março 13, 2007

Delírios Invernais

Faltam poucos minutos para as seis da manhã

Seguro o volante com as mãos e, com esperança de não perder o controlo do carro, entrego o meu destino à tecnologia do ABS sem realmente perceber sequer o que isso é.
Chegámos a um ponto de subordinação da modernidade em que, por vezes, a nossa própria vida pode chegar a depender disso. Claro que não seria este o caso - mas um pouco de drama não faz mal a ninguém. Os telemóveis que nos seguem os passos como uma sombra, a oferta absurda de canais de televisão que nos enlouquece com um simples zapping, os computadores e as suas avarias cirúrgicas, que acontecem só quando não devem e deitam fora trabalhos de dias, semanas, anos. Estamos presos num conforto virtual - somos reféns da modernidade. Temos a falsa ideia que somos controlados por esses mecanismos que nós próprios inventámos, quando a nossa capacidade de revolta quanto a isso é muito maior do que podemos supôr.

Numa altura em que parece que não há nada mais para inventar no surf – embora haja, sobretudo para reinventar, dentro de cada um de nós – uma certa, e falsa, sensação de domínio sobre o elemento nesta ancestral dança com o mar, também aumenta. Estamos no mais puro exercício de libertação possível, mas perante o mais susceptível dos elementos. Chegamos a um lugar e queremos aquelas ondas – é um desejo óbvio que aqueles breves minutos de ponderação disfarçam.
Absorvidos com a adrenalina, que bombeia e detona doses de uma felicidade inconsciente , deixamo-nos envolver por essa energia estranha, e abraçamos tanto o momento que o pensamento racional se torna quase num delírio - um estranho desejo alucinogénico. E, há momentos em que isso nos faz esquecer que no mar somos meros soldados de papel.

Cada vez gosto mais de surfar no Inverno. Parece-me cada vez mais indiscutível que no Inverno é que é – boas ondas, que dão para fazer surf a sério e fugir à cultura reinante das dez manobras por onda. Pelo menos, no meu (muito teórico, é certo) ideal de surf - arcos profundos, curvas amplas, rail, mínimo de movimentos, linha e colocação. Depois de semanas de trabalho a fio, a adormecer com a sinfonia das ondas e a ver, sem poder tocar, o mar todos os dias, fui provar um pouco dessa minha muito ansiada sobremesa mental.

Depois de dois dias divertidos, que nem chegaram para requentar o que estava há muito frio, finalmente chegou o swell desejado. Uma esquerda perfeita sugava areia junto às rochas numa baía de água esverdeada. "Redenção", pensei. Remei para fora e erámos três ou quatro no pico.
Meia-hora depois veio um set daqueles. Passámos a ser ainda menos no pico. Resolvi dar descanso ao meu ego e sair disfarçadamente. Demorei outra meia-hora.
A maré vazava com aquela rapidez típica das luas cheias. Os sets entravam sem pudor - podia não ser bem este o caso, mas, novamente, um pouco de drama não faz mal a ninguém.
Perco e ganho forças ao sabor da corrente. Chego cá fora e olho para a baía esverdeada e a esquerda perfeita. O cenário é o mesmo, mas agora adjectivo-lhe uns quantos depreciativos.
Uma miúda com ares polinésios cruza-se comigo. Não parecia achar o mesmo.
Lá se vão os arcos profundos, as curvas amplas, rail, linha e o mínimo de movimentos – com colocação, claro.

Faltam poucos minutos para as seis da manhã

Numa estrada feita manteiga saio da Ericeira em direcção a Lisboa para depois partir para alguns dias de ondas. Depois de derrapar num susto, preocupo-me com o que me não me controla e não me preocupo com o que, realmente, tem a capacidade de me controlar.
E, dias depois, nessa manhã de Inverno, numa pequena baía com o mar esverdeado, daquelas que andava à espera há muito, voltei a aperceber-me disso. Somos e fazemos o que o mar nos deixa. Ali controlamos zero e os nossos paradigmas não valem nada.
Se inventámos todos aqueles aparelhos que nos irritam, é também verdade que o mar e a água nos inventaram a nós. E a nossa capacidade de revolta quanto a isso, a nossa forma, ainda que efémera, de fugir a esse controlo absolutista e poderoso do mar, é também algo de muito maior do que muita gente pode supôr. Chama-se surf.

Publicado na SURFPortugal nº169

Publicado por manuel castro em março 13, 2007 03:06 PM | TrackBack
Comentários

dos textos mais lindos e perfeitos que tenho lido nos ultimos tempos!
comecei a fazer surf, ou pelo menos a aprender há coisa de um mês, posso dizer que é unico chegar ao fim de semana e ligar para o meu monitor e dizer que domingo pode contar comigo para mais umas ondas! é uma sensação unica aquela que nos invade ao tentar remar sempre mais para conseguir-mos lenvatar-nos na prancha, conseguir libertar aquele sorriso numa onda e sentir aquilo que mais ninguem sente! é indescritivel! não sou mais que vai pela moda do ser surfista, quero ter algo unico e sentir algo que ninguem mais sente, o surf por mais que tentemos, quando estamos no meio do mar é um sentimento de liberdade unico, é lindo, é especial! Boas ondas!

Afixado por: Rocha em março 13, 2007 09:57 PM

Excelente texto e é ao ler isto e ao ver os vídeos que vocês aqui metem que me cresce o bichinho de entrar de vês nesta vida...

Afixado por: em março 13, 2007 10:39 PM

"Somos e fazemos o que o mar nos deixa. Ali controlamos zero e os nossos paradigmas não valem nada."

Para além da falsa ilusão de controlo, acrescento outra... a de que, por muito crowd que te rodeie, só podemos contar connosco p a nossa sorte (ou falta dela)...

Um texto que mesmo com todo o "drama" (que n faz mal a ninguém) denota muita espontaneidade e génio...

Obrigado pela partilha de sentimentos...

(( http://almasalgada.blogspot.com ))

Afixado por: pedrointhehouse em março 14, 2007 12:28 AM

Hoje eram 6h da manhã qd o meu despertador tocou e não me levantei.
Tinha por vontade ir apanhar umas ondas aí numa praia à volta de lisboa.
Quando voltei a acordar às 8h, fiquei fula comigo mesma.
Agora, são 18h e aqui no atelier tudo já está mais calmo e olho para o meu dia que passou e o que poderia ter sido.
Passei por aqui, li este texto e quando ele voltar a despertar outra vez às 6h, vou-me levantar!

Obrigada por este fantástico blog, tantas vezes que não vejo o mar por trabalhar e viver no meio da cidade, mas o vir aqui alimenta-me a minha vontade!

Afixado por: vera s s em março 15, 2007 06:16 PM

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Afixado por: vykpgv em abril 22, 2009 10:18 PM
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