outubro 31, 2006

10 = 10

O recentemente coroado heptacampeão mundial não sabe ainda o que fazer do futuro, mas a Quiksilver já se mostrou disponível para o ajudar a tomar uma decisão. Essa preciosa ajuda consiste, nem mais nem menos, num bónus de 10 milhões de dólares caso Slater atinja a marca de 10 títulos mundiais. Até hoje, Slater leva 1,8 mihões de dólares em prize-money. Com esta tentadora proposta, os seus ganhos de carreira aumentariam mais de 500%.

Slater, que desistiu da participação na etapa do WCT a decorrer em Imbituba, ainda não sabe se quer continuar no Dream Tour: "o surf já não é aquilo que faz acordar de manhã", disse Slater em Mundaka ainda antes da consagração.

Quem defende a sua continuidade é Tom Carroll, o ex-campeão mundial ligado à Quiksilver: "se se considerar a forma como o Kelly pensa, temos de acreditar que ele tem os 10 títulos em mente. Basicamente, ele pode assegurar o seu futuro com os 10."

Para John Shimooka, director global do Team da marca, é certo que a associação entre a Quiksilver e Slater resultou em muito mais do que mero ganho financeiro. "Ele é parte integrante da matéria de que tem sido feita a nossa marca. A Quiksilver é o Kelly e o Kelly é a Quiksilver. Nós precisamos dele e ele precisa de nós e essa é uma grande parceria."

A Quiksilver agradece a Slater pelos feitos associados à marca mas espreita uma oportunidade que mais nenhuma marca no surf pode ambicionar para a próxima década. Se o incentivo será ou não bom para o atleta, e concomitantemente para a modalidade, apenas o futuro o dirá. Para já, aqueles que o quiserem ver em acção terão que se contentar com uma eventual aparição em terras brasileiras a tempo da Expression Session.

Publicado por vascomendonca em 01:38 PM | Comentários (8)

Tubo

“É pena que a maioria das pessoas passe pela vida sem nunca ter passado por dentro de um tubo”
video e texto sugeridos pelo Ricardo Marques - e o ondas já andava a precisar de ouvir o Bonnie Prince Billy.

Publicado por pedroadãoesilva em 11:24 AM | Comentários (3)

outubro 30, 2006

Pig


No meio de tantos journeymans que vão entrando (e saindo) no WCT, é bom ter uma notícia boa: a linhagem fabulosa volta à tour.

Publicado por manuel castro em 05:16 PM | Comentários (0)

outubro 27, 2006

Seis Estrelas?

é inaceitável que, hoje em dia, haja um QS de 6* sem webcast - só isso devia fazer com que o campeonato perdesse uma estrela. É que "ver" os heats do Saca através dos live scores só é comparável a ouvir os relatos do Benfica a jogar nas Antas na dácada de oitenta. A idade é que já é outra!

Publicado por pedroadãoesilva em 05:11 PM | Comentários (11)

outubro 24, 2006

Portugal Campeão do Mundo

Mais vale tarde do que nunca, lá diz o ditado. No caso pendente mais vale assinalar tarde o enorme feito do bodyboard português do que nunca o fazer. No último fim-de-semana em Huntington Beach, California, o bodyboard nacional conseguio uma das suas maiores conquistas de sempre. Manuel Centeno conquistou o título de Campeão do Mundo e Hugo Pinheiro o vice nos ISA World Surfing Games. A selecção nacional obteve assim um muito honroso sétimo lugar na classificação geral por nações. É uma extraordinária vitória, que embora não sendo inédita, Gonçalo Faria já o tinha conseguido em 1998, é ainda mais saborosa por ser num momento em que o bodyboard atravessa mais uma das suas ciclicas crises de reconhecimento. Para o Manuel Centeno e para o Hugo Pinheiro, bem como para todos os outros atletas nacionais que nas diversas modalidades representaram Portugal em Huntington, um grande aplauso e um muito obrigado.

Publicado por pedroarruda em 04:22 PM | Comentários (11)

outubro 23, 2006

Waves of joy

Words are flying out like
endless rain into a paper cup
They slither while they pass
They slip away across the universe
Pools of sorrow waves of joy
are drifting through my open mind
Possessing and caressing me

Jai guru deva om
Nothing's gonna change my world

Beatles/Across the Universe

(mais uma excelente foto surripiada daqui.)

Publicado por pedroadãoesilva em 11:13 AM | Comentários (3)

outubro 20, 2006

há momentos assim


Pópulo, costa sul da ilha de São Miguel - Açores. Outubro de 2006. Foto de Carlos Duarte

Há alturas assim, em que aquilo que de mais importante temos na vida nos escapa pelas frinchas do dia-a-dia, pela angustiante monotonia do tempo que se repete, quando estamos tão envolvidos pelas pequenas trivialidades da vida que esquecemos o que é mais importante para nós. Há alturas em que por melhores que sejam as previsões, por melhores que sejam as nossas capacidades de ler os mapas, deixamos que um swell nos passe ao lado. Há alturas em que, ou pelo stress do trabalho, ou pela distracção natural de quem se preocupa demasiado com as responsabilidades pusilânimes da vida adulta, nessas alturas as ondas fogem de nós e a única salvação é o acaso ou uma boa amizade. Este último fim-de-semana foi uma dessas alturas. Por cansaço, ou por desespero, não consegui ler os mapas como devia, nem acompanhar as nuances do vento e do mar, e estava convencido que não haveria ondas em nenhuma parte da ilha. Felizmente o acaso e uma voz amiga alertaram-me a tempo de poder estar na água com sets como esse que se vê aí na foto em cima. Quem conhece a costa sul da ilha de São Miguel de certo perceberá a espectacularidade desta foto e o que ela prenuncia uns vinte metros mais ao lado. Para quem não conhece apenas posso dizer que quando o que se vê nesta foto acontece significa que uns poucos metros mais para a direita de quem vê esta foto estarão uns quantos surfistas da ilha, que ou estão atentos ou têm amigos, e que sorriem incontrolavelmente com a realidade de uns drops muito verticais e longos e umas esquerdas bem compridas. Em linguagem local "até ao Barracuda". Por vezes há fins-de-semana assim.

Publicado por pedroarruda em 01:40 AM | Comentários (7)

outubro 19, 2006

Rough sex

Acontece-me todos os dias olhar para o mar através de uma webcam e, quase tantas vezes, ao verificar as condições e constatar a impossibilidade de surfar, pensar em qualquer coisa minimamente merecedora de um post, como se houvesse sempre um pensamento por fixar. Não há. Muitas vezes, a única coisa que me ocorre registar é o vazio entre a minha relação com o mar e a relação que mantenho com as palavras. Nada de trágico, desde que registado em silêncio. Outras vezes, porém, em dias como o de hoje, em tudo adversos a este veraneante à condição, apetece-me escrever qualquer coisa mesmo não tendo dois pensamentos que se sucedam sob a forma de frase, quanto mais parágrafo. Apetece-me chamar nomes ao vento sul, rogar pragas aos humores marítimos, sonhar com um oceano um pouco mais piscina de ondas e menos léria poética de quadrante variável.

Publicado por vascomendonca em 07:41 PM | Comentários (9)

Fábio Fabuloso


O vento Sul não teima em deixar-nos e as perspectivas de surf para os próximos largos dias não são nada optimistas. O que só serve para termos ainda mais vontade de ver surf. As oportunidades são poucas – sinceramente não me recordo de nenhum filme de surf projectado em ecrã com dimensões decentes em Lisboa nos últimos anos. Mas, amanhã, sexta-feira, no âmbito da I Mostra de Cinema Brasileiro no Cinema São Jorge, às duas da tarde, vai ser projectado o Fábio Fabuloso, sobre o Fábio Gouveia (o melhor surfista brasileiro de todos os tempos?), que se recomenda vivamente e ainda para mais tem o dedo do Júlio na edição.
Amanhã, à hora de almoço, todos ao São Jorge. A entrada custa 2 euros e, repito, o filme vale bem a pena.

Publicado por pedroadãoesilva em 04:26 PM | Comentários (3)

outubro 16, 2006

Espírito competitivo

No “Broke down melody”, a certa altura, uma indolente voz-off diz que um dia um campeão do mundo virá dali. O “ali” é um qualquer lugar de ondas perfeitas, mas que teima em não produzir surfistas competitivos. A afirmação faz lembrar a eterna profecia de que uma selecção africana vai ser campeã do mundo de futebol. Como é sabido, passam os mundiais e – mais rodriguinho, menos rodriguinho – as equipas africanas, jogando como nunca, perdem como sempre. Têm o talento, mas não sabem competir. No surf não é diferente. Há certamente talento um pouco por todo o mundo, mas as condições para ser competitivo só existem em dois ou três sítios.
E as condições não têm necessariamente a ver com o mar: a Flórida, com ondas “mediterrâneas”, produziu o Kelly Slater, os gémeos Hobgood e os irmãos Cory e Shea Lopez. Aliás, se fossem as ondas a condicionar a qualidade dos surfistas, não haveria brasileiros no CT e os indonésios seriam uma superpotência.
Sendo assim, as razões explicativas devem ser outras. Duas hipóteses: uma relacionada com o contexto e as estruturas e outra com a vontade e o espírito.
O desporto de competição está mais desenvolvido nos EUA e na Austrália do que, por exemplo, em Portugal. O surf não é excepção. Nos países que dominam os rankings da ASP, há décadas que existem estruturas competitivas; campeonatos organizados a todos os níveis e uma sólida tradição de aprendizagem da modalidade. Entre nós, os campeonatos nacionais – pese embora as melhorias dos últimos anos – são tradicionalmente fracos; as escolas de surf só agora começam a dar os primeiros passos e os apoios disponíveis para quem queira profissionalizar-se são escassos. Já para não dizer que quem queira competir a sério, mesmo que tenha condições materiais, ou vai para fora cedo ou não passa da “cepa torta”.
Mas as estruturas não explicam tudo. A vontade e a mentalidade também contam, e muito. Desconheço qual é o número de alemães residentes em Portugal, mas suspeito que é reduzido. No entanto, dá-se o caso de duas das maiores esperanças do “surf luso” serem, pasme-se, alemãs: o Marlon Lipke e o Nicolau Von Rupp. São dois casos, mas quase que me atreveria a dizer que são estatisticamente significativos. Ora, ambos aprenderam a fazer surf em Portugal e começaram a competir entre nós, pelo que tiveram o mesmo contexto que todos os outros. Se tudo o resto é igual, onde é que deve ser procurada a explicação para o seu sucesso relativo?
O sociólogo alemão do século XIX, Max Weber, no seu livro “A ética protestante e o espírito do capitalismo” (Presença), quando tentou explicar a razão pela qual o capitalismo se implementava mais nuns países do que noutros (e o capitalismo é, no fundo, uma forma de competição), sublinhou o papel duma ética religiosa particular, associada ao protestantismo, para o desenvolvimento duma mentalidade mais propensa ao risco e à economia de mercado. Para Weber, em última análise, a diferença de atitude face à actividade económica encontrada entre os católicos e os protestantes “deve ser procurada nos traços de carácter intrínsecos e permanentes das duas confissões e não em condições sociais diferentes” (p.28). O desenvolvimento mais avançado do capitalismo na Europa do norte dependeria, assim, da confissão religiosa aí dominante, ao mesmo tempo que os atrasos do sul estariam ligados à desadequação do catolicismo às transformações económicas associadas à modernidade. No surf de competição não é muito diferente. Não basta existirem estruturas adequadas, é preciso ter também o espírito e a vontade certos.
É esse espírito que o Nicolau Von Rupp revela em entrevista publicada na última Surf Portugal. Contando a sua experiência havaiana – para onde foi sozinho, aos 15 anos –, a ideia que dá é que tenta evoluir à imagem dos melhores e que o seu termo de comparação não é o surf de Portugal, mas sim aquele que viu no Hawai e na Austrália. É a atitude correcta. Se se é surfista de competição, tem de se ter ambição e não temer a comparação com os melhores. Em Portugal, e não é apenas no surf, contentamo-nos frequentemente em ser o melhor da nossa rua, o melhor da nossa praia, o melhor da região e, por vezes, o melhor do País. É de facto mais confortável.
As nossas ondas podem não ser ideais, e claro que há falta de apoios e de estruturas, mas talvez com um pouco mais de vontade e menos lamúria, os próximos a mostrarem ambição para fazerem companhia ao Saca, não tivessem apelidos como Lipke, Von Rupp, Belime ou Guichard, mas, também, Santos, Costa ou Rodrigues. A questão é que provavelmente nada disto tem a ver com o surf, mas muito mais com a atitude genérica dos portugueses face ao risco e à competição.

publicado na Surf Portugal

Publicado por pedroadãoesilva em 03:12 PM | Comentários (26)

outubro 13, 2006

Sl8ter


A vitória deste ano terá sido menos emocionante do que a do ano passado. Hoje, não havia o “dark horse”, AI, a atormentar Slater. Irons, que no fim é quem Kelly mais teme, foi sempre uma ameaça um pouco distante (ainda assim temível, com um espírito competitivo e uma vontade exemplares, como que a mostrar que KS não é o único com verdadeiro “killer instinct” no tour – a forma como ontem reagiu à derrota é disso exemplo. AI não anda no circuito para fazer amiguinhos. Anda para ganhar e um circuito mundial é para isso que deve servir). E, verdade seja dita, desde a lesão na final de Bells e agravada no Tahiti, Slater não mais foi o surfista estratosférico que até aí havia sido. Se no ano passado, mesmo quando perdeu, o melhor heat do campeonato foi invariavelmente seu, este ano não foi assim. Por exemplo, Parko foi quem mostrou mais surf em muitas das etapas, o mesmo sendo válido para Taj e Fanning. No caso de Mundaka, o que ficará para a história será o heat impressionante de Parko/Fanning em Bakio. Mas no fim, Slater foi ganhando heat a heat, fazendo o que era necessário em cada momento (nomeadamente com um notável controlo do sistema de pontuações). Não por acaso, o seu pior resultado do ano é um 5º lugar no México, ainda convalescente. Porventura, o título este ano pareceu ser sempre seu e isso tornou-o aparentemente menos emocionante. Mas nem por isso menos merecido e impressionante.

Publicado por pedroadãoesilva em 05:13 PM | Comentários (10)

8


Kelly Slater

Publicado por pedroarruda em 04:29 PM | Comentários (3)

outubro 12, 2006

Razões

O surf é uma eterna possibilidade de fuga, nas complexas teias da sociedade moderna em que vivemos. Pode não ser sempre concretizável – já que nem sempre é possível ir surfar - mas está lá, como um escape num computador, a tecla da salvação nos momentos em que tudo parece perdido, nos meandros das vidas que, dizem, temos que ter para sermos considerados "normais", a lembrar-nos da possibilidade que, à falta de água e sal, nos conforta. Essa possibilidade pode também ser refinada e passar a ser uma escolha, onde a fuga é elevada a arte e nós passamos a definir o que é, ou não normal.

O desafio de mudar de vida, da quantidade para a qualidade, do smog para o glass, do trânsito das oito e quarenta e cinco para o crowd matinal, das incertezas quanto ao futuro para as certezas do dia a dia, não é fácil de tomar em mãos. É tudo uma questão de opções, umas bem mais simples que outras.
Das possibilidades do dia a dia, à escolha de uma vida melhor, há um elemento comum que vai dando vida e corpo a essa revolta latente. As ondas e o surf, quando voltamos à essência, ao lado de lá, ao drop suave com o sol pela frente e uma parede espelhada para reflectir a alma e despertar os sentidos, um lip que nos penteia o espírito e acaricia o espírito, um encontro extático que verdadeiramente interessa.

Mark Renton, o junkie de Edimburgo, retrato principal de uma geração perdida para a droga na Escócia Transpottiana de Danny Boyle, arrasa o conforto da vida material e consumista, dos gadgets sem significado, dos carros último modelo, das carreiras de sucesso e das interrogações domingueiras sobre quem somos, num manifesto que podia perfeitamente ser de surf. A ponte entre o smog e o glass atravessa-se, num caminho de dúvidas onde possibilidades e escolhas se cruzam, como um tubo translúcido com uma utopia à saída, onde se podem abrir portas da percepção para uma vida diferente.
E as razões para seguir em frente por esse caminho?
Não há razões.
É que, como diria Mark Renton, quem é que precisa de razões quando tem ondas?

A Gota D'Água, publicado na SURFPortugal nº161

Publicado por manuel castro em 12:23 PM | Comentários (6)

Pessoal!

Só para avisar que o red Bull Xplosion está ao vivo aqui, não percam - as condições em super tubos estão de gala!

Publicado por miguel bordalo em 10:19 AM | Comentários (0)

outubro 11, 2006

O tédio


Bobby Martinez atormentado pelos amores claustrofóbicos de Swann

E ao décimo dia, quase nada aconteceu. Três ondas do Parko, uma do Vítor Ribas, outra do Bobby Martinez, ainda uma do Whitaker e o Yuri Sodré a ser alvo do roubo do século face ao AI. Muito pouco. O campeonato funciona aos soluços, 6 heats e logo depois, nuns dias a maré, noutros o vento, noutras a ondulação impedem a sua continuação. É a etapa com o período de espera mais longo e já ganhou também o título da mais entediante do ano. E o problema é que vai ser sempre assim: Mundaka não tem consistência para oferecer 4 dias de ondas em 15 de espera. Quer dizer, pode até ter, mas a probabilidade que tal aconteça é baixa. E depois há Mundaka propriamente dita. É verdade, é linda de morrer. Mas não é menos verdade que os hotéis escasseiam, que os restaurantes não são abundantes e que pouco há para fazer. O resultado só pode ser um: os top 44 que vão ficando – a menos que sejam particularmente dados à contemplação – devem estar a aborrecer-se de morte ou, em alternativa, já vão no volume IV do Em Busca do Tempo Perdido.

adenda: como sempre, vale a pena ler sobre este e outros temas o Nick Carroll (que curiosamente já deixou Mundaka), "How do people pass time? Some play golf for sure. Some go to Bilbao and visit the Guggenheim, and drink red wine and eat tapas. Others wonder where the hell their careers are going. ")

Publicado por pedroadãoesilva em 09:56 AM | Comentários (10)

outubro 08, 2006

Billie de seu nome

Estava a ouvir um dos meus discos preferidos da Billie Holiday, Lady in Satin, a olhar para a minha prancha de surf. Devo confessar que não sou doido pelos arranjos do magistral Ray Ellis em Lady in Satin, não deixa de ser um grande trabalho, mas Ray Ellis errou no tempo, destoou a grande qualidade de Billie Holiday da altura, e desenhou um arranjo para uma Sarah Vaughan... talvez o contraste resulte no disco... sabem, na verdade eu gosto mais da voz de Billie Holiday nos últimos tempos, também sou fã da Billie Holiday afinada e a enfiar num sapato qualquer cantora que se lhe queira comparar em técnica, mas do que eu gosto mesmo é da Billie Holiday com a voz cicatrizada. Sou apaixonado pela voz dormente e ao mesmo tempo arranhada que canta nos últimos tempos da sua vida, sem no entanto perder o aveludado que sempre a caracterizou. Já ouviram “You’ve Changed” em Lady in Satin? Não haverá nada mais perfeito e mais fora do sítio, a voz dela mexe com tudo – deixo os meus olhos fechados, e tento adivinhar como é que mexeu a boca, como é que encheu o pulmão e se ao passar pelas suas cordas vocais, o ar que se transforma em vapor e se eleva aos céus, ao cair na chuva de inverno, vem de alguma forma benzida? É uma voz que ultrapassa a definição do Jazz e no fundo o define tão bem. You’ve Changed /that sparkle in your eyes is gone/your smile is just a careless yarn – a entrada que Billie Holiday na música “You’ve changed” é possivelmente a coisa mais bela que já ouvi, toda a dor todos os momentos por que passou transportados para uma música. É assim que todos aqueles que transmitem emoções através da arte têm sucesso. Billie Holiday captou todos os maus momentos da sua vida e transportou-os para uma música, para todas as músicas, porque tudo o que se passou na sua vida ficou marcado na sua voz. É por isso que quando ouço qualquer outra cantora não evito um bocejo, porque na inevitável comparação, nada tem tanto peso quando uma vida trespassada numa voz...

- E o quê? Mas que raio! - diz o resistente leitor, - o que é que isto tem a ver com o surf? - Bom... nada, imagino. Na verdade baptizei hoje a minha prancha, uma 6.1 velha que viu muito do meu surf evoluir em cima dela. Desde o primeiro momento em que a surfei que soube que não podia ter escolhido melhor. No fundo houve uma ligação, visto que uma das melhores ondas que fiz na minha vida foi a primeira vez que a dropei a minha prancha. Não me esqueço, foi na Ericeira, vim da Semente, uma cobertura de wax, uma remada forte até ao pico, sentei-me nela ainda instável, veio a onda, remei e foi alisando e deslizando até às rochas sem deixar que elas lhe tocassem. Olhei para a minha namorada, que estava na sentada nas rochas, riu-se para mim, e sabia que tinha escolhido bem, (já agora, a namorada também).

Agora passados uns anos só com uma prancha, vem uma nova, uma Ricardo Martins. Segunda-feira devo ser o orgulhoso dono de duas pranchas... aliás, há outra, mas essa já a emprestei e nem sei dela. Enfim, o fim-de-semana deve ser uma espécie de uma despedida... e assim baptizei-a, num ritual pagão, agora chama-se Billie, e nem sei o que é surfar sem ela... resta-me quando receber a outra de a baptizar de Holiday e começar a marcá-la, como marquei a Billie, o mais tarde possível.

Publicado por miguel bordalo em 03:10 AM | Comentários (2)

outubro 06, 2006

O calcanhar de Aquiles


Aquiles era filho de Peleu e da ninfa Tétis. Segundo a lenda Tétis tentou tornar o filho invencível mergulhando-o no rio Estige. No entanto, ao mergulha-lo, segurou-o por um dos calcanhares deixando esta parte do seu corpo vulnerável.
Durante o cerco de Tróia Aquiles recusa-se a lutar porque Agamenon lhe roubou Criseida a escrava que Aquiles ama. No entanto, após a morte do seu amigo Pátroclo, às mãos de Heitor, Aquiles decide-se a lutar para vingar a morte do amigo matando Heitor. Mas logo após a morte de Heitor, Apolo revela a Páris, filho do rei de Tróia, o segredo da vulnerabilidade de Aquiles e este atingi-o no calcanhar com uma seta envenenada.
Esta é, muito resumidamente, a história de Aquiles, e a origem da expressão do “calcanhar de Aquiles”.
Tudo isto para dizer que o meu tendão de Aquiles é neste momento o meu ponto fraco, rompeu e vou passar um inverno a surfar em seco. Não sei por onde andava Apolo nessa altura mas quando recuperar parece-me que temos umas contas a acertar.
Bons tubos para todos que eu vou fazer companhia à Rita, à Joana e à Teresinha e vou surfar na netcabo, há coisas fantásticas não há!HV

Publicado por HV em 09:23 PM | Comentários (15)

outubro 04, 2006

O melhor filme de surf do mundo

O Júlio toca no ponto quando diz que nós, surfistas, não passamos de crianças meio embasbacadas com o prazer pueril de percorrer as ondas. O trailer deste filme, que só estreia no próximo Verão, é exemplo perfeito do cruzamento entre dois mundos, que são quase indistintos – o do surf e o da infância. É-nos prometida uma “true story”, o que não podia ser mais verdade.

Publicado por pedroadãoesilva em 11:03 AM | Comentários (13)