maio 04, 2004

Choque de gerações

Outro dia recebi este texto por email:
“Olhando para trás, é difícil acreditar que estejamos vivos. Nós viajávamos em carros sem cintos de segurança ou air bag. Não tivemos nenhuma tampa à prova de crianças em frascos de remédios, portas, ou armários e andávamos de bicicleta sem capacete. Bebíamos água directamente da mangueira e não da garrafa. Saíamos de casa de manhã, brincávamos o dia inteiro, e só voltávamos quando se acendiam as luzes da rua. Ninguém nos podia localizar. Não havia telemóveis. Nós partimos ossos e dentes, e não havia nenhuma lei para punir os culpados. Eram acidentes. Andámos à bulha, fizemos troça uns dos outros e aprendemos a superar isto. Nos jogos da escola, nem toda a gente fazia parte da equipa. Os que não fizeram, tiveram que aprender a lidar com a decepção e não foram todos parar aos divãs dos psicólogos e psiquiatras...

Comemos doces e bebemos refrigerantes mas não éramos obesos. Estávamos sempre ao ar livre, a correr e a brincar. Compartilhámos garrafas de refrigerante e ninguém morreu por causa disso. Não tivemos Playstations, X-box’s, 99 canais de televisão, filmes em vídeo, telemóveis, computadores ou internet. Nós tivemos amigos que vinham para nossa casa brincar ou com quem andávamos em grupo por todo o lado.

Alguns estudantes não eram tão inteligentes quanto os outros. Chumbavam e repetiam o ano! Não inventavam testes extras. Éramos responsáveis pelas nossas acções e arcávamos com as consequências. Não havia ninguém que pudesse resolver isso. A ideia de um pai a proteger-nos, se desrespeitássemos alguma lei, ou alguma regra era inadmissível! Se fossemos malcriados com os professores éramos suspensos ou mesmo expulsos das escolas e podíamos não voltar a ter autorização para as frequentar. E conseguimos aprender a lidar com essas situações. Tivemos liberdade, fracasso, sucesso e responsabilidade, e aprendemos a lidar com isso.”.

Depois do post que aqui há tempos fiz sobre a “Geração Heidi vs. Geração Pokémon” não gostava que ficassem com a ideia que sou um “velho do Restelo” sempre a achar que dantes é que era bom e que agora nada presta. Não se trata de nada disso, mas acho que hoje em dia se perderam muitos valores e muitas normas pelas quais, na minha opinião, é fundamental pautarmos a nossa vida. Não se trata tanto do que se podia ou não podia fazer; hoje pode-se fazer tudo, pelo menos muito mais do que quando eu era adolescente (e já então não era pouco o que se fazia...), mas em compensação nada é exigido. Face à forma como as crianças são hoje criadas, à desresponsabilização que lhes é incutida e ao “facilitismo” que lhes é proporcionado em tudo, pergunto-me muitas vezes se estaremos hoje em dia a criar adultos responsáveis, capazes de lidar com as contrariedades que a vida infelizmente trás a todos nós, ou se a incapacidade de ouvir um “não” e a vida já “pré-mastigada” em versão soft que muitas pessoas entregam aos filhos não lhes faz mais mal do que bem.

Cresci num ambiente de quase total liberdade mas com regras absolutamente invioláveis e normas que tinham de ser respeitadas sem espaço para qualquer excepção e em que me era exigida absoluta responsabilidade e completa responsabilização pelos meus actos. Dei muitas vezes “com a cabeça nas paredes”, sofri muito e tive e tenho momentos da mais pura felicidade. De tudo retirei importantes lições e aquilo que tenho conseguido alcançar desse processo sem fim que é crescer, aprender, evoluir e dar um passo ainda mais longe, tem-me sabido muito bem; viver dá-me muito gozo... Um gozo que apesar de tudo não vejo assim tão generalizado entre as gerações mais novas. Oxalá seja eu quem já não está a ver bem...

Publicado por castafiore em maio 4, 2004 12:35 AM
Comentários

Acho que estamos perante uma nova realidade tal como os nossos pais estavam quando eramos crianças. Claro que há sempre mudanças e muitas são negativas, parece-me a mim que o "truque" está em não fazermos barreiras, em não estar sempre a comparar e tentar perceber o que se passa na cabeça dos mais novos. Se quisermos comunicar e perceber (por mais que não se concorde com muitas coisas) temos que aceitar que há muita coisa que mudou mas que podem haver ainda muitos denominadores comuns. Quanto a seres uma "velha do Restelo" não me parece que seja assim a prova é este blog bem simpático que nos dás quase todos os dias para ler.

Afixado por: amnésia em maio 4, 2004 09:40 AM

Obrigada! Fico um bocado mais descansada, então...
:-)

Afixado por: castafiore em maio 5, 2004 01:47 AM