abril 30, 2004

Sei lá...

Li ontem que a escritora Margarida Rebelo Pinto compareceu na Feira do Livro de São Paulo onde promoveu a edição, no Brasil, do seu mega-hit literário, o romance "Sei lá!". E ao que parece já é o segundo livro que edita por aquelas bandas... Tenho que admitir que este assunto me enerva, e para fazer jus ao nome deste blog, sinto-me obrigada a dizer que relativamente a esta senhora o rei vai nu! O rei, ou a raínha; no caso concreto, a raínha do mau gosto literário. Para saber do que falo aqui há tempos dei-me ao trabalho de explorar as produções desta senhora. Fiquei-me pelo dito "Sei lá!", que com grande sacrifício li de um só fôlego numa tarde, com a mesma rapidez com que se desfolha a revista "Caras" ou a "Lux", sendo que a profundidade dos conteúdos é a mesma e com a desvantagem de não ter fotografias... Sarcasmos à parte, há que reconhecer que aquilo é mesmo muito mau, ao nível de qualquer revista de fotonovelas, como a saudosa "Simplesmente Maria". Enfim... cada um com o seu gosto, mas o pior é que aqueles livros realmente vendem, o que implica uma outra preocupação: é que ela escreve mal e os livros não têm pevide de interesse mas as pessoas apreciam!!! Surge então a polémica sobre a qual já ouvi a nossa personagem dissertar. Não interessa se a literatura é "light", interessa é que pôs toda a gente a ler, e isso representa uma mais-valia.... Pois, de facto! Mas se é para lerem aquilo, não seria preferível ficarem-se pela "Bola" ou pela "Maria"? Sempre seria uma atitude mais honesta e cerebralmente menos poluente... É que também nestes casos me parece que "mais vale só do que mal acompanhado"...

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Renascer

Depois da cinza morta destes dias,
Quando o vazio branco destas noites
Se gastar, quando a névoa deste instante
Sem forma, sem imagem, sem caminhos,
Se dissolver, cumprindo o seu tormento,
A terra emergirá pura do mar
De lágrimas sem fim onde me invento.

(Sophia de Mello Breyner Andresen, in Coral)

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abril 29, 2004

O caminho

"Se não encontrarmos um, faremos o nosso próprio caminho"

(Haníbal)

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Luta corporal

Calco sob os pés sórdidos o mito
que os céus segura - e sobre um caos me assento.
Piso a manhã caída no cimento
como flor violentada. Anjo maldito,

(pretendi devassar o nascimento
da terrível magia) agora hesito,
e queimo - e tudo é o desmoronamento
do mistério que sofro e necessito.

Hesito, é certo, mas aguardo o assombro
com que verei descer de céus remotos
o raio que me fenderá no ombro.

Vinda a paz, rosa-após dos terramotos,
eu mesmo juntarei a estrela ou a pedra
que de mim reste sob os meus escombros.

(Ferreira Gullar)

Publicado por castafiore às 01:09 AM | Comentários (0)

abril 28, 2004

Vale a pena

Vale a pena pensar nas pequenas coisas do dia-a-dia, naquelas em que geralmente não reparamos, simplesmente porque nos parecem demasiado insignificantes para perdermos o nosso tempo com elas.

Achamos o nosso tempo tão importante, andamos sempre tão ocupados, com o tempo tão bem (ou tão mal) contado, que nunca pensamos naqueles para quem o tempo é realmente importante: 1 mês é determinante para uma mãe que corre o risco de ter um bébé prematuro; 1 semana é fundamental para o empresário que tem de conseguir o financiamento para pagar os salários dos seus trabalhadores; 1 dia, cada dia, tem um significado muito próprio para o paciente que tenta vencer uma doença muito grave; 1 hora é crucial para o estudante que vai fazer um exame e ainda não acabou de estudar a matéria; 1 minuto é a grande diferença para o viajante que acabou de perder o avião; e 1 segundo, ou menos ainda, conta tudo para o atleta de alta competição que acabou de bater o recorde do mundo por causa disso.

Tentarmos compreender a nossa dimensão, tentarmos relativizar a importância das coisas... vale a pena! Lembrarmo-nos do que é realmente importante e concentramo-nos nisso a sério, com o mesmo empenho que pomos no resto... também vale a pena.

Se pensarmos que porque nunca experimentámos o perigo de uma batalha, a solidão de uma prisão, a agonia da tortura ou a dor da fome, e concluirmos que, por isso mesmo, temos mais sorte do que 500 milhões de habitantes do mundo, devíamos considerar com mais calma aquilo que julgamos ser um problema.

Se nos lembrarmos que, porque podemos ir à igreja que escolhemos ou porque escolhemos não ir a nenhuma, porque podemos expressar livremente as nossas convicções políticas e as nossas crenças ideológicas, sejam elas quais forem, sem o perigo concreto de sermos presos, torturados ou mortos, se pensarmos que por isso temos mais sorte do que 3 milhões de pessoas no mundo... devíamos voltar a pensar naquelas coisas pequenas com que todos os dias nos irritamos.

Se temos algumas poupanças no banco, algum dinheiro na carteira ou uns trocos que sejam, amealhados em qualquer lado, e pensarmos que isso nos engloba nos 8% da população mundial que vive "bem" em termos económicos ... se calhar valia a pena voltarmos a pensar outra vez ainda...

... pensarmos se vale a pena e no que é que realmente vale a pena, pensarmos a sério e enevergonharmo-nos com muitos dos nossos pensamentos e preocupações, tantas vezes mesquinhas e egoístas quando analisadas numa outra escala mais global. Achar que com os problemas dos outros "podemos bem" não resolve igualmente a situação. Os problemas podem ser dos outros hoje mas poderão ser nossos amanhã... e é então que será muito importante saber se aprendemos o que é que realmente vale a pena.

Publicado por castafiore às 12:00 AM | Comentários (1)

abril 27, 2004

Com unhas e dentes

Ontem ou anteontem, já não sei ao certo, ouvi uma entrevista com o advogado da Fátima Felgueiras. Fiquei deslumbrada! Muito indignado, estava aquele senhor, por saber que alguns torpes e desonestos políticos do nosso país pretendem que a sua ilustre constituinte deveria perder o mandato de autarca por motivo de faltas!!!!??? Até onde pode chegar a má fé, senhores? Até onde???? É que a Dra. FF, não está a faltar...!!! Isso só aconteceria, se estando em Portugal , ela não cumprisse com as suas obrigações! Mas se ela nem sequer está no país, se ela nem cá pode entrar.... Como é possível pretender que a zelosa política possa estar em situação menos linear??? Com sinceridade..... Má fé, é o que é, má fé..... Sim senhor, Sr. Advogado! É de se lhe tirar o chapéu! E de não esquecer nunca o seu nome também, pois se um dia estivermos em apuros, não há que hesitar... Está desde já contratado: isto sim, é mesmo "vestir a camisola"!

Publicado por castafiore às 01:08 AM | Comentários (0)

Saudade

"Saudade, o subtil veneno da melancolia"

(Valéry)

Publicado por castafiore às 12:58 AM | Comentários (0)

abril 26, 2004

Da condição humana

Todos sofremos.
O mesmo ferro oculto
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta.
O mesmo sal nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme
A humanidade que nos foi imposta.
Onde nos encontramos, divergimos.
É por sermos iguais que nos esquecemos
Que foi do mesmo sangue,
Que foi do mesmo ventre que surgimos.

(José Carlos Ary dos Santos)

Publicado por castafiore às 11:59 PM | Comentários (0)

abril 25, 2004

Geracao HEIDI vs. Geracao POKEMON

GERAÇÃO HEIDI
Têm hoje 30 anos, ou à volta disso. Chamavam-se Anas "qualquer coisa..." (especialmente Cristina, Filipa, Rita ou Sofia). As outras eram Carla, Sandra ou Sónia. Os rapazes eram João "qualquer coisa..." (geralmente Pedro, Nuno ou Paulo) ou Luís Miguel. Muitas mães eram domésticas, e levantavam-se mais cedo para enfiarem almôndegas à força nos termos da escola. As que não eram andavam muito ocupadas nas manifestações e davam dinheiro para comer na cantina. Principal preocupação dos pais: que os filhos dessem em doutores.

Pequeno-almoço: papa de qualquer coisa, se possível com leite gordo e muito açúcar, ou então café com leite. Lanche: uma carcaça mole ensopada de doce de morango ou marmelada. Comida da cantina: carne assada com massa, bife com massa ou jardineira.

Levava-se para a escola: uma mochila verde tipo tropa com fechos de cabedal que encaracolavam no segundo dia e com inscrições dos grupos favoritos. Havia uma régua espetada nos dias das aulas de desenho. Pesavam toneladas. Não se conseguia encontrar os livros escolares. Estavam sempre esgotados porque eram os mesmos para toda a gente. Havia quem os forrasse para passarem para o irmão mais novo no ano seguinte. Na papelaria da esquina comprava-se 1 embalagem de marcadores, 1 afia, 1 borracha, 1 esquadro e era suposto que desse para todo o ano.

Na ginástica, usava-se sapatilhas brancas e fatos de treino azul escuro, encarnados ou verdes com uma risca branca e uns fechos muito desconfortáveis que faziam uma marreca à frente. Nas aulas: faziam-se cadernos de autógrafos a dizer: "Nas ondas do teu cabelo, ensinaste-me a nadar / Agora que estás careca, ensina-me a patinar". Passavam-se papelinhos.

Nas férias: iam para a casa dos avós ou eram deixados à balda. Vestia-se aquilo que viesse à mão. Blusas verde-eléctrico com golas de bico, calças de bombazine com joalheiras. As meninas podiam ter aplicações de malmequeres de pano, vestiam saias de pregas sem nenhuma forma e sapatos rasos com lacinhos. Ambos: pull-overs às riscas, camisolas tricotadas pelas mães dois números acima, kispos (que deveriam durar quatro anos, no mínimo), galochas amarelas e botas caneleiras. Não havia a Zara. Era normal ser-se muito feio com 10 anos.

Trocavam-se cromos das Maravilhas da Natureza, da Heidi, do Vicky ou da caderneta do Benfica. Em casa brincava-se: às bonecas, aos carrinhos e com os bonecos dos Strunfs. Jogava-se ao jogo da Glória e ao Monopólio. Batia-se nos irmãos. Com os amigos, andava-se de skate, jogava-se ao elástico, o bate-pé e ao quarto-escuro. Alguns ficavam na rua a tarde toda a jogar à bola e a andar de bicicleta.

Lia-se: "A Condessa de Ségur", os "Cinco", as "Gémeas no Colégio de Santa Clara" e a Patrícia, a Mónica, a Mafaldinha e o Astérix. Os rapazes liam o Michel Vaillant. Na televisão via-se a "Abelha Maia", a "Água Viva" e o "Espaço 1999" (em reposição contínua), O Vasco Granja com desenhos animados checoslovacos que ensinavam a atravessar a rua, a Pantera cor-de-rosa e o professor Baltazar. Aos domingos, o Júlio Isidro, o "Sítio do picapau amarelo", "Dallas, o "Homem da Atlântida", os "Marretas" os "Anjos de Charlie" e "Os 3 Dukes".

No cinema: "7 noivas para 7 irmãos", "Sissi", "ET", a "Musica no coração" pela 2934484.ª vez, e"Os malucos" em outras fases da sua existência.

Ídolos: O Chalana, os Queen, Duran Duran, Billy Idol, Bruce Springsteen, Brian Adams, Sheena Easton e Bob Geldolf.

O que se vai recordar: esfregar a sola dos sapatos novos no passeio. A bola da comida de termo no prato. Verdade ou consequência. Os Porcos no Espaço. A tiara de lata da Supermulher, as barbatanas entre os dedos do Patrick Duffy. Os pacotes de Belinhas.


GERAÇÃO POKÉMON
Têm hoje 10 anos ou por volta disso. Chamam-se Joana, Inês e Filipa. Ou então, Marta, Mariana, Madalena ou Rita, sem falar na Cátia e na Vanessa, claro. Os rapazes são André, Tiago, Bernando, Fábio ou Marco. As mães trabalham até às 8 da noite, passam duas horas paradas no tabuleiro da ponte a ouvir a Rádio Nostalgia ou a pensar na vida e sabem que descongelar é uma arte. Principal preocupação dos pais: que os filhos não dêem em drogados.

Pequeno almoço: qualquer coisa que tenha crocante, chocolate e brinde escrito no mesmo pacote. Lanche: donuts, batatas fritas, tiras de milho frito ou snacks de chocolate. Comida da cantina: carne assada com massa, frango com massa ou bife com massa.

Levam para a escola uma mochila de rodinhas. Ou, então, mochilas impermeáveis de marca, pretas ou azul-escuro. Continuam a pesar toneladas. Em Setembro vão ao corredor do hipermercado que diz "Regresso às Aulas" e compram milhares de canetas, aguarelas e lápis de cera. Têm coisas sofisticadíssimas dentro do estojo, principalmente as meninas: borrachas com cheiro a tangerina, elásticos e fitas do cabelo, autocolantes minúsculos e pulseiras. Na ginástica, as meninas vestem tops e calças de lycra. Os rapazes, calções. Ambos: ténis com sola fluorescente e que não digam "Made in Indonesia". Nas aulas: jogam Gameboy e mandam mensagens pelo telemóvel.

Nas férias: vão para campos de férias moer o juízo dos animadores ou passam 15 dias em Inglaterra a estudar Inglês. Os mais sortudos vão para casa de um amigo. Ambos vestem calças e sweat-shirts com t-shirt por baixo ténis em camurça. As meninas usam brincos, pulseiras, borboletas autocolantes para espetar no pescoço, molas, ganchos, malinhas, gel fluorescente. Há calças especiais para meninas, mais justas em cima. Todos os anos (algumas todos os dias) têm roupa nova. Não é suposto andarem andrajosos, nem no recreio. Conhecem-se as tendências internacionais. Há marcas que usam e outras que só por cima do seu cadáver. Trocam-se cartas do Pokémon e brindes de pacotes de batatas fritas. Quem pode, joga computador e fala num chat da Internet até às 4 da manhã. Vê-se televisão. Bate-se nos irmãos (é bom ver que algumas coisas não mudam). Nunca se brinca na rua porque se pode ser raptado por um pedófilo. O tempo que não se está na escola, está-se no inglês, na natação, no taekondo, no kickboxing ou, então, em casa a olhar para o ar.

Lêem: a colecção "Uma aventura" e outros autores portugueses. Os "Arrepios". "O clube das Amigas". Os mais intelectuais já se atiram ao Harry Potter.

Na televisão vêem: tudo o que os adultos vêem...


Não sei porquê, mas acho que alguma coisa, algures no meio deste processo, não correu bem…

Publicado por castafiore às 11:14 PM | Comentários (3)

Sonhar

"Sonho com uma casa (...) que só vive em mim, onde entro, às vezes, para me sentar e esquecer".

(André Lafont)

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abril 24, 2004

A Terra em miniatura

Se fizermos um exercício de comparações e proporções estatísticas e matemáticas somos capazes de aprender alguns factos curiosos que talvez nos façam pensar na necessidade de relativizar a importância das coisas, da vida, das situações.

Vamos considerar a população do planeta Terra e vamos reduzi-la a uma escala mais pequena e mais fácil de apreendermos: uma aldeia com 100 pessoas. Agora vamos reduzir todas as restantes percentagens à mesma escala.

Sabem como seria o perfil demográfico, económico e sócio-cultural dessa aldeia? Vejam:

- 57 asiáticos, 21 europeus, 8 africanos, 4 americanos;
- 52 mulheres e 48 homens;
- 30 brancos;
- 70 não cristãos;
- 11 homossexuais;
- 6 pessoas deteriam 59% da riqueza da aldeia;
- 80 viveriam em condições subhumanas;
- 70 analfabetos;
- 50 subnutridos;
- 1 com educação universitária;

Dá que pensar, não dá?

Publicado por castafiore às 01:00 AM | Comentários (2)

abril 23, 2004

Siga aquele táxi

Não sei se é só comigo que este fenómeno se passa, mas cada vez que tento apanhar um táxi sinto-me como a actriz principal do filme "Missão Impossível". Aqueles úteis meios de transporte são dotados no seu tejadilho de duas luzes que pretendem assinalar se o veículo se encontra ou não ocupado. Presumo que a louvável intenção seria evitar aquela figura entre o patético e o hilariante que todos fazemos, equilibrados na borda do passeio, a esbracejar freneticamente sem conseguirmos distinguir se o táxi vem ou não ocupado mas demasiado desesperados com a espera para deixar escapar aquela ténue oportunidade de obter transporte!
Pois muito bem! O pior é que algum cérebro genial entendeu que a luz verde deveria acender-se quando o táxi .... está ocupado! Lógico, não é? Nada a fazer no entanto, pois a matéria era inclusivamente objecto de regulamentação solene!
Porém, parece que água mole em pedra dura, efectivamente tanto dá até que fura, pelo que o ano passado, decidiu-se pela normalização da situação e então lá condescenderam que sim, que pronto, talvez até fizesse algum sentido a luz verde acessa indicar que o veículo estava disponível... Estabeleceu-se assim um novo sistema de sinaléctica para os táxis que iria ser instalado a partir de então nos carros que obtivessem novas licenças ou fossem adquiridos pela 1.ª vez!
Tudo certo, finalmente?
Não! Tudo errado!
É que os anteriores táxis mantinham o seu antigo sistema para não obrigar os desgraçados proprietários a despesas acrescidas e, faseadamente, até Março deste ano (prazo entretanto já alargado "sine die"), o 2 sistemas podiam coexistir...
Ora, isto representa uma carga de nervos acrescida para os potenciais utentes: não apenas temos de nos afligir com a dificuldade de apanhar o táxi, arriscar a vida em equilibrio instável na borda do passeio a tentar vislumbrar um no horizonte, iniciar o processo de "esbracejamento", como agora, risco acrescido, temos de arriscar o pézinho no alcatrão para tentar descortinar em breves segundos se o sistema de luzes no tejadilho é dos antigos ou dos novos, consultar os nossos apontamentos, verificar qual o significado da luz verde de acordo com o sistema em vigor e, finalmente então, ou retroceder para o passeio com um ar infeliz ou avançar mais uns passos destemidos e fazer uma placagem directa ao taxista.
Como entretanto decorreram cerca de 5 minutos, já o táxi, que por acaso até ia vazio e com ambas as luzes apagadas porque o proprietário as deixou fundir e se esqueceu de comprar o kit de substituição, passou por nós uma tangente furiosa e desapareceu algures no horizonte...
Face ao actual panorama creio que poderíamos sugerir outros tipos de sinalização para que, ao fazermos sinal para que o táxi páre, possamos saber de antemão qual a escolha clubística do condutor, as suas convicções religiosas, que estação de rádio tem seleccionada, qual a data de realização do exame de condução, etc. Tudo informações úteis para quem, afinal, vai passar as 2 horas seguintes preso no inevitável engarrafamento a ter de ouvir a conversa do condutor... Através de um sistema de luzes de várias cores tipo grinalda-de-árvore-de-natal que acenderiam formando diversas sequências todo este género de informações úteis seria disponibilizado... Dúvidas? Decerto que sim, mas facilmente resolvidas pela consulta de pequenos manuais postos à venda pelas centrais de táxis (preço simbólico de € 10,00 de acréscimo sobre a bandeirada...) para que os utentes pudessem descodificar toda a informação de forma imediata e com facilidade...
Não sei qual a vossa opinião mas por mim, geralmente desisto e vou a pé...

Publicado por castafiore às 12:52 AM | Comentários (0)

Impunidade

"A impunidade é filha da fraca memória"

(Eduardo Galeano)

Publicado por castafiore às 12:45 AM | Comentários (0)

Nova cantiga de amigo

Senhor,
Partem tão tristes
Estes olhos que vos dei
Por não saber encontrar
Maneira de em vós chegar
Um amor que haja lei.

Partem tão tristes os tristes,
Tão doentes da partida
Que, por muito que chorassem,
Mais ainda desejassem,
Jamais vos convenceriam
Em vós ter descansado
Meu coração minha vida.

Se na porfia de amar,
Vos aborreço e desgosto,
Partirei meu corpo um mar,
Meus olhos vazios parados,
Buscando ternuras cem.

E como de amor perdidos
Inda levo meus sentidos
Penas de vosso desdém,
Nunca tão tristes vistes,
Outros nenhuns por ninguém.

(Tito Lívio - glosa da cantiga "Partindo-se" de João Roiz de Castelo Branco do "Cancioneiro Geral" de Garcia Resende)

Publicado por castafiore às 12:22 AM | Comentários (0)

abril 22, 2004

Basra

Ontem, em Basra, no sul do Iraque, houve vários atentados suicidas, à bomba, que causaram a morte de 68 civis. Entre eles encontram-se 18 crianças que, por ser de manhã, se dirigiam para as aulas, em autocarros escolares.

Questões políticas à parte acho que nos devíamos lembrar que são os netos, filhos, irmãos de alguém, que de manhã saíram de casa, provavelmente alegres, para mais um dia de escola e que nunca, nunca mais vão voltar.

O terrorismo, por muito nobres que sejam os motivos e as causas que lhe sirvam de suporte, é a forma de luta mais cobarde que existe. Quem o pratica e quem a ele recorre, ainda que inicialmente coberto de razão, transforma-se no mais desprezível dos seres. NADA justifica o que aconteceu... NINGUÉM que participe num acto destes pode ser perdoado.

Não deixem de olhar para a fotografia por muito que vos custe; façam-no, ao menos, por respeito para com os que morreram e para com as respectivas famílias. Aquilo que vos possa impressionar, acreditem que nem se pode começar a comparar com a dor que eles sentem neste momento!

Publicado por castafiore às 12:15 AM | Comentários (7)

abril 21, 2004

Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do reino de aquém e de além dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer o que deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

("Ser poeta", in "Charneca em flor" - Florbela Espanca)

Publicado por castafiore às 01:07 AM | Comentários (2)

O nosso destino

Tal como há muitos caminhos na floresta, também há muitos futuros para cada um de nós, mas apenas um caminho é o nosso verdadeiro destino.

(crença mexicana - séc. XIX)

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O pior emprego do mundo

Publicado por castafiore às 12:33 AM | Comentários (0)

Se tu me esqueces

Quero que saibas
uma coisa.

Tu sabes como é:
se contemplo
a lua de cristal, os ramos rubros
do outono lento da minha janela,
se toco
ao pé do lume
a impalpável cinza
ou o corpo enrugado da lenha,
tudo a ti me conduz,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
em direcção às tuas ilhas que me esperam.

Ora bem,
se a pouco e pouco deixas de amar-me,
deixarei de amar-te a pouco e pouco.

Se de repente me esqueceres,
não me procures,
que já te haverei esquecido.

Se consideras longo e louco
o vento de bandeiras
que percorre a minha vida
e decidires
deixar-me à margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
nessa hora,
levantarei os braços
e as minhas raízes irão
procurar outra terra.

Mas se em cada dia,
em cada hora,
sentes que a mim estás destinada
com doçura implacável.
Se em cada dia em teus lábios
nasce uma flor que me procura,
ai, meu amor, ai, minha,
todo esse fogo em mim se renova,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor do teu amor se nutre, amada,
e enquanto viveres continuará nos teus braços
sem abandonar os meus.

("Se tu me esqueces", in "Os versos do capitão" - Pablo Neruda)

Publicado por castafiore às 12:04 AM | Comentários (0)

abril 20, 2004

Fernando Savater

"Podemos viver de muitas maneiras mas há maneiras que não nos deixam viver."

(Fernando Savater)

Publicado por castafiore às 11:45 PM | Comentários (0)

abril 19, 2004

Evolução-II

Publicado por castafiore às 12:46 AM | Comentários (0)

Entrevista com Maria João Pires

" O que me assusta mais são as coisas não assumidas, as coisas escondidas. A mentira em que nós vivemos. Eu chamo-lhe um primitivismo porque acho que o Homem, neste momento, está mais perto do Homem primitivo do que alguma vez esteve."

"Há impedimentos que nos fazem crescer e há sofrimentos que nos fazem evoluir e eu tomo isso, por vezes, quando estou um pouco desesperada e quando as coisas me correm mal, tomo isso como uma forma de aprender."

(Maria João Pires em entrevista ao DNA, 14 de Dezembro de 2002)

Publicado por castafiore às 12:22 AM | Comentários (1)

abril 18, 2004

David Mourão-Ferreira

"Começas a vestir-te, lentamente,
E é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo..."

(David Mourão-Ferreira)

Publicado por castafiore às 11:56 PM | Comentários (1)

Leonardo da Vinci

Outro dia, ao ler um artigo muito interessante sobre a vida de Leonardo da Vinci, deparei-me com a seguinte frase, de um historiador russo (Dmitri S. Merezhkovsky), que em 1901 iniciou uma série de estudos e trabalhos que acabaram por culminar numa importante biografia do génio italiano:
"Foi como um homem que acordou demasiado cedo, na escuridão, enquanto todas as outras pessoas ainda dormiam".
Achei a frase cheia de significado e de verdade.

Publicado por castafiore às 11:16 PM | Comentários (1)

abril 17, 2004

O meu Pai

O meu Pai fazia hoje anos. O tempo do verbo está no passado porque, infelizmente, há já 8 anos que não posso dar-lhe um beijo especial de Parabéns neste dia ... E todos os dias, hoje em particular, penso nele e, curiosamente, as saudades não diminuem...; apenas aprendi a viver com elas.
Para ele, gostava de aqui deixar o último parágrafo do livro "Morreste-me" do José Luís Peixoto, escrito também em memória de um Pai querido...

"Descansa, pai, dorme pequenino, que levo o teu nome e as tuas certezas e os teus sonhos no espaço dos meus. Descansa, não vou deixar que te aconteça mal. Não se aflija pai. Sou forte nesta terra nos meus pés. Sou capaz e vou trabalhar e vou trazer de novo aqui o mundo que foi nosso. Vou mesmo, pai. O mundo solar. Reconhecê-lo-ei, porque não o esqueci. E também o tempo será de novo, e também a vida. Sem ti e sempre contigo. A tua voz a dizer orienta-te (...). Não se apoquente, pai. Eu oriento-me. Pai, não se preocupe comigo. Eu oriento-me. E vou. Anoitece a estrada no que sobra da manhã. Chove sol luz onde está o que os meus olhos vêem. A carrinha grande que prometeste, que planeaste para nós, que ganhaste a trabalhar meses, leva-me. Onde estás pai, que me deixaste só a gritar onde estás? Na angústia, preciso de te ouvir, preciso que me estendas a mão. E nunca mais nunca mais. Pai. Dorme, pequenino, que foste tanto. E espeta-se-me no peito nunca mais te poder ouvir ver tocar. Pai, onde estiveres, dorme agora. Menino. Eras um pouco muito de mim. Descansa, pai. Ficou o teu sorriso no que não esqueço, ficaste todo em mim. Pai. Nunca esquecerei."

Nunca esquecerei...

Publicado por castafiore às 12:50 AM | Comentários (2)

Twelve Songs - W.H.Auden

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with a muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let the aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crêpe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.

The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.

(W.H. Auden- Twelve Songs)

NOTA - os saudosos do filme "Quatro casamentos e um funeral" são capazes de reconhecer este poema...

Publicado por castafiore às 12:30 AM | Comentários (1)

Angústia

Publicado por castafiore às 12:10 AM | Comentários (0)

Canto Franciscano - Ary dos Santos

Por onde passaste tu
que não soubeste passar?
Pela sandália do tempo
pelo cílio do luar
pelo cílio do vento
pelo tímpano do mar?
Por onde passaste tu
que não soubeste passar?

Por onde passaste tu
que me ficaste cá dentro
tenaz do fogo divino
irmão pinho ou aloendro?
Por onde passaste tu
que me ficaste cá dentro?

Pois bem: nos campos da fome
ou nos caminhos do frio
se eu encontrasse o teu nome
lançava-te o desafio:
por onde passaste tu
pétala viva dos cerdos
rei das chagas e dos podres
- por onde passaste tu
não passaram as minhas dores!

Nasci da mãe que não tive
do pai que nunca terei
e aquilo que sobrevive
é o irmão que não sei:
uma espécie de fogueira
de corpo que me deslumbra.
Tudo o mais à minha beira
é uma réstia de sombra.
- Por onde passaste tu
com artelhos de penumbra?

Eis-me. Eis-me incendiado
por não saber perdoar.
Meu irmão passa de lado
- Eu sei como hei-de passar.

(Ary dos Santos - cantado por Fernando Tordo)

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abril 16, 2004

Heresias

Publicado por castafiore às 01:18 AM | Comentários (0)

Alma Perdida

Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma de gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dor, suavemente...
Talvez sejas a alma, alma doente
D'alguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste ... e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh'alma
Que chorasse perdida em tua voz!...

(Florbela Espanca - Livro de Mágoas)

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abril 15, 2004

Orientação

Publicado por castafiore às 12:19 AM | Comentários (0)

Relatório sobre o 11-09

Porque temos de saber sorrir mesmo perante a adversidade e com todo o respeito pelas vítimas do ataque terrorista de 11 de Setembro de 2001, nos EUA, aqui fica a razão "top secret" pela qual Portugal escapou ao atentado...

Um relatório do SIS e do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras recentemente revelado informa que o atentado perpetrado nas cidades de Nova Iorque e Washington em 11 de Setembro de 2001 estava destinado a ser cometido, única e exclusivamente na cidade de Lisboa.
Por diversos motivos que passaremos a detalhar, segundo as informações entretanto recolhidas, 2 terroristas de algum lugar do Médio Oriente chegaram a Lisboa com a firme determinação de executar o "castigo de Alá para com os infiéis portugueses". Tal castigo não pôde, porém, ser levado a cabo. Eis a história e o itinerário seguido pelos 2 terroristas uma vez chegados ao nosso país:
Domingo - 23.47 h.
Chegam ao aeroporto da Portela, via aérea vindos da Turquia, saem do aeroporto com oito horas de atraso depois de conseguirem recuperar as bagagens que estavam perdidas. Apanham um táxi. O taxista vê-os pelo espelho e ao ver a pinta de turistas que tinham resolve passeá-los por toda a Lisboa durante uma hora e meia. Ao ver que não abriam o bico depois de lhes ser cobrado 150 euros pela tarifa, resolve tramá-los e por telemóvel chama um cúmplice que entra no táxi na Rotunda de Algés. Depois de uma carga de porrada e de lhes terem roubado todos os seus pertences, deixam-nos em Monsanto na companhia dos esquilos.
Segunda - 4.30 h.
Ao acordarem, conseguem chegar a um Hotel da Segunda Circular. Ao voltar de carro do hotel para o centro, são confrontados com uma manifestação da FENPROF em conjunto com uma de funcionários camarários e outra de agricultores do Alentejo juntamente com alguns condutores de tractores do Oeste. Ficaram retidos no trânsito por tempo indeterminado.
7.30 h.
Chegam ao Rossio (por fim!). Precisam de trocar dinheiro para se movimentarem sem levantar suspeitas. Os seus dólares são trocados por notas de 50 euros falsas!!!
7.45 h.
Chegados à Portela tentam embarcar num avião que se despenhasse sobre a Ponte 25 de Abril. Os pilotos da TAP estão em greve. Exigem que lhes tripliquem o seu ordenado e reduzam as suas horas de trabalho. Os controladores de voo queixam-se do mesmo. O único avião em pista é da Sata Internacional e já tinha 13 horas de atraso em relação à hora prevista da sua partida. O pessoal de terra e os passageiros acampam no aeroporto, gritam palavras de ordem contra o governo e os pilotos. Chega a brigada de intervenção da PSP e distribui paulada por todos os presentes.
19.05 h
Por fim, os ânimos acalmam-se. Dirigem-se ao balcão de uma companhia não identificada e pedem 2 bilhetes para o Porto. Sempre com a intenção de o desviar e fazê-lo explodir contra um dos pilares da ponte. Mas o funcionário do balcão (um tal de Octávio Machado) vende-lhes bilhetes de um voo que já não existia!!!
19.07 h.
Tendo em conta o avançado da hora discutem entre si se deverão executar o seu plano ou não. Fazer explodir a ponte e tudo ao seu redor já lhes parece mais uma obra de caridade que um acto terrorista.
20.30 h.
Mortos de fome, e decididos a cumprir a vontade do Profeta, a todo o custo, vão comer algo no bar do Aeroporto, para recuperar energias; pedem duas chamuças e rissóis de camarão com salada russa
Terça-feira - 14.35 h.
Recuperam no Hospital de São José de uma dose de cavalo de salmonela causada pela salada russa depois de ter esperado toda a noite para que os atendessem. A recuperação teria sido rápida não fosse o desmoronar do tecto da enfermaria onde foram instalados.
1 semana depois...
Uma semana depois têm alta do hospital e ao passarem pelo Bairro Alto vêem-se envolvidos numa rixa entre gangs rivais de skins que se unem para lhes dar outra valente sova. Decidem "dar de beber à dor", que é o melhor visto que nada lhes sai de feição. Várias garrafas de uisque de Sacavém levam-os outra vez ao hospital com uma infecção hepática.
Quarta-feira – 15.00 h.
Escondem-se num contentor do primeiro barco que encontram e resolvem fugir do país na esperança de chegar vivos a Marrocos. Com uma ressaca monumental juram por Alá não voltar a tentar nada no nosso país...

... decidem fazê-lo nos EUA por ser muito mais fácil... e menos arriscado!


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abril 14, 2004

Fernando Pessoa - III

Contemplo o que não vejo.
É tarde, é quase escuro,
E quanto em mim desejo
Está parado ante o muro.

Por cima o céu é grande;
Sinto árvores além;
Embora o vento abrande,
Há folhas em vaivém.

Tudo é do outro lado,
No que há e no que penso.
Nem há ramo agitado
Que o céu não seja imenso.

Confunde-se o que existe
Com o que durmo e sou.
Não sinto, não sou triste,
Mas triste é o que estou.

(Fernando Pessoa)

Publicado por castafiore às 11:49 PM | Comentários (0)

Vizinhos

Um apontamento mais trivial: os meus vizinhos. Concretamente os meus vizinhos de cima. São muito versáteis! E muito, mas mesmo muito enérgicos! Acordam todos os dias às 7 da manhã, calçam sapatos de salto alto e botas cardadas a toda a família e iniciam aquilo que só pode ser um treino de sapateado... Em simultâneo começam a mudar toda a mobília da casa de umas divisões para as outras, com especial incidência naquela que fica por cima do meu quarto... Depois falam, gritam, chamam uns pelos outros, correm, deixam cair coisas ao chão e praticam actividades tão estranhas como diversificadas: jogam ao berlinde, saltam à macaca, treinam cama elástica e truques de malabarismo e dançam sevilhanas...
Se não é exactamente isto são coisas muito parecidas...
Incomodam??? Não, que ideia... Há 6 anos, dia após dia que andamos nisto...
Já foram contactados diversas vezes; já lhes foi explicado que perturbam, já foi pedido, negociado, suplicado, ameaçado.... Já foi informado que a lei e o regulamento do condomínio proíbem aqueles ruídos, àquelas horas... Inútil! Absolutamente inútil!!!!! Há mais reacção quando se fala com uma parede. Os seus cérebros mono neurónicos revelados pela expressão bovina do olhar levam até a duvidar se percebem sequer o som da língua Portuguesa. Apenas para se concluir, posteriormente, que não percebem uma vez que continuam a fazer exactamente o mesmo...
As hipóteses de mudar de casa para o último andar de um prédio, para um monte alentejano bem isolado ou mesmo para uma ilha deserta já foram seriamente ponderadas; tirar férias com calendários desencontrados é sempre uma alternativa... Ou então ... Planear vinganças sumarentas! O pior é que as madrugadas consecutivas impostas há tanto tempo começam já a afectar a imaginação. Se alguém tiver uma sugestão, as boas ideias agradecem-se...

Publicado por castafiore às 12:33 AM | Comentários (1)

Ninguém

Publicado por castafiore às 12:18 AM | Comentários (2)

Saramago

Ainda sobre a polémica que o mais recente livro de José Saramago está a provocar gostava de partilhar convosco o artigo, ou melhor parte do artigo, que Boaventura Sousa Santos escreveu na revista Visão desta semana, porque me parece colocar uma pedra de toque importante sobre esta matéria e porque traduz muito bem aquilo que eu própria penso sobre a matéria:
"Na Democracia Representativa (DR), os cidadãos elegem os decisores políticos, isto é, renunciam a decidir para além do voto, delegando nos eleitos as decisões e esperando que eles decidam a contento. Na Democracia Participativa (DP), os cidadãos tomam as decisões de modo organizado. Porque obriga a uma partilha do poder decisório, a complementaridade entre DR e DP é difícil, não impossível. Penso, aliás, que nessa complementaridade está o futuro da democracia. Os inconformistas quase nunca têm razão nos precisos termos em que se manifestam. Mas quase sempre têm razão na identificação do problema que os inconforma e no sentido geral da solução que eventualmente lhe será dada. Aos inconformistas só a História, nunca os contemporâneos, pode dar razão."

Publicado por castafiore às 12:11 AM | Comentários (2)

Um fado: palavras minhas

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
- que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

(Pedro Tamen)

Publicado por castafiore às 12:00 AM | Comentários (1)

abril 13, 2004

Evolução

Publicado por castafiore às 01:45 AM | Comentários (0)

Quem morre?

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajectos,quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções, justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente, quem abandona um projecto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige
um esforço muito maior que o simples facto de respirar.
Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio esplêndido de
felicidade.

(Pablo Neruda)

Publicado por castafiore às 01:15 AM | Comentários (0)

Antítese

Publicado por castafiore às 12:29 AM | Comentários (0)

abril 12, 2004

La Brusketta

Um restaurante de comer e chorar por mais, que mistura as cozinhas portuguesa, italiana e uma pitadinha de americana. O espaço, ali mesmo ao lado do Largo do Rato, não podia ser mais giro em termos de aproveitamento arquitectónico de uma casa antiga, daquelas em que cada parede interior e cada arco têm o dobro da espessura das paredes que se constroem hoje em dia. O mobiliário e a decoração são muito interessantes e criam uma atmosfera agradável. O pessoal é amável e atencioso. E como se não bastasse a ementa ser toda muito boa (adorei a brusketta vegetariana), preparem-se para o "grand finale"com uma sobremesa que não vem na lista mas que podem pedir em segredo: o bolo de chocolate... Um dos 4 melhores de toda a cidade de Lisboa! Garantido! Onde fica: Rua de São Filipe Nery, n.º 12 e 14. Serve almoços e jantares e fecha ao domingo.

Publicado por castafiore às 11:54 PM | Comentários (4)

abril 09, 2004

Cântico Negro - José Régio

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olhos-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam os meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um atómo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí!

(José Régio - Cântico Negro)

Publicado por castafiore às 08:51 PM | Comentários (2)

Vasco Pulido Valente vs. José Saramago

Na revista Visão desta semana, na secção "Em foco - Os outros" entre as habituais citações-maravilha, vem uma a que tem de se dar particular destaque; reza assim:
"Saramago é um escritor pouco interessante e nada original (o Nobel, um prémio político, não garante a qualidade) e a ideia do voto em branco, além de conformista, é eminentemente estúpida." (Vasco Pulido Valente)
Apesar de já o ter comprado, ainda não li o último livro de José Saramago onde a questão do voto em branco é abordada. Pessoalmente gosto de Saramago como escritor. Reconheço-lhe uma qualidade literária e intelectual fora do vulgar; o facto de ter ganho o prémio Nobel (o VPV que me perdoe, mas sim, é garantia de qualidade - só alguém muito tapado ou ressabiado pode achar o contrário...) enche-me de orgulho, pelo facto de ser um escritor Português. Isso não me obriga a estar sempre de acordo com as ideias das pessoas a quem reconheço essas qualidades. Neste caso em concreto, até provavelmente estarei de acordo pois a questão do voto em branco e o peso democrático e político dessa opção é uma questão sobre a qual há muito que ando a refletir. No entanto, e sobre isso, guardo a minha opinião para depois da leitura do "Ensaio sobre a lucidez".
O que aqui não posso deixar de comentar é a prepotência do comentário do Vasco Pulido Valente. E mesmo sabendo que cada um tem direito às suas opiniões, o facto de ouvir esta enormidade obriga-me moralmente a classificá-la daquilo que é: uma imbecilidade pronunciada por um indíviduo a quem infelizmente se continua a dar mais credibilidade e relevo do que aqueles que alguma vez mereceu... Será que em relação a ele ninguém consegue ver a realidade? Quem é este homem para merecer que alguém lhe oiça as opiniões?? Não sabe pensar nem escrever, fala com grandes dificuldades de articulação e as suas aparições televisivas e radiofónicas raiam o patético! Alguém há muito tempo o rotulou de "brilhante", e todos os outros com receio de serem tomados por parvos se não concordassem assentiram... Caramba! Não vêem que o rei vai nu, completamente nu, no caso dele???????

Publicado por castafiore às 07:46 PM | Comentários (2)

Major crisis

O sistema informático teve um colapso grave, global e generalizado. Apenas ontem voltou a ficar operacional e hoje começa a recuperar as suas anteriores potencialidades .... Esta a razão do silêncio. Curioso o clima de nervosismo/pânico que se instalou e a sensação de isolamento apenas porque não tínhamos acesso à internet, ao email, ao blog... Pensar que há 10 anos atrás as nossas vidas decorriam de forma perfeitamente equilibrada sem computadores em casa, emails, internet, telemóveis e esta necessidade/busca constante de estarmos em permanente comunicação e permanentemente on-call e on-line... "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades" e ninguém questiona a necessidade de acompanhar o ritmo do tempo, mas às vezes surge a dúvida se estas evoluções vão realmente no bom caminho... Pensar que outro dia estava a ver um filme na televisão e dei por mim a pensar que devia ser um filme já muito antigo pois os personagens, quando precisavam de comunicar uns com os outros, usavam cabines telefónicas e não telemóveis ... Até fiquei irritada comigo mesma!

Publicado por castafiore às 06:59 PM | Comentários (0)

abril 04, 2004

Cinemateca Portuguesa

Na continuação do seu programa "A luz fixa das estrelas" a Cinemateca Portuguesa dedica o mês de Abril a 4 grandes actores internacionais: Marlon Brando, Elizabeth Taylor, Sean Connery e Julia Roberts.
Com maior simpatia pelos representantes masculinos, apenas porque enquanto profissionais os considero bem melhores do que as actrizes em questão, saliento alguns bons filmes que podem ser vistos: O Padrinho, O último tango em Paris, Marnie, Os intocáveis e Negócio de Família.
Para verem o calendário completo e o horário das sessões, consultem o site da Cinemateca em www.cinemateca.pt.

Publicado por castafiore às 05:01 PM | Comentários (0)

Emel

Cidade de Lisboa. Um qualquer dia de semana. Zona central de escritórios. Rua de bastante movimento com estacionamento pago e controlado pela EMEL. Hora indeterminada a meio da manhã. Um fiscal da EMEL entra na rua da forma mais discreta que consegue e aproxima-se dos carros estacionados, quase na totalidade sem estarem a pagar. É detectado pelo Segurança do meu edifício de escritórios. Frenesim de telefonemas estratégicos, palavra rapidamente passada, elevadores entupidos com a afluência, e vista de cima, a massa de pessoas que se precipita para fora do edifício em direcção aos parquímetros parece um formigueiro gigante. O pagamento é feito nas barbas do fiscal e os papelinhos postos atempadamente no tabelier. Estacionamento pago pelo valor mínimo dos € 0,30, o suficiente para garantir a ausência da multa, e, pior ainda do bloqueador............

O cenário deve ser o mesmo e repetido por toda a cidade de Lisboa. Sobre esta matéria há muitas questões a abordar. Vamos portanto demorarmo-nos por aqui.

Os transportes públicos funcionam mal, os autocarros não têm horários, existem muitas zonas da cidade de Lisboa mal cobertas ou que apenas o são em horários muito específicos e felizmente que começamos a ter uma rede de metropolitano boa e bem desenhada. Ainda assim, resta-nos o direito, ou a necessidade, de querer utilizar o nosso carro. Próximo problema: a maioria dos edifícios de escritórios não tem garagem nem locais de estacionamento próprio e o montante diário de pagamento à EMEL comporta um custo de cerca de € 7,00 ou € 8,00; feitas as contas no fim do mês.......

Ainda assim, tenho a certeza que apenas o mais tacanho cidadão não compreende a necessidade de haver estacionamento pago e sanções justas para quem não cumpre. Mas é precisamente na questão do justo que temos de batalhar pois também tem de existir uma forma justa do controlo.

Os fiscais da EMEL dirigem-se a uma rua da cidade de Lisboa onde sabem que irão encontrar em média 30 carros estacionados em infracção mas levam apenas consigo 10 bloqueadores; há, consequentemente, 20 sortudos na rua. Mas a aplicação das normas não pode ser um critério de sorte ou azar. Azar, por exemplo, para os que não têm um jipe. Não sabiam que os bloqueadores da EMEL não bloqueiam rodas de jipe? Pois não, não têm a dimensão necessária......

E sabiam também que a EMEL não tem de facto poder legal para passar multas? Não tem! Cerca de 1995 ou 1996 foi publicado um decreto-lei que atribuía à EMEL a possibilidade de passar multas de estacionamento. Foi muito controverso na altura, uma vez que se tratava da atribuição de um poder contra-ordenatório a uma empresa particular. As forças policiais reagiram mal e se bem repararem não existe hoje em dia um único polícia a multar carros que não tenham pago o parquímetro (apenas multam os que se encontram em situação de infracção a uma qualquer disposição do código da estrada). Na altura foi inclusivamente suscitada a possível inconstitucionalidade do diploma que foi remetido para apreciação pelo Tribunal Constitucional, onde decerto tem ficado esquecido em nome de outros assuntos mais importantes, mas por outro lado, nunca chegou a ser publicado o necessário diploma regulador das normas estabelecidas pelo dito decreto-lei.

A realidade é que as multas que a EMEL passa são ilegais e do facto de não serem pagas não resulta nenhuma consequência directa uma vez que existe um vazio legislativo quanto a esses efeitos.

Mais uma vez aqui afirmo: sou a favor do estacionamento pago desde que exista um sistema justo e eficaz de controlo; ora isso não pode acontecer enquanto:
- as normas e métodos de controlo não permitirem uma sanção equivalente para todos os prevaricadores;
- não houver bloqueadores que imobilizem todos os tipos de carro;
- não deixarmos de ter de esperar 2 horas pelo carro que surge com os desbloqueadores;
- as autoridades bloquearem carros cujo tempo de estacionamento tiver sido ultrapassado em 10 minutos e nada fizerem em relação ao camião das obras que 5 metros mais à frente, estacionado em 3.ª fila cria um engarrafamento verdadeiramente perturbador;
- o pequeno poder da ameaça do carro embrulhado numa fita amarela se sobrepuser ao cumprimento básico de um dever cívico instituído e intrinsecamente absorvido por cada um de nós...

e, pessoalmente, enquanto não me convencerem que faz algum sentido que estando eu em infracção, a sanção imediata que me impõem é obrigarem-me a permanecer ainda por mais tempo em infracção......

Publicado por castafiore às 04:51 PM | Comentários (2)

abril 02, 2004

Fernando Pessoa - II

Eu amo tudo o que foi,
tudo o que já não é.
A dor que já me não dói,
a antiga e errónea fé.
O ontem que a dor deixou
e o que deixou alegria.
Só porque foi...
... e voou ...
E hoje é já outro dia.

(Fernando Pessoa)

Publicado por castafiore às 11:59 PM | Comentários (0)

Moedinhas

Um muito breve comentário sobre essa verdadeira "praga" que assola algumas ruas de Lisboa. Mas ninguém extermina definitivamente aqueles parasitas da sociedade que em locais de estacionamento pago ou em parques em lugares marcados saltam para o meio do caminho, gesticulam até à exaustão, bloqueiam a passagem e, uma vez o carro parado, mergulham sobre a porta num acesso nunca visto de cavalheirismo?
Não são velhinhos, não são aleijados; a maioria tem até uma constituição física de respeito ... São todos homens novos e capazes de trabalhar mas em vez de irem procurar um qualquer emprego, por muito precário que seja, preferem parasitar os outros. E isto admite-se?
Não dou moeda! Recuso-me! Sou diariamente insultada e já me mentalizei para, um dia ao regressar ao carro, o encontrar riscado ou com um pneu em baixo, mas não contribuo para isto!
Será que mais ninguém se incomoda ...??? Ou têm pena deles...???

Publicado por castafiore às 11:55 PM | Comentários (3)

Novas regras para a reforma

Hoje recebi este email; achei-lhe piada e aqui o deixo...

"Com a passagem para a hora de Verão, os ponteiros dos relógios avançaram directamente da 1h00 para as 2h00. Segundo fontes governamentais, Bagão Félix estará a ponderar a possibilidade de não contabilizar para o tempo de reforma a hora que os portugueses não viveram hoje. Perante a insistência dos jornalistas, o ministro perguntou: «será justo pagar por uma hora que não existiu?» O ministro avançou ainda com a possibilidade de, como compensação, oferecer a todas as famílias dois segundos por menor dependente. «Este é um gesto de solidariedade e justiça que estou seguro que será apoiado por todos os portugueses», disse.

Quanto aos 60 minutos que iriam ser recebidos daqui a seis meses, quando voltássemos à hora de Inverno, a ministra Manuela Ferreira Leite já terá informado todos os serviços públicos que, seguindo a política de contenção que o país vive, deverão ser retidos. Ferreira Leite não prestou declarações, mas o Primeiro-Ministro já prometeu que, em 2006, os portugueses viverão um dia suplementar. «O esforço que é pedido agora aos portugueses terá os seus frutos», afirmou.

Soube-se ainda, junto de fontes bem colocadas, que o Ministério das Finanças já terá entrado em negociações com uma instituição financeira internacional interessada em adquirir a hora que ficará em dívida."

Publicado por castafiore às 11:44 PM | Comentários (0)

Sucessões

Ainda me ocorre protestar quanto a outro assunto. Porque é que quando eu morrer os meus herdeiros têm de pagar ao Estado para ficarem com uma coisa que já era deles, por ser anteriormente minha e logo, necessariamente deles?

Já é suficientemente revoltante que por lei eu seja obrigada a ter de ter certos herdeiros ainda que não os queira, que não possa ter o direito de fazer à totalidade do meu dinheiro e dos meus bens aquilo que me apeteça e dê na “real gana”, porque afinal são meus e de mais ninguém e a mais ninguém deveria dizer respeito o que lhes faço.

Mas não! O Estado, que é um benemérito, vem proteger os sagrados valores da família e garantir que são os meus ascendentes e/ou descendentes quem em primeira mão recebe o património. Não se iludam. Não é para garantir essa instituição milenar..... É para melhor poder controlar se pagam ou não impostos, pois assim consegue-se restringir o número de declarações a fiscalizar.

E assim sendo, os meus filhos, comigo morta, para ficarem com a minha casa, que já era obviamente deles, ainda vão pagar (outra vez) dinheiro ao Estado, apesar de eu antes deles já ter pago para a comprar, para a construir, para lhe pôr luz eléctrica, para lhe ligar a água e até (que vulgaridade!), para ter a possibilidade de puxar o autoclismo.

Que me perdoem, mas isto não são impostos. Isto são assaltos à mão armada, delapidação de patrimónios particulares que o Estado, na sua figura de parasita residente utiliza, usa e abusa para se encher à custa da riqueza alheia.....

E ainda se houvesse algum retorno, se assim fosse, ainda se pagaria de bom grado....

Onde estão, então, pergunto eu, o sistema de saúde pública sem luxos mas de funcionamento impecável, eficiente e transversal? Onde está a rede de escolas de ensino escolar obrigatório com instalações dignas e confortáveis, com bibliotecas e laboratórios devidamente equipados e com uma rede de transportes própria? Onde está um sistema de segurança social que tira de facto a quem tem mais para dar a quem tem realmente menos e precisa desesperadamente de ajuda para sobreviver? Onde está a política de investimento sensata e razoável penalizando os que não cumprem e premiando os que contribuem? Onde está a sociedade segura e tranquila onde os mais idosos podem passear na rua às 11 da noite sem receio de serem atacados???? Não estão.....

Enquanto não souberem o que fazer ao nosso dinheiro, enquanto não me provarem que o sabem gerir para o bem comum, enquanto o retorno não for minimamente proporcional ao que é dado, lamento mas não terão o meu nem que para isso seja preciso inventar formas sucessivas e sistemáticas de evasão.

Publicado por castafiore às 01:10 AM | Comentários (4)

abril 01, 2004

Para a minha Mãe

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...
P'ra que o dia fosse enorme
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos da minha Mãe...

(Sebastião da Gama)

Publicado por castafiore às 08:29 PM | Comentários (0)