março 09, 2007

Simplicidade, Estilo e eternidade

Miles, Platão e Curren são o exponencial máximo, na sua arte, dos substantivos titulados.

Depois de mais um campeonato intenso, no WCT, cheio de manobras, truques, saltinhos, viras e outros rodriguinhos, apeteceu-me relaxar. Estive a ver uns quantos vídeos do Tom Curren e parece que tudo encaixou novamente no sítio... Para mim é evidente quem é o melhor surfista do mundo, e esse surfista não é Tom Curren, e nem podia ser...

Miles Davis também serve para voltar à base, por vezes, ao ouvir jazz, uma pessoa pode distrair-se com os pormenores técnicos de alguns músicos, ficar maravilhado e finalmente cansado. Eu até sei quem é o melhor músico de jazz de sempre, e esse músico não é Miles Davis, e nem podia ser... apesar de, neste caso, Miles até ser o meu músico de jazz preferido.

Na filosofia os séculos passaram e teorias foram criadas e recriadas, estudadas e refutadas, analisadas e adulteradas. A génese de toda a ciência complexificou-se, verdade seja dita, desde o tempo da Grécia antiga que há um ou outro filósofo que nunca deixou de ser um pouco hermético, o que faz parte da filosofia, e por vezes faz sentido que assim seja - porque a questão é complexa e não há maneira de a compreender sem descodificar a própria linguagem. Deverá haver filósofos de grande valor, será difícil classificar Platão como O melhor filósofo de todos os tempos, seria um exercício fútil, mas acima de tudo não seria justo para o autor...

As três palavras:

Simplicidade é quando Curren desenha a linha, e ao contrário do surfista que se lhe segue, nada é forçado. Quando Curren desenha uma linha, a linha parece ter sido desenhada antes de ele lhe passar por cima. Voltar ao básico, desenhar no picotado, sem que o picotado esteja realmente lá. Miles tem essa característica, não ouvimos dele uma nota a mais, o floreado, tudo encaixa, desde a primeira vez que ouvimos que a música faz sentido, apesar de ser surpreendente, tal como as linhas de Curren – EXACTO! – exclama-se como um aluno que chegou lá, mas um segundo tarde demais, sem perceber, nem se importar, de ter sido levado ao colo. Platão tem esta característica, toda a explicação tem de fazer sentido, entramos num diálogo separado por séculos, e tudo ainda faz sentido, porque é simples, porque o que tem de ser dito é dito, e nada mais.

A simplicidade leva ao estilo. O acto de tornar as coisas simples, faz com que tudo faça sentido, e logo, torna-se agradável aos sentidos. Os sentidos odeiam o supérfluo, porque os sentidos são desconfiados. Uma rasgada é assim, porque teve de ser assim, e o braço tinha de estar ali, e o rabo nesta posição, e os joelhos exactamente àquela distancia, nada é forçado, tudo é evidente. Se as notas fazem sentido, o nosso ouvido não fica contrariado, ouve relaxado, recebe relaxado, entende a posição, é daí que vem o estilo. Miles segura e liberta, constrói momentos para os libertar da maneira perfeita. Tal como na escrita. Haverá maneira mais evidente, lógica e compreensível do que ensinar um aluno, mesmo 23 séculos depois, senão através de um diálogo?

E finalmente a eternidade, porque ser o melhor do mundo não é eterno. O melhor surfista do mundo pode ser o segundo melhor amanhã. O melhor músico do mundo pode ser o segundo melhor amanhã, o melhor no dia seguinte, e o pior dois dias depois... O filósofo, bem... para uns é compreensível, para outros é estúpido, para uns é genial e para outros assim e mais ou menos.

Mas os três de que vos falo, e só falei em três, para não se falar em mais ninguém, são responsáveis por muito mais do que serem melhores ou piores. Eles são responsáveis por bases, eles são fundamentos, eles são a definição ontológica da arte ou ciência que praticaram. Compará-los, graduá-los, simplesmente não tem sentido.

Publicado por miguel bordalo em março 9, 2007 12:55 AM | TrackBack
Comentários

Parabéns pelo BLOG.
Ótimas fotos e assuntos legais.
Um grande abraço, do Rio de Janeiro !!

Afixado por: Renato Byington em março 9, 2007 06:31 PM

é bom haver de vez em quanto inspiração para por as ideias em ordem. O que li, requer conhecimento,concentração e inteligência. Acho que cheguei lá. Fez-me bem, obrigado a quem se deu ao trabalho de compartilhar

Afixado por: isabel em março 9, 2007 08:25 PM

o comentário que fiz anteriormente refere-se às questões filosóficas, aínda não tinha visto os filmes, o do surf não sei se fico admirada ou horrorizada, bater-se recordes arriscando a vida, cheira-me a vaidade e irresponsabilidade, porque com obstinação mais cedo ou mais tarde, bate-se o recorde seja lá do que for, o da dança das águas é um espectáculo bem consebido e interessante. isabel duarte

Afixado por: isabel duarte em março 9, 2007 09:03 PM

uff
é bom ler algo assim e perceber que ainda há quem escreva alguma coisa com interesse num sítio ligado aos desportos de ondas sobretudo numa altura em que cada vez mais fico desiludido com aquilo que se vê publicado em algumas revistas/sites ligados às ondas
precisava de relaxar um pouco e consegui-o aqui com este post
filosofia não é comigo mas quanto aos outros dois concordo plenamente que sejam dois marcos incontornaveis na sua arte
gostei do post
fica aqui só uma pergunta quem é o melhor musico de jazz que falas no início do texto neste momento para mim os melhores são uns neo-zelandeses muito tranquilos naquilo que fazem e tocam Twinset ontem ouvi-os umas 5 vezes e hoje já vai na segunda vez que carrego no play hoje são eles mas amanha podem já não ser
abraços e boas ondas

Afixado por: ninguem em março 10, 2007 02:54 PM

uma das mais belas definições do estilo do "deus" (o careca é de outro planeta) curren que já vi. e uma das teorias mais gostosas e simples sobre simplicidade e gênio que já li. penso até em usar com meus alunos na escola. grande abraço, miguel, e queria saber se escreve em algum outro lugar na net para eu poder ler mais. caso sim, favor enviar um email (zeguto@uol.com.br), valeu
zé augusto (escrevi uns tempos na surf portugal, seção lendas e mitos)

Afixado por: zé augusto de aguiar em março 10, 2007 09:14 PM

Obrigado pelos comentários, ajuda sempre para continuar a escrever.

Quanto ao melhor músico de Jazz de sempre, eu tenho o minha opinião, mas não o vou revelar, talvez mais tarde num post que penso escrever. Mas como português não posso deixar passar a oportunidade de vos recomendar André Fernandes, comprem Timbuktu, é só instrumental sr.Ninguém, mas acho que vais gostar.

Zé Augusto, sei bem quem és, e fico orgulhoso por gostares do que escrevo. Deste tipo de coisas só escrevo aqui. De resto o meu trabalho é escrever, mas é mais à base do 18 pontos em 20 pontos possíveis. Por vezes põe-me doente, por vezes é tolerável, algumas vezes é divertido...

Obrigado a todos pelos comentários novamente. Por vezes quando uma pessoa se expõe precisa de um pouco de validação. É uma mariquice eu sei...

Afixado por: Miguel em março 12, 2007 11:20 PM

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Afixado por: zwcdkqfpae em maio 8, 2010 05:23 PM
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