julho 06, 2004

Sem abrigo

Já toda a gente tropeçou neles, algures, alguma vez... Às vezes com nojo, quase sempre com desconforto, normalmente com alguma coisa a pesar e a doer até ao fundo da nossa alma e da nossa consciência.

Mais que deprimente, é chocante, é quase obsceno o espectáculo da degradação humana socialmente adquirida... E permitida! No início do século XXI, num país membro da União Europeia, pertencente à zona Euro, cumpridor dos critérios de convergência e demais requisitos económico-financeiros que nos permitem fazer parte deste clube privado, onde nos inserimos.

Mas se é chocante ver estas pessoas que bateram no fundo da sua condição social, e às vezes humana, encontrarmos nessas pessoas, homens e mulheres, que já sem condições nem meios, tentam ainda manter um resto de dignidade antes do colapso final, é uma lição de força, coragem e humildade para todos nós, preocupados com as pequeninas aflições mesquinhas do nosso dia-a-dia.

Cruzamo-nos com estes seres humanos na rua: alguns até passariam despercebidos, não fosse pela expressão de alguns dos seus rostos, de alguns dos seus olhares: espezinhados pela vida, pela miséria, pela injustiça e, acima de tudo, pela indiferença de tantos de nós! Por trás daquela expressão mais ou menos vaga, mais ou menos indiferente, algumas vezes quase invejosa, outras muito humilde, está sempre, inevitavelmente, uma gigantesca carga insuportável de miséria e desespero que lhes partiu a alma e a vontade em muitos bocados.

Para os que ainda resistem, para aqueles que ainda lutam para se manterem à tona, ajudá-los é mais do que um mero acto de caridade: é uma obrigação, um dever moral que pende sobre todos nós, sob pena de, em consciência, nos tornarmos aquilo que nem mesmos o pior deles será: indignos!

Ajudar reveste muitas formas, muitas maneiras, muitas caras, muitas mãos, muito trabalho, muitas associações. Todas valem a pena, porque o fim a alcançar justifica largamente todos os meios. Não importa o que se faça desde que seja feito!

Aqui, como em muitos outros casos, o pior de todos os crimes será sempre o da omissão!

Publicado por castafiore em julho 6, 2004 01:20 AM
Comentários

Tudo o que dizes é perfeitamente correcto, acho que há a obrigação de encontrar soluções para os sem abrigo, mas...
nem sempre é fácil para todos os casos. Há 5 anos atrás tive nas mãos um estudo que dizia que 70% dos sem abrigo nos Estados Unidos eram esquizofrénicos. Esse é um assunto que me toca porque tenho um irmão esquisofrénico e sei como apesar de toda uma familia a ajudar, apesar de haver condições financeiras(e acreditada que é preciso muito dinheiro)é muito difícil ter mão dele. Não o queremos ver internado e ele também não o quer e tenho a certeza que se o internassemos no dia seguinte ele fugiria e ia viver para a rua, não tenho dúvidas quanto a isso. Por isso castafiore digo-te com algum conhecimento de causa ou há uma estructura familiar muito forte a apoiar (e mesmo assim e duríssimo) ou eles infelizmente acabam na rua.
Claro que o que eu digo não é razão para baixar os braços e deixar andar, mas soluções fáceis só as tem mesmo os políticos (principalmente em tem de eleições).

Afixado por: amnésia em julho 6, 2004 09:52 AM

Não imaginas o quanto lastimo o problema do teu irmão porque conheço relativamente de perto a situação de um amigo meu com o mesmo problema e sei bem o quão dramáticas essas situações podem ser! Sorte a do teu irmão vocês serem o tipo de família unida e amiga que parecem ser e terem a mesma visão sobre o assunto e partilharem a posição que ele tem quanto ao seu problema.
Nestes casos concordo contigo em que a estrutura familiar é tudo. Quando escrevi o texto sobre os Sem Abrigo, não é que não considerasse os doentes e aqueles por quem pouco há a fazer por isso mesmo. Mas confesso-te que tinha mais em mente aqueles que sem problemas desse tipo, apenas por azares da vida ou falta de capacidade para a gerir, se vêem em siuações dramáticas em alturas em que deviam estar mais despreocupados. Não me perguntes porquê mas sempre que vejo um deles, um velhote ou uma velhota, e imagino que em vez de se deitarem à noite numa cama lavada, confortável e quentinha para poderem descansar e repousar devidamente depois de tantos anos de vida e de trabalho, vão passar a noite a tremer de frio ou encharcados pela chuva, acreditas que me dá vontade de chorar? Posso parecer muito lamechas com o que te vou dizer a seguir mas sou sincera: não gosto do inverno; sou uma pessoa mais de verão mas durante muitos anos,ainda em casa dos meus pais, gostava de à noite, no inverno, quando me ia deitar, quentinha, na minha cama super confortável, sob o meu edredon de penas, no meu quarto girissímo, ouvir o barulho da chuva a bater nas portadas da janela ou no estore do quarto e deixar-me embalar por aquele som até adormecer... Até ao dia em que tomei consciência da existência dos Sem Abrigo e percebi que para eles, o meu capricho de menina rica significava uma noite de pesadelo, de doença e sabe-se lá que mais... Desde essa altura, sempre que me deito e ouço a chuva lá fora, adormeço com uma sensação de angústia ... É provavelmente uma estupidez mas é a mais pura verdade... Só acho que mesmo que seja pouco, se pudermos ajudar 1 que seja, se o sofrimento dele ou dela nesse dia for menor por nossa causa, já não é mau. Podemos não resolver o problema a nível estrutural mas pelo menos não ficamos de braços cruzados.

Afixado por: castafiore em julho 7, 2004 12:27 AM

A única coisa que não se deve fazer é ficar de braços cruzados e temos também o dever de refilar para que as coisas melhorem.

Afixado por: amnésia em julho 7, 2004 10:15 AM

É verdade que todos nós, hoje em dia temos o minimo de possíbilidades para podermos também nós ajudarmos todos os que mais necessitam.
Ajudar os sem abrigo é um acto de solidariedade e bondade que todos nós deveriamos ter. Por isso já sabes, cada vez que vires um sem abrigo ou alguem que necessita de ajuda. NÃO HESITES EM AJUDAR POIS O TEU ACTO PODE MUDAR A VIDA DE ALGUÉM.

Afixado por: As amigas dos sem abrigo em março 3, 2005 10:06 AM