agosto 18, 2005

Largou tudo e fugiu.

O Pierre sente isso de vez em quando, se já não apanha boas ondas há uns dias, se chove, se o on-shore persiste, se alguma saudade aperta. Para ele, ainda assim, os dias chatos tornaram-se mais efémeros. Não vale a pena comparar a minha vida com a dele. Lembro-me imediatamente dos breves instantes que interrompem um sonho muito bom. Enquanto me viro e procuro o amortecimento da almofada, o Pierre consulta mapas de ondulação. O que me leva a concluir que os nossos melhores sonhos são a rotina de milhares de felizardos. E há algo que não bate certo nisto.

O que lê o Pierre? Mapas de ondulação.

Lê-os de olhos abertos. Eu leio-os de olhos fechados. Só estou aqui porque não há ondas? Infelizmente, não. Só estou aqui porque … lá está, é aqui que estou. O Pierre representa um caso anormal. Revelou a sua natureza precoce ao compreender, mais cedo que o comum dos mortais, e sem a perigosa capacidade de se convencer do contrário, uma verdade simples: largar tudo e fugir é pegar em nós e correr atrás. O futuro?

O Pierre é um turista acidental atropelado pelo mar.

Tomado de assalto pela vida. Ele quer lá saber do futuro. Será mesmo necessário perguntar-lhe? Ele diria que está a fazer aquilo que lhe dá prazer. Nada mais irrefutável. Por uma vez na vida, respeite-se um pirralho que pensa assim pela sua própria cabeça. O futuro há-de ser aquilo que for. Eu, por exemplo, faço do sonho uma rotina, deixo a vida lá fora prosseguir sem horas marcadas. Obedeço a relógios de parede.

Para o Pierre, a rotina tem horas marcadas e é ditada pelas leis da natureza, obedece à soma das biologias que o comandam.

Que totalidade é esta? Não há uma teoria universal para a prossecução do sonho. Uns sonham com a materialização do sonho num instante, outros sonham com os meios de se lá chegar. Eu faço parte dos primeiros. O meu sonho favorito inclui a praia da Comporta, uma ondulação inefável, uma rapariga, febras de porco preto, e um grelhador (chamem-me o que quiserem). Ao incluir mentalmente tudo isto na velocidade de um mero instante, eu reproduzo a totalidade de um momento altamente improvável. Sou, no entanto, incapaz de prosar acerca da sua consecução. Parece-me tudo muito bom, assim conjugado, e é só. Até ao momento em que me lembro da Costa Rica e de como é fácil lá chegar. Eu sou um sonhador preguiçoso. Vós sois sonhadores preguiçosos. Um sermão aos peixes, é o que isto é.

O Pierre pegou no sonho, atou-lhe uma vela, e partiu num foguetão.

Os que sonham com os meios de atingir essa materialização instantânea estão um pouco mais próximos daquilo a que eu chamo o sonhador ágil. Não é fácil tornar a perspectiva que temos da realidade uma ilusão aos nossos próprios olhos. É um processo complicado, por vezes moroso, quase sempre doloroso. Não espanta que a maior parte de nós desista nesta fase. O sonhador ágil usa a ilimitação da mente para predispor. Desenvolve uma espécie de planeamento estratégico da vida, uma vezes maturado, outras vezes em cima do joelho. Há quem pense em constituir família, há quem planeie meticulosamente um roubo, há quem deixe tudo e todos para dar a volta ao mundo. Podemos nós contestar os motivos do ladrão ou o egoísmo do viajante? Devemos? Temos todos a nossa dose de loucura, o nosso silêncio ensurdecedor, o nosso lado histriónico. Revelamo-nos esporadicamente, mas o electrocardiograma volta à sua timidez. É o nosso sentido de responsabilidade a dar de si.

Sejamos irresponsáveis por um momento. Quem sabe não dura eternamente.

Ele gosta de sentir que vive uma boa parte dos seus dias mergulhado numa vida fácil, desprovida de incessantes pensamentos no futuro. Os despojos do passado lembram-lhe postais desinteressantes. Representam memórias pouco claras de uma infância que, seja como for, raramente é recordada com nitidez. O Pierre começou cedo a construir a memória, tão cedo quanto provavelmente pôde. Quantos de nós se poderão dar ao luxo de um dia esquecer uma sessão de 2 metros em picos triangulares a milhares de quilómetros de casa? Pois. Ele vai esquecer muitas dessas sessões. Os limites da nossa memória residem na capacidade de engavetar milhões de recordações em favor das sensações que a nossa existência consegue ditar.

Há mar e mar. Para isso só é preciso ir.

Somos capazes de reconhecer a divindade no topo de uma árvore, ou de pelo menos incorporar o mito nos nossos discursos como se de uma realidade se tivesse tratado. Imaginemos então uma criança que pela primeira vez vê o mar. Podemos nós saber que confluência inenarrável acontece naquele momento? Não. Devemos acreditar nela? Sim. O Pierre encontrou o mar e, sem saber, sem alguma vez se ter sentido escolhido pelo destino, viu muito mais que os restantes banhistas. Não o partilhou com ninguém, não sabia exactamente como o fazer. Perdeu-lhe o rasto. Nunca mais foi o mesmo. O apelo do oceano tornou-se imemorial. O momento vivido foi tão cosmogónico como indizível. Depois disso era apenas uma questão de tempo. Experimentou a cadência do mar. Bom ouvinte, preencheu-lhe os compassos. Houve até aquele dia aborrecido em que o excesso de crowd o incomodou pela primeira vez, e ele viu o oceano ser sabotado por elementos a mais. Uma espécie de composição barroca com demasiados chapinhares. Confrontado com isso, percebeu então que estava talhado para uma experiência mais individual. Pensou nas várias hipóteses e decidiu-se pela epopeia. Poucos anos depois, experimentou o segundo reef de Pipeline apenas com 3 dos seus ídolos dentro de água. Digamos que se trata de um rapaz perceptivo.

Sensoriais somos todos. Uns mais que outros.

O Pierre deixou-me com um ímpeto atravessado, mesmo que não me sinta desencantado com a minha vida. Para mim, acaba por ser mais um instante a intervalar a realidade – o que não me impede de antever alguns dias bem passados no próximo verão na Comporta ou de pensar mais seriamente na tal viagem à Costa Rica. O Pierre existe, e não existe. O Pierre acontece, mas algumas destas coisas talvez não lhe tenham sucedido. É um míudo que eu pessoalmente desconheço mas cujo exemplo muito me inspira. É muito importante que, de vez em quando, algo ou alguém nos faça sentir um eremita, um dos fulanos que ainda não saiu da caverna. No caso em questão, os 16 anos do Pierre traduzem um salto em direcção à mundividência, uma definição daquilo que é estar fora do mundo, vivendo-o até ao tutano. Quantos de nós não sonham com isso? Quantos de nós acham isso concretizável? Quantos de nós têm a idade do Pierre? Quantos de nós se lembram da sua própria idade? Quantos de nós fazem algo de irresponsável e decisivo com a vida que têm, pelo mais puro ímpeto de uma paixão? Quantos de nós já se abandonaram a essa concretização? Ao leitor que aguentou até aqui: se não nos voltarmos a encontrar, ficam os desejos sinceros da melhor vida possível, e impossível.

Texto previamente publicado na Vert Magazine

VM

Publicado por vascomendonca em agosto 18, 2005 11:05 PM
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