamente invioláveis e normas que tinham de ser respeitadas sem espaço para qualquer excepção e em que me era exigida absoluta responsabilidade e completa responsabilização pelos meus actos. Dei muitas vezes “com a cabeça nas paredes”, sofri muito e tive e tenho momentos da mais pura felicidade. De tudo retirei importantes lições e aquilo que tenho conseguido alcançar desse processo sem fim que é crescer, aprender, evoluir e dar um passo ainda mais longe, tem-me sabido muito bem; viver dá-me muito gozo... Um gozo que apesar de tudo não vejo assim tão generalizado entre as gerações mais novas. Oxalá seja eu quem já não está a ver bem...

Publicado por castafiore às 12:35 AM | Comentários (2)

maio 03, 2004

Dia Mundial da Liberdade de Imprensa

Comemora-se hoje, dia 3 de Maio, o Dia Mundial da Liberdade da Imprensa, implementado pela UNESCO, como corolário e consagração do direito fundamental de liberdade de imprensa, consagrado pelo art. 19.º da Declaração Universal dos Direitos do Homem. A propósito desta efeméride, o Director-Geral da UNESCO, Koichiro Matsuura, revelou que o tema para o prémio deste ano são os “media” em zonas de conflito e pós-conflito, e em países em fase de transição. Perante este tipo de situações, o trabalho dos “media”, transmitindo informação rigorosa e de forma independente pode contribuir de modo muito significativo para o processo de reconstrução e de reconciliação. Em tempos de levantamento, desordem e incerteza, a necessidade que as pessoas têm de informação de confiança é especialmente significativa – a sua própria segurança pessoal e até mesmo sobrevivência dependem muitas vezes disso. Porém, é precisamente nessas alturas que muita da informação transmitida é encarada como mera propaganda; é por estas razões que um tipo de jornalismo independente e pluralístico é fundamental. Ao comemorarmos o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, é fundamental reflectirmos nas acções a desencadear junto dos governos e das autoridades à escala mundial para que sejam ensinados a respeitar a contribuição que os “media” podem dar para uma paz, democracia e desenvolvimento sustentáveis.

O WORLD PRESS FREEDOM AWARD é um prémio anual atribuído pela UNESCO, no valor de $ 25.000,00, e que tem o nome de Prémio Guillermo Cano. O seu nome é uma homenagem ao jornalista colombiano homónimo, assassinado no seu país natal em 1987 após a denúncia de numerosos barões da droga, presos e condenados pela justiça colombiana a pesadas penas de prisão.

Na sequência destes princípios, o prémio deste ano foi anunciado no passado dia 24 de Março e foi atribuído ao jornalista e poeta cubano RAÚL RIVERO CASTAÑEDA, nascido em 1945, e desde 1988 perseguido pelas autoridades daquele país por se ter tornado, juntamente com outros jornalistas, num dissidente do regime de informação do Estado, e por em 1995 ter fundado a Cuba Press, uma agência independente de informação e em 2001 a primeira associação livre e independente de jornalistas cubanos.

Em Abril de 2003 ele e 25 outros jornalistas foram condenados a penas de prisão entre os 14 e os 27 anos, acusados de violação ao art. 91.º do Código Penal Cubano: prática de actividades que constituem perigo efectivo e real para a independência e integridade territorial do Estado Cubano.

Raul Rivero foi condenado a 20 anos de prisão, pena que se encontra a cumprir numa penitenciária a 461 kms. de Havana. Gravemente doente, com problemas circulatórios e cardíacos que inspiram os maiores cuidados, só tem autorização para receber visitas da sua mulher e, ainda assim, apenas cada 3 meses.

A UNESCO tem realizado diversas diligências junto do governo de Fidel Castro no sentido de tentar obter a libertação deste jornalista e de permitir a sua comparência à cerimónia de entrega do prémio que irá decorrer hoje em Belgrado. Desconhece-se até ao momento se tal irá ou não acontecer, o que parece, porém, profundamente improvável.

Pela coragem demonstrada, pela coerência de princípios defendida e pela dignidade com que conduziu a sua vida e a sua actividade profissional, este prémio é mais do que merecido.

Pena é que as circunstâncias da sua atribuição sejam estas.

Pena é que no mundo continuem a existir regimes políticos que permitem e dão cobertura a este tipo de situações.

A vergonha e a responsabilidade é um pouco de todos nós!

Publicado por castafiore às 12:50 AM | Comentários (0)

maio 02, 2004

Estou só

Sei que estou só e gelo entre as folhagens
Nenhuma gruta me pode proteger
Como um laço deslaça-se o meu ser
E nos meus olhos morrem as paisagens.

Desligo da minha alma a melodia
Que inventei no ar. Tombo das imagens
Como um pássaro morto das folhagens
Tombando se desfaz na terra fria.

(Sophia de Mello Breyner Andresen, in Coral)

Publicado por castafiore às 11:40 PM | Comentários (0)

maio 01, 2004

Follow the leader


Publicado por castafiore às 10:08 PM | Comentários (1)

História do dia do trabalhador

No dia 1º de Maio de 1886, 500 mil trabalhadores saíram às ruas de Chicago, nos Estados Unidos, em manifestação pacífica, exigindo a redução da jornada para oito horas de trabalho. A polícia reprimiu a manifestação, dispersando a concentração, depois de ferir e matar dezenas de operários. Mas os trabalhadores não se deixaram abater, todos achavam que eram demais as horas diárias de trabalho, por isso, no dia 5 de Maio de 1886, quatro dias depois da reivindicação de Chicago, os operários voltaram às ruas e foram novamente reprimidos: 8 líderes presos, 4 trabalhadores executados e 3 condenados a prisão perpétua.

A luta não parou e a solidariedade internacional pressionou o governo americano a anular o falso julgamento e a reunir um novo júri, em 1888. Os membros que constituíam o júri reconheceram a inocência dos trabalhadores, culparam o Estado americano e ordenaram que soltassem os 3 presos.

Em 1889 o Congresso Operário Internacional, reunido em Paris, decretou o 1º de Maio, como o Dia Internacional dos Trabalhadores, um dia de luto e de luta. E, em 1890, os trabalhadores americanos conquistaram a jornada de trabalho de oito horas.

116 anos depois das grandiosas manifestações dos operários de Chicago pela luta das oito horas de trabalho e da brutal repressão patronal e policial que se abateu sobre os manifestantes, o 1º de Maio mantém todo o seu significado e actualidade.

Nos Estados Unidos da América o Dia do Trabalhador celebra-se no dia 3 de Setembro e é conhecido por "Labor Day". É um feriado nacional que é sempre comemorado na primeira segunda-feira do mês de Setembro e está relacionado com o período das colheitas e com o fim do Verão.

No Canadá este feriado chama-se "Dia de Oito Horas". Tem este nome porque se comemora a vitória da redução do dia de trabalho para oito horas.

Na Europa o "Dia do Trabalhador" comemora-se sempre no dia 1 de Maio.

Em Portugal, actualmente, os trabalhadores vivem melhor que há 15 anos mas continuamos muito afastados da média comunitária, da qual nos estamos a aproximar a um ritmo demasiado lento. Temos maiores salários, mas continuam os mais baixos e desiguais da União Europeia; o mesmo acontece com as pensões. Os avanços legislativos não se traduzem muitas vezes na prática, face às violações sistemáticas da Lei. A sinistralidade laboral é a 1ª na Europa. Todos os dias morrem 15 pessoas em Portugal em consequência de um acidente de trabalho, metade dos quais ocorrem no sector da construção civil.

Porque trabalhar é um direito que todos temos e que exercemos, por gosto ou necessidade, vamos trabalhar em boas condições e de forma humana e civilizada. E não vamos esquecer aqueles que antes de nós, não se detiveram perante condições bem mais adversas e lutaram para fazer a diferença e para que hoje, anos mais tarde, aquilo que dantes dependia de lutas diárias sejam direitos adquiridos legalmente protegidos.

Um bom 1.º de Maio!

(com base em informação retirada do Expresso online)

Publicado por castafiore às 07:43 PM | Comentários (1)

Leito de sal

Neste leito de ausência em que me esqueço
desperta o longo rio solitário:
se ele cresce de mim, se dele cresço,
mal sabe o coração desnecessário.

O rio corre e vai sem ter começo
nem foz, e o curso, que é constante, é vário.
Vai nas águas levando, involuntário,
luas onde me acordo e me adormeço.

Sobre o leito de sal, sou luz e gesso:
duplo espelho - o precário no precário.
Flore um lado de mim? No outro, ao contrário,
de silêncio em silêncio me apodreço.

Entre o que é rosa e lodo necessário,
passa um rio sem foz e sem começo.

(Ferreira Gullar)

Publicado por castafiore às 07:31 PM | Comentários (0)