março 31, 2004

A Paixão de Cristo

Fui ver o filme de que se fala. Como filme gostei. Os actores "vestiram" extraordinariamente bem a pele das suas personagens, os cenários são muito bons, o guarda roupa perfeito. O facto de ser falado em aramaico e em latim confere-lhe uma credibilidade de documentário... O estilo narrativo com o recurso a flashbacks é interessantissímo, e o facto de se limitar no tempo a uma parcela de 12 horas confere-lhe intensidade... O resto? O resto tem o efeito de um soco no estomâgo e de outro na cabeça ao mesmo tempo. Das 2 horas que o filme dura, 1h 30m. são passadas a ver o massacre de um ser humano pelos seus pares, com uma brutalidade e violência que sinceramente não me recordo de alguma vez ter visto no cinema. Excessivo? Não sei... Imagino que há 2000 anos atrás as crucificações não fossem muito diferentes e se a descrição pecar por alguma coisa será decerto por defeito... Tudo isto, melhor ou pior, temos de aceitar pois está o peso da história por trás... No entanto, desde que vi o filme há cerca de 1 semana, a mesma dúvida recorrente surge de forma cada vez mais intensa, com toda a carga herética inevitável, ao ponto de até ter algum receio em a expressar... Como é que milhões de pessoas em todo o mundo adoram um deus perante o qual ajoelham e ao qual entregam as suas almas, deus esse que supostamente prega o amor e a paz entre os homens de boa vontade e que funda os pilares da sua religião no massacre bárbaro do seu suposto filho, massacre esse que não apenas premeditou, mas ao qual teve "estomâgo" para assistir sem nada fazer para o impedir... ? Sem querer uma pessoa questiona-se...

Publicado por castafiore às 11:06 PM | Comentários (2)

Ary dos Santos - Kyrie

Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!

(José Carlos Ary dos Santos, Kyrie)

Publicado por castafiore às 11:06 PM | Comentários (2)

março 30, 2004

O aborto, ainda – Clara Ferreira Alves

No passado dia 24 de Janeiro, a crónica “Pluma Caprichosa" da Clara Ferreira Alves, na revista ÚNICA do Expresso, tinha o título O aborto, ainda. Assinando por baixo do seu texto, gostaria de aqui transcrever apenas a parte final, respirando fundo de alívio, por saber que, apesar de tudo, há pessoas que pensam assim.
"Hoje a moral vigente é outra, mas a moral vigente, tal como a estupidez moral vigente, é elástica. Nenhuma mulher aborta por gosto, e a maioria aborta por desgosto. Se a vida humana começa dentro dela no instante da concepção ou semanas depois, nunca o saberemos. A vida humana, como a morte, começa e acaba quando a determinamos. Quando o nosso corpo e a nossa inteligência e a nossa moral a determinam. A ciência e a religião deviam ajudar e não ser utilizadas como ditadura de uns tantos, os que acham que as mulheres são assassinas, sobre os outros. Eu não devo mandar no útero das mulheres que querem ter dez filhos. E elas não devem mandar no meu.".
Obrigada, Clara; sem qualquer ponta de ironia. Obrigada, mesmo!

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março 29, 2004

Sigilo Bancário

A propósito das notas escritas sobre o ESTADO gostava apenas de acrescentar que estou surpreendida de há muito tempo não se falar nessa história obscena de quererem acabar com o sigilo bancário............

Acabar com o segredo bancário.... Interessante, sem dúvida. Nos tempos que correm já é possível controlarem para onde me desloco de carro graças à Via Verde; o que compro, onde compro e quanto gasto, graças à rede SIBS e à utilização global de cartões de crédito e débito; como estou vestida e quanto tempo demoro em cada loja graças aos CCTV’s; quanto ganho, para quem trabalho, quem são os meus clientes, graças ao necessário sistema informatizado e cruzado de informações fiscais e para da segurança social.....

Males, ou melhor, vicissitudes dos tempos modernos, com mais vantagens do que desvantagens, pelo que remédio temos nós senão aguentar a parte menos boa.

Mas será admissível que ao abrigo de uma suspeita de eu violar a lei ou simplesmente de controlar se a minha declaração de IRS está mesmo certa, o Estado poder ir bisbilhotar a minha conta bancária????? Que em princípio nem é só minha, pelo que a intimidade dos outros co-titulares fica igualmente devassada ainda que nenhuma suspeita penda sobre eles? Ou passamos a ser todos suspeitos? Ou teremos de nos pautar todos pelo velho ditado que “Quem não deve não teme” e acreditarmos na eficiência e rigor dos serviços de controlo do Estado que nós sabemos que não funcionam pura e simplesmente?????

Sim, sim já sei. Assim domina-se melhor a fraude e a evasão fiscal...... Assim combatemos as ilegalidades e apanhamos os verdadeiros infractores.... Claro que sim, tinha-me esquecido disso... Estava distraída a escrever uma carta ao Pai Natal e a encomendar ovinhos ao Coelho da Páscoa.....

Publicado por castafiore às 11:44 PM | Comentários (0)

Seropositivos

No dia 29 de Janeiro p.p. o Vaticano divulgou um comunicado onde acusava de GENOCÍDIO as empresas farmacêuticas que a nível mundial se recusam a baixar o preço dos medicamentos que os seropositivos têm de tomar diariamente, permitindo-lhes manter, a curto prazo, níveis aceitáveis de saúde e, a médio prazo, a sua sobrevivência.

Estes medicamentos são muito caros, a maior parte não é comparticipada pelo Estado, no caso de Portugal, precisamente tendo em conta os preços elevados praticados pelas empresas farmacêuticas que procedem à sua manufactura. Os doentes que são seguidos em consultas hospitalares recebem-nos de graça, mas os restantes doentes, um seropositivo que esteja a ser tratado no regime privado e que tenha um grau de contaminação médio/alto despende em média cerca de € 500,00/mês com a referida medicação. Os que podem, claro. Os outros limitam-se a morrer ou sobrevivem na mais completa miséria.

Compreende-se assim, e é de louvar, a acusação e o apelo do Vaticano.

Não se compreende, porém, é que esta instituição tão nobre e magnânime em criticar tal atitude, seja precisamente a mesma que semanalmente em cada homilia dominical, diariamente em cada aula de catequese, constantemente em cada curso de preparação para o matrimónio, sempre que possível em cada obra de apoio social, lidere uma verdadeira cruzada contra a utilização difundida do preservativo, não apenas como meio de planeamento familiar mas também como um dos mais seguros e eficazes meios de evitar a propagação desmedida da SIDA.

Criticar e apontar o dedo afinal parece ser fácil; mas a uma instituição com a envergadura da Igreja Católica pede-se mais do que simples demagogia: pede-se consistência nas doutrinas, coerência nas atitudes, e acima de tudo coragem e honestidade na abordagem dos problemas.

O ditado que invoca o nome de um dos pilares da Igreja Católica – São Tomás – tem, afinal aqui, e tristemente, plena aplicabilidade: também dela se pode dizer “Faz o que ela diz, mas não faças o que ela faz”.......

Publicado por castafiore às 11:43 PM | Comentários (0)

março 28, 2004

Ferreira Gullar

Aqui me tenho
Como não me conheço
Nem me quis
Sem começo nem fim.
Aqui me tenho
Sem mim
Nada lembro
Nem sei
À luz presente
Sou apenas um bicho
Transparente

(Ferreira Gullar)

Publicado por castafiore às 11:42 PM | Comentários (0)

Fernando Pessoa

Temos todos que vivemos
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada.
E a única vida que temos,
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

(Fernando Pessoa)

Publicado por castafiore às 11:41 PM | Comentários (0)

Futilidades

Ainda sobre a falta de coerência e critérios das normas e sobre o abuso do poder. Aqui há uns tempos um estranho personagem do nosso patético auto intitulado jet-set foi detido na alfandega por não ter declarado as jóias que trazia consigo propriedade sua e da sua mulher. Por mero acaso tive oportunidade de ler as várias entrevistas que o protagonista deu à imprensa da especialidade. Sem comentar as muitas derivações que esta história e o dito personagem podem suscitar gostava apenas de afirmar que até compreendo a sua posição. Porque é que eu tenho de pagar impostos por entrar no país com jóias que são minhas? Se elas são minhas...... Cá está mais um pequeno assalto do Estado.... E mais uma incoerência também. O pobre desgraçado teve azar porque foi apanhado numa alfândega, foi preso.........Tivesse ele viajado de carro e estivesse a regressar de Itália ou França, estivesse ele a praticar a mais hedionda das ilegalidades, mas com a diferença de se deslocar no espaço Schengen e presumo que até poderia transportar heroína na mala do carro que ninguém o controlaria..... Não parece um pouco ridículo?

Mas que espécie de fiscalização e controlo da legalidade é este? Estamos num país Europeu digno membro da União Europeia ou numa república das bananas? A polícia perde tempo com uma situação destas, ocupa espaço de prisão, prende um cidadão como criminoso de delito comum, e gasta tempo e dinheiro porque ele não declarou e não pagou (mais uma vez a cobiça desmedida de conseguir dinheiro à custa alheia) e consequentemente, com um tão detalhado e eficiente alocar de recursos a um caso destes, deixa de perseguir outros criminosos cujas faltas para com a sociedade me parecem bem mais graves ...

Esta história faz-me lembrar uma coisa curiosa. Aqui há tempos fiz umas compras online. Encomendei uns pijamas muito engraçados de uma loja canadiana. Uma semana depois fui avisada que a minha encomenda estava retida na alfandega. É que os pijamas vinham do Canadá mas eram “made in China” e como não existe nenhum acordo de comércio externo tripartido entre Portugal-Canadá-China ou eu arranjava uma declaração da embaixada do Canadá subscrita pela delegação de comércio externo da República Popular da China em como os pijamas se destinavam a utilização própria e não eram para ser comercializados ou então teriam de ser devolvidos pois era ilegal a sua entrada no país....... Foram devolvidos, obviamente, pois quando acabei de me rir e de chorar com esta história e com as preocupações legalistas implícitas não tinha forças para obter qualquer declaração que fosse....

Escusado será dizer que os respectivos pijamas me chegaram meses depois na mala de uma amiga que os trouxe junto com a sua roupa suja no regresso de umas férias no Canadá.... Ainda bem que escrevo com um pseudónimo pois caso contrário imagino que a nossa zelosa força policial e alfandegária, preocupada em perseguir os criminosos que assombram a nossa sociedade, viria no nosso encalço e certamente que seríamos as 2 presas como perigosas cabecilhas de uma importante rede internacional de pijamo-tráfico.......

Publicado por castafiore às 11:40 PM | Comentários (0)

Estado

Um membro da minha família está desempregado. Há 9 meses. Só agora começou a receber o subsídio de desemprego. Não era felizmente o caso, mas se não existissem poupanças ou rendimentos auferidos por outros elementos do respectivo agregado familiar, como é que tinha sobrevivido? Do ar que respira ou da esmola que entretanto ia pedir? De que serve um sistema destes que a desempregados, reformados, doentes e idosos começa a pagar o que lhes é devido, aquilo para o qual todos nós descontamos mensalmente, com meses, meses e meses de atraso?

As causas? Oh, quanto a isso não se preocupem, elas existem sempre, desde o erro informático até ao extravio do processo, passando pela baixa do funcionário responsável ou pelo facto dos serviços estarem em greve nas semanas anteriores, há sempre uma razão.......

Que ridículos somos! Que patéticos! Pagamos a tempo e horas para receber atrasado e com as contas mal feitas; descontamos à cabeça para recebermos meses mais tarde, atrasado e sem juros de mora; pagamos taxas, impostos, coimas, contra-ordenações porque compramos carro, casa, porque estacionamos, porque vamos às compras, porque morremos, porque deixamos uma casa nossa aos nossos filhos.

E ainda pedem honestidade, seriedade e isenção na forma como são declarados os rendimentos...... Deve ser uma anedota de mau gosto, de certeza..... Pagar? Pagar em troca de quê? Um sistema de saúde pública que nos garante meses à espera de uma consulta na especialidade médica que precisamos com urgência. Um subsídio de desemprego que começa a ser pago quando geralmente já estamos novamente a trabalhar. Uma reforma miserável que não chega para pagarmos os medicamentos que ninguém comparticipa......

Com sinceridade, será que alguém acha que assim se consegue de facto alguma coisa? Andamos todos a deitar areia para os olhos uns dos outros? Será que acham que podem continuar a enganar toda a gente durante quanto mais tempo? E o problema não é da cor política actualmente em acção. A verdadeira tragédia é que quando vierem os próximos tudo vai ser igual..... Como é que se quebra este ciclo?

Publicado por castafiore às 11:38 PM | Comentários (2)