fevereiro 29, 2008

Fantasy Surfer

Club House ONFIRE

Estão desde já todos convidados a fazer parte da clubhouse ONFIRE SURF 2008 no Fantasy Surfer. É uma "private clubhouse" onde poderão competir contra tops nacionais, o staff da ONFIRE e todos os outros leitores. Haverá prémios para cada etapa e para o final do circuito!!!
Para receberem a password basta enviarem um email para staff@onfiresurfmag.com com os seguintes dados:
Nome –

Idade –

Email –

Nome do Team –

Lá vos espero

HV

Publicado por HV em 06:14 PM | Comentários (10) | TrackBack

os meus 2 cêntimos

Publicado por vascomendonca em 12:36 AM | Comentários (11) | TrackBack

fevereiro 27, 2008

o heat de ontem nas palavras do próprio

Notícias RTP

Act: de facto, tinha-me esquecido de referir e elogiar a jornalista Sandra Vindeirinho por uma notícia sem mácula o que, dado o panorama do jornalismo português no que concerne a tudo o que é ondas, é verdadeiramente um acontecimento a registar.

Publicado por pedroarruda em 09:10 PM | Comentários (19) | TrackBack

acredita no teu surf!

Naquilo que facilmente se pode classificar de the heat from hell o Tiago foi obliterado pela maré, as ondas, um Leo Neves com mais um ano de CT em cima dele e a sua própria expectativa. À medida que o dia (noite aqui) ia passando as ondas do "super banco" foram progressivamente piorando. AI teve direito a um mar que parecia óleo, com ondas de metro e meio correndo verticais até ao inside, dai para a frente cada meia hora que passava tinha menos ondas e ondas com menos parede e com secções mais difíceis de ligar. O Tiago passou dois terços do seu heat à espera, na expectativa, de ondas que nunca vieram, e para quem estava a ver o webcast em inglês foi interessante ouvir o Ben Bourgeois, ainda a pingar do heat anterior, explicar como naquelas condições era preciso estar constantemente em movimento e até era melhor não ter a prioridade para poder estar livre para apanhar tudo o que vagamente agitasse. Neste preciso momento o idiossincrático Dane Reynolds trata de fazer isso mesmo apanhando tudo o que mexe, inside e outside, e criteriosamente destruindo todas as secções das parcas ondas que Snapper tem para oferecer nestas circunstâncias. Mais uma vez se prova que nem sempre se ganha surfando as melhores ondas, mas surfando o suficiente em quaisquer ondas. Mas o surf está lá, com o Saca, ao mesmo nível que todos os outros 45 vencedores e perdedores deste primeiro WCT de 2008. Go Saca, confia no teu surf, não te preocupes com as ondas. Agora vou dormir e espero que o Jordy passe, que a minha equipa do fantasy levou uma enorme tareia.


este é o surf do Tiago "Saca" Pires. foto: Botas

Publicado por pedroarruda em 03:19 AM | Comentários (860) | TrackBack

fevereiro 26, 2008

Quiksilver Pro Live

Está a rolar o primeiro heat do dia entre AI e o vencedor dos trials Tamaroa McComb, mas a grande notícia para já foi a declaração feita por Jake "the snake" Patterson de que Mundaka foi cancelado para este ano. Está mais do que na hora do CT voltar a águas nacionais.

Publicado por pedroarruda em 09:43 PM | Comentários (163) | TrackBack

fevereiro 23, 2008

down under

Do sul do país para o sul, do sul, do mundo. Botas d'Água. Para acompanhar mais de perto as perfomances do Saca nas areias da Australia. Cheers mate.

Publicado por pedroarruda em 06:49 PM | Comentários (10) | TrackBack

fevereiro 22, 2008

capas de revistas

ou de como Surf não é só apanhar ondas*

do último número da Rolling Stone

*nem a forma como as apanhamos...

Publicado por pedroarruda em 08:37 PM | Comentários (66) | TrackBack

(ainda) sobre a importância da improbabilidade

Quand je pense à Carla / je bonde, je bonde

Depois do que ainda restava das leis da improbabilidade ter levado mais um grande rombo com o casamento de Carla Bruni com o Sarkozy, hoje é dia de oficializar mais uma estocada nessas leis do impossível: vamos ter um português no heat 13 do round 1 do Quiksilver Pro, o primeiro WCT do ano. A entrar no 32º ano de um circuito dominado de um modo maciço por australianos, norte-americanos, havaianos e com uma presença tradicional de sul-africanos e brasileiros, não é demais lembrar e celebrar a grandeza e a improbabilidade deste feito.
Hoje, quando já tiver caído a noite na Ericeira - que hoje vai ser demasiado pequena para tanta emoção - e depois de semanas de preparação intensa, o Saca vai finalmente pegar na sua lycra preta e começar a viver plenamente o sonho ao qual tanto tem direito.

C´est un blues (meu deus)

Nós, por cá, estamos e estaremos incondicionalmente com ele.
Tenho a certeza que mais logo, quando começar aquele que vai ser o circuito mundial mais interessante dos últimos anos, aqueles que sempre acreditaram na força do Saca vão sentir um orgulho tremendo por vê-lo poder (e poder vê-lo) finalmente agarrar o seu destino em toda a sua plenitude: dar o seu melhor no WCT.

E basta. Vai com tudo!

Publicado por manuel castro em 03:57 PM | Comentários (12) | TrackBack

fevereiro 21, 2008

ser uma Pipe Master

Há mais ou menos um ano atrás a VERT publicou aquela que, na minha modesta opinião, é uma das mais espectaculares fotografias de um/a surfista português em Pipe. A foto (VERT n.º 78 Abril/Maio 2007, págs. 44/45) mostra a Catarina Sousa a meio de um drop aéreo numa enorme parede de água verde-esmeralda no momento em que a onda se contorce sobre si própria e começa a projectar o lip para a frente. A Catarina está suspensa, apenas com um joelho a tocar levemente na parede de água. Nós, que temos a revista na mão e vemos, sabemos do impacto daquele drop, da tentativa de segurar a prancha e acertar o rail para chegar á base da onda e projectar o bottom. Podemos imaginar o medo, a adrenalina, os segundos transformados em imensos minutos de câmara lenta desde o momento em que a força do pacifico na bancada de coral projecta a Catarina para baixo e a lança nessa viagem inigualável de dropar uma bomba em Pipeline. Ontem, outra mulher escreveu com distinção mais uma página de ouro da história dos desportos de ondas portugueses. Rita Pires conquistou o segundo lugar no IBA Pipeline Pro, atrás da japonesa Aoi Koike e na frente de cerca de outras trinta bodyboarders internacionais. Uma boa classificação num evento internacional é uma coroa de louros que todos os atletas devem ostentar com orgulho e que nos deve a nós, os fãs, encher de satisfação. Mas um bom resultado em Pipe é muito mais do que isso. Pipe é o Everest, o SuperBowl e a final da Champions tudo numa onda. Para mim, que faço Bodyboard há mais de vinte anos, assistir em directo à performance da Rita e testemunhar o seu resultado foi um momento de enorme alegria. Para ela será a realização de ser, para sempre, uma Pipe Master. Parabéns Rita e obrigado.

P.S. é bom saber que os nossos leitores não nos deixam falhar uma... :)

Act: Neste momento (é meia noite e meia nos Açores) o Hugo Pinheiro vai, também, a caminho de um grande resultado, está na final masculina. Força.

Act II: Hugo Pinheiro 4º em Pipe. Paulo Barcellos campeão Pipe 2008.

Publicado por pedroarruda em 11:50 PM | Comentários (11) | TrackBack

fevereiro 20, 2008

Discos Pedidos

Django Reinhardt, i'll see you in my dreams


foto: Duda

Publicado por pedroarruda em 07:29 PM | Comentários (2) | TrackBack

I’ll see you in my dreams

Surfar é um vício, disso poucos podem duvidar. Sempre que se faz uma onda, sempre que se faz uma sessão de surf que corre bem, o vício aumenta, e é inevitável depois de despir o fato, e de nos prepararmos para ir para casa, começar a pensar quando será a próxima vez que estaremos em condições parecidas no mar, a fazer ondas...

Mas tal como um vício, o surf também tem a parte má, para aqueles que não dominam e mesmo para aqueles que conhecem todos os pormenores de uma onda. É que o mar não perdoa, a nossa vontade de repetir uma surfada numa onda que no fim-de-semana funcionou na perfeição, não depende de nós, porque no próximo fim-de-semana, a onda está um pouco diferente, mais vento, fecha mais, ou simplesmente porque no outro fim-de-semana funcionou tão bem, que no a seguir tem uma magote de gente a tentar fazer o mesmo que fizemos a semana passada.

Nos maus dias o surf é como qualquer vício, frustrante, chega a ser tão frustrante, que para os mais desajustados é difícil não largar um – não surfo mais aqui – (mas surfas), um – nunca mais faço surf! – (mas fazes), um – vou sair do país – (mas raramente o fazes).

É verdade que como qualquer vício o bom e o mau são um estado difícil de conciliar. O que é que nos safa? Bom o Django achava que quando o amor é grande, uma pessoa deitava-se ao lado da amante, e depois de aproveitar ao máximo o dia, o melhor que tinha a fazer era sonhar com ela – I’ll see you in my dreams – foi a primeira música que ouvi de Django Reinhardt, num filme do Woody Allen chamado Stardust Memories, que o meu realizador preferido fez no ano em que eu nasci.

Desde que me lembro que tenho vindo a ouvir mais e mais Django, mas não me canso nunca de ouvir a versão de Django de “Ill see you in my Dreams”, ou porque estou fora e não estou com a minha namorada, ou porque sinto nostalgia do surf, principalmente logo depois de uma boa surfada.

Publicado por miguel bordalo em 03:44 PM | Comentários (3) | TrackBack

O apoio do ondas fez-se sentir

"The Hawaii Caucus was a landslide for Barack Obama - getting more than 75% of the vote with overwhelming record turnout."

"We know the battle ahead will be long, but always remember that no matter what obstacles stand in our way, nothing can stand in the way of the power of millions of voices calling for change.

We have been told we cannot do this by a chorus of cynics...they will only grow louder and more dissonant ........... We've been asked to pause for a reality check. We've been warned against offering the people of this nation false hope.

But in the unlikely story that is America, there has never been anything false about hope."

Publicado por pedroadãoesilva em 12:00 PM | Comentários (13) | TrackBack

fevereiro 19, 2008

Uma Questão de Carisma

Passados poucos dias após a conquista do primeiro título mundial de Mick Fanning, a Rip Curl lançou um pequeno vídeo com o seu regresso à Austrália: check-in no Aeroporto ainda no Brasil, palmas à entrada no avião e, finalmente, a celebração caseira, aí já em modo Eugene. O vídeo é suposto ser sobre o Sr. White Lightning, o surfista mais rápido do planeta, mas 30 segundos após o início, este já se tornou um personagem secundário. A acção passa a centrar-se noutro australiano, o último campeão vindo do down-under: Marco Luciano Jay Occhiluppo, que, involuntariamente e perto dos 42 anos, se continua a apropriar do centro da acção. O filme é um pouco o espelho do que foi o circuito deste ano. Fanning dominou de modo quase hegemónico toda a temporada, no entanto, nunca conseguiu ocupar de forma convincente o palco. Falta-lhe carisma. Falta-lhe o que Occy e Slater têm para dar e vender.

A expressão carisma é normalmente usada para nos referirmos a alguém que tem características que o distinguem do homem normal, qualidades magnéticas que atraem a atenção. O sociólogo alemão Max Weber identificou o carisma como uma das fontes de autoridade, que conferia poderes excepcionais, não acessíveis ao comum mortal, a alguns indivíduos. Mas Weber contrariava a natureza divina do carisma. Não se nasce com carisma, o carisma conquista-se. Occy e Slater por caminhos bem distintos conquistaram carisma.
Occy é, ao mesmo tempo, a memória do circuito pré-dream tour e a corporização de uma ressureição inesperada. O ‘raging bull’ está aí para recordar os duelos míticos com Curren em meados dos anos oitenta e para lembrar todos os dias aos surfistas ‘new school’ a importância do surf com a prancha na onda, sem vôos desnecessários. Mas, Occy é, essencialmente, o surfista que após dois abandonos repentinos do circuito – fruto de neuroses, um espiral de álcool e drogas – voltou, recuperando a forma que parecia definitivamente perdida, para se sagrar campeão mundial em 1999. O carisma de Occy é o resultado de um regresso improvável e serve também para mostrar a força superior de quem esteve perto do fim da linha e soube voltar.
Slater, pelo contrário, é o ‘control freak’ que aparenta ter delineado um plano há vinte anos e que, desde então, se tem empenhado em segui-lo à risca. Cada onda surfada, cada comentário no webcast e cada depoimento sobre o que pensa fazer no próximo ano competitivo parecem não apenas fruto de uma reflexão prévia, mas, também, parte de uma narrativa que o floridiano antecipou há duas décadas. Mas Slater é, acima de tudo, o surfista que melhor combina o surf do passado com a capacidade de inovação.

Em 2007, Occy e Slater não ganharam como antes. Occy, aliás, passou apenas um par de heats durante toda a temporada. Mas a dupla de veteranos continuou a ser a alma do circuito. Como é que vai ser o próximo ano, num circuito sem Occy e eventualmente sem Slater? Os riscos são muitos, até porque sem competidores carismáticos, o circuito perde magnetismo e gera desinteresse. Todos os outros são extraordinários surfistas, mas não serão eles a fazer com que, a partir de Março, passemos horas a fio em frente ao monitor.
Senão vejamos: Andy Irons é um competidor nato, capaz de realizar a melhor manobra na melhor onda no momento exacto, mas o havaiano é também um ‘dark horse’, que necessita de um contraponto que o estimule (leia-se Slater). Não por acaso, começam a circular boatos de que A.I. não correrá o CT no próximo ano; Fanning é um surfista extraordinário e um atleta completo, mas no fim é apenas mais um rapaz da ‘gold coast’, bem diposto e de bem com a vida; Parko tem talento para dar e vender, mas aparenta competir com sacrifício e falta de focalização; Taj, bem, Taj ameaça tornar-se o Cheyne Horan dos nossos tempos, um eterno segundo que carrega atrás de si um brilhante futuro. E dos que aí vêm, chegados do QS, apenas três ameaçam contar: Dane Reynolds que é um sobredotado, mas não gosta de competir e parece ter piedade dos vencidos; Jordy Smith que sendo talvez a coisa mais próxima de “projecto de Slater” que se conheceu, ainda tem de confirmar as expectativas. Valha-nos por isso o Tiago Pires – acontece que, infelizmente para ele, é ainda um assunto demasiadamente português.

publicado na coluna 'sal na terra' da SurfPortugal.

Publicado por pedroadãoesilva em 11:18 AM | Comentários (8) | TrackBack

fevereiro 08, 2008

Parabéns Barreira!

O fotógrafo Miguel Barreira ficou no 3º lugar na categoria Sports Action do World Press Photo 2008, com esta foto de Jaime Jesus, tirada na Nazaré durante o Bodyboard Special Editon 2007. Para além dos parabéns que devemos enviar ao Miguel por estar nesta galeria de talentosos privilegiados, o que é uma tremenda honra, devo dizer que o facto dele ser aquilo a que cientificamente se chama um gajo porreiro ainda me deixa mais contente.
Grande Miguel, muitos parabéns!

ps: obrigado aos nossos leitores Zé Leal, Nuno e Pedro Soares Lourenço pela chamada de atenção.

Publicado por manuel castro em 04:33 PM | Comentários (107) | TrackBack

fevereiro 07, 2008

baby boomer

O Surf é um baby boomer. Este Surf, que vivemos hoje em dia, é dessa geração que nasceu no pós II Guerra Mundial e foi teenager nos anos 60 e 70, e que nos nossos dias está descansadamente dividida entre os que apoiaram Bush e os que anseiam por Hillary. Se Duke Kahanamoku é o avô do Surf moderno, a espuma de poliuretano e a resina de fibra de vidro são, respectivamente, o pai e a mãe. Criados por Otto Bayer em 1937 os polímeros de poliuretano são a base de todas as espumas que estão no centro de qualquer prancha. A fibra de vidro, tal como a conhecemos hoje, foi também popularizada na mesma altura. Na Califórnia, (em que outro sítio podia ser?), do pós guerra um grupo de shapers avançou com as primeiras experiências da utilização destes materiais no fabrico de pranchas, sendo que em meados do anos 50, Hobie Alter e Gordon Clark, mais tarde conhecido como Mr. Clark Foam, afinariam a tecnologia que permitiu que o Surf se tornasse na fantasia global que é hoje. A possibilidade de materiais sintéticos baratos e de acesso fácil permitiu a repetição e a produção industrial que todos os fenómenos de massas exigem.

É por isso que eu digo que o Surf é baby boomer, porque também nasceu das dores provocadas pela II Guerra Mundial. É igualmente por isso que o Surf, ou a ideia de Surf, tem hoje as características que tem. O espírito rebelde, a iconografia juvenil, a natureza hedonística e a lenda da liberdade associada ao Surf, são fruto do seu tempo histórico. Numa América conservadora e paranóica, como foi a América de Truman e Eisenhower, quase vinte anos de maniqueísmo e bombas atómicas, os jovens californianos encontraram nas ondas o antídoto perfeito. Presos numa sociedade restritiva, numa educação rígida e disciplinadora, o apelo da fruição do mar era, e é, irresistível. Junte-se estes miúdos às pranchas resistentes e baratas de espuma e resina e temos todos os ingredientes para uma revolução cultural. E como não há revolução sem mitos, o Surf também tem os seus. Talvez o maior de todos seja o da Liberdade. A ideia, universalmente difundida, do surfista liberto de quaisquer amarras sociais, correndo o mundo, num verão eterno, em busca da onda perfeita. Esta geração, que foi jovem e inconsequente nos anos 60, que sofreu o seu apocalipse pessoal no Vietname dos anos 70, criou sozinha todo o paradigma do Surf contemporâneo. John Severson e a Surfer, Bruce Brown e o Endless Summer, são duas das mais representativas pedras basilares de toda esta concepção do Surf como filosofia libertária, mas de todos esses pioneiros, e foram muitos, do Surf moderno, Miklos Chapin Dora, “The Cat”, é talvez o mais icónico e aquele que provavelmente melhor resume este paradigma. Selvagem, solitário, vagabundo eterno, Dora foi o profeta da contra cultura e da rebeldia associada ao Surf e, tal como todos os profetas, foi também o seu mártir. Em cada puto que hoje falta a uma aula para poder surfar há um pouco de Miki Dora.

Importa no entanto saber se este dogma é ou não verdadeiro. Será o Surf, de facto, um sinónimo de liberdade? Serão os surfistas os arautos da plenitude pela comunhão com a natureza, o oceano e os elementos? Ou toda esta noção não passará de uma ideia romântica, poética e idealizada? A pergunta, no fundo, que todos os que temos esta revista na mão devemos fazer é: pode um surfista ser livre? Não, a minha resposta imediata é não. Todo o surfista é um prisioneiro do gesto de correr ondas. O Surf é uma prisão e as suas algemas são a linha de sombra e a água em movimento de cada onda que quebra. A ironia está em que ao procurar uma libertação para uma sociedade opressiva, o surfista moderno acabou por sentenciar gerações e gerações de seguidores à condenação eterna de viver nas e pelas ondas. Sartre, percursor de Dora, cunhou o aforismo que diz que “estamos condenados à liberdade”. É essa a essência do Surf – condenação às ondas. Ser surfista é estar eternamente subjugado às ondas, ao seu encanto, prazer, movimento e paixão.

Pedro Arruda
Fenais da Luz, 6 de Dezembro de 2007

publicado na Free Surf Magazine N.º1

Publicado por pedroarruda em 12:31 AM | Comentários (13) | TrackBack

fevereiro 05, 2008

Da Relatividade

"A terra é um estádio muito pequeno de uma vasta arena cósmica. Pensem nos rios de sangue entornados por generais e imperadores para que, na glória e no triunfo, pudessem ser os mestres momentâneos de uma fracção de um ponto." Ponto Pálido Azul, Carl Sagan.

Não era por ser um cientista e um astrónomo que Carl Sagan podia ser considerado a antítese do surfista. Mas enquanto nós procuramos no mar as razões para a vida, Sagan interrogava-se com o espaço, explorando-o exaustivamente, pondo em causa os seus paradigmas e obrigando o mundo a olhar para cima e para si mesmo de maneira diferente. Carl teve um papel fundamental no programa espacial norte-americano, tendo sido um dos mentores do projecto Voyager que, desde 1977 até hoje, tem vindo a explorar o espaço através de duas sondas. Para termos uma vaga ideia, a Voyager 1 está, neste momento, fora do sistema solar, tendo entrado oficialmente, em 2003, naquilo a que se chama de espaço interestelar. Neste momento está 100 vezes mais distante que a Terra do Sol – a uns relativos 15 bilhões de quilómetros a partir do astro-rei. Essas sondas transportam uma mensagem da humanidade caso sejam encontradas por outra civilização ou forma de vida, com fotos e sons da terra.
De volta a Sagan, ele definiu o Ponto Pálido Azul, a partir de uma fotografia tirada pela Voyager 1, a quatro biliões de quilómetros da Terra, em que o nosso planeta aparece minúsculo e impotente no meio da imensidão do Sistema Solar. Na definição desse momento, Sagan assumiu um manifesto profundamente humanista - “A Pale Blue Dot”.

Nós, surfistas, somos também meros "mestres momentâneos de uma fracção de um ponto". São curtos os momentos de uma viagem instantânea que enchem de felicidade os nossos dias neste ponto minúsculo perdido no espaço. Talvez a nossa viagem cósmica, a das ondas, seja mesmo um excelente exemplo para essa coisa maior que é perceber a nossa experiência neste espaço tão relativo – um deslize curto, rápido e intenso num espaço imensamente maior. O mar como o espaço.
Curiosamente, a balança deste exercício resvala naquilo que é profundamente individualista e egocêntrico como é a experiência do surf em si. Não há nada mais egotrípico que o surf, com aquela sensação de realização que nos envolve a cada onda surfada e nos impele para mais e mais. Quem não se sente senhor do seu universo quando faz uma boa onda?

Numa entrevista de Steve Zeldin a Rob Machado, este conta uma história em que, depois de ganhar um campeonato em 1989, o OP Junior, na viagem de regresso, de carro com o seu pai, param num semáforo em Newport, Califórnia. Sentido o filho demasiado convencido com a sua vitória, o pai de Rob aponta para o carro ao lado, para uma família normal, vinda do seu passeio normal e pergunta "achas que eles se importam por teres ganho este campeonato?"
O mesmo se passa tantas vezes com o surfista comum e os nossos campeonatos diários. Basta uma onda bem feita. Os sorrisos rasgados que se congelam enquanto conduzimos na Marginal são perfeitamente ignorados pela turba que avança, indiferente, com o sentido das suas vidas Cascais-Lisboa, Lisboa-Cascais. Quem quer saber?
Mas a fronteira entre felicidade e egoísmo é, nalguns casos, demasiado ténue. Por vezes essa viagem de euforia transforma-se em batalhas de ego. Quantas pessoas não se vêem na água zangadas e frustradas em dias de ondas absolutamente ridículas, estragando a experiência, já de si demasiado efémera, dentro de um mundo excessivamente efémero?

Não somos mais que meros viajantes no universo das ondas.
E é cada vez mais o assumir dessa consciência, e não o facto de se fazer ondas no extremo da loucura que vai, quanto a mim, distinguir um surfista a sério de um produto da massificação do surf – o que não impede que alguém que procure esses limites XXL não seja, também ele, consciente.
E não é preciso ir tão longe quanto os confins do espaço e testar a relatividade disto tudo para estar atento e recolher o lixo na praia que sobrou de mais um Verão, usar de um modo ponderado veículos e materiais poluentes, e claro, respeitar aqueles que connosco "são os mestres instantâneos de uma fracção de um ponto."
Afinal de contas, neste deslizar constante do qual tanto tiramos, dar um pouco de volta tornará a viagem bem mais agradável. Em qualquer oceano, neste Ponto Pálido Azul.
Sem mais teorias.

A Gota D'Água, publicado na SURFPortugal nº178

Publicado por manuel castro em 02:25 PM | Comentários (3) | TrackBack