março 15, 2007

Banhos de Mar

Há um par de anos, tive o privilégio de jantar em Lisboa com Tonino Guerra, poeta, argumentista e co-responsável pela criação do universo que atribuímos exclusivamente a Fellini. Durante um fim de tarde e noite, partilhei com não mais de vinte pessoas, as palavras de um contador de histórias admirável, que aos oitenta e muitos anos mantinha os olhos vivos de quem vive numa infância exuberantemente reinventada – como aquela que se vê no Amarcord de Fellini e Guerra. Sei que guardarei muitas das palavras simples ditas por Tonino Guerra. Mas, de tudo o que ouvi, há uma lição de que não me esqueço e que arrisco citar de cor: “Os adultos têm sempre as mãos limpas. Eu tenho oitenta anos e lavo-as muitas vezes ao dia. Mas só quando as tenho sujas me recordo de quando era criança”.

Não pude deixar de me recordar de Tonino Guerra ao ler recentemente um pequeno e espantoso texto da escritora brasileira, Clarice Lispector, Banhos de Mar. Aquilo que para Tonino são “as mãos sujas”, são para Lispector “os banhos de mar”: metáforas para um regresso a um paraíso perdido, a uma infância absoluta de sensações e à qual somos capazes de regressar, num caso, através da sujidade das brincadeiras, noutro, com os mergulhos no mar e o cheiro a sal no corpo. “Somos crianças feitas para grandes férias”, escreveu Ruy Belo num dos mais magníficos poemas em língua portuguesa (A orla marítima). É essa a nossa natureza: buscar incessantemente a felicidade num feixe de luz que nos transporta para um passado que até pode não ter existido como o vemos hoje. Pouco importa. É esse passado, rescrito e reinventado, que recordamos. O correr dos tempos, intensifica esse retorno difuso às sensações de quando estávamos crianças, surpreendidos com a descoberta. O sentimento tende a agravar-se com a chegada dos filhos, quando, ao olharmos para eles, vemos nos seus sorrisos deslumbrantes a nossa própria felicidade.
Clarice Lispector conduz-nos com palavras doces para uma infância de tranquilidade, feita de banhos madrugadores no mar do Recife, levada pela mão do pai: “O mar de Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em concha, eu as mergulhava nas águas e trazia um pouco de mar até minha boca: eu bebia diariamente o mar, de tal modo queria me unir a ele”. O lugar era onde a felicidade começava e tudo era assombrosamente novo: “essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro”. A impressão táctil desse passado resistiu, a roupa e os cabelos impregnados de sal que iam secando no regresso a casa. E, no fim, uma crença que ficou para a vida, que era também a partilha de um léxico familiar: “meu pai acreditava que não se devia tomar logo banho de água doce: o mar devia ficar na nossa pele por algumas horas. Era contra a minha vontade que eu tomava um chuveiro que me deixava límpida e sem o mar”.
Leio e releio o texto de Clarice Lispector e quase que sinto o cheiro da infância – a t-shirt que se colava ao corpo com o sal que a costa atlântica portuguesa nos dá em doses generosas; as noites bem dormidas; os dias feitos de mergulhos e carreirinhas infindáveis nas ondas de verão que pareciam maiores do que realmente eram; as correrias; o bicicletar sem rumo; e mais tarde os primeiros take-offs, partilhados com um par de amigos. Tudo se torna nítido, como é próprio dos prazeres iniciais.
Mas o texto de Clarice tem um tom sombrio no final, a impossibilidade de regressar a esses tempos de banhos de mar: “A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar? Nunca mais? Nunca mais. Nunca.”
Pois eu sei como se reencontra esse tempo. Pego na prancha, remo para o outside e, mesmo que não sorria como faz o meu filho, em cada onda que apanho fico perto do seu mundo fácil. É também para isso que serve o surf, para recuarmos ao tempo da ingenuidade, às suas sensações, aos seus prazeres e à sua libertinagem. Dentro de água tudo o resto desaparece e podemos beber, nas ondas, o mar. Depois, no regresso à Terra, o peso delicado do sal no corpo ajuda a sedimentar a memória da infância.

("banhos de mar" teve recentemente edição portuguesa no "curso breve de literatura brasileira", coordenado por Abel Barros Baptista e editado pelos Livros Cotovia, no volume, "conversa de burros, banhos de mar")

publicado na coluna Sal na Terra da Surf Portugal

Publicado por pedroadãoesilva em março 15, 2007 04:50 PM | TrackBack
Comentários

Na parede do meu quarto pintei uma passagem de Tom Blake, que peguei no Goiabada, que diz " While on a board, either surfriding or padling, one is truly free from land restrictions..." (tenho certeza que conhece.) Bem, o quero dizer é que mais uma vez pintarei a minha parede com algo que li em um Blog. Lindo texto.

Keep Surfing!!!

Afixado por: Boca do Mar em março 16, 2007 02:28 PM

Numa entrevista ao Rob Machado, publicada já há uns tempos largos na SurfPortugal, ele tb falava no transporte espácio-temporal proporcionado pelos seus filhos... terei algures a revista, mas tb arrisco a citar, não ipsis verbis, mas a ideia indelével que se me marcou na memória (secção dos pensamentos simples, quase banais, mas profundos e lúcidos)...

A história n será tal e qual como aqui a deixo, está aflorada pela intercepção de um momento semelhante vivido com o meu próprio puto T... mas foi mais ou menos assim:

Estava um dia no quintal c o seu filho quando começou a chover... pensou de imediato em pegar nele p se abrigarem, mas reparou nas expressões de surpresa na cara dele... era a primeira vez que lhe chovia em cima... e parecia encantado... abria a pequena boca p apreciar a água que lhe caia sobre a face e piscava os olhos c os salpicos...

Normalmente fugimos da chuva sem repararmos na beleza que a água transporta... e foi preciso o seu filho vivenciar aquilo pela 1ª vez para ele recuperar esse sentimento...

... os filhos têm esse dom de nos voltar a proporcionar vivências e nos transportar p a infância... é preciso é estar atento!

Bom texto Pedro!

(( http://almasalgada.blogspot.com/ ))

Afixado por: Pedro Ferro em março 16, 2007 02:59 PM

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Afixado por: pbuqnsofsck em abril 10, 2011 09:58 PM

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Afixado por: Bristol Airport Hotels em abril 19, 2012 02:32 PM
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